Descobrindo o Tarot

fevereiro 7, 2010

O Futuro e o Tempo

Filed under: Diversos — Tags:, , — Leonardo Dias @ 1:50 AM

O que é exatamente tempo? Qual a realidade de nossa percepção do tempo? Será que o tempo realmente pode ser dividido em passado, presente e futuro? A forma que vemos o tempo pode ter um impacto na prática do Tarot maior do que parece. Ultimamente, tenho pensado muito sobre isso. Claro, eu não sou físico, e realmente entendo bem pouco de física para ser capaz de discorrer sobre o assunto com propriedade. Mesmo assim, tenho observado algumas coisas, e gostaria de expor aqui as ideias que tive até agora a esse respeito.

Quanto mais eu penso nessa questão do tempo, mais clara fica a ideia de que a maioria das pessoas passa vidas inteiras baseando sua visão do mundo em suposições elevadas ao status de verdades, e nas estruturas artificiais da linguagem, da mente, e dos sentidos. Com relação ao tempo, vivemos em termos de passado, presente e futuro. De acordo com nossa percepção e o senso comum (difícil saber quem dita quem), cada indivíduo atravessa sua própria existência como alguém que caminha por uma estrada, deixando um rastro de acontecimentos vividos e percebidos atrás de si, enquanto contempla uma estrada enevoada e não trilhada à sua frente. Somos incapazes de saber aonde essa estrada vai dar, e a direção a ser tomada está sujeita a uma coisa vaga que chamamos de livre-arbítrio – que todo mundo adora exaltar, mas poucos sabem o que é exatamente ou sequer se existe mesmo. Entre as duas direções da estrada está essa região inconstante, imutavelmente mutável, o espaço entre cada um de nossos passos, que une o passado e o futuro como elos – o presente. Bem, a própria imagem que eu acabei de construir, que coloca o passado atrás e o futuro à frente, não passa de uma convenção, parte da estrutura da nossa língua – ou seja, não é absoluta. Há outras línguas que invertem as posições, colocando o futuro desconhecido nas nossas costas, e o passado familiar à nossa frente – visto, conhecido. Ainda assim, é por meio de metáforas topográficas como essa que acessamos e expressamos a nossa percepção da passagem do tempo, e lidamos tanto com as memórias do que se passou, quanto com as expectativas do que está por vir.

Toda a importância que damos ao futuro vem dessa noção de tempo que temos. É natural que fiquemos curiosos a respeito do futuro, já que, de acordo com essa visão, ele é algo que “está lá”, mas que ainda não chegou, e que poder vir a ser qualquer coisa. Frequentemente, direcionamos nossas dúvidas ao futuro – “será que eu vou me casar?” “Será que eu passarei nesse exame?”, “Esse negócio novo vai dar certo?”O futuro e o desconhecido são irmãos, e o desconhecido é uma das coisas que mais despertam nossa atenção. Se existe, lá na frente, um presente que ainda não chegou, natural querermos saber como ele vai ser. Ademais, se o tempo é um processo contínuo de começo, meio e fim, onde momentos sucedem uns aos outros como em um filme, é o final que vai dar o termo. Como num filme, o final de cada questão é o que irá defini-la, encerrá-la, dar-lhe uma resposta final. Assim, o futuro recebe a função de guardião das respostas para nossas questões, e das resoluções para os nossos problemas. Um dos dons mais preciosos e terríveis do ser humano é reconhecer sua finitude, e o fim está sempre no futuro – é ele quem define.

Ao que me parece, nossa curiosidade sobre o futuro tem a ver com nossas apreensões sobre a realização dos nossos desejos. Olhamos para o futuro por esperar encontrar, ali, as respostas às nossas inquietações. Com essa atitude, acabamos jogando tais respostas no futuro, delegando a ele – um tempo que virtualmente não existe – a responsabilidade de fornecer soluções aos nossos dilemas. Tal atitude é o mesmo que colocar as chaves para resolvermos nossos problemas num lugar inacessível ao nosso alcance imediato. Fazendo isso, estamos realmente ocultando-as. A resposta, a solução, a verdade (coisas cuja revelação costumamos atribuir ao Tarot) são dessa forma inseridas no reino do desconhecido. Então, parte do trabalho de alguém que se propõe a ler as cartas torna-se tentar decifrar sua mensagem em relação ao futuro, encontrar as respostas que foram jogadas lá. Não sei até que ponto isso é útil – não sei se é essa a melhor forma de lidarmos com nossos impasses. Jogar Tarot é uma atividade que pode ir além dessa performance mágica de adivinhação e previsão; o Tarot pode ser usado para algo mais construtivo do que simplesmente mostrar que você é um sensitivo poderoso. O que eu tenho notado cada vez mais é que a resposta não está necessariamente no futuro, simplesmente porque ela não é como um objeto que tem uma existência física em um lugar determinado. Uma resposta a um questionamento é mais como um processo, ou parte de um processo. Podemos encontrar respostas em vários lugares diferentes, porque a resposta está no olhar, e não onde olhamos.

Tanto a postura de inquietar-se sobre o porvir quanto a tentativa de prevê-lo baseiam-se em uma perspectiva linear do tempo, que coloca o passado antes do presente, e o futuro depois. No entanto, essa perspectiva pode ser apenas a forma que nossa mente desenvolveu para situar nossa consciência no nosso existir, definir seu espaço-tempo de existência e atuação. Uma pergunta bem simples – o que define o “aqui”, e o que define o “lá”? Em outras palavras, qual é a nossa referência de espaço? O que faz com que um ponto no espaço seja considerado “aqui”, ou “lá”? Assim como “aqui” e “lá” definem-se do ponto de vista do eu que fala, também “agora” e “antes” estão presos a esse ponto de referência que é o eu. Tais palavras não têm sentido definido senão quando vinculadas a um contexto, e a um ponto de referência. O que nossa forma de acessar o espaço tem em comum com nossa forma de perceber o tempo é que ambas centralizam-se no sujeito. Fora da nossa consciência, do nosso ego, não existe nada como “aqui” ou “ali”, como não existe um “passado” ou um “futuro”; todos os espaços são aquis, e todos os momentos são agoras. Somos nós que demarcamos tais distinções. E aqui vai um fato importante – a ação mais primitiva do ego (a consciência, a mente) é a divisão do mundo em duas partes opostas e complementares. A divisão primordial, que é a base de todas as outras, é a distinção entre o eu e o mundo. No momento em que se cria a consciência do eu, cria-se o agora, e o aqui.

Se o passado e o futuro são ilusões – māyā – tudo o que nos resta é o presente. Tanto o passado como o futuro não estão ao nosso alcance, pois são memórias e expectativas; o presente, por outro lado, está em nossas mãos (ainda que talvez não nos demos conta disso, como os dois indivíduos rodando na Roda da Fortuna). O presente é essa região mutável sob nossos pés, o espaço entre cada um dos passos; ele é desconhecido por estar no nosso nariz, indefinido – curinga, como o Louco. Também como o Louco – o número Zero – o presente é essa eterna folha em branco, de onde qualquer coisa pode sair. Nós costumamos ver o futuro como o novo, o guardião das surpresas, quando realmente é o presente que nos reserva qualquer coisa; é no presente que estamos, e é no presente que sempre estaremos. O presente é o nosso aqui, é o único lugar onde a mudança legítima acontece; realmente, ele é o foco da mudança. E é também o presente o lugar para onde devemos direcionar nosso foco.

Por isso, acredito que podemos fazer um melhor uso do Tarot usando-o como meio de observar e compreender o presente, nosso estado atual. A partir do momento em que adquirimos uma compreensão mais ampla do presente, somos capazes de agir mais conscientemente em direção aos nossos objetivos. Assim, o Tarot pode ser usado não como um instrumento para se obterem prognósticos, situação onde o consulente assume a posição passiva de vítima do tempo e das circunstâncias (mais uma vez, a imagem das figuras presas à Roda da Fortuna); mais que isso, o Tarot pode ser usado para efetivamente dar o poder ao consulente de ser senhor do seu tempo – ele não é mais paciente, mas agente de sua própria vida. Existe uma frase muito usada que diz que a solução para o problema está no próprio problema. Da mesma forma, o presente não guarda somente os obstáculos e dificuldades, mas também as respostas e o potencial de crescimento. É comum vermos dificuldades e soluções, obstáculo e progresso, como opostos, quando, na verdade, ambos são as duas faces de uma mesma moeda. As respostas não estão em nenhum futuro nebuloso que nunca vai chegar, simplesmente porque o futuro é uma ilusão; as respostas estão no presente.

Em suma, minha ideia é que a visão do tempo como um eterno fluir saindo do passado e indo em direção ao futuro endossa uma atitude de projeção de desejos e soluções para um tempo vindouro, que ainda não existe, mas que virá a existir um dia. A resposta é colocada no futuro, que é visto como o termo de um questionamento. Tal atitude resulta em duas coisas – nos faz assumir um papel passivo em relação a nossa própria vida, e nos tira o foco do presente, ou seja, do que realmente existe, para um futuro incerto, nebuloso, e que, no final das contas, só existe na nossa cabeça. O presente é o que de fato temos; conhecê-lo melhor confere-nos uma maior compreensão não somente do nosso estado atual, como também de nós mesmos, nossas motivações – e mesmo da própria validade de tais motivações. Examinar nosso presente nos dá o poder de transformá-lo. O Tarot pode ajudar-nos nisso. Na minha opinião, é uma forma de usar esse sistema simbólico bem mais de acordo com a mentalidade contemporânea.


Referências

Site do artista galego Alfredo Pirucha, de onde eu tirei a imagem para esse post – http://www.pirucha.net/galego.htm. A imagem, um trabalho de colagem e fotocópia entitulado “Passado, presente e futuro”, tem em um dos retângulos negros (os tempos?) uma imagem semelhante ao esqueleto da morte – o futuro como aquele que dá o termo, e o futuro comum de todos nós, que é o nosso fim.

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10 Comentários »

  1. […] O Futuro e o Tempo […]

    Pingback por Índice de Posts « Descobrindo o Tarot — fevereiro 7, 2010 @ 5:05 PM

  2. Amei seu texto e concordo plenamente.As pessoas meio que jogam a responsabilidade da sua vida para o tempo,e ai nos procuram como quem vai a partir da resposta, pular de alegria ou colocar o rabo entre as pernas, quando na verdade poderiam pesquisar o que fazer no presente, para garantir um futuro alem de expectativas ou possibilidades.
    Parabens e boa semana!

    Comentário por Flávio Augusto — fevereiro 9, 2010 @ 9:04 PM

    • Sim, isso mesmo. Muita gente quer o fácil, o atalho, e busca em qualquer lugar por isso – inclusive no Tarot. Mais profundamente, todos nós estamos presos a essa concepção, como na Roda da Fortuna. Acredito que a libertação venha de dentro.

      Comentário por Leonardo Dias — fevereiro 9, 2010 @ 10:05 PM

  3. […] No Descobrindo o Tarot […]

    Pingback por O Futuro e o Tempo – Léo Dias « Tarosfera — abril 14, 2010 @ 12:36 AM

  4. Léo,

    namorava este texto seu há algum tempo… Resumindo, está em sumário no Tarosfera! :)

    Abraços do Ari.

    Comentário por Arierom — abril 14, 2010 @ 12:41 AM

    • Haha, beleza, Ari. To preparando um material novo ae, logo logo aparece mais coisa, rs.

      Comentário por Leonardo Dias — abril 14, 2010 @ 1:40 AM

  5. […] assim, fica mesmo fácil confundir o valor das duas posições. Já discutimos isso no post sobre o futuro e o tempo. De qualquer forma, no caso particular da posição 6 da Cruz Celta, o futuro aparece simplesmente […]

    Pingback por ANALISANDO UM DILEMA NA CRUZ CELTA « Descobrindo o Tarot — julho 23, 2010 @ 4:55 AM

  6. […] de que o professor Adhemar expôs o tempo de maneira exatamente oposta à que eu apresentei no meu primeiro post sobre o assunto. O que ele diz é que, assim como todo o cosmo, o tempo foi criado de uma vez só; tudo já existe, […]

    Pingback por MAIS SOBRE O FUTURO E O TEMPO « Descobrindo o Tarot — agosto 9, 2010 @ 4:49 AM

  7. Olá! Obrigado por ter usado a minha imagem!

    Comentário por A. Pirucha — janeiro 15, 2011 @ 8:47 AM

    • Oi, Alfredo!

      Obrigado a você, por participar do blog!

      E parabéns pelo seu trabalho, que apreciei bastante!

      Comentário por Leonardo Dias — janeiro 15, 2011 @ 9:03 AM


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