Antes de qualquer coisa, o cara tá dançando! É um malabarista. Foi durante uma conversa que eu percebi, pela primeira vez, esse aspecto tão primário da imagem do Dois de Pentáculos. Sim, um Tarot a cada dia, muitos tarot’s em um mesmo baralho.
Vamos começar pelo começo, mergulhando no universo de significados do Dois de Pentáculos através de seu gancho natural – sua imagem. A figura a que ela remete é bastante significativa – o artista mambembe, popular. Pamela Smith, a artista inglesa que compôs as imagens do baralho Rider-Waite-Smith em 1909, era bastante envolvida com o teatro, profissional e pessoalmente. Podemos ver traços desse seu envolvimento profundo ao longo de toda a coleção de imagens do RWS. O uso de referências teatrais era natural para Pamela – faz parte do seu “vernáculo pictórico”, digamos.
Como podemos ver, Pamela recorreu mais uma vez a esse seu vernáculo para dar forma e cor à ideia da mudança, conceito-raiz do Dois de Pentáculos. “Mudança” é uma palavra muito usada atualmente – tanto que seu significado ficou meio gasto, soa lugar-comum. No entanto, o Dois de Pentáculos não ilustra a mudança como uma simples alteração de um estado para o outro, mas, indo além dessa percepção rasa, retrata a mudança como estado fixo de constante alteração e impermanência, tipificado justamente pelo processo contínuo de fluxo e troca entre os estados. O lemniscata (a forma de 8, símbolo do infinito) unindo os dois discos à guisa de corda é um elemento simbólico importante da imagem do Dois de Pentáculos, que marca justamente essa ideia de eternidade. Sem começo nem fim, esse estado de mudança é simplesmente como as coisas são. A mensagem mais primária do Dois de Pentáculos é a de que a constante permutabilidade de estados é a condição ultérrima da realidade. O estado de total permanência na unicidade e ininterrupto gozo estático é típico do Plano das Causas. Aqui, no Plano dos Efeitos, reina a multiplicidade, e tudo muda constantemente.
A presença do lemniscata ressalta uma ideia importante a respeito da mudança, de que também trata diretamente o Dois de Pentáculos. Considerando que mudança define-se por alteração, e alteração calca-se em diferença, temos então que o eterno estado de mudança do universo baseia-se na constante permutação dos opostos. Essa ideia é bem expressa nos dois discos do “Dois de Moedas”, cara & e coroa – yin e yang. Com efeito, é assim que vemos retratado na versão do Crowley-Harris-Thoth para essa carta. Assim como a música consiste de permutações organizadas de silêncio e som, e a dança na troca constante entre movimento e estaticidade, o personagem do Dois de Pentáculos existe e é, simplesmente é.
É interessante notar como que, ao escolher um dançarino performático para retratar esse estado, Pamela cria um irresistível paralelo entre a figura do Dois de Pentáculos e as imagens orientais de Shiva Nataraja, o aspecto do deus hindu Shiva como o rei da dança, retrato do eterno movimento do cosmo. Conexões interessantíssimas começam a surgir quando notamos que o arcano 21, O Mundo, porta essa mesmas ideias em sua imagem – uma figura dançarina cercada por uma guirlanda, bastante similar a Nataraja. É mais interessante notar ainda que o deus Shiva, na trimurti (a trindade hindu) corresponde no esoterismo justamente ao Plano dos Efeitos, o seio da Manifestação – nossa realidade. E, para te deixar mais doido ainda, vale lembrar que, no sistema da Golden Dawn, o Dois de Pentáculos corresponde ao terceiro decanato de Capricórnio, regido por Júpiter – Júpiter em Capricórnio, portanto. Júpiter corresponde à Roda da Fortuna (mais uma vez, mudança constante), e Capricórnio (O Diabo) está naturalmente ligado ao Mundo, já que o arcano 21 corresponde a Saturno, planeta regente desse signo. Sua cabeça deve estar rodando; um círculo é traçado e se fecha – ou um lemniscata, talvez; é justamente essa a beleza do sistema GD.
Se, pictoricamente, a versão do RWS para o Dois de Pentáculos parece dar fiel continuidade à proposta de interpretação que atribui a essa carta o valor primordial da mudança, no que tange aos significados, Waite parece ter decidido permanecer um pouco menos profundo, digamos. Para os significados do Dois de Pentáculos, o autor recorre a um resumo das ideias que se voltam para o lado mais adivinhatório das cartas. “(…) Felicidade, recreação (…) mensagens, agitação e complicações”, é o que ele diz no Pictorial Key. Os dois últimos significados claramente foram tirados de Etteilla, que atribui a essa carta toda a sorte de coisas relacionadas a problemas, inquietações e obstáculos. Interessantemente, a imagem comporta essas três nuances de significado (a. alegria e divertimento; b. mensagens e notícias; c. complicações e agitação) com suficiente flexibilidade. As embarcações, ao fundo, enfrentando um mar nada pacífico e, aparentemente, seguindo bem o fluxo, podem ser lidas tanto como versatilidade ante os altos e baixos da vida, quanto como um indicativo mais literal de notícias, viajens, mobilidade e mesmo comércio, permutas.
Pertencendo a um naipe relacionado principalmente a questões materiais e de ordem cotidiana, o Dois de Pentáculos tem toda a sua força ágil e móvel aplicada principalmente nessa área. É uma carta que fala bastante sobre trocas, movimentações de qualquer espécie, viagens, mudanças. O Dois de Pentáculos fala da constante alteração do valor, e de como tudo depende de tudo.
Em leituras, eu costumo ver o Dois de Pentáculos mais nas seguintes linhas –
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Mudanças – mobilidade, outros lugares, viagens, deslocamentos;
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Comércio – troca, vendas, transações;
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Interação – relações de troca, contatos, conhecer pessoas;
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Flexibilidade – lidar com as coisas com leveza, versatilidade, saber contornar os problemas, ser rápido no gatilho e ter jogo de cintura, ter traquejo;
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Agilidade – rapidez, graça, mobilidade, esperteza;
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Multitasking – as pequenas tarefas do dia-a-dia.
Compare a imagem do Dois de Pentáculos com a imagem de outro Dois, o de Espadas. Duas formas de se lidar com os opostos – a total mobilidade dos Pentáculos versus a estrita imobilidade equilibradora das Espadas. É legal salientar a recorrente similaridade de teor entre cartas de mesmo número dos naipes de Bastões e Espadas, e dos naipes de Copas e Pentáculos. Os Dois são um bom exemplo: temos interação e movimento nos Dois de Copas e Pentáculos, e estaticidade e controle (interno, no caso das Espadas, externo, nos Bastões) nos outros dois naipes.
Compare o Dois de Pentáculos também à Temperança. E, de certa forma, também ao arcano 0, O Louco.































Hoje falaremos de mais uma carta do naipe de Ouros, o Seis de Ouros.
No livro Book T, MacGregor Mathers (um dos precursores da conceitualização moderna do Tarot) atribuiu cada uma das cartas numeradas dos Arcanos Menores (ou seja, todos os arcanos menores, com exceção dos ases e das figuras da corte) a um dos 36 decanatos astrológicos. Cada um dos 12 signos do Zodíaco equivale a trinta graus dos 360 da roda zodiacal. Os trinta graus referentes a cada signo são então divididos em três partes de dez graus cada, originando assim três decanatos para cada signo, num total de 36. De acordo com Mathers, o Seis de Ouros está associado ao segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua – temos então a combinação Lua em Touro, que sugere fertilidade – a combinação da fluência da lua com o Touro, símbolo antigo de fertilidade. A relação simbólica do touro/vaca com a lua é antiga e bastante significativa. Talvez pelo formato de seu chifre, a vaca e o touro foram associados à Lua desde há muito tempo, principalmente nas culturas indo-européias. Os chifres são associados à lua e, portanto ao ciclo menstrual, o que sugere fertilidade. Em algumas culturas, O touro também é associado ao Sol, incorporando seu aspecto masculino e viril; mais uma vez, temos a temática da fertilidade.
Um dos exemplos da profunda significância do simbolismo da vaca e do touro é a deusa egípcia Hathor, divindade associada à feminilidade, ao amor e ao prazer. Hathor era comumente retratada como uma mulher ou uma vaca carregando em sua cabeça o disco solar suportado por um par de chifres. O par de chifres pode ser visto como o crescente lunar, tendo o disco solar acima dele. Simbologicamente, o círculo é associado ao sol, e o semi-círculo (crescente lunar) à lua e ao feminino. Recorrente na simbologia egípcia, esse símbolo pode ser interpretado como a união do masculino (sol) com o feminino (chifres), que o envolve; nesse sentido, ele pode ser comparado ao T’ai Chi T’u, o símbolo do yin-yang chinês, que representa a constante mistura e alternância dos princípios duais. Ademais, um dos aspectos de Hathor (a Vaca Celestial) era sua identificação com Nut, a deusa-mãe céu, personificação da própria abóbada celeste, que “recebe” o sol em seu seio – como os chifres recebendo o disco solar. Da união fértil dos opostos surge o mundo, e a eterna interação entre os dois princípios é a fonte da energia universal. Como veremos mais adiante, a temática da união ecoa no próprio número do Seis de Ouros, que está numerologicamente ligado aos Enamorados, o grande Seis do Tarot, símbolo máximo da união dos opostos e da força de atração/interação.

Seis de Ouros
Três de Paus –
Seis de Paus – Quatro de Paus – 

