Descobrindo o Tarot

setembro 1, 2009

As Figuras da Corte

Filed under: Uncategorized — Tags:, — Leonardo Dias @ 2:33 AM

Figuras da Corte

As Figuras da Corte são talvez as cartas menos compreendidas do Tarot. Sua presença em uma leitura sempre dá espaço para confusão, especialmente para quem está começando, e mesmo para aqueles que já têm alguma experiência com as cartas.

Seguindo a tendência do Tarot como um todo, a maneira de interpretar as figuras da corte foi se modificando através do tempo, conforme as mudanças que a nossa mentalidade foi sofrendo. Assim, tais cartas passaram de representações de estereótipos físicos a indicadoras de traços de personalidade e disposições psicológicas. Foi talvez nelas que a influência da psicologia moderna sobre o Tarot fez-se mais presente – o estabelecimento de associações entre as figuras da corte e a teoria das quatro funções da psique, de Jung, por exemplo.

Eu pessoalmente prefiro deixar de lado as associações de características físicas às figuras da corte. Em leituras, não levo em consideração traços físicos, ou mesmo o gênero (rainhas = mulheres; reis = homens maduros, cavaleiros = rapazes) das figuras. Realmente, é muito mais comum eu interpretá-las como disposições psicológicas (uma Rainha de Copas poderia indicar sensibilidade; um Cavaleiro de Paus, senso de aventura e auto-afirmação), ou mesmo como acontecimentos. O que a gente tem que manter claro é que, mesmo representando acontecimentos, as figuras da corte essencialmente representam a parte pessoal do Tarot. Eu gosto de pensar nelas como os personagens das histórias contadas pelos Arcanos Maiores (os temas e conceitos-chave) e pelos Arcanos Menores (as situações e os acontecimentos).

Seguindo a corrente mais moderna de abordagem dessas cartas, uma forma de vermos as Figuras da Corte seria como estágios do desenvolvimento psicológico e pessoal das pessoas em um determinado campo ou questão. Mais abaixo, tentarei sumarizar essa minha ideia.

A ideia é enxergar o ranking das figuras da corte da mesma forma que a gente vê a escala de desenvolvimento das idades das pessoas. Dessa forma –

Os Valetes representariam a infância, com sua imaturidade e inocência, mas sua energia vibrante e entusiasmo, amor pela vida;

Os Cavaleiros seriam a adolescência, com seu inconformismo meio cego, suas paixões e precipitações, e seu desejo incontrolável de explorar. O amor inocente pela vida dos valetes se transformou no desejo de abraçar o mundo com as pernas dos cavaleiros;

As Rainhas seriam então a idade adulta, com experiência e sensibilidade. As rainhas também representam a maternidade, e a capacidade de gerar e cuidar de filhos;

Por fim, os Reis seriam a maturidade, a idade onde começamos a transcender muitas das questões contra as quais passamos a vida toda debatendo.

ASSOCIAÇÕES ELEMENTAIS

Entre o final do século XIX e o começo do século XX, acredito, no pleno fluxo do movimento de “renascimento” do Tarot e do Ocultismo geral, cada nível das figuras da corte foi atribuído um elemento. Tais atribuições são muito úteis no aprendizado do conceito dessas cartas. As atribuições podem variar, mas geralmente são–

Valetes – Terra

Cavaleiros – Fogo

Rainhas – Água

Reis – Ar

Através de tais associações, podemos fazer algumas considerações que podem nos ajudar bastante na compreensão da corte do Tarot.

Os valetes, associados ao elemento Terra, automaticamente se ligam à função psíquica da sensação – a percepção consciente através dos órgãos dos sentidos, e dos estímulos físicos. Essas figuras da corte estão sempre em contato direto, livre de abstrações, com o mundo ao seu redor. Para eles, seus sentimentos, fantasias e pensamentos se confundem com o mundo – não existe diferença entre um em outro, daí a inocência geralmente a elas atribuída. Os valetes levam as coisas ao pé da letra. Seus desejos, vontades e impulsos são experimentados fisicamente.

Seguindo a lógica, os cavaleiros seriam associados à função psíquica da intuição, e ao elemento Fogo. Poderíamos definir a intuição, na forma como Jung usou a palavra, como as ideias, inspirações e criações que não se originam diretamente da atividade mental, nem dos estímulos físicos. São aqueles sentimentos arrebatadores que se manifestam espontaneamente em nós. Da mesma forma, os cavaleiros perseguem seus ideais e desejos sem saber direito por que ou como – eles simplesmente sabem que têm que correr atrás de algo. Os cavaleiros nunca param, eles sempre estão em busca de uma satisfação que, mal sabem eles, não será encontrada no mundo exterior. Eles são criativos, transbordando de inspiração e crença.

É nas rainhas que essa busca pela satisfação exterior cessa. Associadas ao elemento Água e à função psíquica do sentimento, as rainhas simbolizam um processo de internalização. A função psíquica do sentimento pode ser definida essencialmente como a interpretação das coisas tendo como base o quanto elas são agradáveis ou desagradáveis. É o que as pessoas mais sentimentais tendem a fazer. As rainhas escutam seus sentimentos, e seu coração – mais do que seu corpo, como os valetes, ou seus desejos, como os cavaleiros. É senso comum que, como na Idade Média, as rainhas sirvam como mediadoras na corte do Tarot. Elas são a manifestação do feminino. Os valetes, apesar de retratados como entidades masculinas, são assexuados, como as crianças; já os cavaleiros são a primeira manifestação do masculino, da potencia fecundadora. As rainhas, assim, seriam o receptáculo dessa força.

Finalmente, os reis. Associados ao elemento Ar, naturalmente podemos atribuir-lhes a função psíquica do pensamentoa capacidade de racionalizar, de analisar as coisas racionalmente. A faculdade do pensamento pode definir-se pela habilidade de combinar ideias, imagens mentais, e assim formar pensamentos e abstrações. A palavra “pensar” tem origem comum com a palavra “pesar”. Ambas vêm da palavra latina para “suspender”, “pendurar”, em uma relação direta com a suspensão dos dois pratos da balança, onde pesamos os conceitos. Similarmente, o pensamento combina os opostos, com o objetivo de encontrar um meio-termo. Essa era, afinal, a função dos reis – a de juízes, definidores da verdade, e criadores da justiça. Mais do que todas as outras figuras, os reis vivem completamente imersos nas abstrações. Sua relação com a realidade é oposta à dos valetes – ela é inteiramente calcada em concepções e valores. Podemos perceber isso claramente comparando, por exemplo, o valete e o rei do naipe de Copas do baralho Waite-Smith –

Valete e Rei de Copas

Observe como o valete segura o cálice e parece conversar com o peixe que sai de dentro dele. Em contrapartida, o rei tem o cálice vazio, apenas representativo, e o peixe é o pingente de seu colar – não um peixe real, mas um simulacro; apesar de estar no meio do mar, seus pés estão firmes no chão de seu trono.

Essa última parte do texto sugeriu a existência de uma espécie de progressão existente dos valetes aos reis – da experiência básica à completa abstração da realidade. Nos posts seguintes, vamos explorar mais a fundo esse simbolismo, e sua associação com o tetragrammaton, a palavra sagrada. Vou escrever também posts especiais sobre o conceito dos quatro elementos, conhecimento básico para a compreensão da lógica existente por trás do Tarot.


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1 Comentário »

  1. […] As Figuras da Corte […]

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