Descobrindo o Tarot

outubro 20, 2009

Disposição em Cruz/Péladan

Filed under: Disposições — Tags:, , — Leonardo Dias @ 1:54 AM

Essa tiragem, aparentemente mais popular no Brasil do que no mundo anglo-falante, foi uma das primeiras que aprendi, e uso até hoje. Sua versão inicial foi concebida por Joséphin Péladan, romancista e ocultista relativamente famoso do final do século 19, contemporâneo de Papus e um dos envolvidos na reconstrução da Ordem Rosacruciana na França. A tiragem que eu geralmente uso distancia-se um pouco da original de Péladan, e baseia-se em uma tiragem chamada “A cruz ou a pergunta”, incluída no livro ABC do Tarot, de Colette H. Silvestre (1987, Ed. Círculo do Livro, edição de 1998). É bem provável que a tiragem do livro de Silvestre esteja relacionada à de Péladan. Realmente, existem várias versões dessa disposição, e uma busca rápida online poderá mostrar suas diversas formas. Seu escopo, no entanto, permanece o mesmo – obter esclarecimentos sucintos e uma resposta rápida a perguntas simples, com prognósticos de curta-média duração.

Ambos os métodos consistem em quatro cartas, arranjadas em cruz, com uma quinta carta no meio, obtida através da soma numérica das quatro cartas, pela redução teosófica. A seguir, uma descrição das duas formas da tiragem.

Diagrama de esquema de tiragem Péladan - Cruz

MÉTODO I – O meu

Baseando-me na disposição exposta no livro de Silvestre, ao longo do tempo fui desenvolvendo a minha própria forma de fazer essa tiragem.

Posição 1 – de acordo com Silvestre, “a primeira lâmina representa o consulente diante de sua pergunta”. É essencialmente a posição do consulente, elemento costumeiro nas tiragens. Eu a interpreto como indicativa de suas atitudes e posturas perante a situação onde ele se insere, ou como indicativa de alguma qualidade ou característica sua que tem papel proeminente na situação.

Posição 2 – tradicionalmente, a segunda posição ajuda ou contraria a carta da primeira. Eu levo sua interpretação um pouco mais adiante, abordando-a como o momento ou o ambiente no qual o consulente está inserido. De certa forma, ela ainda endossa ou opõe-se à atividade do indivíduo, mas no sentido de ser uma resposta do momento ou do ambiente a ela. Costumo ver as duas primeiras posições como as duas primeiras cartas da Cruz Celta.

Posição 3 – eu vejo a posição 3 como a “rainha” da jogada. Como o anjo na carta dos Enamorados, ela é o poder que paira sobre o mundo horizontal das duas cartas anteriores, a força maior que rege a situação. Em certo sentido, ela resolve a dicotomia das duas cartas anteriores. Sendo assim, uma afinidade de sentido ou elemento poderá indicar o lado de quem ela fica. Eu também costumo interpretar essa posição como o conselho.

Posição 4 – fechando a tiragem, a posição 4 basicamente vai dar a resposta à pergunta feita, à luz do que foi esclarecido pelas três cartas anteriores. Às vezes, aparece na posição 4 uma carta desfavorável fechando uma sequência de três cartas muito favoráveis à questão. Eu interpreto isso como um sinal de que o desfecho será favorável ao consulente, mas custará a chegar; ou então que não será exatamente como o consulente deseja, sendo contudo bom para ele, no estilo “uma porta se fecha mas uma janela se abre”.

A quinta carta é definida pela soma das quatro cartas. Constituída pelas quatro cartas, a soma é literalmente a quintessência da tiragem, a representação do todo que elas formam. A quinta carta é a força que está no background da situação, o denominador comum entre as quatro cartas.

Para obter a quintessência, pega-se o valor bruto da soma e somam-se seus algarismos entre si, até que reste um número entre 1 e 22. Esse processo chama-se redução teosófica. O resultado evocará, por paralelo numérico, um dos 22 Arcanos Maiores. Por exemplo, se a soma der 47, a conta a ser feita será:

47 = 4+7 = 11 – A Força

Em numerologia, representamos essa decomposição de um número com uma barra (/), da seguinte forma – 47/11. O número 22 é somente nesse caso atribuído ao Louco, normalmente visto como a carta 0 ou sem número. Figuras da Corte não têm valor numérico e Ases valem 1. Algumas pessoas, entretanto, atribuem valores numéricos às figuras, incluindo-as na soma. Pessoalmente, não acho isso necessário, mas é uma escolha particular.

MÉTODO II – Péladan

O método de Péladan diferencia-se ligeiramente do que eu sempre usei. Eu nunca simpatizei muito com esse método, mas hoje mais cedo decidi testá-lo e gostei muito do resultado. Ele oferece uma visão mais dualista do que sua versão mais moderna, que pode ser muito interessante ao analisarmos uma situação. Eu achei mais interessante a versão dessa tiragem descrita por Oswald Wirth, que é a que eu vou expor aqui –

Posição 1 – o que está a favor, os prós da situação; a força positiva e afirmativa. A carta dessa posição deve ser abordada pelos seus aspectos mais positivos;

Posição 2 – em oposição à primeira posição, indica os contras – obstáculos e oposições à ação iniciada na primeira carta. A carta que cair aqui deve ser vista por seus aspectos negativos;

Posição 3 – a posição três é o juiz que decide o impasse e contrabalanceia a tensão entre as duas cartas anteriores;

Posição 4 – a sentença enunciada pelo juiz, que vai dar a resposta e definir a questão.

A versão de Péladan também faz uso de uma quinta carta no meio que é obtida pela soma do valor das quatro cartas. Sua função é basicamente a mesma que a do meu método.

Aprofundando-se na lógica por trás do esquema da tiragem

Quem conhece um pouco de filosofia vai talvez identificar nessa tiragem os três elementos básicos da dialética hegeliana – a tese, a antítese e a síntese. De acordo com Hegel (1770 – 1831, Alemanha), todo o processo é o resultado de um eterno conflito entre opostos. Sucintamente, uma tese é uma proposição, uma ideia; por ser parcial ou incompleta, a tese origina uma antítese, uma proposição diametralmente oposta à primeira, que com ela entra em conflito. Tal conflito é resolvido pela síntese, que representa um terceiro ponto de vista que concilia as verdades contidas na tese e na antítese. A síntese é em si uma nova tese, o que recomeça o processo de conflito. Nesse caso, a síntese seria representada pelas duas últimas cartas, em seu aspecto de conciliadora e nova tese. Não sei dizer se Péladan ou Wirth tinham a dialética de Hegel em mente quando falaram de sua tiragem em cruz. De qualquer maneira, tal disposição pode ser analisada por essa ótica, e funciona bastante bem. Uma coisa interessante que essa tiragem sugere é que não precisamos ver a oposição representada pela posição 2 como algo ruim, negativo. É exatamente da diferença fundamental entre as duas primeiras posições que vem a fertilidade, o dinamismo que provoca o desenvolvimento. A oposição inspira a ação que busca conciliá-la, e nisso consiste o aprendizado e, portanto, o crescimento.

Formas de interpretação

DiagonalidadesA tiragem da Cruz pode ser interpretada de diversas formas. De fato, com a prática, cada um vai descobrindo sua própria forma de usar essa disposição. Uma coisa que eu costumo fazer é analisar o que eu chamo de “diagonalidades” da tiragem. Isso consiste em analisar a combinação das cartas também em diagonal, e adicionar tais interpretações à leitura. Isso frequentemente me revela relações muito interessantes entre as cartas.

As elemental dignities das cartas da leitura são uma boa forma de analisar a interação entre as cartas. Eu não costumo associar cada posição a um elemento, mas ultimamente eu tenho aplicado o método de bases elementais a essa leitura. Tal método resume-se a usar um dos quatro elementos como base, de acordo com o tema de que tratam, e ver como as cartas reagem a isso. As associações podem ser rapidamente definidas como –

Fogo – atividades, afazeres cotidianos, carreira;

Água – emoções, sentimentos, relacionamentos, espiritualidade, inspiração;

Ar – projetos, estudos, aprendizado, processos legais, dificuldades;

Terra – trabalho, questões materiais e financeiras, dia-a-dia.

Podemos também aplicar cada um dos elementos como base elemental, para ver os quatro aspectos da situação, e como as cartas podem influenciadas por eles.

Consulta LuanaExemplo de leitura

Decidi usar o método de Péladan numa leitura feita para uma moça, sobre seus estudos de Tarot. Luana (nome fictício) quer saber sobre os progressos que tem feito como taróloga. Sua pergunta foi “Vou conseguir ser uma boa taróloga?”. A resposta –

O Pajem de Paus mostra Luana como uma estudante curiosa e entusiasmada, apaixonada por seus estudos de Tarot. Ela é capaz, tem um bom potencial e acredita em si mesma. Deve no entanto tomar cuidado para não ser precipitada e impulsiva, e para não ser inocente e confiar demais em si, deixando passar despercebidos detalhes importantes. Luana pode ser um pouco impaciente demais, e isso pode minar seu acesso ao conhecimento menos imediato do Tarot, mais distante da superfície. Isso parece ser confirmado pela presença da segunda carta como oposição. Serena, experiente e estática, a Sacerdotisa é um total contraponto ao Pajem, inquieto e inocente. Ela mostra que o Tarot exige de seu estudante uma postura contemplativa, receptiva e tranqüila, que espera receber a mensagem, mais do que esforçar-se para extraí-la das cartas. Luana confirma que não consegue muito parar para aprofundar-se nas cartas, e que isso é uma das coisas que ela sente estarem faltando em suas leituras. A Sacerdotisa personifica exatamente o desconhecido, aquela região de transferência entre o nosso mundo familiar e o mundo não acessado por nossa percepção ou imaginação. Esse é o obstáculo que Luana enfrenta – compreender o não-dito. A Sacerdotisa também representa aqui o conhecimento oculto, hermético, não pronunciado do Tarot, que Luana tem dificuldade – e pouca paciência – para alcançar. Como juiz, a Rainha de Paus na terceira posição une graciosamente a Água da Papisa com o Fogo do mesmo naipe do Pajem – é um perfeito contraponto entre as duas cartas anteriores. Ela indica que Luana deve aliar a intuição e percepção interior da Sacerdotisa ao impulso e curiosidade do Pajem, personificados na Rainha de Paus. A Rainha de Paus está a dois níveis acima do Pajem, mostrando que Luana deve aliar à sua energia criativa o poder introspectivo da Sacerdotisa. Por fim, o Rei de Copas indica que sim, Luana tem ótimas chances de ser uma boa taróloga. O Rei de Copas controla e dá corpo as suas emoções e intuições. Mostra alguém experiente, diplomático e sábio, com um conhecimento cristalizado em sua área de atuação. O Rei de Copas também incorpora a figura do conselheiro, daquele que vê e entende a alma humana profundamente.

A tiragem é composta somente de figuras da corte, o que indica um processo de auto-descoberta e desenvolvimento pessoal. Existe a busca por crescimento, impressa na progressão hierárquica das figuras. Interessante notar que essa progressão segue a ordem da tiragem, com um Pajem sendo sucedido por uma Rainha, que antecede o Rei, posto máximo. Isso denota a existência de uma progressão real, um desenvolvimento. Podemos perceber nessa tiragem uma dualidade forte entre Água e Fogo, elementos opostos. Isso denota um conflito interno na consulente – de um lado, seu desejo expansivo de descobrir, explorar e aventurar-se nesse campo de estudo; do outro, a necessidade de parar para contemplar, sentir, e dar espaço para a voz interior. A Sacerdotisa domina no jogo, por vários motivos. Ela é o único arcano maior, e única carta com número. A síntese do jogo, nesse caso, manifesta-se no próprio jogo, e isso tem uma significância especial. A tiragem é toda tematizada pela Sacerdotisa, que mostra a manifestação do inconsciente, do mistério e do desconhecido para Luana. O fato de a Sacerdotisa estar na posição de obstáculo mostra que esse é o desafio que Luana enfrenta em sua busca por aprender melhor o Tarot. A Sacerdotisa é a sua antítese. Ela impõe a Luana o desafio de olhar mais a fundo e ver nas entrelinhas. Por ser a mantenedora da doutrina esotérico (oposta ao Hierofante, o mantenedor da doutrina exotérica), a Sacerdotisa sugere também a importância do esoterismo nos estudos de Luana. Há aqui uma ênfase ao elemento Água, receptivo, profundo e introspectivo, enquanto a atitude de Luana é tipicamente ígnea – expansiva, auto-afirmativa e passional. Com efeito, seu signo solar também pertence ao elemento Fogo. A Rainha de Paus, como força dominante, sugere uma mistura das características ígneas do Pajem com a introspecção da Sacerdotisa. Por fim, o Rei mostra isso de maneira especial, como resposta, pois ele alia o elemento Água ao Ar, ou seja, a compreensão, a racionalização dos impulsos inconscientes e da intuição. Ele em si é um indicativo de que Luana terá sucesso em sua jornada de (auto)descoberta com o Tarot. Ela deve, no entanto, enfrentar a Sacerdotisa nesse processo, a Rainha dos Mistérios subterrâneos, a dona dos segredos. E a Sacerdotisa diz: “pare, e escute o som do silêncio”.

FONTES DE REFERÊNCIA

Livros

ABC do Tarot – Colette H. Silvestre

Online

Wikipedia

Joséphin Péladan – http://en.wikipedia.org/wiki/Joséphin_Péladan

Oswald Wirth – http://en.wikipedia.org/wiki/Oswald_Wirth

Thesis, Antithesis, Synthesis – http://en.wikipedia.org/wiki/Thesis,_antithesis,_synthesis

Hegelian Dialetic – http://en.wikipedia.org/wiki/Dialectic#Hegelian_dialectic

Antithesis – http://en.wikipedia.org/wiki/Antithesis

Clube do Tarô, tiragens – http://www.clubedotaro.com.br/site/p52_2_simples.asp#cruz

Tarot Elements – Adding an Elemental Base To Your Tarot Card Readingshttp://www.tarotelements.com/elemental-dignities/adding-an-elemental-base-to-your-tarot-card-readings/

Thesis — Antithesis – Synthesis, post by Jim Meskauskas – http://www.clickz.com/917191

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5 Comentários »

  1. […] Tiragem em Cruz, Péladan […]

    Pingback por Índice de Posts « Descobrindo o Tarot — dezembro 8, 2009 @ 1:41 AM

  2. Lendo a prosa formidanda de Leonardo Dias, concebemos o Tarot como o âmago da Psique, a clássica maneira de mergulhar, alegoricamente, nos Arquétipos, nos símbolos e génios dos Arcanos. Aqui o mundo é uma representação, e somos introduzidos, deveras, nos místicos exemplos e Mistérios arcaicos: se as metáforas, aqui, são Ciências Ocultas, a messe é missionária, e a Magia, por isso, o molde, o modelar, e a moldura das imagens…….

    Comentário por PAULO JORGE BRITO E ABREU — fevereiro 10, 2010 @ 4:45 PM

    • Nossa, muito legal o que você disse, Paulo! Como eu sempre digo, é muito gratificante saber que há pessoas que apreciam nosso trabalho. Muito obrigado 🙂

      Comentário por Leonardo Dias — fevereiro 10, 2010 @ 6:16 PM

  3. Seguindo e segundo o Jacques Lacan, «o Inconsciente é o discurso do Outro», «o Inconsciente é estruturado como uma linguagem». E essa mesma linguagem, para o avisado, abalizado ledor, se regula pelos símbolos, pelas parábolas, por as imagens, os Mitos e as metáforas. Portanto fortes, e férteis, temos, então, duas causas ou cousas: a linguagem arcana, e arcaica do Tarot, é, sobremaneira, um conhecimento poético do mundo e do Homem. Em deutério, segundo ou sagrado lugar, o Ocultismo, o Tarot e a Numerologia obedecem, na escritura, à expansão da consciência, e, no secreto e no segredo, são formas de aceder ao sagrado «Liber Mundi»: e aqui se inscreve a escola, o escol e o Nume de Leonardo Dias. O que anela este Tarólogo, o que almeja o Bibliólogo? A essência, a súmula da Rosa, o Menino Jesus. O império, mavioso, da Paz universal…….

    PAULO JORGE BRITO E ABREU

    Comentário por PAULO JORGE BRITO E ABREU — outubro 19, 2010 @ 2:50 PM

    • Paulo!

      “…a linguagem arcana, e arcaica do Tarot, é, sobremaneira, um conhecimento poético do mundo e do Homem.” – concordo muito com isso. E a poesia é ancestral, está nas nossas raízes mais profundas. O Tarot é poético não só no sentido mais superficial da palavra, mas também em seu sentido mais profundo e sério.

      Achei legal você mencionar essa ambi-valência da linguagem simbólica. Isso costuma causar confusão entre alguns, e muitos não percebem que uma mesma coisa pode ser legitimamente vista por mais de uma forma apenas. Símbolos, parábolas, imagens, mitos, metáforas… fazem uso de uma linguagem que nos pega mais fundo, por ser menos racionalizada, e mais visceral, digamos. Eles estão na nossa origem, na aurora da nossa humanidade. De certa forma, o ocultismo e a interpretação esotérica dessas coisas é uma segunda instância dessa linguagem, acho. E, sim, o Tarot compartilha das duas – e de outras, rs.

      Muito obrigado pelas magníficas palavras, Paulo, e obrigado ainda pela participação!

      Abraço!

      Comentário por Leonardo Dias — outubro 20, 2010 @ 2:54 AM


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