Descobrindo o Tarot

dezembro 28, 2009

A imagem do Louco à beira do precipício…

Filed under: Diversos — Tags:, , — Leonardo Dias @ 3:41 AM

…sinaliza a queda, a grande queda na realidade binária do mundo material. O Louco (o curinga, o indefinido) é o estado de pureza pré-queda (pré-corrupção, poderíamos dizer, nesse sentido). O Louco é o zero, aquele que une o par e o ímpar no traço circular único do número zero, ou na grandeza unidimensional do ponto; ele é o imanifestado, o não-ser, e representa o estado inominável de suspensão da consciência que precede o despertar para a realidade binária, necessariamente dicotômica do nosso mundo. Tal como a Queda de Lucifer, que caiu do plano espiritual ao nosso plano material quaternário, o Louco está prestes a cair (lançar-se?) em nosso mundo dual. Ao manifestar-se (cair) no mundo material, o espírito decompõe-se em dois aspectos polares. As experiências do mundo jogam o indivíduo de um lado ao outro entre os extremos dos opostos, sendo os dois grandes opostos definitivos a Vida e a Morte (e é de grande significância o fato de que a Morte no Tarot está no meio do caminho da sequência, e não no final, como poderiam supor). Depois da queda do Louco, inicia-se o jogo dos opostos, que dançam e interagem de diversas maneiras, até alcançar novamente a totalidade (o Mundo). A diferença – e a semelhança – entre o Louco e o Mundo é a diferença entre o indivíduo e o universo, entre a parte e o todo. Nesse nível, diferença e semelhança passam a ser a mesma coisa. As cartas que seguem o Louco ilustram as várias formas de interação entre os opostos –

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Mago e Sacerdotisa – masculino e feminino primordiais; o principio da ação versus o princípio da não-ação. O Mago lida com os opostos manipulando-os – ele une o céu e a terra através da sua ação. A Sacerdotisa vai no caminho inverso, e concilia os opostos através da completa não-ação. O Mago busca pelo segredo, e a Sacerdotisa é o segredo – são os caminhos convencionalmente atribuídos ao homem e à mulher.

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Imperatriz e Imperador – feminino e masculino manifestados – a mulher e o homem, a fêmea e o macho. Os princípios opostos manifestados no mundo – o impulso de criação e a força que estabelece os limites. Note-se que o feminino espiritual segue o feminino material (Sacerdotisa e Imperatriz) – não há uma sucessão alternada de gêneros. Isso me    sugere que a mulher ou a feminilidade liga de fato do mundo interno com o externo, o espiritual com o físico.

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Hierofante – a primeira tentativa de conciliar os opostos, feita por meio da doutrina, uma explicação/interpretação padronizada do mundo, uma esquematização da experiência humana. O Hierofante em si simula certa assexualidade, distanciando-se do sexo por voto de castidade. No entanto, isso é mais uma negação da própria dualidade do que realmente uma conciliação.

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Enamorados – a união dos opostos de forma mística, à queima-roupa, através do amor, da experiência direta com a força de atração entre os elementos dicotômicos. O paganismo que contrapõe-se ao doutrinário/litúrgico do Hierofante. Nos Enamorados, os opostos buscam a junção através do poder de atração sexual; é uma tentativa de alcançar o Louco (a loucura) por meio do êxtase místico do gozo. Esse símbolo representa, assim, um contraponto à assexualidade do Hierofante. Enquanto o Hierofante busca a união divina através de um método, de um processo iniciático, os Enamorados buscam-na de forma direta, no corpo. A dicotomia dos Enamorados com o Hierofante é a dicotomia do santo e do pagão.

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Carro – os opostos são dominados através da força e do controle. Perceba como que, comparada aos dois enamorados nus e de pés descalços, a figura com armadura do Carro é artificial. Trata-se da artificialidade do ego, da criação de uma simulação do real – uma abstração, o que caracteriza a mente.

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Justiça – a Justiça é a lei de compensação que rege o natural equilíbrio dos opostos no cosmos. A Justiça equilibra (calibra) os opostos com perfeição – – mas ela não os une. É como se ela só preparasse o chão para a jornada que se inicia com o Eremita, separando o joio do trigo, colocando os pingos nos i’s, fazendo os ajustes finais antes da jornada interna, da retirada do mundo. Mas ela não os une. A espada na outra mão corta as coisas em dois para demarcar a diferença e classificar. A Justiça fala muito sobre verificar as diferenças e separar as coisas. Nesse sentido, ela vai pela regra do raciocínio mental, lógico. Os opostos estão equilibrados, mas não unidos num só, como no Louco-Zero.

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A partir da Justiça, inicia-se a jornada interior daquele que se retirou do mundo em busca de sabedoria. A respeito da alternância entre a Força (11) e a Justiça (8) no baralho Waite-Smith, discutida à exaustão em um número sem fim de livros, forums etc., eu gostaria de dizer que, ao menos no contexto do que eu estou falando aqui, ambas as formas valem. Sobre a Força depois do Carro, poderíamos dizer que ela representa a domesticação real da fera interna (a menina não usa mais cabresto e cordas, mas “pega o touro na unha”) antes do asceticismo do Eremita; enquanto isso, a Justiça depois da Roda da Fortuna poderia ser vista como o ajuste que antecede a parte central da jornada interna – a Total Entrega e a Morte do Ego.

Ao cair no plano material, o Louco entra no jogo de opostos, de preto e branco da nossa vida. É como Adão e Eva, antes habitantes de um Éden de indistinção (nada de eu x outro, bem x mal), e depois lançados, “caídos” no mundo das polaridades e da força que as atrai novamente (o sexo). Nesse sentido, a carta dos Enamorados marca esse momento de queda consumada; é o abandono das ultimas amarras com a consciência incipiente. A força sexual representa um impulso à re-união, à re-ligação (religião, em seu sentido mais profundo). É esse, aliás, o ponto de encontro entre os Enamorados e o Hierofantes: ambos buscam por essa re-ligião; o Hierofante com sua forma iniciática, separada da vida, e os Enamorados por meio do êxtase místico, nao fugindo, mas mergulhando fundo na carne, nos sentidos e na matéria. É o Louco caindo fundo em seu abismo.

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*Texto tirado de uma entrada do meu diário de tarot pessoal, com algumas modificações.

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