Descobrindo o Tarot

abril 28, 2010

Atualizações

Filed under: Notas — Tags:, — Leonardo Dias @ 1:26 AM

Faz algum tempo que eu não publico coisas por aqui – mas isso não quer dizer que eu não esteja trabalhando em nada pro blog. Aqui vão algumas notas de ideias e coisas que tem permanecido na minha cabeça ultimamente – –

…AGEM IMAGEM IMAGEM IMAGEM IMAGEM IMAG…

Eu tenho mais e mais percebido o quanto a imagem no Tarot é importante, e o quão pouco a gente explora isso. É bem por isso que eu fiz aquele video. A imagem é a linguagem primária do Tarot, e isso é mais que óbvio. Ainda assim, a gente – ou eu, não sei – sempre corre o risco de reduzir imagens a palavras chaves, a sintetizações pretensiosas. Mas não, não. É preciso usar a visão, os olhos, e deixar as imagens fertilizarem a imaginação.

Eu posso estar errado, porque admito não ter uma experiência muito grande nisso, mas parece-me que existe uma tendência em aprender (e, consequentemente, praticar) Tarot de uma maneira muito cartesiana, meio tabuada. Isso pode ter a ver mesmo com o nosso ensino em geral, que funciona bem na base da decoreba, mas isso é outra história. Listas de significados, significados de cartas em si, listas de combinações, esquemas de leituras, sistemas de correspondências… um monte de coisas muito boas pra sistematizar, mas que se transformam em catálogos. Então a gente usa conceitos para atribuir valor semântico para as imagens e símbolos exibidos nas cartas – quando de fato, penso eu, as próprias imagens têm por função expor, exalar significado. Está ali, nos desenhos, nas formas, nas cores. Eu tenho pra mim que o conhecimento não deve ser uma coisa imposta aos símbolos, mas sim que os símbolos devem conter o conhecimento. E como símbolos são coisas inertes e artificiais, criações nossas (de certa forma…), então o problema está em quem vê, e não no que é visto.

Claro que eu não estou dizendo aqui que a gente deva abolir todas essas coisas. Elas são a tradição do Tarot, e não há atividade que seja bem executada sem o suporte de uma boa técnica. Porém, isso não significa que a pratica do Tarot deva se reduzir a isso. Sendo bem objetivo, é o seguinte – uma carta não significa uma coisa só; o Seis de Copas não vai ser sempre inocência, ou passado, ou infância, etc.. Não existe lista que abranja o significado de uma carta.

Da próxima vez que você não entender direito uma carta em uma leitura, não vá correndo pra algum livro – ou pra perguntar pra alguém; em vez disso, olhe a carta, investigue os desenhos, os detalhes, imagine a cena em busca de um esclarecimento. Pode ser difícil no começo, poder ser aterrorizante desaprender anos de estudo, revisar conceitos – mas estou certo de que será bem mais gratificante. E mais, Tarot é isso, aprender é essa aventura.

E nada disso que eu estou dizendo é novo – já está por aí há algumas décadas.

E PENSAR NISSO ME LEVA A…

Disposições não-posicionais! É outra coisa em que tenho pensado muito – e praticado pouco. Disposições ou métodos posicionais são as jogadas baseadas em posições definidas, que todo mundo aprende a fazer logo que começa a praticar Tarot. Posição 1 (ou casa, como muita gente diz) é isso, posição 2 é aquilo, etc.. Foi o jeito mais fácil e rápido que acharam pra usar as cartas como oráculo e transformar a coisa toda em algo que pudesse facilmente ser passado adiante – é bem mais fácil aprender a jogar assim. E realmente fez escola. O que eu tenho pensado ultimamente é que abrir mão de dar funções definidas às cartas de uma leitura baseando-se em suas posições pode abrir uma porta enorme de possibilidades.

Mas como exatamente funciona o uso de métodos posicionais na prática oracular do Tarot? A grosso modo, é estabelecido um padrão imaginário, um molde para uma disposição. Um número definido de posições é estipulado, e cada uma dessas posições recebe uma atribuição, uma função. Cartas então são sorteadas, e posicionadas em cada posto do molde imaginário. No processo da leitura, cada carta empresta o seu significado à posição que ocupa. O processo inverso também acontece, com cada posição colorindo com seus tons a carta que abriga. A junção da carta com sua posição forma uma espécie de ensemble, que constitui uma unidade de significado na leitura. Em um segundo estágio do processo, os ensembles são associados entre si. Da interação de tudo isso surge a mensagem da leitura. Em teoria é assim, tudo bem esquematizadinho e organizadinho. Uma disposição é quase como um organismo, onde cada parte executa uma função definida de importância fundamental – um reloginho. Logo, a natureza básica do hábito de ler cartas com métodos posicionais é estrutural e exclusivista. Nossa mente funciona assim, o ser humano adora esquemas, métodos, cartilhas ditando como cada coisa deve ser feita – dá um oi pro Hierofante, rs.

Mas eu vejo um possível defeito nisso – todo esquema tem suas falhas. Nesse processo, cada carta perde bastante de sua fluidez, e fica como água presa em uma garrafa – um Quatro de Copas, podemos dizer. Parte do seu conteúdo simbólico é descartada, em nome da coesão com a posição que ela ocupa. Como em toda parceria, cada lado perde um pouco de si. É como se cada posição ressaltasse só um aspecto da carta, em detrimento do sem-número de outros possíveis aspectos que a carta possui. Numa possibilidade extrema, as cartas são reduzidas a simples adjetivos para cada posição. É isso que eu quero dizer quando digo que tal metodologia é exclusivista – e, acrescento, potencialmente empobrecedora.

E se as cartas fossem dispostas sem padrões ou esquemas? Bem, sem cercadinhos de significados, as cartas poderiam transitar livres; uma mesma carta poderia significar várias coisas ao mesmo tempo, vários momentos, várias situações (por que não?); cada carta seria vista e avaliada por si mesma, e não exclusivamente de acordo com sua relação com a posição que ocupa. As possibilidades aumentam exponencialmente. Ler vira um processo mais intuitivo, mais espontâneo. A interpretação fica multi-direcional. Os símbolos ficam mais dinâmicos, mais vivos.

Eu comecei a estudar Runa bem antes de envolver-me mais com Tarot. No começo, eu lia runas com a ajuda de esquemas, do mesmo jeito que costumamos ler as cartas. Até eu descobrir que, antigamente, elas eram simplesmente despejadas na superfície e lidas. Nada de casas (e nada de “runas invertidas” também). E, sim, o processo de divinação ficava bem mais fluido.

Até agora, não entrei de cabeça nas leituras não-posicionais. Eu tenho a minha disposição com três cartas, que não é posicional, e às vezes eu sorteio sete cartas e as interpreto também sem posições, somente obedecendo a sequencia. Na verdade, existem várias formas de se ler sem posições, mas o assunto fica para um outro post. O que eu quero dizer aqui com isso é que métodos são legais, mas não absolutos. Sistemas são artifícios, maneiras de acessar um conteúdo de forma mais fácil. Uma pessoa faz, as outras começam a imitar e, pronto, criou-se um sistema que posteriormente vira uma tradição. Experimente outras coisas, explore novas maneiras. Ainda que você não as adote permanentemente, tenho certeza de que você vai ver sua atividade de maneira mais integral.

Por fim, perguntei ao Tarot sobre ler sem posições – com uma leitura não-posicional, rs – e essa foi a resposta. Alguma ideia?


Imagens

Eye Sketches, by BikerScout (http://bikerscout.deviantart.com/)

Hilbert with Catmull-Rom Spline Interpolation II, by Don Relyea (www.donrelyea.com).

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4 Comentários »

  1. Olá Leonardo. É a primeira vez que posto comentário em seu blog, no entanto há um certo tempo acompanho seus pensamentos e colocações.Sou iniciante no tarô, atualmente estou estudando o livro de Nei Naiff-Curso Completo de Tarô, e confrontei o que tenho tentado aprender com o que você porpôs nesse último post. De cara achei bem ousado, bem moderno ou mesmo à frente de nosso tempo, mas não menos coerente, ok? Em seguida, parando para pensar com mais calma, acabo vendo que você tem razão. Apenas decorar algumas palavras-chaves e aplicar tais palavras às leituras, relamente fica meio “receita de bola”, e particularmente, acho teerível. Faço minha suas palavras: não vejo nada de errado em usar o tarô como é ensinado…tipo aprender as cartas pelas palavrinhas, mas reduzilas ou cercara as cartas com tais palavras, é realmente muito simplório. Os símbolos, que são o grande arcabouço de siginificados das cartas deve ser realmente nossa fonte primeira de aprendizado, e um excelente exercício é exatamente simplesmente comtemplar as imagens.

    Grande abraço!

    Comentário por Flávio — abril 29, 2010 @ 9:14 PM

    • Hey, brigado pelo comentário, e que bom que cê tem gostado do blog!

      Sim, eu percebo que a nossa forma de abordar as cartas tende a ser muito voltada ao significado das cartas, tipo – o Mago quer dizer isso, a Rainha de Copas quer dizer aquilo. Já tá tudo ali na imagem. O processo de ver é anterior e mais automático que o processo de racionalizar o que é visto. A gente vê, e interpreta o que vemos, e é nesse momento que a gente conceitualiza, julga, classifica, etc… É por isso que eu defendo uma maior atenção ao processo de simplesmente ver as cartas, porque ele é importante. As pessoas aprenderam a desenhar e criar imagens beem antes de inventarem formas de escrever – e a prosa então, foi inventada bem depois disso. A imagem é uma coisa bem primitiva e poderosa.

      Abraço!

      Comentário por Leonardo Dias — maio 1, 2010 @ 4:30 PM

  2. […] Atualizações (Imagem + Ler sem métodos posicionais) […]

    Pingback por Índice de Posts « Descobrindo o Tarot — junho 9, 2010 @ 4:26 PM

  3. […] uma forma mais dinâmica e intuitiva de se jogar – não é de hoje isso, já falei sobre isso neste post, por exemplo. Quanto às dignidades elementais, eu aprecio muito seu potencial de habilitar o […]

    Pingback por OS RUMOS DO BLOG + NOVIDADES « Descobrindo o Tarot — agosto 23, 2010 @ 5:43 AM


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