Descobrindo o Tarot

agosto 13, 2010

ARCANOS MAIORES x ARCANOS MENORES – QUAL AFINAL É A REAL DIFERENÇA?

Filed under: Diversos — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 10:38 AM

O leitor Flávio Siqueira fez uma pergunta muito legal hoje, e que dá bastante pano pra manga –

“(…) se, por exemplo, numa tiragem pelo método da Cruz Celta saírem só Arcanos Menores, a leitura não fica prejudicada? Pergunto isso porque sempre ouvi dizer e li que a gente pode fazer uma tiragem só com os Maiores, mas tiragem só com Menores, não. Então, [o que acontece] se eu fizer uma tiragem tal e só saírem os ditos menores?”

Eu adorava jogar pif-paf quando era criança. A gente se juntava, geralmente em três ou quatro, com um ou dois maços de baralho, e passava horas brincando. O jogo era bem simples: cada jogador recebia nove cartas; novas cartas eram sorteadas do monte, em turnos, e para cada carta sorteada, uma das nove deveria ser jogada no “lixo”. O objetivo era agrupá-las em três tríades de um mesmo número ou de sequências dentro de um mesmo naipe. Quem conseguia fazer isso primeiro era o vencedor. Pra deixar as coisas mais legais, a gente costumava sortear uma carta, que seria o “curinga” – ela era capaz de substituir qualquer carta para completar tríades. Eu nem suspeitava disso naquela época – eu estava mais preocupado com as minhas tríades – mas a gente reproduzia ali o mesmo comportamento que deu origem aos arcanos maiores. Duvida?

A origem dos arcanos maiores está no jogo. Embora os termos “Arcano Maior” e “Arcano Menor” tenham sido criados no final do século 19 por Paul Christian (nome de pluma do escritor ocultista francês Jean Baptiste Pitois), o conceito de distinção entre esses dois tipos de cartas sempre existiu. Mais apropriado seria dizer que a superioridade dos arcanos maiores sempre existiu. Com efeito, os hoje arcanos maiores, antes chamados simplesmente de trunfos, parecem ter sido criados exatamente para formarem um rank superior de cartas que detinham certos privilégios sobre as restantes. No jogo do tarot, um trunfo gozava de poder maior, sendo capaz de desbancar todas as cartas dos outros naipes. Só outro trunfo podia desbancar um trunfo. Até hoje, no carteado em geral, um trunfo é uma carta que tem esse poder especial no jogo. E existe um bom número de jogos que lançam mão desse recurso. Mais ou menos como o curinga do nosso pif-paf de infância, trunfos são cartas especiais.

Quando o Tarot passou a ser visto como detentor de segredos místicos, essa conotação de superioridade dos trunfos permaneceu, foi carregada para outro nível, e eles passaram a ser vistos como cartas de grande valor espiritual ou místico. Várias características dos arcanos maiores parecem ter favorecido essa concepção: diferente dos arcanos menores, repetitivos e presos a uma determinada estrutura que predispõe uma série de semelhanças entre os mesmos números ou figuras de cada naipe, os arcanos maiores são únicos e incomparáveis às outras cartas de seu grupo. Também, tradicionalmente, os arcanos maiores sempre trouxeram figuras e cenas, o que sem dúvida os deixa bem mais atraentes do que as representações numéricas, quase decorativas, das cartas pequenas. Sendo assim, durante toda a história esotérica do Tarot, os arcanos maiores desfrutaram de um status privilegiado no maço.

Hoje, o grande consenso entre estudiosos e praticantes do Tarot esotérico favorece, quase que exclusivamente, essa ideia de superioridade das vinte e duas cartas do “quinto naipe”. A tradição geral afirma que os arcanos maiores detém um maior peso simbólico e fazem referência a conceitos de significância mais profunda, enquanto os arcanos menores referem-se a assuntos mais cotidianos e superficiais. Ou ao menos é o que foi fixado em teoria – na prática, sabemos que tudo isso pode ser diferente.

É claro que a superioridade absoluta dos arcanos maiores pode ser contestada. O primeiro golpe nessa hegemonia pode ser dado em um dos pilares do pensamento esotérico do Tarot – a concepção de que as 78 cartas pretendem representar todos os aspectos da existência humana e, mais além disso, do universo. Considerando essa noção, é possível argumentar, por exemplo, que enquanto no baralho cada elemento, personificado em uma carta, está representado separado e distinto dos outros, no universo todas essas forças manifestam-se de forma homogênea, tornando mais complicado o trabalho de definir com exatidão qual delas é qual. É com base nessa ideia que eu prefiro jogar com todas as cartas em um único maço. Da forma que eu vejo as coisas, na vida e no universo, questões e fatores mais profundos ou poderosos mesclam-se com assuntos tidos como cotidianos, e de pouca significação – e vice-versa – formando assim o belo caos que é viver. “Deus está nas pequenas coisas”, muita gente diz. Quanto da Sacerdotisa, ou da Justiça, você pode ver no Dois de Espadas? Por outro lado, quanto do Três de Copas, ou da Rainha de Ouros, ou mesmo do Nove de Ouros, podemos ver na Imperatriz? Isso sem contar em questões mais práticas – por exemplo, em uma leitura onde a Rainha de Copas está muito mais suportada que o Imperador, quem é o mais forte? Pensar em todas essas questões nos faz ver afinal que, no fundo, é tudo uma coisa só – por mais que isso possa parecer desconcertante.

Esotericamente, a superioridade dos arcanos maiores pode ser vista como uma questão puramente doutrinária. Sobre isso, Robert Wang faz uma ótima observação. Cabalisticamente, os arcanos menores são relacionados às Sephiroth, as dez esferas na Árvore da Vida, que representam estágios da manifestação divina, enquanto os arcanos maiores são os Caminhos entre as esferas. Wang então salienta –

Como as cartas numeradas e as Cartas Reais das Sephiroth são chamadas de Arcanos Menores (Arcano significa segredo), elas talvez pareçam ser menos importantes do que os Arcanos Maiores ou Trunfos. Todavia, elas são da mais alta importância porque simbolizam as verdadeiras potencialidades – existentes dentro de nós mesmos e do universo – com as quais procuramos entrar em contato consciente.

Se os Naipes (Sephiroth) parecem estar subordinados aos Trunfos (Caminhos), isso acontece por duas razões. Primeiro, o Tarô é um mecanismo de aprendizado projetado para facilitar a viagem subjetiva da consciência de um para outro centro objetivo de energia [cada Sephirah]. Ele pode ser comparado a uma carruagem que nos leva pelas estradas que ligam, uma à outra, duas cidades do interior. Assim, embora, em última análise, os Caminhos sejam menos importantes que as Sephiroth, eles são o principal ponto de interesse do baralho de Tarô. Em segundo lugar, como as cartas são usadas para adivinhação, elas descrevem forças de transição que produziram eventos no passado, atuam no presente e têm o potencial de criar eventos futuros. Isso talvez possa ser melhor compreendido considerando-se a idéia de que todos estamos viajando continuamente pelos Caminhos. Embora este seja um processo inconsciente para a maioria das pessoas, ele é consciente para aqueles que buscam compreender os Mistérios. (…)

Lógico, essa visão é só uma entre as várias maneiras que as pessoas criaram para conceitualizar o simbolismo das cartas, nesses quase trezentos anos de Tarot esotérico. Uma das muitas garrafas onde tentaram colocar o Tarot. Quando atentamos para isso, atentamos também para o fato de que, afinal, tudo se reduz às preferências de cada estudioso ou praticante.

Respondendo à pergunta do Flávio, tudo depende do leitor das cartas, e dos critérios que ele decide por estabelecer na metodologia de sua prática. Fica a cargo de cada um, ninguém pode ser capaz de lhe privar desse direito, e você também não deve deixar. O mais importante é certificar-se de que você tem suficientemente claro para si tanto os motivos para proporem tal distinção, quanto seus motivos pessoais para aceitar – ou não – tal proposição. E isso requer tanto um estudo da história e do desenvolvimento da ideia de arcano maior, quanto uma análise de suas próprias motivações e filosofia enquanto tarólogo. O que eu leio nas entrelinhas da sua pergunta – e é algo que deve passar pela cabeça de muita gente – é um certo receio de que uma resposta somente com cartas pequenas seja um indício de que a questão é vã ou de pouca importância. E Deus sabe o quanto pode ser frustrante ter nossos sentimentos e expectativas desqualificados dessa forma. Mas… considerando que há uma média de duas a três cartas pequenas para cada carta grande, e que os arcanos maiores representam menos de 30% do maço inteiro, seria então o Tarot um sistema místico mais focado em questões vãs? Arcanos Maiores são realmente indispensáveis? Por fim, talvez a pergunta mais importante seja ‘por que precisa existir tamanha diferença entre maiores e menores?’

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Biblio

Wikipedia.com

Major Arcana

Trump

Trionfi

Jean Baptiste Pitois

Sephiroth

Atout

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Tarotpedia.com

Trumps

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LearnTarot.com/less12.htm

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Robert Wang, O Tarô Cabalístico – Um Manual de Filosofia Mística, Ed. Pensamento, 1998

Paul Huson, Mystical Origins of the Tarot – From Ancient Roots to Modern Usage, Destiny Books, 2004

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Agradecimentos especiais ao Flávio, pela pergunta J

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5 Comentários »

  1. Oi Léo.

    O que ficou de tudo isso, é que acabei de concluir que realmente depende de cada um a maneira pela qual será feita a tiragem. E aí aquele preceito de que o tarô não está ligado a nehuma religião, filosofia ou regra deteminados, se torna real. Ele é livre! Confesso também que o que estava por trás de minha pergunta era: se na leitura que sai só menores a resposta será verdadeira? “As cartas não mentem”!Então sempre tive esse receio e procurei aqui e ali perguntar eler algo sobre o assunto, e o que percebi é que há um montão de jeitos para se tirar as cartas. Acho que temos que procurar o que mais nos agrada. Não que o x e o y sejam errados, mas eu gosto mais do z, por exemplo. Agora defendendo um pouco os ditos arcanos menores: acho que muitas das coisas importantes da vida são decididas nas pequenas coisas, nos detalhes. Ora, daí os “menores” serem também maiores.

    Acho que vou embaralhar tudo agora!!!rsrsr.

    Grande abraço e obrigado pela bibliografia.

    Comentário por Flávio — agosto 13, 2010 @ 12:39 PM

    • Sim, acho que ce pegou o espírito da coisa. O que parece que algumas pessoas custam a perceber é que o Tarot é essencialmente místico, e, como tal, é um caminho solitário. Ce pode trocar ideias, expor suas ideias, compartilhar descobertas, como eu faço aqui no blog, mas a minha Imperatriz não é a mesma Imperatriz sua, e assim por diante.

      É basicamente a diferença entre o Hierofante e a Sacerdotisa. O Hierofante preside os mistérios, enquanto a Sacerdotisa é os Mistérios. O Hierofante fornece o método formal, ortodoxo, por meio do qual é possível acessar a Sacerdotisa. Qualquer coisa que você vê sobre tarot por aí – livros, blogs, revistas, palestras, cursos – tudo isso é o Hierofante. Qualquer tentativa de traduzir em palavras, de dar corpo ao conhecimento “secreto” (porque íntimo) do Tarot, vai resultar em esquemas e doutrinas que são expressões do Hierofante. Porque o Tarot em si é a Tora da Sacerdotisa – ele não é dito, por não poder ser posto em palavras, é uma coisa que é secreta por não ser racionalizável. É por isso que a Sacerdotisa é dita ser virgem, não corrompida.

      Qualquer coisa escrita ou dita sobre Tarot nunca deve ser vista como uma verdade, mas antes, como um sinal que aponta a uma das direções para alcançá-la.

      Denada, Flávio, obrigado você por me trazer inspiração e ideias.

      Abç

      Comentário por Leonardo Dias — agosto 13, 2010 @ 2:08 PM

  2. Leonardo, estava aqui pensando com meus botões (adoro essa expressão, gostaria de saber de onde saiu) , depois de ler o excelente post sobre a Rainha de Espadas, será que existe alguma relação entre ela e o arcano oito, da Justiça? Fiz uma googleada e não vi ninguém fazer essa comparação, apesar de a iconografia ser extremamente parecida. Você poderia falar disso? Um beijo, tudo de bom
    Luciana

    Comentário por Luciana D — agosto 19, 2010 @ 2:59 PM

    • Luciana, fiz um post com a sua pergunta, é só clicar aqui. Me diz se esclareceu.

      Abç!

      Comentário por Leonardo Dias — agosto 21, 2010 @ 3:55 PM

  3. […] Arcanos Maiores e Arcanos Menores – qual afinal é a real diferença? […]

    Pingback por Índice de Posts « Descobrindo o Tarot — agosto 22, 2010 @ 3:36 AM


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