Descobrindo o Tarot

agosto 28, 2010

ESCOLAS ESCOLHAS ESCOLAS ESCOLHAS – ESCOLHA AS ESCOLAS

Filed under: Diversos — Tags:, , — Leonardo Dias @ 11:25 PM

Minha chamada de participação dos leitores já começa a dar resultados. Um dos primeiros assuntos sugeridos, tenho certeza, dá voz a uma dúvida que muitos estudantes de Tarot nutrem, em maior ou menos grau. Eu sabia que uma hora eu ia ter que tratar desse assunto, então vamos lá. No final do texto você também vai encontrar dois videos que eu gravei falando do mesmo assunto do post.

A Rainha de Ouros, me ajudou divulgando meu video do blog em sua comunidade de Tarot no Orkut. Antônio O, um dos membros da comunidade, lançou a seguinte questão –

Minha pergunta se refere a essa coisa sobre escolas e suas divergências, o que gera muita confusão para todos nós, uma vez que as divergências são oriundas das tais escolas e, ao longo do tempo, seus seguidores continuam com todos os argumentos que são capazes para defenderem seus pontos de vista. (…) O tarô de Crowley ou Waite e a Golden Dawn acabam contribuindo para aquilo que ouvimos muito por aí: cada um pode convencionar o tarô conforme o seu entendimento, e olha que os “entendimentos” são também muito divergentes, levando os símbolos prá lá de Waite ou Crowley. Cito apenas os dois por serem mais conhecidos. Tenho os dois baralhos e os utilizo (…) simplesmente como tarô, sem nenhuma distinção que fazem as imagens, procurando a integração e a inserção simbólica clássica. (…)

Algumas coisas na vida são certas. A morte é o exemplo mais óbvio – é certo que todos vamos morrer. Para os estudantes de Tarot, ver-se diante dessa questão das diferentes abordagens é tão certo quanto a morte. Cedo ou tarde, cada um de nós vai ter que abordar essa questão. E, em seu processo de aprendizado, cada um acaba inventando sua forma de lidar com essas disparidades. Na pergunta de Antônio, percebemos que ele apresenta o problema (a divergência entre as escolas) e a solução que ele encontrou para tal problema (usar os baralhos ‘simplesmente como tarô’, buscando a integração ao ‘simbolismo clássico’). Em sua pergunta, Antônio menciona dois elementos do universo do Tarot ao redor dois quais gira muita controvérsia – as tais escolas, e os diferentes baralhos. Cada um desses elementos merece consideração especial. Como eu sei que esses são dois temas frequentes em discussões sobre o Tarot, eu vou aproveitar o ensejo do Antônio para explorar um pouco mais a questão.

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Escolas, escolhas . . . . O lugar é a França, e a época é algum momento entre os anos 1773 e 1778. Antoine Court sai para visitar uma amiga que acabara de chegar da Suíça, a terra natal de ambos. Antoine poderia ser considerado com justiça um pensador não-conformista em sua época, afeito a métodos pouco afinados com o racionalismo então em voga. Pastor protestante – numa época em que isso ainda agregava alguma controvérsia – e franco-maçom ativo, Antoine escolheu como sua obra de vida resgatar um suposto conhecimento primitivo da humanidade que, de acordo com sua crença, tinha em seu passado uma Era de Ouro caracterizada por avanço intelectual e iluminação espiritual. Antoine sumarizou todos os desdobramentos dessa sua convicção em sua obra-prima, uma coleção de nove volumes intitulada Le Monde Primitif, onde ele busca justamente resgatar o pensamento dessa civilização antiga, discutindo sobre temas tais como linguística, mitologia e simbolismo ancestral. A respeito desse último tópico, o encontro com essa amiga suíça acabou tendo um papel importante. Em algum momento da visita, a mulher decide que é hora de jogar cartas. Suas cartas, no entanto, são diferentes das então comuns na França, onde o já cinquentão Antoine morava há décadas. Esperto, Antoine logo nota isso. Ele então acaba descobrindo tratarem-se de cartas de tarot, um jogo que um dia fora muito popular em toda a Europa, mas que agora estava virtualmente esquecido em Paris. Uma das cartas retratava uma figura cercada por uma guirlanda, tendo ao seu redor as faces dos quatro querubins. Aos olhos de Antoine, a alegoria era óbvia – ele tinha diante de si o que restava de uma antiga tradição egípcia:

“(…) passei meus olhos sobre a carta [O Mundo] & imediatamente entendi a Alegoria. Cada pessoa para de jogar e vem ver essa maravilhosa Carta, na qual eu percebo o que eles nunca haviam visto. Cada pessoa me mostra outra: em um quarto de hora o baralho havia sido inteiramente examinado, explicado & declarado egípcio, e tal não era um truque de nossa imaginação, mas o produto de deliberadas associações e sentimentos do baralho com tudo o que então se sabia das ideias egípcias.”

Antoine Court (de Gébelin, como ele acabou por se auto-nomear) decide então incluir um ensaio sobre o jogo do tarot em sua obra, discutindo suas origens supostamente egípcias e sua ligação com os mistérios dessa Era de Ouro de nossa civilização. Na época, as obras de Gébelin foram um sucesso – a própria família real francesa encomendou cem cópias dela. Entretanto, porque careciam das evidências e argumentos válidos aos olhos do racionalismo, as especulações gerais de Gébelin não durariam muito no meio científico, sendo posteriormente descartadas como fantasiosas e infundadas. Gébelin certamente estaria fadado ao esquecimento, não tivesse ele iniciado uma corrente de pensamento embasada na firme convicção de ser o tarot o guardião de uma antiga sabedoria esotérica. Foi assim que nasceu a tradição que hoje chamamos de Tarot esotérico.

Como bem pudemos perceber, tal nascimento caracteriza-se, ele mesmo, por nada mais que uma proposta de interpretação de imagens que, em si, não vão muito além de sugerir uma série de ligações. Após Gébelin, várias outras pessoas ocuparam-se com essa tarefa, por vezes ingrata, de tentar interpretar os símbolos das misteriosas cartas de tarot. Com o tempo, várias tradições se estabeleceram. A história do Tarot esotérico é a história de uma sucessão de propostas de interpretação. Não é de se espantar que essa seja uma grande questão no mundo do estudo do Tarot.

De um lado, temos as imagens do Tarot, criadas por não-sei-quem, em não-sei-quando; de outro, o monte de hipóteses sobre o que elas pretendem significar, desenvolvidas por um monte de pessoas, em um monte de épocas diferentes. Até onde eu entendo, no contexto específico do estudo do simbolismo do Tarot, o que comumente chamam de “escolas” são as diversas formas desenvolvidas para se abordar tal simbolismo. É consenso que a profusão de abordagens, e o fato de cada uma possuir diversos traços que constantemente invalidam as demais, são realmente responsáveis por bastante confusão para quem decide estudar e praticar Tarot. No entanto, eu acredito que essa confusão começa a dissipar-se ao passo em que tentamos ver tais abordagens através de suas semelhanças, em vez de suas divergências. Ao fazermos isso, acabamos por perceber que o objetivo final de toda abordagem é um só – extrair significado das imagens do Tarot. Desde Gébelin, uma série de estudiosos apresentou suas propostas de interpretação das imagens, seu método de extrair significado delas. Claro, para cada estudioso, sua teoria não tinha nada de proposta, mas era sim a própria Verdade, que ele estava descobrindo. Contudo, passado o afã em decifrar o tal segredo do Tarot, podemos afirmar que todas as abordagens consistem nisso mesmo – propostas de interpretação.

No decorrer do processo de “decifrar” as cartas, algum desbravadores abriram caminho na mata virgem do Tarot, e alguns caminhos de terra batida acabaram por virar avenidas movimentadas. Quando alguém decide estudar Tarot, acaba por deparar-se com essas avenidas, e realmente fica difícil saber por qual seguir, porque a impressão é a de que só uma deve ser a “certa”, enquanto as outras levam à perdição. A meu ver, essa noção é essencialmente exclusivista, e esse exclusivismo é, ao menos em parte, reforçado pelos partidários mais apaixonados de cada uma das abordagens. Porém, quando se percebe que todas as avenidas levam para o mesmo fim, percebe-se que o foco da questão de qual caminho seguir não deve ser posto exatamente nas avenidas, mas no viajante. Afinal de contas, é o viajante quem trilha o caminho, não as avenidas. E o fim é um só – o Tarot; não as cartas do Tarot, ou as imagens, ou a interpretação dessas imagens, mas o Tarot em si, aquilo que se esconde por trás das imagens. E esse Tarot não pode ser descrito, mas apenas sinalizado, não por ser hermético ou oculto, mas por ser indescritível, irracionalizável – secreto, portanto. Várias pessoas propuseram formas de acessar um conhecimento que, justamente por estar em imagens, é essencialmente inefável.

Eu acredito que a função dessas correntes de pensamento é a de fornecer ao estudante uma estrutura sólida sobre a qual ele possa se sustentar. Elas dão um corpo ao que é incorpóreo, e trazem ao mundo objetivo algo que nele não existe a princípio, pois o Tarot não está em lugar nenhum que não dentro do próprio estudante, e cada metodologia é só uma forma de acessar esse Tarot interno. Cada abordagem de interpretação do Tarot pode ser comparada a um andador, aquele equipamento com um assento e rodinhas que muitos pais usam com seus filhos enquanto eles ainda não sabem andar. O bebê fica no andador e se habitua aos movimentos, aprende com eles, até o momento em que finalmente se torna capaz de andar com suas próprias pernas.

Uma coisa que eu acho importante fixar é que a obra de cada autor é, antes de tudo, o registro de uma forma que foi encontrada para acessar o simbolismo do Tarot e dominar a sua prática. Todavia, essa forma não é única, não deve ser vista como tal, e a ideia em estudá-la é ver um exemplo para desenvolver nossa própria forma. Os melhores autores e praticantes de Tarot que eu conheço demonstram influência de uma ou outra abordagem, mas no fundo dá pra ver que eles encontraram o Tarot dentro de si mesmos. Estruturas de conhecimento são o reino do Hierofante do Tarot. O Hierofante é o sumo-sacerdote que preside os segredos da Sacerdotisa – ele não é os segredos, ele apenas detém as chaves para eles. O segredo em si é imaterial, e o trabalho do Hierofante é justamente materializar esse conceito em uma doutrina que fornecerá ao iniciado a estrutura necessária para que ele encontre o segredo por si mesmo. Às vezes, algum hierofante pode ficar meio cheio de si, e achar que é mais que um guia, mas isso é só um engano dele. Assim, da mesma forma que é um erro de cálculo identificar o mistério na doutrina, é incorreto supor que o Tarot se reduz a essa ou aquela abordagem.

A gente não deve se focar demais nessas “escolas”, ou enxergá-las como um fim em si, porque a ideia não é manter-se preso a elas, mas transcendê-las, quebrar o código e acessar o Tarot diretamente. É a diferença entre o artificialismo e a firmeza da Torre e o paganismo nu da estrela, que demarca um contato direto com a vida. A Torre retrata justamente o momento em que a estrutura se desfaz, o código é quebrado, e ocorre a iluminação – o raio, que de luz-flash transforma-se em luz-fixa, cintilante – A Estrela. E a Estrela é nua, pois ela é livre. O que cada estudante/praticante de Tarot deve manter em mente é que cada escola oferece uma proposta de interpretação, que é verdadeira e real dentro de seu próprio contexto, mas que não passa de uma estrutura artificial fora dele. Essa relativização é importante, creio. Quem entrou em contato direto com o Tarot deve saber do que eu estou falando. Como estudante, eu posso dar o testemunho de que tenho apenas um vislumbre disso, mas eu sinto que o Tarot é algo vivo, e que chegará o momento em que eu vou quebrar o código e unir-me a ele em si. Não ao RWS, ou a qualquer outro baralho, mas ao Tarot. Nesse momento, qualquer abordagem vai ser tão útil quanto um andador é para a criança que aprendeu a andar sozinha.

Assim, minha contribuição para essa controvérsia pode ser resumida nas seguintes linhas – não se preocupem demais com essa questão de escolas, não as levem demais a sério. Escolham a que mais lhes agradar, ou a que mais lhes fizer sentido, e foquem-se nos seus estudos, e nas suas próprias descobertas do Tarot. Procurem o Tarot dentro de vocês mesmos. Não sejam dogmáticos; ser dogmático é tomar a doutrina por verdade, e isso sim é erro. Essas estruturas não são nem um pouco verdadeiras – são mentiras bem contadas, no máximo, e podem ser comparadas àquelas estruturas de ferro usadas para sustentar um foguete antes que ele decole. Sua função é só nos dar suporte até estarmos prontos para voar.

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Baralhos que embaralham . . . Então vem a questão dos baralhos. Em sua pergunta, Antônio menciona a diferença entre os vários tipos de baralho de Tarot, e como cada novo baralho realiza alterações e variações que no final confundem os estudantes. O baralho, enquanto ferramenta prática, é o fator que traz ao mundo prático a diferença teórica das escolas. Da mesma forma, a maneira com que lidamos com as diferenças entre os vários baralhos tende a refletir a maneira com que lidamos com as diferenças entre as escolas de abordagem. Antônio brevemente menciona que diante das diferenças, tende a fazer algo que muitos estudantes de Tarot fazem: “Tenho os dois baralhos e os utilizo simplesmente como tarô, sem nenhuma distinção que fazem as imagens, procurando a integração simbólica clássica.” Embora isso não represente um problema, tenho minhas dúvidas quanto a essa atitude, especialmente do ponto de vista do proveito que é tirado de cada baralho como uma ferramenta de leitura.

A discussão da permutabilidade dos baralhos tem suas bases no conceito de universalidade dos símbolos do Tarot, ou seja, na noção de que existe um valor universal e um significado definido enraizando qualquer variação. Se os símbolos do Tarot têm um valor definido, então qualquer baralho é o mesmo, e a importância das diferenças entre um baralho e outro pode ser confortavelmente relegada ao mesmo nível de importância que diferentes caligrafias conservam em relação a uma mesma coisa escrita. O problema nessa concepção está em justamente determinar o dito valor universal de cada símbolo, ou conjunto de símbolos. Quem quer que tenha criado o Tarot não deixou nada escrito a respeito, de modo que hoje o que nos resta são as imagens, e uma série de evidências. Melhor dizendo, o que nos resta são muito provavelmente ecos dessas imagens, se considerarmos que as primeiras imagens do Tarot provavelmente se perderam no tempo, deixando para nós somente cópias – mais ou menos tardias, mais ou menos fiéis, mas cópias ainda. De qualquer maneira, eu sinto que atribuir aos símbolos do Tarot um significado super definido e elevá-los a um patamar universal seja uma atitude questionável em si, visto que, de certa forma, tal concepção descaracteriza o próprio processo de representação, que é naturalmente mutável e fluido. Sobre isso, basta dizer que palavras também são símbolos. Palavras estão sujeitas a uma enorme variação de sentido, de falante para falante, e também sujeitam-se à ação do tempo, que modifica seu uso – palavras evoluem. É possível aplicar com conforto essas mesmas regras aos significados atribuídos às cartas. Significados universais são, portanto, coisas difíceis de se alcançar – isso se ainda forem desejáveis em si.

Eu não posso se posto no grupo daqueles que sustentam que qualquer baralho de Tarot é intercambiável com qualquer outro. Talvez fosse realmente mais legal se houvesse essa permutabilidade – ou talvez não. A intenção de um autor ou artista ao criar um novo baralho de Tarot é, através dessa nova obra, dar forma à sua visão do Tarot. E toda visão nova conserva alguma diferença com as anteriores que lhe originaram (assim como também muitas semelhanças, e é bom não se esquecer disso), como galhos brotando de um mesmo tronco. Mais uma vez, a gente tem que ser capaz de contextualizar e relativizar as coisas.

Eu tenho uma visão meio técnica de baralhos. Pra mim, um baralho de Tarot é uma ferramenta, não muito diferente de uma câmera fotográfica ou um computador. O baralho está para o praticante de Tarot como a câmera para o fotógrafo, ou o pincel para o pintor. E nada melhor que o manual de instrução do fabricante para nos dizer como o dispositivo funciona, certo? Um dos meus motivos para ter escolhido o Rider-Waite-Smith como meu baralho de estudo e prática foi justamente a possibilidade de acesso a material escrito sobre ele – ainda que não muito claro.

Acho que eu poderia elencar dois aspectos dessa questão de permutabilidade de baralhos importantes o suficiente para serem brevemente mencionados. Primeiro, existe a implicação técnica dessa situação. Da mesma forma que diferentes câmeras digitais vão oferecer diferentes maneiras para se executar as mesmas tarefas, diferentes baralhos vão oferecer diferentes interpretações de um mesmo tema ou símbolo. Desse ponto de vista, usar dois baralhos diferentes sem levar em conta suas diferenças é comparável a usar um Mac e um PC achando que os mesmos comandos vão executar as mesmas tarefas – qualquer um sabe que isso faz pouco sentido. Os fabricantes dos dois produtos certamente têm concepções diferentes de como tais tarefas devem ser executadas (e talvez mesmo concepções diferentes sobre qual deve ser o papel de uma máquina, pra começar), e isso se reflete diretamente em seus produtos. Não é nem um pouco diferente no caso dos baralhos. Waite tinha suas ideias, Crowley tinha as dele, etc.. O produto dessas ideias é justamente os baralhos que eles criaram, nos quais suas ideias manifestam-se. O praticante que quiser extrair o máximo de proveito de todas as possibilidades que um baralho oferece provavelmente vai levar em consideração as concepções de seu criador durante a prática.

Muitas vezes, as diferenças serão irreconciliáveis, e exigirão do praticante certa dose de flexibilidade e alguma disposição a adaptar-se. Eu tenho um baralho de Tarot, The New Tarot Deck, onde as atribuições elementais dos naipes de Ouros e Espadas são o inverso do que eu estou acostumado – Ouros são associados ao Ar, e Espadas à Terra. Não há meios de ser insensível a tal diferença. Eu não posso ler o Sete de Espadas do The New Tarot Deck da mesma forma que eu leio a mesma carta do RWS; por outro lado, eu também não posso ler o Sete de Espadas dele como o Sete de Ouros do RWS – não é tão simples assim. Se eu quiser usar esse baralho, eu vou ter que renunciar a parte de minhas concepções, e me dispor a abraçar outras, mesmo que momentaneamente. Eu terei que adaptar meu ponto de vista ao contexto estabelecido pela ferramenta que eu estou usando. De fato, ao tirar duas cartas perguntando ao The New Tarot Deck o que ele tinha a me ensinar, o baralho foi curto e grosso – A Torre e A Estrela! No final das contas, fui forçado a admitir que naipes e elementos são dois grupos distintos entre os quais travamos correspondências artificiais.

Segundo, existe a obra de cada criador, e nossa consideração a ela. Em qualquer baralho moderno de Tarot, especialmente os mais tradicionais, como o RWS ou o Crowley Thoth, cada inovação baseia-se em razões bastante concretas. Há um motivo para, por exemplo, a Força e a Justiça terem suas posições trocadas no RWS, ou a estrutura das cortes no Thoth ser completamente diferente, com príncipes e princesas. Tais motivos costumam ser bem concretos, e fazem parte da proposta dos criadores dos baralhos. Mais que isso, é possível afirmar que eles são boa parte das razões que levaram o criador a decidir produzir um novo baralho “retificado”, como Waite costuma dizer. Uma atitude que desconsidera tais particularidades implica em igual desconsideração do trabalho do autor como um todo, incluindo o próprio baralho.

No final das contas, Waite provavelmente tinha uma concepção da Força, por exemplo, e Crowley tinha outra. Ambas concepções não eram a mesma, e poderiam mesmo serem vistas como duas coisas diferentes o suficiente. Da mesma forma, cada praticante tem sua própria concepção do que é a Força, pura e simplesmente porque cada pessoa vê tudo de uma forma particular. De certa maneira, a relação entre o criador de um baralho e cada um de seus usuários é como que uma negociação, onde o usuário é meio que forçado a aceitar como válida a proposta de interpretação do autor, da mesma forma que ao comprar uma câmera Canon, o usuário terá que aceitar a filosofia de uso da Canon para poder usar sua câmera nova. E quanto mais ele dominar essa filosofia, mais habilidosamente ele vai ser capaz de manipular o dispositivo. Quanto melhor ele entender o funcionamento de sua câmera, melhor ele vai ser capaz de usá-la para expressar sua sensibilidade fotográfica. Consequentemente, suas fotos serão melhores.

Resumindo, meus dois centavos na discussão dos baralhos é esse – ainda que abordar a variedade (por vezes esmagadora) de baralhos por meio de uma atitude unificadora e universalista possa ser inicialmente imaginado como a solução ideal, tal solução deixa de considerar diversos aspectos da questão que, a meu ver, exercem papel fundamental no processo. Cada baralho de Tarot encarna todo um corpo estruturado de pensamento místico-filosófico, que certamente deve ser levado em conta no uso de tal baralho. Claro, nada impede o praticante de fazer uso dos vários baralhos que dispuser como bem entender. No entanto, isso se torna problemático justamente nos pontos divergentes existentes entre um baralho e outro. A questão aqui foca-se mais no quanto se pode aproveitar o baralho enquanto ferramenta.

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Concluindo

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Por um lado, temos as diversas propostas de interpretação das imagens do Tarot, cristalizadas em doutrinas completas, cada qual com seus seguidores; por outro, temos os baralhos que incorporam os preceitos dessas doutrinas, apresentando-os em sua re-leitura do Tarot. Creio que a forma de lidar com essas disparidades esteja, antes de tudo, em manter em mente que cada doutrina é verdadeira em seu próprio contexto, e que, ao usar um produto de seus preceitos, o praticante deve dispor-se a levar tais preceitos em consideração, incorporando-os também a sua prática. Assumir os preceitos de uma doutrina como verdadeiros ao lidar com ela faz parte do processo de negociação em que consiste o próprio contato com ela.

Trocando em miúdos – ninguém pode afirmar que rock é de alguma forma melhor que valsa, ou vice-versa. Ambos são música, sim, porém cada ritmo deve ser dançado à sua própria maneira. Ainda que tudo seja dança, não funciona tentar dançar rock quando valsa estiver tocando. Quando um certo ritmo se faz presente, ele é quem dita as regras, e se você quiser dançar, tem que segui-las.

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É isso, espero ter explicado mais que confundido. Obrigado à Rainha de Ouros pela divulgação, e a Antônio por contribuir com uma questão que, além de me ajudar a entender melhor esse tópico, talvez ajude outras pessoas a vê-lo melhor também. Abaixo, os videos – –


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2 Comentários »

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Blog de Tarô and Blog de Tarô, Arierom Salik. Arierom Salik said: No Descobrindo o Tarot: ESCOLHA AS ESCOLAS http://goo.gl/60oX por Leonardo Dias #tarot […]

    Pingback por Tweets that mention ESCOLAS ESCOLHAS ESCOLAS ESCOLHAS – ESCOLHA AS ESCOLAS « Descobrindo o Tarot -- Topsy.com — agosto 28, 2010 @ 11:41 PM

  2. Léo,
    Simplesmente sem palavras, após ler esse texto magnífico, super inteligente e repleto de exemplificações paralelas que corroboram muito para o entendimento desses caminhos do tarô.
    Devo esclarecer aqui (o que não coloquei na minha no meu questionamento) é que sou fascinado por imagens de todos os vários e vários tarôs existentes, desde que eles tenham realmente imagens que remetam aos arcanos, pois por mais “criativos” que sejam uns tarôs são um tanto esdrúxulos, prá não dizer outra coisa… Bem, se eu recebo uma mesma mensagem escrita por diferentes caligrafias, a mais “legível” é a que vou considerar logo de cara, sem, portanto, relegar as outras.
    Léo, o tarô está sendo um caos prá mim. Estou em crise com ele! Viva!
    Grande abraço e PARABÉNS!

    Abraços
    PS:deixei o mesmo comentário na comunidade da Rainha de Ouros Tarô Tarô,Tarologia & Estudos.

    Comentário por Antônio de Oliveira — agosto 29, 2010 @ 1:22 PM


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