Descobrindo o Tarot

outubro 19, 2010

LER CARTAS É UMA ARTE II – papo com Sandra Andrade

Filed under: Audio, Diversos — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 10:20 PM

Meu último post recebeu um comentário muito legal, feito pela leitora Sandra Andrade. Decidi publicar partes de seu comentário aqui, adicionando os meus takes às ideias que Sandra lançou. O resultado é um ‘papo’ a respeito de acertos, verdades, prática e simplicidade, com direito a Matrix, Picasso, e até a Björk, rs.

Podcast AQUI.

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Tenho uma amiga que me diz: Tu acertas sempre tudo! Acertar? Mas trata-se de uma lotaria? Como se conseguisse o milagre de acertar todas as semanas nos números todos? Probabilidades de 1 para 100 000 000 000? Porque é que as pessoas veem assim o Tarot? As que não trabalham com ele.

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Exato, na mosca. Você disse tudo, rs. É como se fosse uma loteria. As pessoas se focam muito nessa ideia de acerto, provavelmente porque uma leitura que reafirma a verdade deixa mais fácil a impressão de que o Tarot é algo legítimo. Essa forma de pensar é horrível, porque já parte da pressuposição de que o Tarot não é algo verdadeiro, caso contrário, “acertos” não seriam vistos como coisas tão especiais. Como se acertar com as cartas fosse justamente ganhar na loteria – o consulente se sente premiado, presenciando um milagre. Pior que isso, nós mesmos, leitores, tendemos a ver as coisas dessa forma. Isso é o tipo de coisa que, com certeza, pede mais discussão e questionamento.

Quando a gente pensa – um pouquinho que seja – percebe logo que “acertar” é um conceito arbitrário. Em geral, consideramos “certo” aquilo que reafirma a verdade. Mas de que verdade estamos falando? Da verdade do consulente? A do leitor? Daí, o que a gente logo percebe é que, na maioria das vezes, consulente e leitor consideram “verdadeiro” aquilo que confirma os pontos de vista deles sobre algo. E, nesse caso, não adianta incriminar o consulente – ambos consulente e leitor são cúmplices nisso que podemos chamar de uma falta.

Eu acredito que, mais que “acertar”, uma leitura deve acrescentar.

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Quanto a (…) querer dar todos os significados que lemos nos livrinhos, penso que isso vai depender da forma como a pessoa começou a estudar Tarot. É como a educação. Inconscientemente agimos de determinadas formas em determinadas situações porque fomos educados para tal e está de tal forma entranhado em nós, que não conseguimos contrariar essa tendência conscientemente. Penso que o mesmo acontece com o Tarot. Se começarmos a aprender Tarot pensando que aprender Tarot é atribuir um ou vários significados fixos, vamos chegar ao dilema que estás a propor, Leo.

 

“Educação” me faz pensar no Hierofante (carta 5), o responsável pela perpetuação do conhecimento, através de sua divulgação. Não sou nenhum especialista em educação, mas eu tenho a impressão de que a forma de aprendizado preconizada nas escolas se baseia muito na decoreba, e em uma espécie de aprendizado mecânico, pouco consistente. O sujeito não aprende a pensar nas escolas; isso ele talvez vai aprender na universidade (caso ele chegue tão longe). Não é pra se espantar que a gente vai buscar aprender o Tarot assim, visto ser essa a única forma que nos ensinaram a aprender. E é como você mesma disso, é algo introjetado, não vai sair com uma simples conscientização de tal.

Eu adoro listas, porque elas sintetizam e facilitam o acesso à conceitualização da carta. No entanto, é preciso saber usá-las, do contrário o feitiço vira contra o feiticeiro. É importante para o estudante de Tarot construir uma base sólida no seu entendimento das funções semânticas de cada carta, e isso não se consegue só com listas.

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Precisamos fazer, como alguns dizem: Reprogramação! Obrigar-mo-nos a fazer as coisas de outra forma não sistemática, rígida, com regras. O meu conselho muito leigo – absorver todos os conceitos possíveis sobre as cartas de Tarot, ler sobre outras opiniões, teorias, conceitos; fazer uma sopinha muito nutritiva na nossa cabeça.

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Nosso mundo é sistemático, e isso é parte cabal do problema, acredito. Nada contra o sistema, ele é uma coisa legal. Porém, mais uma vez, a gente aperta a tecla do Hierofante, do Imperador. Sempre há o perigo de perder-se na sistematização excessiva. A cantora Björk tem um video que fala sobre isso, chamado Bachelorette. Nele, o Sistema toma proporções surreais, com uma mesma narrativa se replicando dentro de si mesma à exaustão, cada vez mais perdendo o sentido. Me faz pensar na palavra do Hierofante virando dogma e se espelhando no telefone-sem-fio do povo, que acaba transformando-a em outra coisa. Então, no final do videoclip, a natureza selvagem toma conta de tudo – a Imperatriz. Essa temática de volta às origens, de um resgate do corporal, tribal, natural, é um motivo recorrente no trabalho da Björk, e cabe particularmente bem aqui. Não podemos nos esquecer das origens, dos motivos originais pelos quais fazemos o que fazemos. São nossa Estrela – nossa verdade. A consciência constante das origens, do natural, acredito, é uma ótima forma de impor um limite a essa tendência ao sistema, muito própria da nossa cultura contemporânea. A gente não deve se esquecer de que o sistema é basicamente artificial, o que significa que ele é um artifício – um meio para se conseguir algo. O sistema é nosso, nós devemos ter controle sobre ele – não o contrário, como acontece hoje.


Você também toca num ponto importante – a ampliação dos horizontes. Todos nós precisamos nos atualizar constantemente. Sempre vai ter alguém para acrescentar um ponto de vista mais fresco, e absorver isso vai deixando nossa visão mais esférica. O meu conselho leigo é simples – prática. Eu recebo mensagens de muitos leitores no blog dizendo que adoram Tarot, mas não praticam, leem só pra amigos, ou algo do tipo. Acho que eles poderiam sim fazer melhor que isso. Prática é importante, é o que lubrifica. Quanto mais o Tarot é praticado, mais tarot ele fica, rsrs.

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Deitar as cartas, olhar para elas, olhar para as imagens. Ver na carta uma história diferente a cada dia, ou a cada situação. E deixar a carta falar. Deixar a personagem falar! Onde vais hoje? Ou porque estás sentado? O que seguras? O que vais fazer com esses objectos hoje? Para onde olhas? O que estás a pensar? Por vezes é tão simples que não conseguimos fazer. Sabes, Leo, aquela sensação de ‘eu sei fazer tantas coisas elaboradas, que quando chego às simples bloqueio’?

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Total. Você toca em mais um punhado de pontos riquíssimos aqui. Primeiro, a importância de ser capaz de ver uma carta de diversos ângulos diferentes – há muitas Grandes Sacerdotisas na Grande Sacerdotisa. É o que eu quero dizer quando eu evoco o valor da tridimensionalidade das cartas. Geralmente, vemos cada carta como algo bidimensional, chapado. Deixar a carta falar é deixá-la sair do papel, vencer a barreira da bidimensionalidade e mostrar-se inteira, com comprimento, largura e espessura, na sua frente. É falar com ela de igual pra igual, e não limitar-se à relação observador-observado, sujeito-objeto, mas quebrá-la, transcendê-la. Isso que você disse vai muito de encontro com a minha ideia das cartas como entidades; mais que isso, a completa de uma maneira muito legal!

Isso me faz pensar em uma das cenas mais legais de Matrix, onde Neo visita a mulher que é o Oráculo, e lá encontra várias crianças paranormais. Com uma delas – um menininho que entorta colheres com a mente – Neo trava um breve diálogo:

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Menino – Não tente entortar a colher – isso é impossível. Em vez disso, tente apenas se dar conta da verdade.

Neo – que verdade?

Menino – não existe colher nenhuma.

Neo – não existe colher nenhuma?

Menino – …então, você vê que não é a colher que entorta; é apenas você mesmo.

 


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A mudança ocorre em nós, e ver uma carta de forma diferente requer, com efeito, uma mudança de posição.

Outra coisa de que você fala que é digna de menção é a simplicidade. É realmente muito difícil ser simples. Me lembro de uma citação de Picasso, onde ele diz que “com quinze anos, eu pintava como Velazquez, e demorei oitenta anos para pintar como uma criança.” É muito por aí. E então a gente tem sistemas mega complexos, como o da Golden Dawn. Sobre isso, Douglas Gibb, do blog TarotEon.com, diz algo muito legal em seu post Why Using Rationality to Access Intuiton Works. Segundo Douglas, o sistema da Golden Dawn, intricado e complexo, exigindo demais da mente racional, acaba por quebrá-la, o que dá espaço para a intuição. Entretendo a sua mente com um bombardeio de informações, você acaba por enganá-la, no sentido de entender algo que não pode ser entendido. O resultado é exatamente a transcendência do sistema. É o irracional sendo acessado através da racionalidade. Meio paradoxal, mas faz sentido. Mas, voltando, simplicidade é algo que se alcança com o tempo, como no caso de Picasso. Eu acredito que isso se deva ao fato de que o simples é o sintético, o natural, que de simples não tem nada. É justamente por ser tão bem feito que parece simples. E então a gente volta pra coisa da prática. Quem já viu um desenhista experiente desenhar, por exemplo, sabe do que eu to falando. Parece que o desenho sai do papel, emerge. E como é legal a ideia de uma leitura inteirinha saindo de um punhado de cartas, né? Simplicidade…

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E tentar dar todos os significados possíveis a uma carta é como dizer: “queres que te ofereça uma laranja citrino, ácida, cor de laranja, com gomos, etc?”. Toda a gente sabe o que é uma laranja. Se vais oferecer uma laranja, a pessoa já sabe o que é (…), sabe que tem gomos, que é ácida, tem casca… Portanto, é uma laranja. “Olha queres que te ofereça uma laranja para prevenir a gripe?” já se sabe que, se é para prevenir a gripe, é porque tem vitamina C, logo não precisas dizer que tem gomos, é ácida (…), porque só a tás a oferecer porque tem Vitamina C. Outro dia, dizes: “tenho umas laranjas muito doces!”, e ofereces à pessoa porque a laranja é doce. Mas não lhe vais dizer “e, olha, tem vitamina C!”. É um exemplo um bocado idiota. Logo, a carta que tu está a querer ler, hoje é um significado. Para quê dizer todos os outros??? Apenas um interessa ao consultante. Todos os outros só vão trazer demasiados pormenores à questão. O consultante quer uma resposta simples e clara. Curta.

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Excelente. Essa analogia não tem nada de idiota, absolutamente – é perfeita. Uma laranja é uma laranja, e esse ou aquele aspecto seu é ressaltado quando necessário. Isso vai de encontro à história de ver as cartas em 3D. De acordo com sua posição, você vê um aspecto diferente de cada carta. Você entendeu perfeitamente o que eu quis dizer, e a ideia toda é tão simples que a gente fica mesmo bobo, rs. Assim como uma laranja é uma laranja, a Grande Sacerdotisa é a Grande Sacerdotisa – os vários significados que atribuímos a ela são diferentes partes do todo que ela é. E eu acredito que uma carta de Tarot não pode ser compreendida à exaustão, mas vivenciada. A gente não deve buscar uma apreciação racional, desengajada das cartas – acredito que a coisa seja mais física, hands-on, no sentido de trazer a própria carta para si mesmo, ou “entrar” nela. Gente, o Tarot é essencialmente místico. Suas raízes conceituais são místicas, o cenário cultural do período histórico em que ele supostamente surgiu exaltava o misticismo e o antropocentrismo. O misticismo se caracteriza justamente pelo contato direto com o divino, pela união com o sagrado, por vivenciar mais que contemplar. Misticismo é super hands-on. A gente pode ver isso na última carta do Tarot, O Mundo, que nada mais é que a união completa com o Divino, a re-ligião.

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Acho que é isso, muita viajação tarológica com a Sandra, rs. Quero agradecer a Sandra pela inspiração incrível, e pela participação, e aos leitores do blog em geral, que, mais que meramente acertar, acrescentam 😉

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Abraço!

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9 Comentários »

  1. Leo,

    Fui apresentado pela nossa Rainha Dourada a você e seu blog. Achei muito interessante! Seus conceitos refletem sua forma de pensar e penso(!) que pensamos(!) parecido!

    Indiquei você no meu Blog, se me permite: http://pergaminhodaseras.blogspot.com/p/indicacoes.html

    Obrigado,

    Adash (MD)

    Comentário por Adash — outubro 20, 2010 @ 3:24 AM

    • Hey!

      Gente, que honra! Muito obrigado 🙂 Faz tempo que eu tive a ideia de fazer um post mais ou menos como esse seu, com indicações ou pay-it-forwards… Uma hora eu faço.

      Gostei do seu blog também, rola até uns quadrinhos, achei legal 😉 Pelo que eu percebi, ce trabalha como Thoth; respeito quem trabalha com o Thoth, rs. Vou te passar meu msn pra gente trocar ideia.

      Abraço, e brigado denovo pela participação, e por apreciar meu trabalho 🙂

      Comentário por Leonardo Dias — outubro 20, 2010 @ 3:36 AM

  2. Leo, como você e a leitora Sandra estavam inspirados! Que aula de sutilezas e pertinências…

    Comentário por Luciana D — outubro 20, 2010 @ 7:12 PM

    • Brigado, querida! O comentário da Sandra foi realmente inspirador, rasgo a seda com gosto. É o tipo de coisa que eu quero ver mais por aqui, porque vai de encontro à ideia original do que é um blog 🙂

      Bjão, e brigado pela participação!

      Comentário por Leonardo Dias — outubro 20, 2010 @ 7:15 PM

  3. Concordo! As vezes a carta te leva a passear por paisagens novas, no momento da leitura e aquilo trás um novo conceito. Acho que tem que deixar fluir. Se vc já sabe o sinificado, não deve mais se prender a ele. Tem que rolar um relaxamento básico. Ficar a vontade com a carta. É assim que vejo. As minhas melhores leituras de carta, foram feitas quando deixei rolar e escutar aquele sussurinho básico da intuição. Numa mistura de imagens das cartas com imagens de sua mente. E coisas que vem e eu sinto que devem ser ditas. É como se as cartas fossem minhas conselheiras. Sei lá é genial. Beijos de luz.

    Comentário por Moona Saví — outubro 20, 2010 @ 9:10 PM

  4. Pode parecer loucura… mas e se… O Tarot nos faz retornar às nossas origens? As VERDADEIRAS ORIGENS? Conhecemos as nossas verdadeiras origens ou aquelas que nós criamos ao longo do tempo?

    E se o Tarot nos faz querer ser nós mesmos mas nós simplesmente estamos nesta teia intricada de teorias e morais e leis e educações, que reagimos como um computador reage quando tem nele um programa que lhe dá ordens?

    Só usamos uma infima parcela do nosso cérebro. Porquê? O que poderiamos fazer com o total uso do nosso cérebro?

    E se vivemos num completo Matrix onde tudo foi criado e de onde não conseguimos nos desconectar e o Tarot seja o puxar dessa ficha da tomada?

    Comentário por Sandra Andrade — outubro 25, 2010 @ 10:01 AM

    • Hey, Sandra, a resposta para esse comment seu está aqui.

      Muito obrigado pela participação!

      Abç

      Comentário por Leonardo Dias — outubro 25, 2010 @ 12:05 PM

  5. O tarot nos tira o chão. E de que é que temos mais medo? Do desconhecido… O conhecido está cheio de regras que nos dizem TUDO E COMO DEVEMOS AGIR!Em todas as situações. O Tarot não é assim…

    Comentário por Sandra Andrade — outubro 25, 2010 @ 10:03 AM

  6. […] uma questão levantada pela leitora Sandra Andrade por meio de comentários ao último post. Achei legal publicá-la aqui, junto com a minha visão da […]

    Pingback por ATÉ ONDE ALCANÇA O ‘OLHAR’ DO TAROT? « Descobrindo o Tarot — outubro 25, 2010 @ 12:11 PM


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