Descobrindo o Tarot

outubro 19, 2010

LER CARTAS É UMA ARTE

Filed under: Diversos, Notas — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 3:08 AM

Oi, meu nome é Leonardo Dias, e eu tenho um vício – quando eu abro as cartas, eu quero interpretar e dizer tudo o que cada uma delas significa. Sabe aquelas listas de significado? Então. Eu sou um estudante em processo de desligamento delas. Uma mesma carta pode significar várias coisas, e eu, na minha loucura, tenho essa vontade de saber e poder dizer tudo, tudo o que cada carta está mostrando. Não sei bem por que – é natural, quando eu vejo, já estou fazendo. Acho que tem a ver com uma vontade de cobrir todas as possibilidades, de ser completo. Também, se eu disser tudo o que cada carta significa, a chance de errar é bem menor.

Isso tudo é insegurança.

Primeiro porque começar uma leitura já com medo de errar já é subverter a coisa toda. A ideia não é acertar ou errar; não é uma competição, ou uma exibição do quão “bom” eu sou (todo mundo diz isso, mas ninguém realmente sente isso, claaro que rola um ego – mas tudo bem…). Essa procura por “acertar” por “ser bom”, por ser “batata” (‘gente, eu vi cartas com fulano, e nossa, ele é batata, acertou tudinho!’) é um erro de concepção. A batateza de um leitor depende de tanta coisa… A ideia de ler cartas é estabelecer um diálogo, é interpretar os sinais – e não provar algo pra si mesmo, ou ser melhor que alguém. Claro, conhecimento técnico, método, etc, tudo isso está super em jogo, mas a coisa toda é bem mais Copas do que Bastões – acho que todo mundo concorda. Do jeito que eu racionalmente vejo as coisas, um bom leitor de cartas se faz sim de técnica e conhecimento, mas pro pão crescer você precisa de fermento e calor, e a intuição, a imaginação, essas com certeza são quentes – e vivas, rs.

Esse ímpeto megalomaníaco que eu tenho fica bem ridículo quando eu percebo que querer dizer todos os significados de cada uma das cartas de uma leitura é comparável a querer saber todas as acepções de cada uma das palavras de uma frase, rs. Pense em como isso soa completamente nonsense. Mesmo assim, é isso o que eu (e provavelmente você também) sinto vontade de fazer quando começo a ler as cartas. Como se quanto mais significados eu fosse lançando, melhor ficasse a leitura…

Como eu disse, isso é insegurança. A gente não tem certeza da nossa própria habilidade, do nosso feeling, e então fica recorrendo a esses expedientes racionalizadores da mente. A insegurança vem da mente – a mente é insegura por natureza. A mente duvida de tudo. A mente quer organizar tudo em um mundinho seguro onde cada coisa funciona exatamente como deveria, e onde existe controle total sobre tudo (salve, Osho, rs). Quer dizer, um mundinho chato. É nessas horas que a Torre me parece uma carta divertida, haha.

Cartas em leituras são mais que coleções de significados. É como eu sempre digo, elas são coisas vivas, como plantas num jardim. E praqueles que já estão torcendo o nariz pra essa visão mais orgânica, basta lembrar que a própria vida, com suas miríades de eventos aparentemente encadeados numa linha de tempo, um influenciando o outro, um provocando o outro, um interferindo no outro – isso em si já é orgânico.

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Cartas em uma leitura palavras em uma frase

Cartas em uma leitura = cores em uma pintura

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E então, eu percebo que eu não preciso ver as cartas em uma leitura só como palavras em uma frase – eu também posso vê-las como cores em uma pintura! Olhe um quadro de que você gosta. De preferência um desses bem impressionistas, ou abstratos – e que seja de um pintor competente. Observe como as cores dançam, como cada matiz contribui pro sentimento que a pintura evoca, como cada cor se define mais por seu lugar junto com as outras que por si mesma em particular. Não é diferente com as cartas.

Essa ideia de ver as cartas como cores me agrada. Não é uma ideia nova – já vi baralhos que exploram profundamente a questão da cor nas imagens, e vi mesmo baralhos que chegam a substituir as imagens por cores. De qualquer forma, a ideia me agrada porque cores são menos definíveis que palavras. O que é um azul? E um malva? O que é um fúcsia? Por outro lado, as cores falam conosco de uma forma mais contundente – como as imagens.

Observe a imagem abaixo –

Os rosas do lado esquerdo, por exemplo, parecem bem mais vivos que os do direito; os verdes parecem ser de tons diferentes. Não se engane – todas as cores nas duas imagens são do mesmo tom – exceto pela cor de fundo, que de um lado é amarela e, no outro, muda pra azul. As cores nos parecem diferentes porque se cria uma ilusão de ótica, chamada efeito Bezold, onde uma cor é percebida de maneira diferente de acordo com as cores que a circundam. Eu posso pensar que nossa mente tende a interpretar a imagem como um todo e, nesse processo, a avaliação precisa dos matizes acaba se comprometendo. Cartas se comportam de forma parecida. A proximidade de outras cartas vai afetar o significado de uma certa carta, de forma que um grupo de cartas acaba por ter uma dinâmica própria, onde cada elemento influencia e é influenciado pelos demais. Acha isso viajação? Qua tipo de relação você acha que existe entre você, seu computador, a cadeira onde você deve estar sentado, seu prédio, etc, etc? Tudo parece funcionar assim. Física…

O significado do grupo deve ser considerado antes que o significado de cada carta

Olhe para um grupo de cartas como um grupo de cartas. Elas estão ali, juntas, interagindo uma com as outras, mesmo que não a ponto de perderem suas essências. Considere a natureza desse grupo, antes de considerar cada um de seus elementos. Existe alguma recorrência de padrões, motivos, cores, formas, ideias? Para que direção esse movimento pende?

Esses dias, fazendo um video sobre um outro assunto, eu tive um insight que pontou essa questão de falar todos os significados (bem, eu nem sabia que isso era uma questão até eu ter o insight, haha) – –

Você pode olhar para o Dois de Pentáculos, como na figura acima, e escolher só a ideia relacionada a juggling, por exemplo. Daí, vem a questão – mas como, como, como decidir entre os diversos significados? Como saber quando o Pajem de Copas vem anunciar um bebê, ou quando ele fala de um novo amor, ou quando ele fala de imaginação e sensibilidade, ou quando ele mostra um rapaz – ou uma moça – sensível e delicado, ou quando ele indica fantasia descabida, ou romantismo?? Bem…

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Se eu tivesse uma resposta precisa e exata para essa pergunta, eu provavelmente já estaria rico

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Intuição. Imaginação. Feeling. São algumas das palavras que me vêm à mente. Coerência também. “Cabimento” é outra palavra ótima. Noção também é legal. Mas, assim, certinho, explicadinho em três passos simples, ninguém tem essa resposta (ou, ao menos, pensar assim me deixa mais tranqüilo, rsrs). Você constrói o seu Tarot conforme vai caminhando, e essa é a graça da coisa. Não ter um método padrão, uma cartilha, uma bíblia – isso é o legal. Pelo amor de Deus, o Louco, afinal de contas! Você tá lendo. Você olha pra carta e, pam!, você vê o que ela quer dizer. Daí, várias cartas juntas te dão vários pam!’s, então uma carta começa a provocar a outra, até a coisa toda começar a estourar como pipoca. É simples assim. É complexo assim.

Agora, o que você vai fazer com esses pam!’s, isso é decisão sua. Você pode dar-lhes ouvido e seguir a linha de pensamento que eles indicam – pode também dizer “ah, sim, verdade, mas além desse pam, esse Dois de Copas também pode querer dizer isso, e isso, e isso também, de acordo com a listinha tal…” , no ledo engano de confundir quantidade com qualidade.

Ler cartas é uma arte – é sensibilidade, é permitir-se inspirar por cada imagem, e é, inclusive, a arte do desapego, de saber desistir de certas coisas e fazer escolhas, e buscar a tão sonhada precisão (aaai, isso soou tão Lya Luft). E nem eu e nem você vamos jamais conseguir “ser bom” se não começarmos a exercitar esse desapego e essa capacidade de fazer escolhas desde já – e eu disse já, agora.

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Mas eu digo uma coisa – a melhor maneira de não ler cartas de Tarot é começar a leitura já com megalomania. Palavra de ariano 😉

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1 Comentário »

  1. Leo, adorei o texto…tanto tanta coisa na minha cabeça sobre o que disseste que nem consigo formular frases! 😀
    É muito difícil explicar a outra pessoa como é que nós lemos o Tarot, mesmo que essa pessoa também leia Tarot.

    Tenho uma amiga que me diz: Tu acertas sempre tudo! Acertar? Mas trata-se de uma lotaria? Como se conseguisse o milagre de acertar todas as semanas nos números todos? Probabilidades de 1 para 100 000 000 000?

    Porque é que as pessoas vêm assim o Tarot? As que não trabalham com ele.

    Quanto às leituras… Querer dar todos os significados que lemos nos livrinhos… Penso que isso vai depender da forma como a pessoa começou a estudar tarot. É como a educação. Inconscientemente agimos de determinadas formas em determinadas situações porque fomos educados para tal e está de tal forma entranhado em nós que não conseguimos de forma consciente contrariar essa tendência. E depois vamos ao psicólogo! 😀

    Penso que o mesmo acontece com o Tarot. Se começarmos a aprender Tarot pensando que aprender Tarot é atribuir um ou vários significados fixos, vamos chegar ao dilema que estás a propor Leo.

    E aí criamos um obstáculo a nós mesmos… Não somos capazes (ou seremos? Se somos capazes de falar sobre isso se calhar podemos nos libertar disso. (O conhecimento trás com ele compreensão)

    Precisamos fazer, como alguns dizem… Reprogramação! Obrigar-mo-nos a fazer as coisas de outra forma não sistemática, rígida, com regras.

    O meu conselho muito leigo… Absorver todos os conceitos possíveis sobre as cartas de Tarot, ler sobre outras opiniões, teorias, conceitos… Fazer uma sopinha muito nutritiva na nossa cabeça…

    Deitar as cartas, olhar para elas, olhar para as imagens e ver como se fosse uma história em que cada dia a carta conta uma história diferente (ou em cada situação)e deixar a carta falar. Deixar a personagem falar!

    Onde vais hoje? Ou porque estás sentado? O que seguras? O que vais fazer com esses objectos hoje? Para onde olhas? O que estás a pensar? Deixar a carta falar. Por vezes é tão simples que não conseguimos fazer.

    Sabes Leo, aquela sensação de eu sei fazer tantas coisas elaboradas,que quando chego às simples bloqueio?

    É um pouco por aí!

    E tentar dar todos os significados possíveis a uma carta é como dizer:

    Queres que te ofereça uma laranja citrino, ácida, cor de laranja, com gomos?… etc etc…

    Toda a gente sabe o que é uma laranja. Se vais oferecer uma laranja a pessoa já sabe o que é uma laranja, sabe que tem gomos…que é ácida… que tem casca…

    Portanto é uma laranja.

    Olha queres que te ofereça uma laranja para prevenir a gripe? Já se sabe que se é para prevenir a gripe é porque tem vitamina C, logo não precisas dizer que tem gomos, é ácida ou docinha… Porque só a tás a oferecer porque tem Vitamina C…

    Outro dia dizes tenho umas laranjas muito doces| E ofereces à pessoa porque a laranja é doce. Mas não lhe vais dizer e olha, tem vitamina C!

    É um exemplo um bocado idiota… 😉

    Logo a carta que tu está a querer ler, hoje é um significado… Para quê dizer todos os outros???

    Apenas um interessa ao consultante… Todos os outros são vão trazer demasiados pormenores à questão. O consultante quer uma resposta simples e clara. Curta.

    Aguardo os teus comentários! Beijos,

    San

    Comentário por Sandra Andrade — outubro 19, 2010 @ 6:14 AM


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