Descobrindo o Tarot

outubro 28, 2010

UPDATES DE SIGNIFICADO 4 – do Saltimbanco ao Alto Mago – 400 anos em 4 minutos – ou uma só olhada!

Artesão. Pelotiqueiro. Saltimbanco. Ilusionista. Mágico. Mago. . . Um pouco de história – originalmente, parece que a figura do Mago do Tarot retratava um ilusionista de rua, que ganhava a vida fazendo truquezinhos baratos, atraindo a atenção de curiosos. Não sabe bem do que se trata? Dá uma passeadinha ali pela Praça da Sé, ou a XV de Novembro, e você vai ver essa ‘tradição’ ainda em vigor em pleno século 21.

O entertainer de rua era uma figura conhecida nas cidades do norte da Itália dos séculos 14 e 15. O mesmo indivíduo podia fazer malabarismo com bolas, vender remédios, arrancar dentes, contar histórias, cantar, dançar e ainda fazer alguns truquezinhos de mágica (Burke 1978). (…). A mesma coleção de entertainers de rua ainda podia ser encontrada em cidades europeias no final do século 19 e [no começo do] século 20 (Berouet and Laurendon 1995).

Embora os entertainers fossem simplesmente malandros, suas façanhas costumavam ser tão impressionantes que eles eram vistos como mágicos ilusionistas (Burke 1978, p. 94). Assim, não é de muita surpresa descobrir que a imagem do bagatto do século 15 acabou se tornando conhecida como o mago/mágico.

(Parte do artigo de Robert O’Neill sobre o Mago, para Tarot.com. Tradução minha)

Existe um certo impasse de tradução aqui. O mundo do Tarot contemporâneo é anglo-falante, e isso ninguém pode negar. A exemplo de muitas outras áreas de conhecimento, existe mais literatura de Tarot sendo produzida em inglês do que em qualquer outra língua. Em inglês, a palavra comumente usada para identificar a carta 1 do Tarot é magician, que pode ser usada para designar tanto o mago que se ocupa com magia num sentido metafísico (ex. Crowley, Merlin), quanto o mágico que trabalha com truques e ilusões (ex. David Copperfield, Mister M, David Blaine). Magician = ‘mago’ e ‘mágico’.

Durante o que é comumente chamado de Renascimento do Tarot, o período da história marcado pelo retorno da atenção de muitos para esse maço de cartas, nos séculos 18 e 19, a figura do saltimbanco medieval passou a ser retratada mais como um mago/alquimista, o que perdura com certa regularidade até hoje. Essa parcial mudança de sentido na figura do saltimbanco medieval deve-se muito provavelmente ao então novo ambiente conceitual no qual o Tarot era inserido – o ocultismo e a Alta Magia.

Temos assim uma certa progressão aqui, um processo de evolução da figura do saltimbanco para a figura do mago/feiticeiro. De um lado, o malandro ilusionista do século 15; do outro, o alto mago do século 19. Ainda que seja possível evocar algum nível de diferença entre essas duas figuras viventes no nosso imaginário, eu não acredito em uma distinção muito fundamental entre os, digamos assim, arquétipos do saltimbanco e do Mago.

Primeiro, o caráter da figura do Bagatto, renascentista abre espaço para mais de uma interpretação, especialmente quando se percebe que estamos aqui falando não de um só baralho, mas de uma série de figuras oriundas de baralhos diferentes, dos quais, de acordo com O’Neill, cinco sobreviem até hoje. Dando uma olhada na iconografia renascentista como um todo, verificamos que a figura de um homem diante de uma mesa coberta de utensílios e ferramentas era frequentemente usada para retratar o alquimista e sua Obra, ou o artesão e seu trabalho – e não só o bagatto. Não obstante, basear-se nesse fato para legitimizar uma suposta origem concreta da figura do Mago como feiticeiro é ir longe demais – e também é desnecessário, visto que a figura do Mago ter sido assim desde o começo não legitimiza nada.

O que o Mago e o saltimbanco têm em comum? Ambos manipulam a realidade de acordo com sua vontade. De fato, seja por meio da manipulação das energias, seja por meio do ilusionismo, tanto o mago quanto o mágico trabalham e mexem com a realidade. Tudo está nos olhos de quem vê – realidade é percepção. O mágico nos faz acreditar que as coisas são de uma certa maneira e, no âmbito da mágica ao menos, as coisas são o que acreditamos que elas sejam. É como uma encenação, como um teatro – é uma realidade ‘de mentirinha’ que, no entanto, é real. Quando vemos as coisas por esse ângulo, percebemos que o suposto gap entre o ilusionista renascentista e o mago vitoriano não é tão grande assim, pois o trabalho de ambas as figuras consiste em, por meio da vontade, moldar a realidade. Pense no regente que, com sua batuta, manipula cada instrumento da orquestra e cria a música.

Dessa forma, a figura do bagatto e do mago feiticeiro se fundem para darem origem a um personagem poderoso e dinâmico, que sabe exatamente quando e o que fazer. Magia é a manipulação das forças dinâmicas elementais que são como que os blocos formadores da realidade – não muito diferente, em conceito, da química, que trabalha com os elementos formadores da matéria. A propósito, vale lembrar que a química contemporânea é uma área do saber que deu seus primeiros passos na própria alquimia. Tanto a Magia quanto a química mexem com as coisas em seu nível radical – o lugar de onde as coisas se originam. O Mago mexe na linguagem HTML da realidade, entendeu? É nesse sentido que o Mago mexe com as tais forças ocultas, invisíveis aos nossos olhos, da mesma forma que o ilusionista age em segredo por trás dos panos ou por baixo da mesa. “Ocultas” porque desconhecidas da maioria. De fato, não é muito difícil pensar em magia quando vemos certas coisas que a tecnologia é capaz de realizar – mais uma vez, tudo tem a ver com a nossa percepção, e a nossa noção do que é aceitável como “normal” e do que não é. É sobre essas duas coisas que o ilusionista age, e são essas duas coisas que o Mago mexe com seu trabalho.

Por fim, temos na raiz da figura Mago também a imagem do artesão, aquele que trabalha a matéria e cria algo novo. O artesão trabalha por meio da ténica, e essa é outra palavra que tem tudo a ver com o Mago do Tarot.

técnica
téc.ni.ca
sf (fem de técnico) 1 Conhecimento prático; prática. 2 Conjunto dos métodos e pormenores práticos essenciais à execução perfeita de uma arte ou profissão.

Um artesão experiente trabalha também com destreza – e eu já comentei aqui como que um trabalho executado com habilidade pode ser comparado a mágica. A técnica e a habilidade são duas faculdades do Mago que garantem o seu fascínio, e sua graça. Também o ilusionista faz uso dessas duas qualidades em sua atividade. Assim como o Mago e o ilusionista, o artesão põe a mão na massa e cria. Ele literalmente molda a matéria de acordo com sua vontade, com sensibilidade, destreza e habilidade.

A lição mais interessante que compor esse texto me ensinou foi a de que as imagens do Tarot, cada uma delas, são em si uma constelação de imagens e ideias. Cada imagem, ainda que homogênea, exibe traços das figuras que a compuseram, e conhecer mais tais figuras enriquece nosso entendimento da imagem.

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SIGNIFICADOS CONCRETOS

  • Da figura do pelotiqueiro, o Mago herda sua destreza, seu dinamismo e sua versatilidade;
  • Foco, enfoque preciso e o poder de efetuar mudanças são algumas das qualidades que o Mago compartilha com a figura do feiticeiro, bem como com os cientistas, os feiticeiros modernos;
  • Ação, atividade, auto-confiança e determinação são qualidades comuns das quais tanto o ilusionista e o Mago são bons expositores;
  • O Mago é uma carta essencialmente masculina, no sentido de que ele pede ou indica ação afirmativa e decisiva sobre um assunto. A ação do Mago é extremamente bem calculada;
  • Esperteza, inteligência, vivacidade, eloqüência e poder de comunicação são algumas qualidades que o Mago compartilha com Mercúrio, o planeta ao qual essa carta corresponde no sistema da Golden Dawn;
  • Não duvide de sua própria capacidade de realização quando o Mago lhe aparecer – em vez disso, faça dela um bom uso;
  • O Mago representa qualquer tipo de especialização e expertise em um determinado campo de conhecimento, portanto, se você tem o talento, formalize-o aprendendo a técnica;
  • Não seja vítima das circunstâncias – crie-as.
  • A ação do Mago denota controle – e, para controlar o mundo, você precisa começar por si mesmo. É controlando os seus elementos internos que o alquimista controla os elementos externos em sua Obra. Assim, o Mago também pede auto-controle e disciplina.

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IMAGEM

A imagem do Mago para esse post é a versão dessa carta no Tarot of the New Vision. Criado por Pietro Alligo e Gianluca Cestaro e publicado pela Lo Scarabeo em 2003, o New Vision mostra cada imagem do Rider-Waite-Smith do ponto de vista de seus personagens, bem como o que está por trás de cada uma delas. Decidi usar essa imagem justamente porque ela combina tanto a figura do Alto Mago com a do saltimbanco, colocando-lhe na frente não as portas de algum tempo, mas uma plateia de camponeses e, em suas costas, um macaquinho – que deve ajudar nos truques.

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Você pode ler mais sobre o Mago aqui.

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6 Comentários »

  1. parabens meu amigo por seu trabalho…voce cresce a olhos vistos e mostra cada vez mais sua competencia e qualidade em tudo que faz…voce tem de fato a energia e o poder realizador de um mago…brilha como ele…transforma como ele…e muito realizara ainda no seu caminho pois capacidade e força prá isso não lhe faltam.

    Comentário por eros kamadeva — outubro 28, 2010 @ 11:05 PM

    • Oi, Eros!

      Muito obrigado pelas suas palavras, e que bom te ver participando do blog!

      Brigadão 🙂

      Abç

      Comentário por Leonardo Dias — outubro 28, 2010 @ 11:44 PM

  2. Palavras-chave: “Realidade é percepção”.
    Como sempre, um post que faz nossa cabeça ficar parecendo uma pipoqueira! rsrsrsrs!
    Abraço!!

    Comentário por Cirenna — outubro 29, 2010 @ 1:21 PM

    • Brigado, Cirenna!

      Aprecio sua participação 🙂

      Comentário por Leonardo Dias — outubro 29, 2010 @ 6:19 PM

  3. Meu querido gostaria de parabenizá-lo pelo seu trabalho e lhe perguntar, que Tarot é este que você utilizou no Mago em que ele aparece de costas? Beijos.

    Comentário por Magali — agosto 18, 2011 @ 11:10 PM

    • Oie, desculpa pela demora!

      É o New Vision Tarot, pela Lo Scarabeo. Nele, todas as cartas são mostradas “do outro lado” da cena. Muito curioso.

      Bjão, e brigado pela participação, Maga!

      Comentário por Leonardo Dias — setembro 3, 2011 @ 10:18 PM


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