Descobrindo o Tarot

novembro 4, 2010

BACKGROUND – OU NÃO

Filed under: Audio, Notas — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 3:48 AM

Antes de tudo! PODCAST AQUI!

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Desde que comecei a dar leituras de cartas para outras pessoas, eu costumo pedir ao consulente que, antes que comecemos a abrir as cartas, ele fale um pouco sobre o que o trouxe ali, quais questões ele gostaria de abordar, e quais exatamente são suas dúvidas. Ainda que alguns consulentes resistam a entrar em muitos detalhes sobre suas dúvidas – isso quando eles se dispõem a sequer fazer perguntas específicas – eu sempre procurei reforçar a importância dessa atitude de conscientização e vocalização dos anseios, por vários motivos. Primeiro, o simples ato de explicar um dilema obriga o consulente a racionalizá-lo para poder passar a informação, e isso em si o faz ter outra perspectiva de sua questão; segundo, é mais fácil para mim, como leitor, saber do que se trata a questão, para poder ler com mais exatidão a mensagem das cartas; terceiro, isso teoricamente minimizaria as chances de erro, já que parte da informação já está disponível. Os consulentes, por outro lado, podem ter uma série de motivos para evitarem tratar objetivamente de suas questões – há aqueles que são – ou encontram-se – incapazes de racionalizar suas dúvidas de forma satisfatória, e buscam no Tarot justamente uma luz nesse sentido; há ainda os que sentem necessidade de testar a ‘vidência’ do leitor, vendo se, mesmo sem questões, ele vai ser capaz de identificar do que se trata a consulta (sim, porque todo leitor de cartas tem poderes sobrenaturais ¬¬…); há também aqueles que têm vergonha…

De qualquer forma, a questão sempre girou em torno da necessidade e da importância de um background, de uma informação de base que sirva de ponto de partida para a leitura.

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Isso tudo está mudando.

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Eu nunca parei muito pra pensar sobre esse assunto, até recentemente. A coisa meio que surgiu aos poucos. Primeiro, eu percebi que vários leitores de cartas costumam traçar mapas numerológicos ou astrológicos antes da leitura, para terem uma visão mais ampla do momento em que vive o consulente, as questões que ele enfrenta, etc.. Comecei então a considerar se isso não seria legal, e logo passei a pensar em estudar algum desses sistemas para incrementar minhas leituras. Entretanto, um amigo meu, tarólogo experiente, me ofereceu um ponto de vista completamente oposto a esse que valoriza o background de uma leitura – ou ao meu, que valoriza o papel da pergunta. No início da leitura, esse meu amigo pede aos seus consulentes que não lhe digam nada – ele apenas abre as cartas e lê o que dizem. Num segundo momento, o consulente pode então fazer suas perguntas.

Essa diferença de estilos me deixou pensando. Várias perguntas pipocando – Qual o papel da pergunta na leitura? Qual a importância de uma informação de base? Que influência essas coisas têm no processo de ler cartas em si?

Primeiro, quando a gente lê cartas, vários filtros entram em ação em nossa mente. Filtros que dizem o que é cabível e o que não é, o que é socialmente aceito, e o que não é, o que é bom e o que não é. E não tem como fugir desses condicionamentos, eles são uma consequência natural da nossa educação, da cultura em que vivemos, etc.. Entram em ação a todo momento, e fazem parte da função de julgamento da nossa mente. O fato é que pensar sobre a importância do background me fez perceber que ele oferece um risco – o de justamente perder-se em condicionamentos, em formalismos. Se um leitor tem uma informação de base para leitura, seja ela advinda de mapas ou perguntas do consulente, ele corre o risco de abrir as cartas e ficar simplesmente procurando por indícios que confirmem o que foi verificado anteriormente por meio dos mapas; ou, no caso das perguntas, ele pode ater-se a apenas responder as perguntas do consulente, olhando para as cartas em busca somente dessas respostas. Filtros, lentes são postas entre os olhos mentais do leitor e as cartas – objeto de oráculo. E isso pode levá-lo a perder parte da leitura no processo.

Perguntas, em particular – e mapas, de certa forma – são meios de se especificar. “Especificar” é afunilar, reduzir um todo a certos aspectos seus, que recebem ocasional proeminência em dada situação. Especificar implica, naturalmente, em perda. Claro, a perda é necessária – só assim se limita, se define limites, e todos sabemos que são os limites que definem a forma, e é a forma que demarca a distinção de cada conteúdo. Entretanto, temos então a pergunta – qual deve ser o limite de uma leitura? Qual exatamente deve ser o peso das limitações em uma leitura?

Eu tenho pra mim que os limites de uma leitura de cartas são os limites do olhar do leitor. (eu até já falei sobre isso aqui faz pouco tempo). Sem ofensas aqui – há diferentes alcances para diferentes leitores, diferentes consulentes, com diferentes necessidades. Nada de julgamentos de valor – menos mediocridade, por favor.

No caso do meu amigo, toda essa coisa de background cai por terra. Ele tem, em sua frente, a mensagem pura das cartas. Sem nenhum fato consumado, nenhuma ‘verdade’ pré-estabelecida com a qual ter que conformar-se, ele se vê livre para ler as cartas pelo que elas são. Acaba o medo de fazer sentido com o que disse o consulente – que, muitas vezes, não passa de sua impressão bastante truncada da situação. Acaba a insegurança, e a pressão pra encaixar a mensagem das cartas numa resposta lógica à pergunta feita, ou ao que foi verificado nos mapas. Em outras palavras, a resposta das cartas não precisa ser posteriormente moldada para encaixar em nenhum vidro. Se ler cartas é pintar, basear-se em perguntas é pintar com um daqueles kits de paint by number – enquanto que meu amigo tem diante de si uma tela em branco. Pode ser mais trabalhoso, porém o resultado pode também ser mais vivo – e autêntico. E, nunca se esqueçam, pessoal, autenticidade é o que acrescenta. Ler cartas é fácil – o difícil é ser oráculo, dar corpo à Palavra.

Ler sem perguntas pode nos pôr em um contato mais inteiro com as cartas – sem temas ou questões com as quais se comprometer. Você tem as cartas por elas mesmas – o que elas dizem é o que é. Em vez de simplesmente completar enunciados ou resolver dilemas, as cartas criam, trazem o novo, inovam.

Claro, minha intenção aqui não é criticar ou condenar quem adota métodos que envolvem diagnósticos prévios ou perguntas – quem sou eu pra condenar alguém? Eu percebo que tem muita, muita gente que gosta bastante de pensar em termos de certo e errado – deve ser mais fácil, sei lá. Eu não gosto de pensar assim. “Different drums for different drummers”… Estou só lançando a questão no ar.

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Então, o que você leitor acha disso? O que lhe parece mais interessante? Perguntas são realmente importantes no primeiro momento da leitura?

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7 Comentários »

  1. Oi Leonardo!
    Muitas vezes é o cliente que quer uma resposta objetiva, ou sim ou não para sua questão. Falar do que envolve a questão passa a ser supérfluo, pela ansiedade do cliente.
    Tenho por mim, que cartas na mesa, dentro ou não de um método, “falam” mais do que é perguntado, isso eu denomino – Ler nas Entrelinhas – responder simplesmente a pergunta é se limitar e ignorar as outras mensagens que saltam aos olhos.
    Então, a pergunta passa a ser apenas um direção para a leitura das cartas.
    Eu também não gosto de pensar no – Certo ou Errado – Prefiro o – O que é certo para mim? –
    Gosto muito dos seus artigos.
    Bjs.

    Comentário por Lucia — novembro 4, 2010 @ 6:34 AM

  2. Como é que eu faço?

    Eu gosto de ouvir a pessoa falar de si… Tal como quando conhecemos alguém, nós gostamos de ouvir a pessoa, observar a sua linguagem corporal, saber as suas opiniões… Penso que no Tarot é a mesma coisa. Quando a pessoa está a falar de si (quando não a conhecemos), estamos a entrar em “sintonia” com ela… Estamos a tomar conhecimento. É como abrir a porta para a alma dessa pessoa. Nos familiarizando.

    Quando eu já conheço a pessoa peço para me dizer o que sente, o que pensa, e se a pergunta envolve uma pessoa e eu não conheço a pessoa peço que ma descreva fisicamente e psicologicamente.

    Parecendo que não, ao ouvir estes detalhes as respostas às perguntas que a pessoa me vai fazer começam já a se formar na minha mente em forma de abstrato, como núvem…Como ter a resposta debaixo da língua e não conseguir dizê-la. Depois a pessoa faz a pergunta e bingo! Lembro o que estava debaixo da língua!

    Outra coisa que já fiz algumas vezes é tirar 5 cartas na disposição peladan e todas me falam da pessoa. Podemos até atribuir os significados peladan. Caraterísticas postivas da pessoas…as negativas, etc etc… 🙂

    Experimenta fazer isso Leo e diz-me como correu.

    Bjinho

    Comentário por Sandra Andrade — novembro 4, 2010 @ 6:49 AM

  3. Meu caro amigo, estamos em sintonia.Eu estava justamente pensando sobre isso por esses dias. Eu resolvi a um certo tempo, usar meu próprio método de jogar tarot. E percebi que funciona muito melhor. Acho que a medida que se fica mais solto, as coisas tendem a fluir e as informações vem mais claras. No momento eu estou jogando Tarot Cigano profissionalmente e percebi isso. E como tenho jogado para pessoas as quais não sei nadica de nada, tenho testado esse método. Enquanto vamos nos harmonizando, entrando em sintonia, com um pouco de música para relaxar, entre incensos e perfumes, vou tirando cartas do Tarot. E advinhe? As informações sobre a pessoa começam a surgir claras como água. E isso tem trazido muita riqueza na leitura, porque o tarot começa a contar detalhes sobre a pessoa que ela ainda não tinha se dado conta e vai fazendo a pessoa refletir sobre sua vida, ao invés de simplismente dizer se isso é assim ou assado. Bom ou ruim. E tem me dado uma sensação muito boa de poder entrar em contato com o que realmente importa para todos. Que é nos fazer refletir, ver coisas sobre nós que nem sabíamos. E com isso percebo que tenho ajudado muitas pessoas, ao mesmo tempo que também aprendo com elas.As cartas contam sua própria história. É isso, eu tenho certeza que no meu caso não saber de nada, me faz saber de tudo de um outro ponto de vista. como sempre você me ajuda a confiar mais em mim. E eu acredito que isso é tudo, porque sem confiança em si mesmo como vamos saber ver com clareza? Acho também que toda pessoa que joga Tarot devia estar fazendo ou já ter feito terapia. Ajuda muito.Beijos de gratidão. Moona.

    Comentário por Moona Saví — novembro 4, 2010 @ 11:13 AM

  4. Oi, tudo bem?

    Visito bastante seu site e admiro muito o seu trabalho! Eu tenho algumas dúvidas e gostaria de bater um papo contigo… Tem algum email que eu possa entrar em contato?

    Só para adiantar, eu queria saber se você tem alguma dica de como estudar os números baseando-se nos naipes… Sei lá, algo que se faça para entender como funciona o significado de cada numero ao inves de decorá-los, sabe?

    Se puder bater um papo contigo a respeito disso, ficaria contente.

    Um abraço

    Dannilo

    Comentário por Dannilo — novembro 5, 2010 @ 3:27 PM

    • Hey!

      É muito saber que tem pessoas que gostam do que eu exponho aqui no blog!

      Sobre sua pergunta, se eu entendi bem, você quer saber sobre formas de entender os arcanos menores do Tarot por meio de sua sequência numérica, é isso? Eu tenho encontrado muita lógica nas associações com a Cabala – por exemplo, por meio da Cabala dá pra entender por que os cincos de cada naipe são cartas tão conturbadas. Mas isso é mais pra quem usa ou estuda sistemas de atribuição de significado mais modernos – pós-GD, ou algo assim. Não sei até que ponto numerologia pode ser aplicada na sequência dos arcanos maiores, especialmente se você estuda com baralhos tipo Marseille. Até onde eu consigo perceber, os significados marseille são meio diferentes.

      Te respondi pelo email que você usou no comentário, pra mais papo 😉

      Abç

      Comentário por Leonardo Dias — novembro 5, 2010 @ 7:38 PM

  5. Hey, Leo!!
    Segui seu conselho: parei tudo e vim aqui lhe falar…rsrsrsrsr!!
    No início de uma consulta, gosto de fazer um jogo chamado “mandada astrológica”, com 13 cartas: doze cartas formando um círculo, que aborda vários aspectos da vida da pessoa e uma ao centro (com certeza vc conhece essa tiragem…). A carta do centro fala sobre o caminho do consulente no momento presente, é o ‘start’. Neste jogo, a pessoa não faz perguntas, ela recebe uma mensagem do tarô. Gosto da ausência de perguntas no começo, porque percebi que algumas pessoas chegam sem saber ao certo o que querem saber (mesmo que as vezes estejam certas de que sabem…). A partir desse jogo, questões são levantadas, as perguntas surgem e a conversa flui. Para fechar, peço a pessoa que tire uma carta para um conselho final.
    Abraço!!
    PS.: Sabendo que vc gosta de música, recomendo Lil star – Kelis. Eu adoro e acho que vc também vai gostar.

    Comentário por Cirenna — novembro 5, 2010 @ 9:07 PM

    • Oi Leo!
      Eu também não gosto de ouvir o consulente primeiro não. Vou fazendo primeiro aquelas tiradas grandes, bem “panorâmicas” relacionando umas com as outras. Ao fim de dois ou três jogos você já sacou qual é o momento da pessoa e daí se parte para assuntos pontuais, sempre os mesmos pedidos, amor e trabalho. Eu gosto dessa dinâmica, que inclusive vai fazendo a pessoa ir se sentindo mais confiante, à medida que ouve de você coisas que ela reconhece e compreende.
      Um beijo, felicidades
      Luciana

      Comentário por Luciana D — novembro 6, 2010 @ 1:47 PM


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