Descobrindo o Tarot

novembro 13, 2010

PERGUNTAS E RESPOSTAS – INTERPRETAÇÃO DAS CARTAS NUMERADAS

Filed under: Diversos — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 5:05 PM

A pergunta de hoje foi feita por Franklin Couto, do CanalNeblina do YouTube, e tem a ver com a interpretação das cartas numeradas.

Qual é a sua opinião com relação à interpretação das cartas com naipe? Isso de um modo geral, saca? Existe uma diferença entre alguns baralhos – o egípcio, por exemplo, tem os 78 Arcanos figurativos, a interpretação está quase toda na simbologia da carta. Lógico que a nomenclatura da carta é importante (de extrema importância até), mas sempre ouço comentários de que esses baralhos em que se pode juntar a interpretação da figura com o nome dado àquela cena são baralhos com uma interpretação mais fácil. Já no caso do Marselha, a interpretação dos arcanos menores me parece bastante difícil, já que não existe a possibilidade de fazer esse link de nome-figura. Nesse caso a interpretação é toda instintiva? Existe uma técnica que transforme a interpretação numa “receita de bolo”, tipo, mecânica?

Eu achei essa sua pergunta interessante, pois ela toca em vários pontos muito legais. Primeiro, vamos às questões mais simples. Ao que me pareceu, o baralho egípcio que você menciona é o Egipcios Kier. Apesar de não ser especialista em Kier, posso dizer que ele é um baralho de Tarot que tem um sistema de organização interna e simbologia particulares, que se distanciam um pouco do esquema arcanos maiores + 4 naipes, 10 cartas numeradas + 4 figuras da corte, que a maioria dos baralhos exibe. Fora do planeta Kier, a gente tem, basicamente, duas vertentes de representação das cartas numeradas – representações figurativas, que envolvem cenas e símbolos, vertente essa que tem no Rider-Waite-Smith seu precursor e maior expoente (na verdade, o primeiro baralho conhecido a ter cenas nas cartas pequenas é o Sola Busca, mas isso é outra história) ; e representações numéricas, onde o símbolo de cada naipe se repete ao longo das dez cartas numeradas, indicando o número de cada carta através de sua repetição (9 taças para o Nove de Copas/Taças, por exemplo). Qualquer baralho de Tarot que você pegar vai ter ou representações de cenas em suas cartas numeradas, ou padrões numéricos repetitivos. Frequentemente, como no caso do RWS, as repetições do símbolo do naipe para demarcar a quantidade perduram, inseridas na cena em questão – as nove taças dispostas na mesa atrás do homenzinho feliz no Nove de Copas, por exemplo. Isso é feito para facilitar a identificação do naipe. O Kier é um dos casos onde nada disso acontece, pois ele é um baralho que deixa de lado o próprio conceito de naipe, então não há o que ser repetido ou indicado nas cenas.

A representação numérica baseada na repetição é um expediente bem simples, que acompanha os hoje chamados arcanos menores desde sua origem. Agora, do ponto de vista prático, e falando a grosso modo, a gente pode ver as representações figurativas como uma sofisticação, uma evolução de design, digamos, que se foca especificamente no uso divinatório do Tarot – que, originalmente, foi concebido para ser um jogo. É o Tarot divinatório saindo do armário. A ideia inicial de trocar os padrões repetitivos dos baralhos mais antigos por cenas parece ter sido justamente facilitar a identificação das ideias atribuídas a cada carta. A gente tem isso já bastante sugerido no título do livro que acompanhava o RWS quando de seu lançamento, no final de 1910 – The Pictorial Key to the Tarot, ou ‘A Chave Pictórica do Tarot’ – “chave pictórica”, ou seja, uma chave que consiste em imagens, que revela os significados através de cenas alegóricas. É hoje comumente aceito que, antes de Waite, as cartas menores expunham apenas padrões de repetição numérica, e seu significado permanecia circunscrito às escolas de iniciação – não era fácil descobrir sozinho. Ao publicar um baralho com imagens para as cartas menores, Waite exoterizou um corpo de segredos que antes fora mantido esotérico.

Quando você fala sobre nomenclatura, eu acho que, mais uma vez, você está com o Kier em mente, pois é ele que tem nomes para cada carta, com cenas relacionadas a esse nome. A maioria dos outros baralhos não possui nomes nas cartas pequenas, então o vínculo estabelecido com a carta parte basicamente da identificação da cena ou figura que ela retrata. No entanto, é legal você mencionar essa questão de títulos dados às cartas, porque dentro do sistema da Golden Dawn, cada carta numerada recebe um título – o Nove de Copas, por exemplo, é chamado de Lord of Material Happiness, ou “Senhor da Felicidade Material”. Esse título funciona como uma sintetização da força ou ideia que a carta representa no universo da GD – e, por tabela, um pouco no RWS também, já que Arthur Waite e Pamela Smith, os dois criadores do baralho RWS, fizeram parte dessa ordem hermética por algum tempo. Crowley (outro que, por muitos anos, integrou o corpo de membros da GD), carregou esse conceito de títulos para seu baralho, o Thoth, onde cada carta pequena tem um ‘nome’ – o Nove de Copas, por exemplo, é chamado simplesmente Happiness. Talvez seja daí que tenham tirado a ideia de dar títulos às cartas no Kier – e então, o círculo que você abriu, se fecha, rs.

De qualquer modo, independente de qual baralho você usa para fazer leituras, o mais importante – o que vai garantir a comunicação e o entendimento leitor-cartas – é o vínculo que você trava com cada carta. Mesmo quando elas não têm figuras cênicas, como no caso do Marselha, com o tempo você acaba se acostumando com as cartas. Também, há quem diga que a disposição dos elementos nas cartas numeradas do Marselha obedece a uma certa regra, onde a forma que tais elementos são arranjados possui significado. A gente também pode encontrar essa lógica no próprio baralho da Golden Dawn, cujos arcanos menores numerados exibem uma série de sinais, diferentes arranjos e símbolos que convencionam sua interpretação. Num outro extremo, temos mesmo o Crowley-Harris-Thoth, baralho de autoria do mago Aleister Crowley e da pintora Layd Frieda Harris; os arcanos numerados do CHT não vêm com cenas, seguem o modelo repetitivo comum das cartas mais antigas e reproduzido pela GD, porém conferindo-lhe uma aparência mais moderna, exibindo variações de formas e um forte uso da cor e de símbolos adicionais para incorporar a força que cada carta é. Crowley consolidou a união do Tarot com a Magia, fazendo de seu baralho não só uma ferramenta destinada a descrever, mas também a agir sobre os fatos e a realidade. Seu baralho também é um instrumento mágico, de ação. Mais um passo transcendente, levando o Tarot a não só instrumento de especulação, mas também de ação proativa.

Por último, sua questão sobre alguma técnica ‘receita de bolo’, como você diz. Eu acredito que seja importante salientar que, visto que o Tarot (ao menos assim se sustenta) não foi desenvolvido originalmente para ser usado com fins divinatórios, a atribuição de significado para as cartas consiste na construção de um sistema essencialmente alheio às cartas em si, que é desenvolvido ao seu redor e sobre elas é imposto. Claro, com o tempo, uma coisa meio que se misturou com a outra, dando origem a algo novo. O RWS surge em um momento desse processo onde o Tarot já estava plenamente tido como um oráculo. Ele só refletiu essa mudança. Mesmo assim, é bom levar sempre em conta esse fato simples quando consideramos questões como a sua – significados dados às cartas são essencialmente estruturas artificiais. Existe mais de uma forma de atribuir significados às cartas, mais de um sistema. Na verdade, existem inúmeros, alguns mais receita-de-bolo que outros. Dependendo do sistema que você escolhe, diferentes técnicas serão usadas.

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Rant!

Geralmente, eu percebo que a maioria das pessoas que se propõem a estudar Tarot não pensa muito sobre essa questão da atribuição de significados às cartas – de onde ela veio, em que ela se baseia, quem foram seus precursores, etc. Elas simplesmente vão lendo livros, frequentando cursos e fazendo leituras, presumindo que os significados são os que elas aprendem e usam, que sempre foi e sempre será assim, e outras coisas são erradas. Acho que isso é uma das coisas que mais provocam discussões e brigas em forums e grupos de Tarot. E também acho que isso é estupidez, pois não relativiza. Não há um consenso sobre o que cada carta pretende significar. Assim, de claro, não há. Simplesmente porque um monte de gente propôs (e propõe) significações diferentes – e um monte de outra gente se propõe a seguir tais esquemas. Por mais que certo sistema de significados seja popular, ele não é unânime. Isso porque eu nem cheguei a considerar as diferentes nuances de percepção de cada pessoa dentro de um determinado sistema…

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Bem, espero ter respondido sua pergunta, Franklin. Você pode complementar a resposta com comments, se achar necessário. Brigado pelo comentário, e pela participação!

Além de seu canal no YouTube, vocês podem ver mais sobre Franklin também em seu blog recém-lançado, CanalNeblina.

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7 Comentários »

  1. Antes de mais nada…Muito obrigado pela pronta resposta!!!Cara …Que competência!!! \o/

    Então…Nem posso completar a pergunta por que a resposta está completa! =)

    De verdade mesmo,parabéns pelo seu trabalho meu camarada…Prático e de fácil entendimento,além de demonstrar uma competência de pesquisa e de explanção fantásticas!!!
    Um abraço e novamente o meu muito obrigado!

    Comentário por Franklin Couto — novembro 13, 2010 @ 6:50 PM

    • Hey, brigado!

      Que bom que eu consegui esclarecer direito, sua pergunta tinha várias facetas interessantes.

      Brigado você pela participação! 🙂

      Abç!

      Comentário por Leonardo Dias — novembro 13, 2010 @ 7:55 PM

  2. Leo, vc é um escritor profissional.

    Comentário por Breno — novembro 14, 2010 @ 2:56 PM

    • Gente, escutar isso de um linguista é um elogio e tanto, hein? Estamos no caminho, rs…

      Brigado, Breno!

      E brigado pela participação 🙂

      Comentário por Leonardo Dias — novembro 14, 2010 @ 2:58 PM

      • Leo, elogio de linguista é chique…aliás, ser linguista é chique.

        Comentário por Luciana D — novembro 15, 2010 @ 3:23 PM

  3. Por sinal, concordo inteiramente, ler seus textos é um prazer por si só…

    Comentário por Luciana D — novembro 15, 2010 @ 3:24 PM

    • Haha, pois é, é verdade, Linguística é chic mesmo. E que bom que ce gosta deles, eu fico genuinamente feliz, Lu.

      Bjo e brigado!

      Comentário por Leonardo Dias — novembro 15, 2010 @ 4:11 PM


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