Descobrindo o Tarot

dezembro 15, 2010

UPDATES DE SIGNIFICADOS 8 – Dez de Bastões e o perdão

Opressão. Sobrecarga. Peso insustentável.

Essas são as palavras que geralmente nos vêm à mente tanto quando lemos sobre, quanto quando simplesmente olhamos para essa imagem. De fato, está na carta – o sujeito realmente carrega um peso que aparenta aproximar-se dos limites de sua força. Nas palavras do próprio Waite, “The chief meaning is oppression simply.” (‘O principal significado é simplesmente opressão’).

Em consequência dessa noção fixada, foi desconcertante quando, ao lançar ao Tarot a questão “o que é perdão?”, obtive como resposta o Dez de Bastões. Minha primeira ideia foi que o baralho estava me dizendo que perdoar era tirar um enorme peso das costas. Entretanto, isso não me pareceu soar bem – além de extremamente lugar-comum, tal interpretação não estava coerente com a imagem da carta, essa longe de mostrar alguém tirando qualquer esforço de cima de si. Tirei alguns segundos para mergulhar mais fundo no Dez de Bastões – olhar a imagem de verdade.

“Perdoar é um tremendo esforço, que te leva aos seus limites, demanda capacidade de sustentação e foco, confiança e força de vontade. E, sim te deixa desorientado, e te faz perder de vista aonde quer chegar.” O Tarot é simples – óbvio até. Pena que a gente goste tanto de complicar. Naquele momento, nos curtos segundos em que eu fiz o exercício de mergulhar um pouco além da superfície do Dez de Bastões, obtive um poderoso insight que ficou na minha cabeça pelo dia inteiro. Não que perdoar signifique sempre isso – claro. É só que, naquele momento, e no contexto da minha situação, perdoar traduziu-se pelas combinações de sabores e aromas semânticos que o Dez de Bastões compreende.

Acho inclusive que isso foi um bom exemplo da coisa toda de trazer a carta ao contexto da situação, e indo além, tirar um substrato proveitoso de sua atividade. Ler cartas abrange mais saber contextualizar e combinar ideias que decorar significados e lançá-los na leitura.

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Voltando ao Dez de Bastões, o que vemos? Os diversos elementos próprios do campo conferem a essa cena um ar rural. Ao fundo, campos arados, e uma construção que lembra uma casa grande de fazenda. Os campos parecem ser os mesmos do Pajem e do Cavaleiro de Ouros; a casa parece ser a mesma vista de dentro no Quatro de Bastões. No primeiro plano, um homem forte, com roupas semelhantes às de um camponês medieval, carrega um conjunto de varas, como se fossem um fardo. Em vez de carregá-las nas costas, ele as carrega de uma maneira incomum – todas à frente de seu rosto, obstruindo sua visão. Ainda assim, sua postura é curvada, como a de alguém que carrega algo muito pesado sobre as costas.

A cena da última carta do naipe de Bastões parece ser o resultado natural do desejo de êxito ilustrado ao longo de todo esse naipe – o impulso de conquista do Três, a aclamação do Seis, a extrema força e resistência do Nove, etc. É interessante notar que na primeira carta da saga de Bastões, o Dois, o sujeito já é dono de uma vasta propriedade. Os campos arados, tanto no Dois quanto no Dez, sugerem mesmo poder agrícola, que envolve propriedade, produção de bens de consumo e comércio. As terras do homem do Dois de Bastões desembocam num grande corpo de água, possivelmente o mar, o que me faz pensar mais uma vez em poderio comercial. O mar, agora com navios similares aos de Colombo, se repete na carta seguinte, o Três. O que motivou as explorações do século 15/16 se não o desejo de comércio e expansão de território? O dono de terras agora quer estender seus domínios, e aumentar sua riqueza – ele quer mais. Levando isso em consideração, temos a tênue sugestão de que ambição e ganância são duas palavras que, embora não mencionadas, estão na raiz dessa carta.

Waite não se limita a definir o Dez de Bastões como opressão – –

(…) O principal significado é simplesmente opressão, mas é também ventura, ganho, qualquer espécie de sucesso, e então é a opressão dessas coisas. É também uma carta de falsa aparência, disfarce, perfídia. O lugar de que a figura está se aproximando pode sofrer com os bordões que ela carrega (…)”

A parte da perfídia Waite tirou claramente de Etteilla, que oferece para essa carta uma lista de palavras tais como “traição, subterfúgio, deslealdade e dissimulação”. Interessantemente, a lista de significados de Etteilla para o Dez de Bastões quando invertido aproxima-se muito dos significados que Waite posteriormente lhe atribui – –

Obstáculo, atenciosidade, barreira, impedimento, fustigação, dificuldades, dor, arduidade, inconveniência, miséria, ninharia, queixume, pedra no caminho, defesa, fortificação, refúgio.

A ideia central de Etteilla gira em torno de obstáculos e barreiras (como a que se forma com as varas entravando a visão do homem) e dificuldades e arduidade (sua postura pesada, o doloroso esforço que ele faz para carregar sua carga). Por outro lado, Etteilla também fala de refúgio, o que me faz pensar no casarão ao fundo.

Na avaliação final da carta, eu não levo tanto em consideração os significados do Dez de Bastões relativos à constelação da perfídia, e nem tanto aos de refúgio, e essa escolha não é arbitrária. No meu estudo, meu lastro na avaliação da força de cada carta é a sua imagem no RWS. Minha regra pessoa dita que quanto mais algo é explicitado na imagem, mais fortemente ele representa seu caráter. No entanto, a verificação dessas nuances de significado é importante a fim de que entendamos melhor os elementos componentes da imagem – muitas vezes, um elemento aparentemente dispensável (como a casa, na carta em questão) passa a fazer sentido quando vemos o que os autores possivelmente tinham na cabeça ao criarem a carta.

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Viajando. . . . . .Juntando à cena o que Waite diz a respeito da carta, podemos imaginar uma estorinha em que a fazenda pertence ao homem, assim como o casarão do fundo. Ele conseguiu tudo isso com muito trabalho e, agora, luta para manter tudo o que alcançou. No maior estilo ‘mordendo mais do que se é capaz de mastigar’, ele arca com as consequências de sua própria ganância.

Alternativamente, se pensarmos na sequência do naipe de Bastões de trás para frente – como ela é exposta no livro de Waite para o baralho – o homem do Dez de Bastões é um trabalhador que se esforça aos seus limites para conseguir domínio e poder. Na então última carta da sequência, o Dois de Bastões, ele é retratado como alcançando tudo isso.

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Examinando um pouco, percebemos portanto que a receita original do Dez de Bastões envolve generosas quantidades de muito esforço, peso e sofrimento, como também pitadas apimentadas de ambição e ganância, o que confere à mistura um aroma geral do peso do sucesso. A força causal dessa carta é simplesmente o peso enorme oprimindo o consulente, então ela pode surgir em leituras para sinalizar o trabalho mega cansativo de sustentar tal peso. A maior mensagem que o Dez de Bastões me sugere agora (especialmente com a ideia do perdão em mente) é a de que grandes ambições demandam grande esforço. Como carta final, o Dez de Bastões quer dizer sim sucesso, porém um sucesso que traz mais adversidade que gozo. Você consegue, mas para manter o que conseguiu, terá de lutar tanto quanto o que lutou para conseguir. Ou mais.

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Vivência simples do Dez de Bastões na vida cotidiana. . . . . Imagine-se voltando para casa do supermercado ou do shopping a pé, carregando em cada mão dez sacolas pesadas, cheias do monte de coisas que você comprou. Quem conseguir imaginar, ou mesmo já tiver passado por isso, terá apreendido boa parte da mistura que essa carta abrange.

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7 Comentários »

  1. Oi, Leonardo!

    Muito rica sua abordagem do 10 de paus e também a relação que vc estabeleceu entre esse arcano e o perdão. Realmente, muitas vezes não é fácil perdoar…

    Parabéns por seus artigos!

    Marcelo

    Comentário por Marcelo F. Martuchele — dezembro 16, 2010 @ 8:12 AM

    • Haha, pois é, ainda mais prum ariano com Lua em Câncer que nem eu, rs.

      Fico feliz que você tenha gostado, e obrigado pela participação!

      🙂

      Comentário por Leonardo Dias — dezembro 16, 2010 @ 5:14 PM

  2. Oi Léo.

    Aquele exemplo das sacolas pesadas caiu como luva em mim. Adorei seu post. Sabe, acho que de um tempinho pra cá tenho percebido o quanto ver a imagem é realmente importante. Esse post deixou claro que não necessitamos de uma listinha de significados. Quando você lançou a pergunta sobre perdão, e ao olhar a imagem do 10 de paus, a primeira ideia que me veio à mente foi: perdoar é difícil, é pesado. Mas o que percebi também é que o fruto do perdão é Vida..percebi os raminhos saindo dos bastões. Acho que o perdão é um processo..é realmente uma tarefa..não é algo que pronto e aconteceu..mas se ele for sincero acho que nos dá nova vida..vida num sentido generalizado…Bom é isso, eu acho.

    Grande abraço.

    Comentário por Flávio — dezembro 16, 2010 @ 8:51 AM

    • Nossa, muito louco isso que ce disse, total faz sentido, e eu não tinha pensado nisso! O Naipe de Bastões em geral fala sobre a força da vida. No Dez, a ideia central parece ser a de esgotamento, ou usar essa força em excesso, mas também existe essa ideia da força da vida simplesmente. O Dez de Bastões parece ser um resultado natural da tenacidade no Nove – as varas dispostas à guisa de cercado no Nove transformaram algo que precisa ser carregado no Dez. Olhando online, vi uma imagem do Dez de Bastões como uma tartaruga, carregando em suas costas uma carapaça enorme.

      E, sim, perdoar é trabalhoso, foi o que o Tarot parece ter me respondido; é uma tarefa que demanda esforço, ao menos prá mim. Mas eu acho que ali havia também um alerta – não se esforçar demais, a ponto de exaurir minhas energias e acabar esquecendo o propósito do meu perdão, como o personagem não consegue mais ver direito aonde está indo. Daí, resta a pergunta, “ele realmente precisa de todas aquelas varas?” E a gente volta denovo pra ideia de ganância.

      Sobre ver a imagem, sim, é importantíssimo. Mais que isso, é no que deve consistir o processo de ler as cartas em si.

      Muito obrigado pela contribuição, Flávio! E, eu já te disse isso, e sempre vou dizer – pratique.

      Abç

      Comentário por Leonardo Dias — dezembro 16, 2010 @ 5:25 PM

  3. Léo,queria sua opinião no seguinte:

    Nesse 1 ano de aprendizagem tenho lido, lido e lido…no entanto se tiver pego nas cartas para praticar foram apenas umas cinco vezes no máximo. É verdade. Bom, mas ninguém vive só de teoria, não é mesmo? Então queria sua opinião acerca de uma técnica de tiragem de 3 cartas..Bom minha pergunta será a seguinte: O que o tarô significa para mim? O que o tarô para mim? A carta 1 será o que ele é hoje, a segunda o que significava no passado, e a terceira é o que ele significara?
    Não sei se a pergunta está adequada ou o significado das cartas está bem definido, então queria seu hello, aí, pode ser?

    Comentário por Flávio — dezembro 16, 2010 @ 9:56 AM

    • Primeiro, sua intenção em perguntar isso é lançar luz sobre a temática da prática? Se for, não seria mais adequado formular uma pergunta que se focasse mais diretamente nisso? Por exemplo, se você tem medo de começar a ler, ou alguma inibição, não seria mais interessante examinar as causas disso e, se lhe interessar, como combatê-las? Eu vejo a pergunta como um vazio que a gente cria, suposto a ser preenchido por algo que o preencha com propriedade. Você tem que formular a pergunta pensando na resposta que você deseja ter, ou seja, em exatamente o que você deseja ter esclarecido. Não que seja seu caso, mas as pessoas gostam de lançar qualquer pergunta, e esperam que o Tarot responda-lhes todas as outras que, na cabeça delas, tal pergunta implica. Só que quem lê as cartas são pessoas, e a gente tende a se focar no que está mais óbvio para nós – e é então que a consulta começa a ficar esquisita, porque a gente olha as cartas procurando uma coisa mas requerendo outra.

      Sobre a ideia das posições da tiragem, achei a ideia de criar uma linha do tempo interessante, porque te dá uma visão mais ampla do seu processo de estudo. Claro, vai depender da pergunta que você se decidir a fazer. Também seria legal buscar informação sobre sua participação no processo, pra nao ficar uma coisa muito unilateral de a vida > você, mas sim, também você > a vida, ou seja, a vida você.

      abç, e me mantenha atualizado 😉

      Comentário por Leonardo Dias — dezembro 16, 2010 @ 5:36 PM

  4. […] da arte do último post, sobre o Dez de Bastões? O autor é Jason Pitzl-Waters. Encontrei seu trabalho ao acaso, buscando por versões legais para […]

    Pingback por ARTE – Jason Pitzl-Waters « Descobrindo o Tarot — dezembro 17, 2010 @ 12:42 AM


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