Descobrindo o Tarot

fevereiro 4, 2011

UPDATES DE SIGNIFICADO 10 – DANÇANDO COM O DOIS DE PENTÁCULOS

Antes de qualquer coisa, o cara tá dançando! É um malabarista. Foi durante uma conversa que eu percebi, pela primeira vez, esse aspecto tão primário da imagem do Dois de Pentáculos. Sim, um Tarot a cada dia, muitos tarot’s em um mesmo baralho.

Vamos começar pelo começo, mergulhando no universo de significados do Dois de Pentáculos através de seu gancho natural – sua imagem. A figura a que ela remete é bastante significativa – o artista mambembe, popular. Pamela Smith, a artista inglesa que compôs as imagens do baralho Rider-Waite-Smith em 1909, era bastante envolvida com o teatro, profissional e pessoalmente. Podemos ver traços desse seu envolvimento profundo ao longo de toda a coleção de imagens do RWS. O uso de referências teatrais era natural para Pamela – faz parte do seu “vernáculo pictórico”, digamos.

Como podemos ver, Pamela recorreu mais uma vez a esse seu vernáculo para dar forma e cor à ideia da mudança, conceito-raiz do Dois de Pentáculos. “Mudança” é uma palavra muito usada atualmente – tanto que seu significado ficou meio gasto, soa lugar-comum. No entanto, o Dois de Pentáculos não ilustra a mudança como uma simples alteração de um estado para o outro, mas, indo além dessa percepção rasa, retrata a mudança como estado fixo de constante alteração e impermanência, tipificado justamente pelo processo contínuo de fluxo e troca entre os estados. O lemniscata (a forma de 8, símbolo do infinito) unindo os dois discos à guisa de corda é um elemento simbólico importante da imagem do Dois de Pentáculos, que marca justamente essa ideia de eternidade. Sem começo nem fim, esse estado de mudança é simplesmente como as coisas são. A mensagem mais primária do Dois de Pentáculos é a de que a constante permutabilidade de estados é a condição ultérrima da realidade. O estado de total permanência na unicidade e ininterrupto gozo estático é típico do Plano das Causas. Aqui, no Plano dos Efeitos, reina a multiplicidade, e tudo muda constantemente.

A presença do lemniscata ressalta uma ideia importante a respeito da mudança, de que também trata diretamente o Dois de Pentáculos. Considerando que mudança define-se por alteração, e alteração calca-se em diferença, temos então que o eterno estado de mudança do universo baseia-se na constante permutação dos opostos. Essa ideia é bem expressa nos dois discos do “Dois de Moedas”, cara & e coroa – yin e yang. Com efeito, é assim que vemos retratado na versão do Crowley-Harris-Thoth para essa carta. Assim como a música consiste de permutações organizadas de silêncio e som, e a dança na troca constante entre movimento e estaticidade, o personagem do Dois de Pentáculos existe e é, simplesmente é.

É interessante notar como que, ao escolher um dançarino performático para retratar esse estado, Pamela cria um irresistível paralelo entre a figura do Dois de Pentáculos e as imagens orientais de Shiva Nataraja, o aspecto do deus hindu Shiva como o rei da dança, retrato do eterno movimento do cosmo. Conexões interessantíssimas começam a surgir quando notamos que o arcano 21, O Mundo, porta essa mesmas ideias em sua imagem – uma figura dançarina cercada por uma guirlanda, bastante similar a Nataraja. É mais interessante notar ainda que o deus Shiva, na trimurti (a trindade hindu) corresponde no esoterismo justamente ao Plano dos Efeitos, o seio da Manifestação – nossa realidade. E, para te deixar mais doido ainda, vale lembrar que, no sistema da Golden Dawn, o Dois de Pentáculos corresponde ao terceiro decanato de Capricórnio, regido por Júpiter – Júpiter em Capricórnio, portanto. Júpiter corresponde à Roda da Fortuna (mais uma vez, mudança constante), e Capricórnio (O Diabo) está naturalmente ligado ao Mundo, já que o arcano 21 corresponde a Saturno, planeta regente desse signo. Sua cabeça deve estar rodando; um círculo é traçado e se fecha – ou um lemniscata, talvez; é justamente essa a beleza do sistema GD.

Se, pictoricamente, a versão do RWS para o Dois de Pentáculos parece dar fiel continuidade à proposta de interpretação que atribui a essa carta o valor primordial da mudança, no que tange aos significados, Waite parece ter decidido permanecer um pouco menos profundo, digamos. Para os significados do Dois de Pentáculos, o autor recorre a um resumo das ideias que se voltam para o lado mais adivinhatório das cartas. “(…) Felicidade, recreação (…) mensagens, agitação e complicações”, é o que ele diz no Pictorial Key. Os dois últimos significados claramente foram tirados de Etteilla, que atribui a essa carta toda a sorte de coisas relacionadas a problemas, inquietações e obstáculos. Interessantemente, a imagem comporta essas três nuances de significado (a. alegria e divertimento; b. mensagens e notícias; c. complicações e agitação) com suficiente flexibilidade. As embarcações, ao fundo, enfrentando um mar nada pacífico e, aparentemente, seguindo bem o fluxo, podem ser lidas tanto como versatilidade ante os altos e baixos da vida, quanto como um indicativo mais literal de notícias, viajens, mobilidade e mesmo comércio, permutas.

Pertencendo a um naipe relacionado principalmente a questões materiais e de ordem cotidiana, o Dois de Pentáculos tem toda a sua força ágil e móvel aplicada principalmente nessa área. É uma carta que fala bastante sobre trocas, movimentações de qualquer espécie, viagens, mudanças. O Dois de Pentáculos fala da constante alteração do valor, e de como tudo depende de tudo.

Em leituras, eu costumo ver o Dois de Pentáculos mais nas seguintes linhas –

  • Mudanças – mobilidade, outros lugares, viagens, deslocamentos;

  • Comércio – troca, vendas, transações;

  • Interação – relações de troca, contatos, conhecer pessoas;

  • Flexibilidade – lidar com as coisas com leveza, versatilidade, saber contornar os problemas, ser rápido no gatilho e ter jogo de cintura, ter traquejo;

  • Agilidade – rapidez, graça, mobilidade, esperteza;

  • Multitasking – as pequenas tarefas do dia-a-dia.

Compare a imagem do Dois de Pentáculos com a imagem de outro Dois, o de Espadas. Duas formas de se lidar com os opostos – a total mobilidade dos Pentáculos versus a estrita imobilidade equilibradora das Espadas. É legal salientar a recorrente similaridade de teor entre cartas de mesmo número dos naipes de Bastões e Espadas, e dos naipes de Copas e Pentáculos. Os Dois são um bom exemplo: temos interação e movimento nos Dois de Copas e Pentáculos, e estaticidade e controle (interno, no caso das Espadas, externo, nos Bastões) nos outros dois naipes.

Compare o Dois de Pentáculos também à Temperança. E, de certa forma, também ao arcano 0, O Louco.

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dezembro 25, 2010

UPDATES DE SIGNIFICADO 9 – Cinco de Copas + ‘Bridge Over Troubled Water’

Novas visões sobre uma carta em particular podem vir de qualquer direção. As que aparecem espontaneamente costumam ser as melhores.

Durante umas boas horas antes de começar a escrever esse texto, fiquei com uma música na cabeça, tocando sem parar. Eu estava fora de casa, e assim que cheguei, logo baixei a tal música. Ao ler as letras, a identificação foi imediata – bam!, Cinco de Copas.

Na primeira vez que eu decidi analisar um pouco mais a fundo o Cinco de Copas, nunca imaginei que seria uma canção que me elucidaria de forma tão especial o que essa carta representa.

Todo mundo conhece Bridge Over Troubled Water, de Paul Simon & Art Garfunkel; bem, ao menos todo mundo dos vinte e muitos pra cima. Single epônimo do album que acabou sendo o último da carreira dos dois cantores como dupla, Bridge Over Troubled Water permaneceu por nada menos que seis semanas no primeiro lugar das top cem da Billboard, assim que o album em questão foi lançado, nos primeiros meses de 1970. A canção fala sobre amor e companheirismo em momentos difíceis e tem a típica sonoridade melosa dos anos setenta, com boas doses de eco, solos de piano e final grandioso orquestrado sugerindo sentimentos transcendentes.

A imagem central da canção é o que me remete ao Cinco de Copas. No refrão, Garfunkel, com sua voz de falsete, canta –

I’ll take your part
When darkness comes
And pain is all around
Like a bridge over troubled water
I will lay me down
Like a bridge over troubled water
I will lay me down

Eu ficarei ao seu lado
Quando a escuridão vier
E a dor estiver em todo lugar
Como uma ponte sobre águas agitadas
Eu me dedicarei a você
Como uma ponte sobre águas agitadas
Eu me dedicarei a você

Com a figura da ponte, Simon cria uma bonita imagem de cumplicidade e solidariedade, suporte emocional. Nas águas agitadas das emoções de seu interlocutor, Simon oferece-se como a ponte, pela qual ele poderá passar incólume, sem ser levado pelas águas.

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Ao fundo da cena do Cinco de Copas, há uma ponte.

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

(‘…uma ponte está ao fundo, levando a uma pequena fortaleza ou propriedade.’)

Arthur E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot.

O papel da ponte no background do Cinco de Copas é difícil de precisar com certeza. Seja qual for, certamente não é eventual, visto que Waite faz questão de mencioná-la em sua curta descrição para essa carta.

Capa do album "Bridge Over Troubled Waters", de Simon and Garfunkel, 1970

A recorrência desse motivo da ponte, me ocorre, poderia explicar sua presença condensada em imagem no Cinco de Copas – não obstante o gap temporal entre a carta e as duas canções. Talvez essa figura de linguagem seja comum à língua inglesa, talvez seja algum tipo de expressão.

Na carta, temos às margens do primeiro plano o retrato de um estado emocional pesado, de desamparo e solidão; às margens do fundo, uma construção. No universo pictórico do RWS, construções e casas têm sugerida essa implicação de segurança, paz e proteção. Ligando os dois estados, a ponte.

Estaria tal ponte, portanto, destinada a transportar o personagem para um lugar mais seguro? Outra carta que carrega essa conotação de transporte para uma margem mais tranquila é o Seis de Espadas. No entanto, nesse Seis, a mudança (e não o estado ruim, como no Cinco) recebe o foco, e resume-se em ação. No Cinco, o foco está no estado,
enquanto a mudança, representada pela ponte ao fundo, recebe um papel secundário, e parece representar mais uma possibilidade de transição que uma transição de fato. A ponte está ali, porém cabe ao personagem triste decidir cruzá-la. Então, como a ponte de Bridge Over Troubled Waters, ele poderá passar por esse momento difícil sem ser carregado por ele.

Na próxima vez que você vir o Cinco de Copas, não entre na noia do personagem central, mas procure a mensagem das entrelinhas. Não veja somente tristeza – veja também possibilidade de recuperação e transição. Está na carta.

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Som. . . Prá quem quiser escutar a música na íntegra, só clicar aqui. Para baixar o arquivo a partir desse link, clique com o botão direito e escolha a opção ‘salvar link como’.

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Biblio. . . info sobre a música foi tirada da Wikipedia.

dezembro 15, 2010

UPDATES DE SIGNIFICADOS 8 – Dez de Bastões e o perdão

Opressão. Sobrecarga. Peso insustentável.

Essas são as palavras que geralmente nos vêm à mente tanto quando lemos sobre, quanto quando simplesmente olhamos para essa imagem. De fato, está na carta – o sujeito realmente carrega um peso que aparenta aproximar-se dos limites de sua força. Nas palavras do próprio Waite, “The chief meaning is oppression simply.” (‘O principal significado é simplesmente opressão’).

Em consequência dessa noção fixada, foi desconcertante quando, ao lançar ao Tarot a questão “o que é perdão?”, obtive como resposta o Dez de Bastões. Minha primeira ideia foi que o baralho estava me dizendo que perdoar era tirar um enorme peso das costas. Entretanto, isso não me pareceu soar bem – além de extremamente lugar-comum, tal interpretação não estava coerente com a imagem da carta, essa longe de mostrar alguém tirando qualquer esforço de cima de si. Tirei alguns segundos para mergulhar mais fundo no Dez de Bastões – olhar a imagem de verdade.

“Perdoar é um tremendo esforço, que te leva aos seus limites, demanda capacidade de sustentação e foco, confiança e força de vontade. E, sim te deixa desorientado, e te faz perder de vista aonde quer chegar.” O Tarot é simples – óbvio até. Pena que a gente goste tanto de complicar. Naquele momento, nos curtos segundos em que eu fiz o exercício de mergulhar um pouco além da superfície do Dez de Bastões, obtive um poderoso insight que ficou na minha cabeça pelo dia inteiro. Não que perdoar signifique sempre isso – claro. É só que, naquele momento, e no contexto da minha situação, perdoar traduziu-se pelas combinações de sabores e aromas semânticos que o Dez de Bastões compreende.

Acho inclusive que isso foi um bom exemplo da coisa toda de trazer a carta ao contexto da situação, e indo além, tirar um substrato proveitoso de sua atividade. Ler cartas abrange mais saber contextualizar e combinar ideias que decorar significados e lançá-los na leitura.

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Voltando ao Dez de Bastões, o que vemos? Os diversos elementos próprios do campo conferem a essa cena um ar rural. Ao fundo, campos arados, e uma construção que lembra uma casa grande de fazenda. Os campos parecem ser os mesmos do Pajem e do Cavaleiro de Ouros; a casa parece ser a mesma vista de dentro no Quatro de Bastões. No primeiro plano, um homem forte, com roupas semelhantes às de um camponês medieval, carrega um conjunto de varas, como se fossem um fardo. Em vez de carregá-las nas costas, ele as carrega de uma maneira incomum – todas à frente de seu rosto, obstruindo sua visão. Ainda assim, sua postura é curvada, como a de alguém que carrega algo muito pesado sobre as costas.

A cena da última carta do naipe de Bastões parece ser o resultado natural do desejo de êxito ilustrado ao longo de todo esse naipe – o impulso de conquista do Três, a aclamação do Seis, a extrema força e resistência do Nove, etc. É interessante notar que na primeira carta da saga de Bastões, o Dois, o sujeito já é dono de uma vasta propriedade. Os campos arados, tanto no Dois quanto no Dez, sugerem mesmo poder agrícola, que envolve propriedade, produção de bens de consumo e comércio. As terras do homem do Dois de Bastões desembocam num grande corpo de água, possivelmente o mar, o que me faz pensar mais uma vez em poderio comercial. O mar, agora com navios similares aos de Colombo, se repete na carta seguinte, o Três. O que motivou as explorações do século 15/16 se não o desejo de comércio e expansão de território? O dono de terras agora quer estender seus domínios, e aumentar sua riqueza – ele quer mais. Levando isso em consideração, temos a tênue sugestão de que ambição e ganância são duas palavras que, embora não mencionadas, estão na raiz dessa carta.

Waite não se limita a definir o Dez de Bastões como opressão – –

(…) O principal significado é simplesmente opressão, mas é também ventura, ganho, qualquer espécie de sucesso, e então é a opressão dessas coisas. É também uma carta de falsa aparência, disfarce, perfídia. O lugar de que a figura está se aproximando pode sofrer com os bordões que ela carrega (…)”

A parte da perfídia Waite tirou claramente de Etteilla, que oferece para essa carta uma lista de palavras tais como “traição, subterfúgio, deslealdade e dissimulação”. Interessantemente, a lista de significados de Etteilla para o Dez de Bastões quando invertido aproxima-se muito dos significados que Waite posteriormente lhe atribui – –

Obstáculo, atenciosidade, barreira, impedimento, fustigação, dificuldades, dor, arduidade, inconveniência, miséria, ninharia, queixume, pedra no caminho, defesa, fortificação, refúgio.

A ideia central de Etteilla gira em torno de obstáculos e barreiras (como a que se forma com as varas entravando a visão do homem) e dificuldades e arduidade (sua postura pesada, o doloroso esforço que ele faz para carregar sua carga). Por outro lado, Etteilla também fala de refúgio, o que me faz pensar no casarão ao fundo.

Na avaliação final da carta, eu não levo tanto em consideração os significados do Dez de Bastões relativos à constelação da perfídia, e nem tanto aos de refúgio, e essa escolha não é arbitrária. No meu estudo, meu lastro na avaliação da força de cada carta é a sua imagem no RWS. Minha regra pessoa dita que quanto mais algo é explicitado na imagem, mais fortemente ele representa seu caráter. No entanto, a verificação dessas nuances de significado é importante a fim de que entendamos melhor os elementos componentes da imagem – muitas vezes, um elemento aparentemente dispensável (como a casa, na carta em questão) passa a fazer sentido quando vemos o que os autores possivelmente tinham na cabeça ao criarem a carta.

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Viajando. . . . . .Juntando à cena o que Waite diz a respeito da carta, podemos imaginar uma estorinha em que a fazenda pertence ao homem, assim como o casarão do fundo. Ele conseguiu tudo isso com muito trabalho e, agora, luta para manter tudo o que alcançou. No maior estilo ‘mordendo mais do que se é capaz de mastigar’, ele arca com as consequências de sua própria ganância.

Alternativamente, se pensarmos na sequência do naipe de Bastões de trás para frente – como ela é exposta no livro de Waite para o baralho – o homem do Dez de Bastões é um trabalhador que se esforça aos seus limites para conseguir domínio e poder. Na então última carta da sequência, o Dois de Bastões, ele é retratado como alcançando tudo isso.

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Examinando um pouco, percebemos portanto que a receita original do Dez de Bastões envolve generosas quantidades de muito esforço, peso e sofrimento, como também pitadas apimentadas de ambição e ganância, o que confere à mistura um aroma geral do peso do sucesso. A força causal dessa carta é simplesmente o peso enorme oprimindo o consulente, então ela pode surgir em leituras para sinalizar o trabalho mega cansativo de sustentar tal peso. A maior mensagem que o Dez de Bastões me sugere agora (especialmente com a ideia do perdão em mente) é a de que grandes ambições demandam grande esforço. Como carta final, o Dez de Bastões quer dizer sim sucesso, porém um sucesso que traz mais adversidade que gozo. Você consegue, mas para manter o que conseguiu, terá de lutar tanto quanto o que lutou para conseguir. Ou mais.

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Vivência simples do Dez de Bastões na vida cotidiana. . . . . Imagine-se voltando para casa do supermercado ou do shopping a pé, carregando em cada mão dez sacolas pesadas, cheias do monte de coisas que você comprou. Quem conseguir imaginar, ou mesmo já tiver passado por isso, terá apreendido boa parte da mistura que essa carta abrange.

outubro 28, 2010

UPDATES DE SIGNIFICADO 4 – do Saltimbanco ao Alto Mago – 400 anos em 4 minutos – ou uma só olhada!

Artesão. Pelotiqueiro. Saltimbanco. Ilusionista. Mágico. Mago. . . Um pouco de história – originalmente, parece que a figura do Mago do Tarot retratava um ilusionista de rua, que ganhava a vida fazendo truquezinhos baratos, atraindo a atenção de curiosos. Não sabe bem do que se trata? Dá uma passeadinha ali pela Praça da Sé, ou a XV de Novembro, e você vai ver essa ‘tradição’ ainda em vigor em pleno século 21.

O entertainer de rua era uma figura conhecida nas cidades do norte da Itália dos séculos 14 e 15. O mesmo indivíduo podia fazer malabarismo com bolas, vender remédios, arrancar dentes, contar histórias, cantar, dançar e ainda fazer alguns truquezinhos de mágica (Burke 1978). (…). A mesma coleção de entertainers de rua ainda podia ser encontrada em cidades europeias no final do século 19 e [no começo do] século 20 (Berouet and Laurendon 1995).

Embora os entertainers fossem simplesmente malandros, suas façanhas costumavam ser tão impressionantes que eles eram vistos como mágicos ilusionistas (Burke 1978, p. 94). Assim, não é de muita surpresa descobrir que a imagem do bagatto do século 15 acabou se tornando conhecida como o mago/mágico.

(Parte do artigo de Robert O’Neill sobre o Mago, para Tarot.com. Tradução minha)

Existe um certo impasse de tradução aqui. O mundo do Tarot contemporâneo é anglo-falante, e isso ninguém pode negar. A exemplo de muitas outras áreas de conhecimento, existe mais literatura de Tarot sendo produzida em inglês do que em qualquer outra língua. Em inglês, a palavra comumente usada para identificar a carta 1 do Tarot é magician, que pode ser usada para designar tanto o mago que se ocupa com magia num sentido metafísico (ex. Crowley, Merlin), quanto o mágico que trabalha com truques e ilusões (ex. David Copperfield, Mister M, David Blaine). Magician = ‘mago’ e ‘mágico’.

Durante o que é comumente chamado de Renascimento do Tarot, o período da história marcado pelo retorno da atenção de muitos para esse maço de cartas, nos séculos 18 e 19, a figura do saltimbanco medieval passou a ser retratada mais como um mago/alquimista, o que perdura com certa regularidade até hoje. Essa parcial mudança de sentido na figura do saltimbanco medieval deve-se muito provavelmente ao então novo ambiente conceitual no qual o Tarot era inserido – o ocultismo e a Alta Magia.

Temos assim uma certa progressão aqui, um processo de evolução da figura do saltimbanco para a figura do mago/feiticeiro. De um lado, o malandro ilusionista do século 15; do outro, o alto mago do século 19. Ainda que seja possível evocar algum nível de diferença entre essas duas figuras viventes no nosso imaginário, eu não acredito em uma distinção muito fundamental entre os, digamos assim, arquétipos do saltimbanco e do Mago.

Primeiro, o caráter da figura do Bagatto, renascentista abre espaço para mais de uma interpretação, especialmente quando se percebe que estamos aqui falando não de um só baralho, mas de uma série de figuras oriundas de baralhos diferentes, dos quais, de acordo com O’Neill, cinco sobreviem até hoje. Dando uma olhada na iconografia renascentista como um todo, verificamos que a figura de um homem diante de uma mesa coberta de utensílios e ferramentas era frequentemente usada para retratar o alquimista e sua Obra, ou o artesão e seu trabalho – e não só o bagatto. Não obstante, basear-se nesse fato para legitimizar uma suposta origem concreta da figura do Mago como feiticeiro é ir longe demais – e também é desnecessário, visto que a figura do Mago ter sido assim desde o começo não legitimiza nada.

O que o Mago e o saltimbanco têm em comum? Ambos manipulam a realidade de acordo com sua vontade. De fato, seja por meio da manipulação das energias, seja por meio do ilusionismo, tanto o mago quanto o mágico trabalham e mexem com a realidade. Tudo está nos olhos de quem vê – realidade é percepção. O mágico nos faz acreditar que as coisas são de uma certa maneira e, no âmbito da mágica ao menos, as coisas são o que acreditamos que elas sejam. É como uma encenação, como um teatro – é uma realidade ‘de mentirinha’ que, no entanto, é real. Quando vemos as coisas por esse ângulo, percebemos que o suposto gap entre o ilusionista renascentista e o mago vitoriano não é tão grande assim, pois o trabalho de ambas as figuras consiste em, por meio da vontade, moldar a realidade. Pense no regente que, com sua batuta, manipula cada instrumento da orquestra e cria a música.

Dessa forma, a figura do bagatto e do mago feiticeiro se fundem para darem origem a um personagem poderoso e dinâmico, que sabe exatamente quando e o que fazer. Magia é a manipulação das forças dinâmicas elementais que são como que os blocos formadores da realidade – não muito diferente, em conceito, da química, que trabalha com os elementos formadores da matéria. A propósito, vale lembrar que a química contemporânea é uma área do saber que deu seus primeiros passos na própria alquimia. Tanto a Magia quanto a química mexem com as coisas em seu nível radical – o lugar de onde as coisas se originam. O Mago mexe na linguagem HTML da realidade, entendeu? É nesse sentido que o Mago mexe com as tais forças ocultas, invisíveis aos nossos olhos, da mesma forma que o ilusionista age em segredo por trás dos panos ou por baixo da mesa. “Ocultas” porque desconhecidas da maioria. De fato, não é muito difícil pensar em magia quando vemos certas coisas que a tecnologia é capaz de realizar – mais uma vez, tudo tem a ver com a nossa percepção, e a nossa noção do que é aceitável como “normal” e do que não é. É sobre essas duas coisas que o ilusionista age, e são essas duas coisas que o Mago mexe com seu trabalho.

Por fim, temos na raiz da figura Mago também a imagem do artesão, aquele que trabalha a matéria e cria algo novo. O artesão trabalha por meio da ténica, e essa é outra palavra que tem tudo a ver com o Mago do Tarot.

técnica
téc.ni.ca
sf (fem de técnico) 1 Conhecimento prático; prática. 2 Conjunto dos métodos e pormenores práticos essenciais à execução perfeita de uma arte ou profissão.

Um artesão experiente trabalha também com destreza – e eu já comentei aqui como que um trabalho executado com habilidade pode ser comparado a mágica. A técnica e a habilidade são duas faculdades do Mago que garantem o seu fascínio, e sua graça. Também o ilusionista faz uso dessas duas qualidades em sua atividade. Assim como o Mago e o ilusionista, o artesão põe a mão na massa e cria. Ele literalmente molda a matéria de acordo com sua vontade, com sensibilidade, destreza e habilidade.

A lição mais interessante que compor esse texto me ensinou foi a de que as imagens do Tarot, cada uma delas, são em si uma constelação de imagens e ideias. Cada imagem, ainda que homogênea, exibe traços das figuras que a compuseram, e conhecer mais tais figuras enriquece nosso entendimento da imagem.

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SIGNIFICADOS CONCRETOS

  • Da figura do pelotiqueiro, o Mago herda sua destreza, seu dinamismo e sua versatilidade;
  • Foco, enfoque preciso e o poder de efetuar mudanças são algumas das qualidades que o Mago compartilha com a figura do feiticeiro, bem como com os cientistas, os feiticeiros modernos;
  • Ação, atividade, auto-confiança e determinação são qualidades comuns das quais tanto o ilusionista e o Mago são bons expositores;
  • O Mago é uma carta essencialmente masculina, no sentido de que ele pede ou indica ação afirmativa e decisiva sobre um assunto. A ação do Mago é extremamente bem calculada;
  • Esperteza, inteligência, vivacidade, eloqüência e poder de comunicação são algumas qualidades que o Mago compartilha com Mercúrio, o planeta ao qual essa carta corresponde no sistema da Golden Dawn;
  • Não duvide de sua própria capacidade de realização quando o Mago lhe aparecer – em vez disso, faça dela um bom uso;
  • O Mago representa qualquer tipo de especialização e expertise em um determinado campo de conhecimento, portanto, se você tem o talento, formalize-o aprendendo a técnica;
  • Não seja vítima das circunstâncias – crie-as.
  • A ação do Mago denota controle – e, para controlar o mundo, você precisa começar por si mesmo. É controlando os seus elementos internos que o alquimista controla os elementos externos em sua Obra. Assim, o Mago também pede auto-controle e disciplina.

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IMAGEM

A imagem do Mago para esse post é a versão dessa carta no Tarot of the New Vision. Criado por Pietro Alligo e Gianluca Cestaro e publicado pela Lo Scarabeo em 2003, o New Vision mostra cada imagem do Rider-Waite-Smith do ponto de vista de seus personagens, bem como o que está por trás de cada uma delas. Decidi usar essa imagem justamente porque ela combina tanto a figura do Alto Mago com a do saltimbanco, colocando-lhe na frente não as portas de algum tempo, mas uma plateia de camponeses e, em suas costas, um macaquinho – que deve ajudar nos truques.

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Você pode ler mais sobre o Mago aqui.

dezembro 20, 2009

Sete de Copas (+SPR)

O tema de que trata a sétima carta do naipe de Copas é ilusão. No contexto do naipe, o Sete de Copas representa o lado enganador das emoções, particularmente quando ligadas a coisas materiais. A mensagem principal dessa carta é a de que, embora pareça genuína, a felicidade encontrada nas coisas mundanas revela-se passageira e vazia. Em sua raiz primária, a carta fala da força da imaginação, manifestada como fantasia. A seguir, analisaremos mais de perto os diversos aspectos e detalhes dessa carta, a fim de entendermos melhor o funcionamento de seu simbolismo.

Logo de cara, a atmosfera do Sete de Copas passa certa impressão de devaneio. A cena é esquisita – um homem de costas, vendo em sua frente um grupo de taças flutuando sobre nuvens densas. De cada taça sai uma coisa, cada uma parecendo chamar mais a atenção dele que as outras. De cima para baixo, vemos: uma cabeça, uma figura coberta por um véu, uma serpente, um castelo, um monte de joias, uma coroa de louros, e um dragão/monstro azul. As taças nas nuvens compõem o que parece ser uma visão que o homem, assombrado, presencia. Tal imagem pode ser vista como uma alegoria para a excitação das emoções e sentidos, que cria imagens tentadoras, dançando diante de nós.

No post sobre o Cinco de Copas, eu introduzi a ideia de que, nas cenas do Waite-Smith, a distribuição dos elementos pelos planos diz bastante sobre o que tais cenas representam. De modo geral, o primeiro plano mostra o tema principal de uma imagem, enquanto o segundo fornece complementos a esse tema. O Sete de Copas é um caso específico nesse sentido, pois o segundo plano chama mais a atenção e parece mais significativo que o primeiro. No primeiro plano temos apenas um homem, de costas, olhando para as taças. Sua postura sugere surpresa. Aparentemente, a visão emite luz forte, já que dele vemos apenas a sombra. É como se, diante de tal espetáculo, o homem fosse reduzido aos seus contornos – ofuscado, despersonalizado, eclipsado por suas visões. É curioso que a maioria das pessoas sequer dá atenção à figura obscurecida do primeiro plano, quando na verdade é ela que indica o tema principal da carta – a total absorção do indivíduo pelas ilusões do mundo. Talvez propositalmente, as taças atraem mais nossa atenção imediata – somos como o homem da carta, seduzidos pelo mistério das imagens. O baralho Light and Shadow, de Brian Williams & Michael Gopford, parece confirmar essa ideia de absorção do indivíduo. Seu Sete de Copas mostra a figura humana delineada somente com uma série de traços, cercada pelas taças, como se estivesse desintegrando-se (vide a seção de versões, logo abaixo).

As nuvens que dominam o segundo plano da carta evocam a presença do elemento Ar, o reino dos pensamentos e sonhos. Mutáveis e quase imateriais, nuvens sugerem confusão mental, falta de clareza e propensão ao engano. Juan Eduardo Cirlot, autor de A Dictionary of Symbols, cita Éliphas Lévi, dizendo que nuvens estão “(…) sempre em um estado de metamorfose, o que obscurece a qualidade imutável da verdade maior” (tradução minha). Na carta, atrás das nuvens com as taças há somente um azul estático e absoluto – a verdade maior de que fala Lévi. Outro aspecto do simbolismo das nuvens é sua conotação epifânica. Nesse sentido, nuvens simbolizam contato com o plano superior (celeste) dos deuses. Nas mitologias de várias culturas, temos exemplos de deuses aparecendo em meio a nuvens. Exemplos no próprio RWS incluem as cartas Os Enamorados e O Julgamento, nas quais anjos saem de nuvens, e os ases, onde os objetos de cada um dos naipes são segurados por mãos que saem de nuvens. Sob essa ótica, as taças nas nuvens podem ser vistas como “coisas de outro mundo”, manifestações vindas direto do plano espiritual ao plano material, onde está focada nossa consciência.

Há três taças em cima e quatro embaixo, sugerindo a trindade do espiritual sobre o quaternário da matéria. O triângulo sobre o quadrado é a representação geométrica do número 7. Com efeito, as três taças superiores ilustram conceitos abstratos, enquanto as inferiores representam coisas mais mundanas. Apesar de ser senso comum que os objetos da carta simbolizam tentações, o que eles representam precisamente é discutível, e varia de acordo com o ponto de vista. Seguindo o princípio do valor do conjunto sobre o valor de seus elementos constituintes, as sete taças devem ser vistas primeiro como um setenário, e só depois consideradas como símbolos separados. É certo que podem ser associadas aos setenários em geral, como os Sete Pecados Capitais, por exemplo. Curiosamente, os sete arcanos planetários podem ser comparadas aos objetos do Sete de Copas. Por exemplo, a torre pode ser comparada à própria torre da carta 16, que corresponde a Marte. A figura velada lembra a Sacerdotisa – a Lua; e a serpente, o cinto do Mago – Mercúrio. Assim, os objetos podem ser associados aos sete planetas do sistema astrológico caldeu – as três taças superiores ao Sol (rosto), Lua (figura velada) e Mercúrio (serpente); e as quatro inferiores a Marte (torre), Vênus (joias), Saturno (coroa de louros) e Júpiter (dragão/monstro). Ao lado, temos uma tentativa de associar cada objeto a um planeta, de acordo com suas comparações com os arcanos maiores planetários. A seguir, ofereço uma explicação mais detalhada sobre cada um dos objetos, com base na minha forma de ver e interpretar os símbolos. Embora possam ser levados em conta como verdadeiros no entendimento da carta, essas ideias não são a verdade absoluta sobre ela. Cada estudante tem o direito (e mesmo o dever) de interpretar os símbolos ao seu próprio modo (contanto que tenha conhecimento da tradição à qual eles pertencem). Esse, a meu ver, é o Tarot – como diz Cynthia Gilles, “O verdadeiro Tarot é o produto da busca de cada indivíduo para entendê-lo” –

A cabeça – De maneira geral, a cabeça evoca ideias de força de comando, centro e individualidade. O simbolismo da cabeça relaciona-se ao símbolo do uno, da individualidade, e do ego – a cabeça é a “morada do eu”. O Zohar associa a cabeça à Luz Astral. A noção de identidade baseia-se largamente na imagem do rosto, que por sinal é onde se encontra a maioria dos órgãos dos sentidos, nos quais nossa experiência de vida se constrói. A cabeça corresponde ao Sol, o centro, astrologicamente associado ao ego e ao uno. No sistema de correspondências cabalísticas da Golden Dawn, a carta 19, o Sol, corresponde à letra hebraica resh, . O alfabeto hebraico tem suas raízes no alfabeto fenício, onde a letra que veio a desenvolver-se na resh hebraica tem sua origem no hieróglifo egípcio de uma cabeça, , com som de tp (tabela abaixo). Além de seu significado óbvio, tal hieróglifo também significa sobre, em cima e chefe, comandante. A propósito, podemos ver o próprio rosto no sol na carta 19 como uma alegoria que ilustra a ideia do Sol como a cabeça, o centro. Por conseguinte, no contexto da carta Sete de Copas, a cabeça simboliza o ego, e relaciona-se ao intelecto, poder e autoridade, como também à vaidade. De maneira mais abstrata, a cabeça aqui se relaciona à consciência.


A serpente – A serpente é um símbolo antigo e polissêmico. Basicamente, o simbolismo da serpente relaciona-se à energia em si, pura força. A serpente está intimamente ligada à força ctônica – as forças subterrâneas, o inconsciente. Nesse sentido, podemos ver a serpente aqui como um símbolo da parte mais ancestral do homem – o instintivo, o incontrolado, o caótico, nossas emoções mais primárias. Um exemplo do aspecto ctônico do simbolismo da serpente está no conceito indiano da kundalini – a energia ígnea, em forma de serpente enrolada, que adormece entre o ânus e o órgão sexual. Dessa forma, a serpente também pode ser vista como a energia sexual, a libido. Combinando a cabeça e a serpente, temos na parte superior do grupo de taças a dicotomia mente/corpo, espírito/matéria, luz/trevas, consciência/inconsciência – a cabeça, a parte mais alta, e a serpente, animal rasteiro. Isso pode ser visto como uma alegoria de que tanto o mundo consciente quanto os impulsos instintivos são ilusórios. No contexto da carta, a serpente que sai da taça pode ser um indicativo de perigo e ameaça, como também de instinto, emoções primárias e impulso sexual, bem como energia e força vital.

A figura velada – entre a cabeça e a serpente está a imagem mais misteriosa da carta – uma figura humana coberta por um manto branco, de braços abertos e cercada por uma aura vermelha. Tal imagem pode ser vista como uma representação do desconhecido. Vários de seus traços – sua posição central, a aura que a cerca, sua aparência misteriosa – destacam-na das outras imagens, tornando plausível supor que ela tenha uma significância especial. Com efeito, ela parece representar o Grande Mistério que atrai o homem. Eden Gray, em seu livro Mastering the Tarot, descreve a figura velada em relação ao homem como sendo “(…) a sua própria divindade, esperando para ser descoberta”. Suas características viabilizam essa ideia. Ela está de braços abertos, em postura receptiva ao homem. Suas vestes são brancas, sugerindo espiritualidade e pureza. O vermelho, a cor do brilho que ela emite, relaciona-se com energia e poder. Um ponto importante dessa figura está exatamente em sua combinação branco/vermelho. Tal combinação é recorrente no Waite-Smith (ex. o Mago, a Temperança), tendo especial significância no simbolismo do baralho, basicamente relacionada à dualidade espírito/matéria, feminino/masculino. Nesse sentido, o branco relaciona-se à Lua, e o vermelho ao Sol. Velada, ela é comparável à Sacerdotisa, relacionada à Lua, podendo, portanto, ser vista como a própria Sabedoria, a própria Torah. De todas as imagens surgindo das taças, ela é a pura, a genuína – a realidade que se esconde por trás da cortina de fumaça do nosso mundo. Em uma palavra, ela representa o verdadeiro eu do homem, aguardando por ele no centro, em meio às ilusões materiais.

A Torre/castelo – “Megalomania, a busca selvagem por ideias fantasiosas e mesquinhez formam o contexto desse símbolo”, diz Oswald Wirth a respeito do simbolismo da torre. A fortaleza do Sete de Copas é grande, e está no alto de uma montanha. Isso pode ser interpretado como desejo por realização, o desejo de alcançar o céu. Note que a torre está logo abaixo da cabeça, o que pode simbolizar a manifestação do poder representado pela cabeça do plano espiritual no mundo material. A torre ou o castelo representam certo distanciamento da natureza – uma construção artificial, que pretende criar um mundo separado, e controlável. Alegoricamente, a torre pode ser um símbolo da mente e do ego, e da construção de um sistema de crenças forte e resistente, porém fechado e vulnerável. No Sete de Copas, ela pode indicar o desejo ou o sonho por poder, domínio e segurança. Diferente da torre da carta 16, essa torre está firme e sólida – são crenças e posturas estabelecidas e enraizadas.

As joias – o monte de joias dentro da taça forma o que parece ser um tesouro. Evidentemente, indica fortuna e luxo. Observe que de um dos lados da taça pende uma corrente, o que poderia ser uma sugestão dos grilhões da ganância. As joias indicam sonhos de riqueza e posse, como também cobiça.

A coroa de louros – a coroa de louros é um conhecido símbolo de vitória, que tem suas origens na Grécia Antiga. O louro é associado a Apollo, o deus grego do Sol e da luz. Por ser uma planta sempre verde, o louro simboliza imortalidade, não só na cultura grega. O próprio Apollo é um deus eternamente jovem. Na Grécia Antiga, e posteriormente em Roma, coroas de louros eram usadas para indicar grandeza intelectual e vitória em competições e em batalhas. Uma coisa interessante que podemos pensar sobre o simbolismo dessa figura na carta é que a vitória que ela representa também se relaciona a fama e celebridade. A fama é uma forma de perpetuação da existência, através da memória que deixamos para a posteridade. O desejo de celebridade representa, portanto, a necessidade que temos de vencer a morte, de driblar nosso próprio fim. Esse pode ser o motivo da discreta sombra ou reflexo de caveira projetada na taça que abriga a coroa de louros. Popularmente, a caveira simboliza perigo – sua presença em recipientes indica que a substância ali contida é venenosa. Isso pode ser uma indicação de que o desejo de vitória e fama é o mais perigoso de todos.

O monstrinho/dragão – a última taça abriga um pequeno monstro ou dragão azul. Seu aspecto é assustador – ele parece prestes a atacar o homem. Ele pode ser uma representação dos medos, e da parte sombria, desconhecida e selvagem da alma. Assim como a cabeça e o castelo, ele é azul. O azul é a cor mais profunda, e expressa o infinito, inalcançável e surreal. A cor azul dos objetos sugere que eles estão distantes – e isso pode evocar tanto ideias de coisas inalcançáveis quanto associações com fantasias e sonhos.

Karen Hamaker-Zondag, no livro Tarot as a Way of Life: a Jungian Approach to the Tarot, oferece uma interpretação alternativa do grupo de taças dessa carta, dizendo que as taças inferiores expressam perigo, e as três superiores sugerem desenvolvimento psicológico proveitoso” (pg. 49).
Segundo a interpretação de Karen, o triângulo de taças é libertador e positivo, enquanto o quadrado é limitador e negativo

Nosso mundo emocional está completamente aberto a uma multidão de fantasias e sonhos, que podem desenvolver-se de uma maneira positiva, mas que podem nos afastar da realidade com igual facilidade. Sem de fato perceber, estamos defronte a duas fileiras de taças, todas elas parecendo-se com presentes da terra das nuvens. Porém, a fileira inferior incita-nos a jogos de poder, ganância, ambição ou agressão, antes que nos damos conta disso, enquanto a fileira superior pode levar-nos a um contato melhorado com nosso inconsciente, a um fluir ininterrupto de energia psíquica e, finalmente à fusão com nosso centro interno, nosso eu verdadeiro, que por hora ainda está sob um véu. Esta é uma carta de dois aspectos: ela previne contra desejos errados e contra o desenvolvimento de traços de caráter desagradáveis, os quais ignoramos; e, por outro lado, ela revela potencial para um tremendo crescimento espiritual e psicológico, e para nos tornarmos nós mesmos.” (tradução minha, pgs. 100-101. A expressão “terra das nuvens”, em itálico, é uma tradução literal da palavra cloudland, que traduz-se por “reino da imaginação/fantasia” em inglês).

Isso não deixa de fazer sentido, especialmente quando consideramos que as quatro taças de baixo estão ao alcance imediato do homem, enquanto as de cima são mais difíceis de serem alcançadas, e ainda são presididas pela figura coberta pelo véu, que expressa o desconhecido e o que existe por trás das ilusões da matéria.

Sendo uma carta de Copas, esse sete fala essencialmente de emoções e sentimentos, e é importante circunscrever a carta a esses termos na sua interpretação. A carta mostra como os sentimentos podem ser enganosos, ao mesmo tempo em que nos tentam e seduzem. O Sete de Copas ressalta o aspecto sedutor e enganoso do elemento Água. Desde tempos remotos, as águas têm exercido esse tipo de influência sobre o ser humano, mistura de medo e curiosidade, perigo e desejo. Sereias e monstros marinhos, figuras altamente recorrentes em diversas mitologias, personificam essa impressão que as águas causaram em nós. A mitologia grega contém uma série de narrativas que envolvem pessoas sendo seduzidas e levadas à perdição, ou à morte, por entidades aquáticas. O quadro Hilas e as Ninfas (1896), do pintor simbolista inglês John William Waterhouse, é uma boa ilustração de um mito sobre essa temática. O quadro ilustra Hilas, jovem de grande beleza, sendo seduzido e raptado pelas ninfas do rio de onde ele pretendia pegar água. A pintura mostra o momento em que as ninfas surpreendem Hilas, que ainda segura seu pote. O rapaz parece hipnotizado, e as ninfas, que aparentam ser todas a mesma, têm um olhar lânguido que sugere enlevo e certo torpor. Curiosamente, são em número de sete, e uma delas estende suas mãos cheias de pérolas, parecendo ofertá-las ao rapaz, o que me faz pensar na taça cheia de joias do Sete de Copas. Não acho provável que essa pintura tenha alguma relação com a carta pintada por Pamela Smith, mas é interessante notar certa similaridade entre as duas obras. Outra pintura de Waterhouse, A Sirena ou A Sereia (acima), mostra um marinheiro afogando-se aos pés de uma sereia que, segurando sua lira, olha para ele com indiferença. Ao seu lado, um pedaço de seu barco indica que ele acabou de chocar-se contra as rochas, certamente atraído pelo canto da sereia. Relacionado a isso ou não, uma das definições que a Golden Dawn dá ao Sete de Copas é “o ‘canto da sereia’ do engano, fazendo [o sujeito] esquecer-se de sua vontade” (The “siren song” of deception, causing one to forget his or her will, tradução minha).

Podemos entender melhor o Sete de Copas se considerarmos sua posição no naipe ao qual pertence. A relação do Sete de Copas com suas cartas vizinhas revela mais detalhes sobre seu significado. O Sete de Copas sucede o Seis, relacionado a prazer e bem-estar, e precede o Oito de Copas, que fala sobre enfado e renúncia. O Sete representa um abuso do bem-estar do Seis. O que antes era experimentado de forma espontânea e desapegada (as crianças do Seis de Copas), agora desperta ganância. A reação a isso é o Oito, a renúncia de todas essas coisas. O homem percebeu que a felicidade que ele busca não está nesse tipo de prazer efêmero, mas em coisas mais profundas. Das taças, ele escolheu a coberta por um véu, decidiu ver o que existe além daquele carnaval de sensações e emoções do mundo. Ele retira-se do mundo, como o Eremita da carta 9.

No sistema de correspondências da Golden Dawn, o Sete de Copas corresponde ao terceiro decanato de Escorpião, regido por Vênus – portanto, Vênus em Escorpião. Esse é um importante aspecto dessa carta, pois é de sua associação com tal decanato que tiraram o seu significado. Vênus representa o prazer de modo geral; aliado à energia intensa de Escorpião, por vezes obsessiva, o deleite do prazer representado por Vênus perde os limites e atinge níveis intoxicantes. A força de atração e a busca por amor e prazer de Vênus é intensificada por Escorpião, que representa a energia sexual. Essa combinação traduz-se por desejo avassalador e gera grande intensidade emocional que, aliada às contradições escorpinianas de desejo versus culpa, sugere esbórnia e libertinagem. Embora esse aspecto sexual de Vênus em Escorpião não esteja diretamente evidenciado no Sete de Copas do RWS, a entrega à auto-indulgência ilustrada na carta compara-se perfeitamente a essa combinação astrológica. Há aqui o abuso de todos os tipos de prazer, o “gozo que conduz à dependência”, como diz Hajo Banzhaf. Com efeito, esse parece ser o significado do Sete de Copas no qual Crowley se focou ao desenvolver o seu baralho Thoth. Nesse baralho, o Sete de Copas recebe o título de debauch, palavra de origem francesa que se traduz por “devassidão”, “depravação”, “dissipação” (em português, deboche tinha originalmente essa mesma conotação). Crowley associa essa carta a conceitos como toxidez, loucura e vício. A imagem da carta chega a ser um pouco asquerosa, com suas taças transbordando de um líquido esverdeado gosmento, que goteja incessantemente num pântano sem fim.

O Sete de Copas é chamado de Deboche. Esta é uma das piores idéias que se poder ter; seu método é veneno, sua meta, insanidade. Representa a ilusão do delirium tremens e do vício das drogas; representa o afundamento no lodo do prazer falso. Há algo quase suicida nesta carta. Ela é particularmente má porque não há nada, seja lá o que for, para equilibrá-la – nenhum planeta forte para sustentá-la. Vênus vai atrás de Vênus, e a Terra é agitada [para] dentro do pântano de escorpiões. (O Livro de Thoth, Aleister Crowley).

A imagem do Sete de Copas do RWS não é tão feia quanto a do Thoth, contudo. Apesar de essa conotação de devassidão estar inclusa nas associações astrológicas da carta, a imagem do RWS expõe mais em seu aspecto de fantasia e ilusão. Pamela pareceu ater-se mais ao lado espiritual e emocional da carta. Realmente, e isso é bom ressaltar, toda essa dissipação e excesso sugeridos pela combinação de Vênus e Escorpião existem, antes de tudo, no nível emocional e mental. Na imagem da carta, as taças flutuam sobre nuvens, e o personagem que as vê não faz mais do que de fato vê-las. Ainda que o Sete de Copas represente o excesso do deleite dos prazeres da carne, sua raiz é emocional. Por outro lado, Escorpião é também o guardião dos mistérios da vida e da morte (é por isso, inclusive, que ele é a energia sexual – a energia fecunda que origina a vida), o signo do desconhecido e do secreto. Essa ambivalência contraditória de Escorpião, que debate-se entre vida e morte, prazer e dor, medo e desejo, pode ser percebida na imagem da carta, que mistura figuras atrativas com coisas assustadoras e perigosas. Esse show de imagens distrai a atenção do homem para a figura velada, o Mistério maior, o segredo de Escorpião que se esconde em meio às coisas mundanas. Ele envolve-se com elas e perde de vista o seu foco.

É possível traçar um paralelo entre a ideia central do Sete de Copas e o conceito indiano de māyā, palavra sânscrita que significa “aquilo que não é”. No hinduísmo, māyā define-se pela ilusão de dualidade da qual sofre a consciência focada no mundo manifestado, que gera o engano de que o mundo objetivo é real, quando na verdade, ele é só um reflexo do Uno. A influência de māyā promove a identificação da alma com seu corpo e com o mundo objetivo. No pensamento hindu, o mundo objetivo é ilusório; seu estado de constante mudança é um reflexo disso. A mente, a passagem do tempo, as mudanças de estado, a vida e a morte – tudo isso é māyā. A raiz de māyā está na falsa noção de distinção entre o eu e o universo. Essa noção é a fonte do desejo e da repulsa, as duas forças que jogam o indivíduo de um lado para o outro no mundo. Isso pode ser visto nos dois elementos mais básicos da carta: o homem e as coisas que ele vê – o eu e o mundo, o sujeito e o objeto. Māyā é o que prende o homem às coisas que ele deseja ou repudia – os objetos saindo das taças da fileira inferior. Através dos sentidos, o indivíduo apega-se aos objetos ao seu redor e perde-se em seu desejo por eles, o que o faz esquecer-se de sua natureza intrínseca. Esquecendo-se de sua natureza, esquece-se de que ele mesmo e as outras coisas são um. Nesse contexto, a figura velada no centro da carta representa a Verdade por trás do véu de māyā. Com um véu sobre seu rosto, ela não tem identidade, é a neutralização do ego; é o Eu Superior, a centelha divina de verdade que existe dentro do indivíduo.

O Sete de Copas resume-se, portanto, ao ego. Todos os objetos saindo das taças são tentações ao ego. A noção de ego é o que leva o indivíduo à perdição no jogo de desejo e repulsa de suas emoções. Justamente em meio a esse jogo, oculta sob o véu das aparências, está a verdadeira natureza das coisas. Jayaram V nos oferece uma definição de māyā que eu achei especialmente comparável ao Sete de Copas –

“Afinal de contas, o que é ilusão? Ilusão é algo como uma miragem que te desencaminha para pensamentos e ações erradas. Esse mundo faz exatamente isso. Ele te oferece felicidade, mas te encaminha para as trevas do sofrimento. Ele te tenta com muitas coisas e, quando você corre atrás delas, descobre que são irreais e incapazes de matar sua sede por estabilidade e permanência.”

Observando com mais atenção a cena, percebemos um detalhe que o homem não percebe – as taças estão todas vazias. As coisas que saem de dentro delas não existem. O homem, deslumbrado, enxerga nas imagens mais do que elas são; ele só vê o que julga existir, e seu julgamento é intensamente influenciado por suas emoções. Consequentemente, ele projeta nelas seus anseios e apreensões – sua imaginação, seus sentimentos preenchem as taças. Nesse sentido, é viável sustentar que a figura velada do centro poderia representar o próprio desconhecido – pois a única coisa real dentro das taças é o nada, o vazio, que uma figura sem rosto representa. O Sete de Copas é o deslumbre pelo desconhecido; são nossos sentimentos tentando preencher as lacunas da parte de nossa vida que não conhecemos. O Sete de Copas marca o fim da experiência de Escorpião (o mergulho nas profundezas e a morte, a paixão pelo oculto e pelo mistério, o desvendar dos segredos da carne) e o começo da experiência de Peixes (a transcendência, o renascimento do espírito após a morte da carne, a negação do eu, a inexistência), iniciada com a renúncia do Oito de Copas, Saturno em Peixes. No Oito, ele deixa todas as taças para trás – vazias – e parte em busca de um real preenchimento, e em busca de desvelar esse desconhecido. É só no Nove, Júpiter em Peixes, que ele sacia essa sede – a mesma sede de que fala Jayaram V.

Veja também mais sobre o Sete de Copas aqui.

Algumas versões do Sete de Copas de outros baralhos

Diferentes baralhos fornecem diferentes formas de ver o Sete de Copas. Confira abaixo as várias versões que essa carta assumiu ao longo do tempo.

Royal Fez Moroccan Tarot, idealizado por Roland Berrill. O simbolismo é quase idêntico ao RWS. Na carta, as taças são dispostas mais simetricamente, revelando o padrão triângulo-quadrado, sugerindo a superioridade das três taças de cima. Observe como a figura velada está mais centralizada e enfatizada.

O Aquatic Tarot, pelo alemão Andreas Schröter, é uma versão em aquarela do RWS. A combinação cai bem particularmente ao Sete de Copas, que recebe um ar onírico, psicodélico.

No Aquarian Tarot, só as taças aparecem na carta, e alguns objetos foram modificados - como a figura velada, que virou algum tipo de máscara de aviador. Esse deck foi feito por David Palladini, e lançado em 1970 - como era de se suspeitar, rs.

Criado por Gianluca Cestaro e Pietro Alligo, e lançado pela Lo Scarabeo em 2003, o New Vision Tarot é uma versão do Waite-Smith que mostra o outro lado das cenas de cada carta. As nuvens do Sete de Copas desse deck parecem prateleiras que abrigam as taças. Ao fundo, duas moças presenciam a cena com o rapaz, uma delas maravilhada, e a outra apavorada.

Essa é uma das versões mais legais dessa carta que eu já vi. Faz parte do projeto The Webcomics Tarot Project, onde cada artista desenha uma carta. O Sete de Copas foi feito por Hyena Hell, artista de HQ's americana. A carta mostra as alucinações de um cara que bebeu demais, rs.

O Light and Shadow Tarot, desenhado por Michael Gopford, juntamente com Brian Williams, explora o contraste do preto e branco em suas ilustrações de linogravura. Seu Sete de Copas obedece o simbolismo tradicional. O mais interessante dessa versão é a figura humana que aparentemente fragmenta-se em meio as taças. O baralho foi lançado em 1997.

O Sete de Copas do The New Tarot mostra as imagens das taças em molduras, que parecem estar sobre uma lareira ou algo assim. As molduras também poderiam ser espelhos. Um detalhe interessante é que, em vez da aparição coberta por um véu, a imagem do meio parece a de uma TV fora do ar. Esse baralho foi lançado em 1974, criado por Jack e Rae Hurley, e ilustrado por John Horler.

O Tarot Druid Craft mostra um rapaz contemplando seis taças no reflexo da água, enquanto não percebe a única real ao seu lado. Semelhante ao Quatro de Copas, a imagem remete a Narciso, e lembra um pouco a pintura de Waterhouse de Hylas e as Ninfas.

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Interpretação Divinatória

Após essa extensa análise da carta, podemos falar da contribuição do Sete de Copas em uma leitura. Como afirmei anteriormente, o tema central dessa carta consiste em perdição e excesso – a perdição na ilusão do mundo, o excesso de luxo e de luxúria, etc. Por perdição eu quero dizer todo o tipo de tentação e interferência que nos tira de nosso caminho – qualquer que seja ele, sem evocar qualquer tipo de moralismo. Quanto ao excesso, basta lembrarmos o ditado que diz que “tudo o que é demais faz mal”.

Em uma leitura, o Sete de Copas traz a influência do poder que os sentimentos têm de nos fazer perder o contato com a realidade objetiva. A carta refere-se a engano, especialmente a auto-engano. O indivíduo aqui se deixa levar por seus desejos e vontades, frequentemente vendo as coisas mais do jeito que ele quer do que como de fato elas são. Alguém que fantasia com um amor que não existe, ou uma pessoa que sonha com uma vida que não tem, por exemplo.

O lado prejudicial dessas fantasias é que elas acabam nos impedindo de realmente alcançar o que queremos. O Sete de Copas mostra aquela nossa tendência em sonhar demais e fazer de menos. Quando essa carta aparecer, pergunte-se em que medida você está de fato fazendo coisas concretas por seus objetivos, e em que medida está apenas sonhando sobre eles. É muito legal dizer que o seu sonho é ter um apartamento, por exemplo, no entanto isso envolve economizar mais, e não gastar com um monte de coisas pouco necessárias.

Outro dos significados dessa carta é o deslumbramento, como bem ilustrado em sua imagem, onde o homem está ofuscado pelas visões fascinantes na sua frente. Muitas vezes, na vida, nos sentimos incondicionalmente atraídos a outras pessoas, coisas ou situações, que atiçam nossos sonhos, mas que realmente não significam nada. Nós é que projetamos nossas fantasias nessas coisas – nos as usamos apenas como simulacros para sustentar nossas próprias imagens internas.

A presença de Vênus em Escorpião traz uma forte tendência ao excesso, particularmente em relação a sexo – promiscuidade, mas também alcoolismo, uso excessivo de drogas, gulodice, ganância. Temos aqui uma energia de extremo prazer físico, que leva ao vício. Sempre que essa carta aparecer em uma leitura, veja se você não está perdendo-se no prazer carnal e entregando-se ao relaxo.

Contudo, nenhuma carta é só boa ou só ruim. Podemos também ver o Sete de Copas como a força da imaginação. Dependendo das outras cartas, o Sete de Copas pode significar simplesmente uma imaginação fértil, criatividade e inspiração. Outro de seus aspectos favoráveis tem a ver com beleza e atratividade – Vênus é a deusa da beleza e do amor.

  • Excesso
  • Perdição
  • Deslumbramento
  • Sonhos, fantasias
  • Desejos
  • Prazer físico vicioso
  • Imaginação, criatividade
  • (Auto) engano, ilusão

Análise SPR – Situação, Problema, Recursos

Resumo – análise do comportamento da carta nas três posições dessa disposição simples, a saber:

– 1. Situação, posição neutra, indicando a cena geral da questão e as disposições do consulente;

– 2. Problema, posição com nuances negativas, que evidencia o problema central que essa situação apresenta;

– 3. Recursos, posição com nuances positivas, reveladora dos recursos disponíveis para resolver o impasse indicado na posição dois.


1. Situação Na posição 1, o Sete de Copas assume seu significado neutro –
fantasia, ilusões, sentimentalismo, sonhos; deslumbre, fascinação por algo. Há uma forte tendência de o consulente estar desviando-se de seu caminho original por ser seduzido por coisas que apelam ao seu prazer. Geralmente eu vejo essa carta aparecendo para indicar que o consulente está seduzindo-se por suas próprias fantasias sobre coisas que ele deseja. Exemplo –

Mulher deseja sair de seu emprego atual e encontrar algo melhor (Pergunta hipotética)

Sete de Copas – Cinco de Espadas – Pajem de Copas

Duas cartas de Água e uma de Ar sugerem muito sonho e vontade, algumas ideias, mas nenhuma ação efetiva (Paus, Fogo) ou resultado concreto (Ouros, Terra). A consulente sonha demais com isso (Pajem e Sete de Copas), idealiza, fica pensando – mas nunca faz nada a respeito, realmente. O Sete indica que ela tem pouco foco no que quer, ficando completamente dispersa. É provável que ela esteja imaginando não uma, mas varias possibilidades de mudança, sem contudo fazer nada a respeito. Isso é intensificado pela presença do Pajem de Copas, personagem sonhador e fantasioso. As coisas aqui existem mais no reino das ideias. Ela pensa bastante em sair, sonha com isso, mas não sabe muito bem nem o que significa isso – não tem noção do lado prático da coisa. O Cinco de Espadas indica uma série de problemas que inviabilizam essa questão no momento. Disso podemos auferir que o mundo não lhe oferece suporte para tomar uma decisão dessas. O mercado na sua área talvez esteja competitivo demais, por exemplo. O Pajem de Copas como recursos indica que ela pode canalizar esse entusiasmo todo para vencer essas dificuldades. O Pajem de Copas é Terra de Água, ele traz o conteúdo emocional ao mundo objetivo, por meio de sua própria atitude. Pajens também são inícios de algo, o que me sugere que ela pode de fato ao menos começar a fazer algo a respeito. Figuras da corte representam ações, então eu diria que o recurso dela aqui é realmente materializar seus sonhos. Enquanto o Cinco diz que esses planos encontram muitos problemas, o pajem mostra que ela vence isso sendo otimista e acreditando mais no seu coração do que no mundo. Por enquanto a possibilidade é pouca, mas ela deve começar a agir, para que, lentamente, consiga alcançar seu objetivo. O legal aqui é que o pajem tem o poder de canalizar a energia do Sete e transformá-la em atitude.

2. Problema
– o desafio indicado por essa carta na posição 2 é, obviamente, manter os pés no chão e saber resistir às tentações. Essa combinação também indica uma necessidade de separar o que o real do fantasioso, o útil do supérfluo. Exemplo –

Esclarecimento sobre a situação de um rapaz que acabou de escrever um livro e procura ajuda para seu lançamento (pergunta hipotética)

Justiça – Sete de Copas – Dez de Paus

No aspecto elemental, temos aqui uma configuração oposta à exposta no exemplo anterior – a carta de Ar (Justiça) harmoniza-se e fortalece a carta de Fogo (o Dez), tirando as forças do Sete de Copas, Água. O rapaz age em direção aos seus objetivos e ideais, embora ainda não tenha tido nenhum resultado prático (cartas de Terra são ausentes). A Justiça é a carta mais forte da tiragem, e indica que ele considera cuidadosamente suas possibilidades. O Sete de Copas aqui indica que ele precisa lidar com seus sonhos de maneira mais objetiva. Essa carta tão enfraquecida na tiragem, numa posição que fala de desafios, sugere também que ele precisa dar mais atenção às suas emoções. Observe aqui a tensão entre a Justiça, que busca a harmonia e a certa medida, e o Sete de Copas, caótico, desorganizado e dionisíaco. O rapaz tende a perder-se nas opções por não saber separar as possibilidades reais das ilusórias. Ele consegue isso justamente prestando mais a atenção em sua intuição, que no momento não está sendo muito ouvida. Para que o equilíbrio buscado pela Justiça seja alcançado, seus sentimentos precisam aliar-se ao seu intelecto, sem que ele sucumba às tentações. A chave para alcançar esse equilíbrio está no Dez de Paus, que mostra grande força, tenacidade e capacidade de responder à altura de muita responsabilidade. Observe como a diversidade do Sete de Copas é sustentada bravamente no Dez – são vários aspectos da situação, vários projetos sendo sustentados de uma vez.

3. Recursos
– na posição 3, temos a possibilidade de explorar o potencial criativo do Sete de Copas. Levando em consideração particularmente a imagem dessa carta no RWS, é clara a sua relação com imaginação e fantasia. O número 7 é associado a misticismo e espiritualidade; ele é o contato entre o plano espiritual e o material, tema evidenciado nessa carta (ao contrário dos outros setes dos arcanos menores). As nuvens na carta marcam uma possível relação entre os dois planos, o que sugere inspiração. A visão que o homem presencia também parece ser espontânea. Assim, é possível tomar essa carta nessa posição como indicativa de criatividade, inspiração, inclinação espiritual ou boa capacidade intuitiva. Exemplo –

Leitura para uma moça, a respeito de seu estudo de Tarot

Dez de Ouros – Pajem de Ouros – Sete de Copas

Duas cartas de Terra para uma de Água tornam a situação bem fixa. A total presença de elementos passivos evoca receptividade e lentidão. A presença do Pajem de Ouros, Terra de Terra, parece reforçar isso. A moça está no inicio de sua jornada de aprendizado. Com tantas cartas de terra, ela com certeza está em busca de resultados concretos com seus estudos, possivelmente mesmo financeiros. O Dez de Ouros indica que ela tem bons recursos, e uma boa base. Além disso, essa carta sugere que a consulente tende a ver as coisas de forma conservadora, valorizando sempre o tradicional. Isso é confirmado pelo Pajem de Ouros, que nunca sai da risca e sempre recorre ao método. Nesta posição, ele alerta a consulente sobre ser dogmática e cabeça-dura demais, pois enquanto o Dez de Ouros sinaliza um background consistente e preparo, o pajem sugere demais dependência a essas bases. Nessa sequência, o Sete de Copas faz a diferença, desestabilizando parcialmente a fixidez das duas cartas anteriores. A carta indica que a moça tem uma imaginação poderosa, que pode ser útil em suas leituras e estudos. Rebelde e caótica, essa carta nega suas precedentes, basicamente indicando que a consulente pode usar a seu favor seu poder de intuição e sua criatividade. Para sobrepujar a morosidade do pajem, ela deve deixar sua imaginação correr solta, o que por vezes traduz-se por certo distanciamento do método. Muitas vezes, se não sempre, a espontaneidade e a capacidade de receber flashes de insight do Tarot são tão importantes quanto o método e a técnica.

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Fontes de Referência

Livros (título, autor, editora)

A Dictionary of Symbols, J. E. Cirlot, Routledge & Kegan Paul Ltd.

Dictionary of Symbols, Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Penguin Books

The Pictorial Key to the Tarot, Arthur E. Waite, U.S. Games Systems Inc.

O Tarô Cabalístico, Robert Wang, Ed. Pensamento

Manual do Tarô, Hajo Banzhaf, Ed. Pensamento

Seventy Eight Degrees of Wisdom, Rachel Pollack, Weiser Books

Tarot as a Way of Life: a Jungian Approach to the Tarot, Karen Hamaker-Zondag, Weiser Books

O Livro de Thoth, Aleister Crowley (tradução Edson Bino e Marcelo A. C. Santos, Ed. Madras


Sites

Wikipedia

Zohar – http://en.wikipedia.org/wiki/Zohar

History of the Alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_the_alphabet

Proto-Sinaitic Alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Proto-Sinaitic_alphabet

Proto-Canaanite alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Proto-Canaanite_alphabet

Resh (semitic letter) – http://en.wikipedia.org/wiki/Resh

Hebrew alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Hebrew_alphabet

Seven of Cups – http://en.wikipedia.org/wiki/Seven_of_Cups

Hylas – http://en.wikipedia.org/wiki/Hylas

Maya – http://en.wikipedia.org/wiki/Maya_(illusion)

Dicionários

Michaelis UOL – http://michaelis.uol.com.br/

Reverso – http://dictionary.reverso.net/portuguese-english/

The Free Dictionary – http://www.thefreedictionary.com/

Sites Diversos

The Astral Light, by Henry T. Edge – http://www.theosociety.org/pasadena/gdpmanu/astral/astral.htm#meaning

Egyptian fonts – http://www.fontspace.com/category/ancient,egyptian

Dicionário de hieróglifos online – http://hieroglyphs.net/0301/cgi/pager.pl?p=01

White/red symbolism – http://www.tarotmoon.com/articles/Symbols/symbols.html

Corax.com, Cards Meanings, Seven of Cups – http://www.corax.com/tarot/cards/index.html?cups-7

Supertarot – Seven of Cups meanings – http://supertarot.co.uk/minor-cups/seven.htm

http://www.victorianweb.org/painting/jww/paintings/kelly11.html

Site do Aquatic Tarot – http://www.aquatictarot.de/deck/tarot.html

Taroteca – http://taroteca.multiply.com/

The Power of Maya and the Nature of Reality, Jayaram V. – http://hinduwebsite.com/hinduism/h_maya.asp

Aeclectic Tarot – http://www.aeclectic.net/tarot/,

Aeclectic Tarot Forum – http://www.tarotforum.net/

The Webcomics Tarot Project – http://tarot.senshuu.com/

Hyena Hells’s Page – http://www.webcomicsinc.com/profile/HyenaHell


Obrigados especiais a Sil, Marcela e Carlos, que me ajudaram a trabalhar com as imagens, traduzir textos e pensar o simbolismo.

novembro 11, 2009

O Seis de Ouros (+ Exercício SPR)

Seis de Ouros - Waite-Smith Tarot (1909)Hoje falaremos de mais uma carta do naipe de Ouros, o Seis de Ouros.


O significado central do Seis de Ouros tem a ver com riqueza material. Em leituras, essa carta frequentemente tem uma conotação positiva, indicando prosperidade. Um dos aspectos do Seis de Ouros tem a ver com generosidade. Num nível um pouco mais profundo, vemos também a temática do dar e receber – a constante troca de valores, estados e posições.

Na versão do RWS (o baralho Rider-Waite-Smith) temos um homem, aparentemente um rico comerciante, dando com sua mão direita algumas moedas para dois mendigos, enquanto segura uma balança com a outra mão. Um dos mendigos recebe os trocos, enquanto o outro aguarda sua vez. Há nessa carta uma tênue noção de equilíbrio. O doador dá as moedas com sua mão direita enquanto segura uma balança com mão esquerda. O lado direito é associado à mente, à lógica e à razão; o lado esquerdo relaciona-se com o coração, a emoção e os sentimentos. A presença de uma balança na mão esquerda indica que o homem dá com parcimônia, e equilibra bem seus sentimentos ao entregar. Em outras palavras, ele doa com prudência, na medida de suas condições – ele dá o que pode. Por outro lado, alguns elementos da carta sugerem certo desequilíbrio – a balança pende levemente para a esquerda, e das seis moedas acima dos personagens, três pairam sobre o mendigo que recebe e só duas sobre o que não recebe. Ademais, sobre o mendigo da esquerda está a mão doadora, enquanto que sobre o da direita paira a balança – como se ele recebesse o “peso da justiça”. Essa leve discrepância parece sugerir o fluxo de alternância de ganhos e perdas da vida. Podemos imaginar que o segundo mendigo vai receber alguma coisa também, só que mais tarde, depois do primeiro; ou talvez ele não recebe por falta de merecimento (a balança sobre ele, a justiça sendo feita para ele). A mensagem implícita na carta é que o real valor de qualquer fortuna existe quando há a movimentação dos bens e valores. Parte dessa movimentação consiste na doação de recursos aos mais necessitados.

Variações hipotéticas do símbolo Sol+LuaNo livro Book T, MacGregor Mathers (um dos precursores da conceitualização moderna do Tarot) atribuiu cada uma das cartas numeradas dos Arcanos Menores (ou seja, todos os arcanos menores, com exceção dos ases e das figuras da corte) a um dos 36 decanatos astrológicos. Cada um dos 12 signos do Zodíaco equivale a trinta graus dos 360 da roda zodiacal. Os trinta graus referentes a cada signo são então divididos em três partes de dez graus cada, originando assim três decanatos para cada signo, num total de 36. De acordo com Mathers, o Seis de Ouros está associado ao segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua – temos então a combinação Lua em Touro, que sugere fertilidade – a combinação da fluência da lua com o Touro, símbolo antigo de fertilidade. A relação simbólica do touro/vaca com a lua é antiga e bastante significativa. Talvez pelo formato de seu chifre, a vaca e o touro foram associados à Lua desde há muito tempo, principalmente nas culturas indo-européias. Os chifres são associados à lua e, portanto ao ciclo menstrual, o que sugere fertilidade. Em algumas culturas, O touro também é associado ao Sol, incorporando seu aspecto masculino e viril; mais uma vez, temos a temática da fertilidade.

Um dos exemplos da profunda significância do simbolismo da vaca e do touro é a deusa egípcia Hathor, divindade associada à feminilidade, ao amor e ao prazer. Hathor era comumente retratada como uma mulher ou uma vaca carregando em sua cabeça o disco solar suportado por um par de chifres. O par de chifres pode ser visto como o crescente lunar, tendo o disco solar acima dele. Simbologicamente, o círculo é associado ao sol, e o semi-círculo (crescente lunar) à lua e ao feminino. Recorrente na simbologia egípcia, esse símbolo pode ser interpretado como a união do masculino (sol) com o feminino (chifres), que o envolve; nesse sentido, ele pode ser comparado ao T’ai Chi T’u, o símbolo do yin-yang chinês, que representa a constante mistura e alternância dos princípios duais. Ademais, um dos aspectos de Hathor (a Vaca Celestial) era sua identificação com Nut, a deusa-mãe céu, personificação da própria abóbada celeste, que “recebe” o sol em seu seio – como os chifres recebendo o disco solar. Da união fértil dos opostos surge o mundo, e a eterna interação entre os dois princípios é a fonte da energia universal. Como veremos mais adiante, a temática da união ecoa no próprio número do Seis de Ouros, que está numerologicamente ligado aos Enamorados, o grande Seis do Tarot, símbolo máximo da união dos opostos e da força de atração/interação.

CONEXÕES

O conjunto de símbolos que compõe o Tarot constitui-se em um sistema de significados que sustentam-se através da ligação existente entre cada elemento do sistema e os restantes. Podemos estabelecer várias conexões entre as cartas, de acordo com algum tema específico, símbolo recorrente, etc. A seguir, veremos mais detalhadamente algumas das conexões do Seis de Ouros com outras cartas.

O Hierofante

Podemos estabelecer duas correspondências entre o Seis de Ouros e o arcano 5, o Hierofante, sendo uma de caráter astrológico e outra de caráter pictórico.

De acordo com o sistema da Golden Dawn, ambas as cartas relacionam-se com o signo de Touro. O Hierofante é a própria representação do Touro no Tarot, enquanto o Seis de Ouros encara um dos três aspectos desse signo, seu aspecto lunar, do segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua. As três cartas numeradas associadas a Touro são a sequência 5-6-7 do naipe de Ouros. O signo de Touro é lento, metódico, segue a regra e faz tudo ao seu ritmo. Isso pode ter a ver com o significado da carta ligado ao método e ao formalismo. Como aspecto Lunar de Touro, o Seis de Ouros tem a ver com fertilidade e prosperidade. Touro é associado aos campos, à força de vida da terra e ao crescimento da colheita. Isso pode ser visto na carta, com sua imagem de riqueza. Talvez esse seja o motivo da próxima conexão entre as cartas, descrita no parágrafo seguinte.

Além de correspondências astrológicas, o Seis de Ouros também pode ser associado ao Hierofante pictoricamente; a estrutura pictórica das duas cartas é similar, e isso por si já sinaliza a existência de uma relação entre elas. Em ambas as figuras, vemos um personagem central principal, ladeado por dois personagens secundários a ele submissos. Mais do que isso, o gesto da mão direita dos dois personagens é o mesmo – dedos anular e mindinho recolhidos, dedos médio, indicador e polegar estendidos. Trata-se do sinal de benção, usado pelos padres católicos e ortodoxos ao fazerem o sinal da cruz para abençoarem os fiéis. No gesto de benção, é como se o padre estivesse servindo de intermediário entre Deus e os homens, repassando-lhes uma benção que eles supostamente não teriam como alcançarem por si mesmos. Benzer é transferir o poder de uma divindade para um objeto ou pessoa; o ato de benzer é feito por alguém que supostamente tem poder para isso, alguém que tem um contato especial com a divindade e que, portanto, serve de médium entre ela e o mundo terreno – ou seja, um sacerdote. Assim como o HierofanExemplos do sinal de benção em obras de arte de diversas épocas diferenteste abençoa seus discípulos trazendo-lhes a benção de Deus – dando-lhes caridosamente algo que eles não possuem e necessitam – o Seis de Ouros, num nível mais mundano, dá aos necessitados parte de sua fortuna. De certa forma, ele os abençoa. No Cinco de Ouros, a carta anterior, vemos mais uma referência a esse aspecto espiritual no vitral de igreja atrás dos dois mendigos, que não parecem percebê-lo. No Seis de Ouros, carta seguinte, os dois mendigos recebem a benção de alguém que tem mais do que eles. Um passo adiante foi dado, em direção à conscientização de sua própria condição. É o primeiro passo para o crescimento.

Essa temática de superioridade + caridade está presente nos quatro seis dos arcanos menores, e tem a ver com as associações qabalísticas dos seis no Tarot. Nesse sentido, o número seis sempre é associado a sucesso e vitória.

Os Enamorados e a Justiça

O paralelo entre o Seis de Ouros e os Enamorados é de caráter numerológico – ambas as cartas são 6, número relacionado à união e ao amor. A estrutura pictórica das cartas também é semelhante, com uma figura central superior e duas menores aos lados. Esse padrão pode ser considerado um símbolo em si na linguagem pictórica do Waite-Smith. O número 6 relaciona-se com equilíbrio e harmonia; no 6, os opostos estão equilibrados e interagem de forma harmônica, em uma constante e dinâmica troca.

O Seis de Ouros liga-se pictoricamente ao arcano 8, a Justiça, por meio da balança, presente em ambas as cartas. O símbolo da balança traz a conotação de avaliação e equilíbrio. É importante ressaltar que o equilíbrio representado pelo Seis de Ouros e a Justiça não é exatamente algo alcançado naturalmente, mas é fruto de uma cuidadosa avaliação e disciplina. Isso é mostrado na carta, onde o homem dá com cuidado, procurando não dar muito nem pouco, mas o necessário; ele alcança esse equilíbrio através de uma constante avaliação e controle. Essa frugalidade é uma característica compartilhada entre o Seis de Ouros e a Justiça.

No Seis de Ouros há um movimento de integração, de união. O recurso é passado de alguém que tem mais para alguém que tem menos, num processo que transparece um movimento em direção ao equilíbrio e à compensação. Temos aqui o aspecto do seis como união, generosidade e ajuda. Por outro lado, o 6 também é um número de equilíbrio e harmonia – o primeiro número par formado pela junção de dois números ímpares. Números pares são passivos e femininos, estáticos; números ímpares são ativos, masculinos e dinâmicos.

Resumo da carta

  • Sucesso material
  • Riqueza
  • Equilíbrio
  • Ponderação
  • Compartilhamento
  • Dar e receber
  • Compreensão
  • Compensação
  • Justiça, equidade
  • Igualdade
  • Comércio, troca

Significados objetivos

  • Riqueza, sucesso material
  • Generosidade, ajuda de alguém importante
  • Ajuda e receptividade – passar/doar conhecimento, experiência, recursos
  • Responsabilidade, equilíbrio, ponderação
  • Pesos e medidas, tudo muito certinho
  • Responsabilidade social, inter-rede humana e social

EXERCÍCIO SPR

Vamos agora aplicar nosso entendimento dessa carta à prática da leitura, usando como exemplo a disposição Situação, Problema e Recursos.

Posição I – A Situação – aqui essa carta indica sucesso material, ganhos e recompensa por esforços; indica também ajuda cuidadosa de pessoas com mais recursos. O consulente pode ser tanto a pessoa que recebe quando a que dá a ajuda. De maneira geral, pode também indicar uma situação que envolve interação dinâmica entre pessoas, especialmente tendo como pano de fundo assuntos materiais. Uma coisa importante a saber sobre o Seis de Ouros é que os resultados representados por ele são medidos pelo esforço investido previamente. Exemplo –

Pergunta hipotética de uma moça e seus estudos de Tarot –

SPR I - Seis de Ouros na SituaçãoSeis de Ouros – Pagem de Espadas – Rainha de Espadas

Ela tem uma base sólida de experiência e prática, e bons recursos e preparo para passar aos outros. Seus esforços começam a frutificar. O que atrapalha é a curiosidade incessante e certa presunção inocente de que sabe mais do que realmente sabe. Ela está apenas começando, e tem só um vislumbre do conhecimento, não deve deixar-se levar por seu entusiasmo. Seu melhor recurso é sua percepção aguçada, que combina intuição e sensibilidade com razão e ponderação; ela entende bem as pessoas, tem uma boa visão e percepção do outro, e certamente pode usar isso a seu favor.

Posição II – O Problema – Cabe aqui uma digressão para salientarmos a função exata dessa posição, algo que pode ser complicado para muitas pessoas, especialmente quem tem pouca experiência com essa disposição. Por “função” eu quero dizer qual o seu papel dentro da disposição, e qual efeito tem sobre a carta que cai nela. É provável que o leitor de cartas tenda a dar à posição Problema uma função anuladora/inversora, ou ainda uma função hiperbolizadora. A carta nessa posição seria então interpretada pela falta da energia que ela incorpora, ou como o inverso do seu significado normal, ou ainda como um exagero, um descontrole dessa mesma energia. Assim, o Seis de Ouros, por exemplo, poderia ser visto sob um viés de anulação/inversão (falta de recursos, estagnação da troca ou imprudência) ou sob um viés de exagero (meticulosidade em demasia, generosidade em demasia, dar demais, ou pensar demais e agir de menos). Essa forma de ver talvez venha de uma tendência a enxergar tal posição como essencialmente negativa e ruim. Eu creio que há vários problemas nisso. Primeiro, via de regra, não é isso que essa posição pretende indicar. Sua função é simplesmente mostrar o lado desafiante e antitético da situação, mais do que seu lado ruim, mau ou vil (o que endossa uma visão maniqueísta e limitadora das coisas, circunscrita a termos de bem contra mal, bom contra ruim); segundo, abordar essa posição como anuladora/limitadora/hiperbolizadora abre espaço para muita confusão e contradição. O Oito de Espadas, uma carta que fala de restrição, nessa posição poderia ser tanto liberdade
de pensamento, leveza, falta de restrições – ou muita restrição. Já uma carta considerada boa, como o Sol, poderia ser interpretada como orgulho, vaidade, ou como tristeza, decepção e ruína. Certamente escolher entre todas essas opções é algo contra-produtivo. Isso dito, é importante manter em mente que a função dessa posição é basicamente a de ter um efeito antitético. A energia da carta aqui não se inverte, enfraquece ou se exagera – ela apenas representa um obstáculo, um aspecto da situação que atrapalha ou traz problemas – e que, na verdade, representa uma fértil oportunidade de desenvolvimento e aprendizado. É a mesma energia, nem mais forte, nem mais fraca ou ausente, e nem inversa. Ela simplesmente precisa ser encarada, melhor manipulada ou sobrepujada – superada. É claro que esse equilíbrio entre a visão maniqueísta à qual estamos acostumados, e uma forma de ver menos presa às diferenças e mais às similaridades é algo um pouco difícil de ser alcançado – nada que alguma prática não supere, no entando.

Sendo assim, nessa posição o Seis de Ouros tem o mesmo significado que na posição anterior, só que visto de maneira a atrapalhar ou apresentar impedimentos e dificuldades ao consulente. O problema pode ser um forte senso de responsabilidade que impede o consulente de agir, ou pode haver alguma dificuldade no fluxo de transmissão de valores (materiais ou fixos). Exemplo –

Pergunta real de um rapaz que está pensando em pedir uma bolsa de estudos para um curso específico na empresa onde trabalha –

SPR II - problemaTrês de Paus – Seis de Ouros – Cavaleiro de Ouros

O rapaz é talentoso e capaz, e ainda um tanto independente e persistente em seus objetivos. Ele já chegou a certo ponto de desenvolvimento na área em questão, a ponto de ter certa autonomia estabilizada, mas volta seus olhos a horizontes mais amplos. Seu impulso ígneo, no entanto, é bastante freado pelas duas cartas de terra, mostrando as dificuldades das aplicações práticas de seus planos. O Seis de Ouros aqui indica a possibilidade de certos entraves no processo de concessão/aprovação da bolsa; o conjunto de critérios da empresa pode atrapalhar o consulente. Ele pode vencer esse obstáculo sendo persistente e paciente, e mantendo o foco em seu objetivo. Independente disso, as cartas sugerem que o consulente é capaz de seguir um caminho sozinho e aprender o que deseja por mérito próprio. Nessa leitura, o Seis de Ouros indicou a própria concessão da bolsa. Observe como a relação com o Hierofante (a Instituição, os procedimentos padrão – a empresa) aqui fica ressaltada.

Posição III – Os Recursos – disponibilidade de recursos necessários para se conseguir o que deseja, especialmente recursos materiais; ajuda dos outros sendo providencial; poder aquisitivo desempenhando um papel proeminente na situação. Nessa posição, o Seis de Ouros mostra recursos e fluência material.

Pergunta hipotética de uma mulher que deseja fazer uma viagem ao exterior –

SPR III - recursosSeis de Paus – Quatro de Paus – Seis de Ouros

A mulher está bastante confiante sobre sua viagem. Seu excesso de confiança, no entanto, pode atrapalhar seus planos, pois ela tende a repousar sobre seus louros. No entanto, ela realmente dispõe de recursos, e pode vencer sua tendência relaxar sendo mais prática e pensando mais antes de agir. Questões legais também pendem ao seu favor.

Ficou perceptível na descrição dessas leituras que a forma de interpretar as cartas depende muito do contexto e da associação. No entanto, creio que o mais importante seja absorvermos a essência de cada carta – o ponto de contato entre os vários sentidos a ela atribuídos, que na verdade é a origem do seu significado.

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