Descobrindo o Tarot

agosto 26, 2009

Elemental Dignities II

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No post anterior eu apresentei os princípios e conceitos básicos do método de Elemental Dignities. Neste post, darei exemplos de como esse método pode ser aplicado em leituras.

Usarei primeiro dois exemplos, em combinações hipotéticas de duas cartas, respondendo a perguntas simples, para mostrar a interação dos elementos aliada aos significados dos arcanos; em seguida, mostrarei como a interação dos elementos pode atuar numa leitura de três cartas.

O objetivo desses exemplos é mais mostrar a dinâmica do método em funcionamento. Portanto, o leitor deve concentrar-se mais nisso do que nos significados que eu confiro às cartas, ou na minha forma de interpretação – coisas que, até certo ponto, são tão pessoais quanto o significado de cada palavra, para cada pessoa.

Exemplo 1

Uma pessoa deseja vender seu carro, para comprar um modelo melhor; quer saber sobre as possibilidades de esse plano dar certo. A resposta foi:

18 – A Lua                              16 – A Torre

água fogo

A Lua, pertencente ao elemento água, fica em desarmonia com a Torre, que é do elemento fogo. Uma carta enfraquece o significado da outra. Assim, podemos ver uma situação confusa, cheia de contratempos e problemas, enganos e imprevistos. Pode haver um problema na documentação, ou o carro mesmo acabar se envolvendo num acidente que, embora leve (a carta da Torre tem seu impacto atenuado pela perda de energia) atrapalhe a venda. A Lua mostra também que a própria pessoa não sabe direito o que quer, e é presa fácil de enganação e de pessoas querendo tirar vantagem. Eu diria que a venda do carro não vai acontecer de imediato, não sendo realmente um momento para se pensar nisso. A pessoa deve tomar cuidado, e dar-se mais algum tempo para decidir se é isso o que realmente quer.

Exemplo 2

Perspectivas de melhoria na vida sentimental de uma moça:

Rei de Paus                                Ás de Copas

fogo água

Embora ambas as cartas sugiram claramente o surgimento de sentimentos por um homem carismático e interessante, possivelmente maduro, a combinação fogo + água enfraquece a força das duas cartas. Enquanto o Rei de Paus perde um pouco do seu ímpeto com o Ás de Copas, o ás perde parte de sua intensidade, como a água começa a evaporar-se quando exposta ao fogo – os sentimentos não duram. Eu diria que há a possibilidade de aparecer um homem que vai mexer com os sentimentos da moça, mas que isso não vai ser muito duradouro ou significativo, no final das contas.

Exemplo 3

A disposição usada a seguir foi desenvolvida por eu mesmo, a partir da consulta com uma única carta. Essa disposição oferece uma resposta objetiva ao questionamento, bem como uma análise sucinta da situação, que pode ser expandida. Vale lembrar que essa disposição não descreve progressão temporal. Faz uso de três cartas, onde a primeira dá a resposta, enquanto as duas seguintes oferecem mais esclarecimentos e conselhos. A disposição é feita conforme a imagem abaixo –

Neste método teremos a oportunidade de explorar mais a dinâmica da interação dos elementos. A adição de uma terceira carta quebra a dicotomia limitada existente nos pares.

É importante dizer que existe aqui um esforço em descrever uma leitura de cartas, processo naturalmente espontâneo, de forma esquematizada, visando uma compreensão maior do leitor. No processo da leitura, todos os detalhes e análises de cada aspecto da interação fluem naturalmente, e as camadas de interpretação ficam misturadas. A interpretação acontece conforme eu analiso. Assim, por mais que a descrição detalhada de cada estágio de interpretação faça a coisa toda parecer complicada demais, a prática é natural.

A consulente, já há algum tempo trabalhando num estágio, gostaria de saber sobre a durabilidade deste serviço, e a possibilidade de ser efetivada. A disposição das cartas segue o esquema abaixo:

Os elementos das cartas são –

FOGO

TERRA ÁGUA

A energia geral desse grupo de cartas é claramente passiva, o que denota lentidão, e mesmo estagnação. A presença de somente números pares denota certa passividade, reforçada pela profusão de números quatro (em numerologia, números pares são de polaridade feminina). Todas as cartas indicam estados inertes. A primeira coisa que salta aos olhos aqui é a inércia da situação – as coisas tendem a progredir lentamente, os resultados custam a chegar, o trabalho parece ser lento e moroso. Por outro lado, existe estabilidade e durabilidade.

Definido o clima geral, vamos a algumas considerações sobre os elementos. A variedade de elementos aqui é tão saudável quanto um conjunto de três cartas permite, com cada carta pertencendo a um dos quatro elementos. No entanto, eu não diria o mesmo sobre o teor da relação entre eles. A relação entre os elementos pode ser colocada num esquema como o seguinte:

O elemento mais forte dessa disposição é claramente a terra, em perfeita harmonia com a água, e em compatibilidade com fogo. A tensão entre a água e o fogo enfraquece os dois. No entanto, tendo o suporte de sua relação positiva com a terra, a água não fica tão fraca quanto o fogo, que tem sua ação tolhida por tantas energias passiva.

Assim, poderíamos dizer que a situação é mais parada do que mutável. As ações tomadas têm suporte material, e frutificam em seu devido tempo. No entanto, não são muitas, e seu efeito também não é muito forte.

O impacto que essa interação tem na resposta é que o Dois de Paus, indicando domínio sobre a situação e capacidade de realização, tem sua força de ação enfraquecida pelas duas outras cartas. A carta retrata um soberano meio indeciso entre seu próprio reino e o resto do mundo a conquistar. Nesse caso, vemos o soberano permanecendo em seu reino, mesmo desejando conquistar novos campos. Sua resistência a mudanças (Quatro de Ouros) e sua desmotivação (Quatro de Copas) o impedem de pôr em prática os seus desejos e sonhos. Dessa forma, vemos que enquanto a consulente deseja talvez tentar trabalhar em lugares mais atrativos e instigantes, provavelmente permanecerá nesse emprego, porque a estabilidade que ele oferece lhe é mais interessante no momento. O Quatro de Copas sugere também certa apatia. Em suma, vemos uma situação estável e fixa, onde os desejos e aspirações encontram alguma dificuldade para se manifestarem com força.

Após analisarmos o funcionamento da interação dos elementos na leitura, aplicamos isso ao significado de cada carta. A seguir, algumas ideias sobre o significado de cada uma –

Dois de Pausautoridade, poder, iniciativa, capacidade, potencial

Quatro de Ourosestabilidade, controle, apego, posso, aversão a mudanças

Quatro de Copasapatiga, desmotivação, estagnação emocional, insatisfação, introspecção

O Dois de Paus como resposta diz basicamente que a consulente tem ótimas chances de sucesso nesse estágio. A carta sugere que seu trabalho é apreciado e respeitado, conferindo a ela mesmo certa notoriedade. A carta também parece indicar seu desejo de galgar novas posições, e se mostra positiva a esse respeito. Contudo, influenciada pela energia das cartas como um todo, esse Dois de Paus acaba tendo algo de sua força reprimida, ou retardada. O peso do Quatro de Ouros faz os planos do Dois de Paus acontecerem mais lentamente.

As duas cartas restantes dão pormenores sobre a resposta. Sendo a carta mais proeminente na disposição, o Quatro de Ouros indica estabilidade, mas também resistência/dificuldade de mudar. A consulente se encontra em uma situação que, embora vantajosa, progride lentamente. A influência do Quatro de Ouros estende-se às demais cartas, fortalecendo a estagnação apática do Quatro de Copas, e minando o ímpeto do Dois de Paus. O Quatro de Copas, apesar de enfraquecido pelo Dois de Paus, tem o suporte da carta de ouros. Esta carta me sugere que a consulente, mesmo muitas vezes insatisfeita com a sua situação, não encontra muita motivação para mudá-la.

O processo de interpretação pode ser esquematizado em camadas de sistemas de significação que, sobrepostas, formam a imagem geral de uma leitura.

agosto 21, 2009

Elemental Dignities

Filed under: Elemental Dignities — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 4:52 AM

Depois de algum tempo estudando Tarot e fazendo leituras, uma das coisas que a gente acaba por perceber é que a relação entre as cartas em uma disposição é tanto ou mais preponderante do que os significados particulares de cada carta. Apesar de serem símbolos autônomos e independentes, quando em conjunto os arcanos do Tarot se comportam essencialmente como palavras, tendo a sua significância (ou a sua gama particular de significados) regulada pelo contexto da leitura, pela interação entre as cartas, e o papel que exercem no todo que é a disposição. Há pouco tempo, descobri uma forma de relacionar as cartas que tem me interessado muito.

A relação entre as cartas é natural e se estabelece automaticamente. Com o desenvolvimento do estudo do Tarot através do tempo, as pessoas foram percebendo isso, e então desenvolveram-se métodos de associação e combinação das cartas. Entre tais sistemas, um dos mais populares hoje em dia é o método de Elemental Dignities (popularmente chamado de EDs). Traduzir essa expressão é um difícil – nunca vi nada semelhante a isso na literatura tarológica brasileira. Contudo, eu não sou a pessoa mais adequada para falar sobre isso, visto que a grande maioria das coisas que leio sobre Tarot vem de autores americanos ou ingleses. Sucintamente, é um método de avaliação da importância e atividade das cartas em uma disposição, baseando-se nos elementos associados a cada carta, e na relação que se forma entre eles. O primeiro a descrever esse método foi o ocultista MacGregor Mathers, em seu livro The Book T, escrito no final do século XIX.

Existem várias formas de dignities, que usam como base associações astrológicas, posicionais, e etc. Para muitos tarólogos, seu uso é fundamental. Muitos usam esse sistema como alternativa par as cartas invertidas. Eu mesmo conheci esse método enquanto procurava por artigos sobre cartas invertidas. Em minha opinião, o método de elemental dignities abre mais espaço para as cartas falarem entre si, bem como para uma quase infinita variação de nuances de significado. O que mais me atraiu nesse sistema foi a possibilidade de ter o significado de cada arcano alterado, sem que isso inclua reversão de cartas – nunca me senti muito confortável com a ideia de olhar cartas de cabeça para baixo, rs.

O esquema básico desse método é bastante simples. Ele requer apenas alguma intimidade com a simbologia dos elementos. Cada elemento se relaciona de certa forma com os demais, e tais relações podem ser classificadas como boas, neutras, ou ruins. Nesse contexto, “bom” e “ruim” descrevem o caráter da combinação, em relação ao ganho/perda de energia. Dizendo simplesmente, algumas combinações de elementos resultam em um aumento de energia – elas geram energia; outras combinações resultam num decréscimo de energia – tais combinações perdem energia, ao invés de produzirem mais. Seria como dizer que algumas interações são exotérmicas e outras endotérmicas, rsrs. No linguajar de Mathers, cada elemento tem seus “amigos” e seus “inimigos”. Poderíamos resumir esse princípio desta forma:

  • Quando duas ou mais cartas são “elementalmente” concordantes, a associação entre elas resulta em aumento de energia;
  • Quando duas ou mais cartas são elementalmente discordantes, associações entre elas resultam em diminuição de energia;
  • Quando duas ou mais cartas são elementalmente complementares, não ocorre nem aumento, nem diminuição de energia; sua força permanece a mesma.

Eu chamo uma carta envolvida em uma associação concordante de bem-aspectada, e uma carta envolvida em uma associação discordante de mal-aspectada.

Antes de irmos às regras, eu gostaria de esclarecer um ponto de importância fundamental na conceitualização das Elemental Dignities. O objetivo desse método é verificar a proeminência de cada carta numa disposição, através do quão cada carta está forte na disposição. Não se trata de descobrir quais cartas são “boas” e quais cartas são “ruins”. As combinações não têm a ver com o quanto uma coisa pode ser favorável ou desfavorável ao consulente, e sim com a intensidade da influência de cada carta. Exemplo: o Nove de Copas é uma carta geralmente considerada “boa”. Bem-aspectado, ele ganha energia, e seu bom efeito pode ser ainda maior; mal-aspectado, o Nove de Copas não vira uma carta “ruim” – ele enfraquece, apenas.

A regra para essas combinações é simples, e pode ser resumida assim –

  • Fogo e Ar são amigos e ativos;
  • Terra e Água são amigas e passivas;
  • Fogo e Água são inimigos – eles enfraquecem um ao outro;
  • Ar e Terra são inimigos – eles enfraquecem um ao outro;
  • Fogo e Terra fortalecem um ao outro, mas são neutros;
  • Ar e Água fortalecem um ao outro, mas são neutros.

A essas seis regras, eu acrescentaria mais uma –

  • Fogo e Fogo/Ar e Ar/Terra e Terra/Água e Água são amigos, se fortalecem, e caracterizam excesso.

As combinações amigáveis caracterizam-se por um acréscimo na energia; as combinações conflituosas apresentam um decréscimo na energia de ambos os envolvidos; as combinações classificadas como neutras representam um meio-termo entre essas duas. Por combinarem um elemento ativo com um passivo, suas forças meio que se equilibram.

Cartas envolvidas em combinações amigáveis são consideradas mais fortes, e seu significado é fortalecido; cartas que integram combinações conflituosas perdem energia, e seu significado é enfraquecido. A explicação para isso é simples – o aumento de energia gera mais atividade; o decréscimo de energia, mais passividade (pense num carro sendo acelerado e desacelerado). Quanto mais um elemento/carta é ativo, mais fortemente ele se manifesta em uma determinada situação ou coisa. A ausência de um ou mais elementos em uma leitura irá mostrar as carências e pontos fracos de uma situação. A influência das Elemental Dignities se sobrepõe ao significado de cada carta. É precisamente isso que altera e complementa a nossa visão em uma leitura.

A HIERARQUIA DE INFLUÊNCIA DENTRO DOS 78 ARCANOS

Embora todas as 78 cartas do Tarot tenham um valor igualmente importante e especial, certos tipos de arcanos têm mais relevância do que outros em uma leitura. Olhando com mais atenção para os 78 arcanos do Tarot, podemos perceber certa hierarquia de importância ou poder. Ao longo do tempo eu desenvolvi esse sistema, que classifica cada tipo de carta de acordo com sua força:

  • 1 Arcanos Maiores;
  • 2 Figuras da Corte;
    • Reis;
    • Rainhas;
    • Cavaleiros;
    • Pajens;
  • 3 Ases;
  • 4 Cartas Numeradas.

Os 22 Arcanos Maiores (as cartas que vão do Louco ao Mundo) são mais fortes do que todas as outras cartas. Eles representam arquétipos, grandes temas presentes na vida das pessoas. Numa leitura, sua presença tem mais peso do que as outras cartas. Mesmo que mal-aspectado, um arcano maior ainda detém parte de seu impacto.

As Figuras da Corte (Reis, Rainhas, Cavaleiros e Pajens) têm mais capacidade de lidar com a força dos Arcanos Maiores do que os Ases, ou as cartas numeradas, talvez por representarem personagens dentro da historinha do Tarot. Também, dentro da corte do Tarot é possível estabelecer-se um sub-ranking, onde Reis são mais fortes do que Rainhas, estas mais fortes do que Cavaleiros, etc. Os Pajens, contudo, ainda são mais fortes do que os Ases.

Ainda que considerados parte do grupo de cartas numeradas, os Ases podem ser separados em uma categoria especial, por representarem a raiz de cada um dos quatro elementos incorporados nos naipes. Sua força numa consulta é um pouco maior do que a das cartas numeradas. Em muitos decks (baralhos de Tarot, como o Waite-Smith, o Marselha, ou o Egipcian Kier) os Pajens são mostrados portando o símbolo do naipe nas mãos. Isso me sugere que eles “portam” os Ases. Realmente, Pajens e Ases têm em comum o fato de serem forças em estado potencial. A diferença, ao meu ver, é que os Ases são essas forças em si, enquanto os Pajens simbolizam a força dos Ases manifestando-se no indivíduo, de forma pouco desenvolvida.

Por último, temos as cartas numeradas, ou seja, os Arcanos Menores que vão do Dois ao Dez de cada naipe. Na minha experiência com o Tarot, tais cartas expressam mais experiências e situações. Eu poderia dizer que as cartas numeradas mostram o desenrolar dos elementos de cada naipe.

Poderíamos também relacionar cada classe de cartas com os níveis do esquema de acontecimentos da vida, sendo:

1 Arcanos Maiores Arquétipos ou grandes temas Símbolos, conceitos, temas, experiências-chave.
2 Figuras da Corte Os personagens sob a influência dos arquétipos As pessoas participantes em dada situação; aspectos da personalidade atuantes numa situação.
3 Ases As raízes das quatro forças elementais Manifestações dos elementos em seu estado “bruto” na vida das pessoas.
4 Cartas Numeradas Situações, fatos e experiências Situações ou estados de ser; posturas, comportamento, acontecimentos e circunstâncias.

Vendo por esse ângulo, fica mais fácil entender por que os Arcanos Maiores são mais poderosos do que os Arcanos menores numerados. O Carro, por exemplo, é a expressão de um grande tema – a conquista, a independência, o poder. O Seis de Paus expressa algo semelhante – êxito, vitória, respeitabilidade. No entanto, o segundo refere-se mais a um acontecimento ou circunstância do que a um conceito propriamente dito.

Até agora sabemos então que o teor das relações entre as cartas pode ser elucidado através da interação de seus elementos; também vimos que uma carta tem mais ou menos proeminência sobre as outras, de acordo com a categoria à qual pertence dentro do Tarot. Nos próximos posts, pretendo estender esse tópico com exemplos de leituras, e mais pormenores a respeito da dinâmica das EDs.

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