Descobrindo o Tarot

dezembro 20, 2009

Sete de Copas (+SPR)

O tema de que trata a sétima carta do naipe de Copas é ilusão. No contexto do naipe, o Sete de Copas representa o lado enganador das emoções, particularmente quando ligadas a coisas materiais. A mensagem principal dessa carta é a de que, embora pareça genuína, a felicidade encontrada nas coisas mundanas revela-se passageira e vazia. Em sua raiz primária, a carta fala da força da imaginação, manifestada como fantasia. A seguir, analisaremos mais de perto os diversos aspectos e detalhes dessa carta, a fim de entendermos melhor o funcionamento de seu simbolismo.

Logo de cara, a atmosfera do Sete de Copas passa certa impressão de devaneio. A cena é esquisita – um homem de costas, vendo em sua frente um grupo de taças flutuando sobre nuvens densas. De cada taça sai uma coisa, cada uma parecendo chamar mais a atenção dele que as outras. De cima para baixo, vemos: uma cabeça, uma figura coberta por um véu, uma serpente, um castelo, um monte de joias, uma coroa de louros, e um dragão/monstro azul. As taças nas nuvens compõem o que parece ser uma visão que o homem, assombrado, presencia. Tal imagem pode ser vista como uma alegoria para a excitação das emoções e sentidos, que cria imagens tentadoras, dançando diante de nós.

No post sobre o Cinco de Copas, eu introduzi a ideia de que, nas cenas do Waite-Smith, a distribuição dos elementos pelos planos diz bastante sobre o que tais cenas representam. De modo geral, o primeiro plano mostra o tema principal de uma imagem, enquanto o segundo fornece complementos a esse tema. O Sete de Copas é um caso específico nesse sentido, pois o segundo plano chama mais a atenção e parece mais significativo que o primeiro. No primeiro plano temos apenas um homem, de costas, olhando para as taças. Sua postura sugere surpresa. Aparentemente, a visão emite luz forte, já que dele vemos apenas a sombra. É como se, diante de tal espetáculo, o homem fosse reduzido aos seus contornos – ofuscado, despersonalizado, eclipsado por suas visões. É curioso que a maioria das pessoas sequer dá atenção à figura obscurecida do primeiro plano, quando na verdade é ela que indica o tema principal da carta – a total absorção do indivíduo pelas ilusões do mundo. Talvez propositalmente, as taças atraem mais nossa atenção imediata – somos como o homem da carta, seduzidos pelo mistério das imagens. O baralho Light and Shadow, de Brian Williams & Michael Gopford, parece confirmar essa ideia de absorção do indivíduo. Seu Sete de Copas mostra a figura humana delineada somente com uma série de traços, cercada pelas taças, como se estivesse desintegrando-se (vide a seção de versões, logo abaixo).

As nuvens que dominam o segundo plano da carta evocam a presença do elemento Ar, o reino dos pensamentos e sonhos. Mutáveis e quase imateriais, nuvens sugerem confusão mental, falta de clareza e propensão ao engano. Juan Eduardo Cirlot, autor de A Dictionary of Symbols, cita Éliphas Lévi, dizendo que nuvens estão “(…) sempre em um estado de metamorfose, o que obscurece a qualidade imutável da verdade maior” (tradução minha). Na carta, atrás das nuvens com as taças há somente um azul estático e absoluto – a verdade maior de que fala Lévi. Outro aspecto do simbolismo das nuvens é sua conotação epifânica. Nesse sentido, nuvens simbolizam contato com o plano superior (celeste) dos deuses. Nas mitologias de várias culturas, temos exemplos de deuses aparecendo em meio a nuvens. Exemplos no próprio RWS incluem as cartas Os Enamorados e O Julgamento, nas quais anjos saem de nuvens, e os ases, onde os objetos de cada um dos naipes são segurados por mãos que saem de nuvens. Sob essa ótica, as taças nas nuvens podem ser vistas como “coisas de outro mundo”, manifestações vindas direto do plano espiritual ao plano material, onde está focada nossa consciência.

Há três taças em cima e quatro embaixo, sugerindo a trindade do espiritual sobre o quaternário da matéria. O triângulo sobre o quadrado é a representação geométrica do número 7. Com efeito, as três taças superiores ilustram conceitos abstratos, enquanto as inferiores representam coisas mais mundanas. Apesar de ser senso comum que os objetos da carta simbolizam tentações, o que eles representam precisamente é discutível, e varia de acordo com o ponto de vista. Seguindo o princípio do valor do conjunto sobre o valor de seus elementos constituintes, as sete taças devem ser vistas primeiro como um setenário, e só depois consideradas como símbolos separados. É certo que podem ser associadas aos setenários em geral, como os Sete Pecados Capitais, por exemplo. Curiosamente, os sete arcanos planetários podem ser comparadas aos objetos do Sete de Copas. Por exemplo, a torre pode ser comparada à própria torre da carta 16, que corresponde a Marte. A figura velada lembra a Sacerdotisa – a Lua; e a serpente, o cinto do Mago – Mercúrio. Assim, os objetos podem ser associados aos sete planetas do sistema astrológico caldeu – as três taças superiores ao Sol (rosto), Lua (figura velada) e Mercúrio (serpente); e as quatro inferiores a Marte (torre), Vênus (joias), Saturno (coroa de louros) e Júpiter (dragão/monstro). Ao lado, temos uma tentativa de associar cada objeto a um planeta, de acordo com suas comparações com os arcanos maiores planetários. A seguir, ofereço uma explicação mais detalhada sobre cada um dos objetos, com base na minha forma de ver e interpretar os símbolos. Embora possam ser levados em conta como verdadeiros no entendimento da carta, essas ideias não são a verdade absoluta sobre ela. Cada estudante tem o direito (e mesmo o dever) de interpretar os símbolos ao seu próprio modo (contanto que tenha conhecimento da tradição à qual eles pertencem). Esse, a meu ver, é o Tarot – como diz Cynthia Gilles, “O verdadeiro Tarot é o produto da busca de cada indivíduo para entendê-lo” –

A cabeça – De maneira geral, a cabeça evoca ideias de força de comando, centro e individualidade. O simbolismo da cabeça relaciona-se ao símbolo do uno, da individualidade, e do ego – a cabeça é a “morada do eu”. O Zohar associa a cabeça à Luz Astral. A noção de identidade baseia-se largamente na imagem do rosto, que por sinal é onde se encontra a maioria dos órgãos dos sentidos, nos quais nossa experiência de vida se constrói. A cabeça corresponde ao Sol, o centro, astrologicamente associado ao ego e ao uno. No sistema de correspondências cabalísticas da Golden Dawn, a carta 19, o Sol, corresponde à letra hebraica resh, . O alfabeto hebraico tem suas raízes no alfabeto fenício, onde a letra que veio a desenvolver-se na resh hebraica tem sua origem no hieróglifo egípcio de uma cabeça, , com som de tp (tabela abaixo). Além de seu significado óbvio, tal hieróglifo também significa sobre, em cima e chefe, comandante. A propósito, podemos ver o próprio rosto no sol na carta 19 como uma alegoria que ilustra a ideia do Sol como a cabeça, o centro. Por conseguinte, no contexto da carta Sete de Copas, a cabeça simboliza o ego, e relaciona-se ao intelecto, poder e autoridade, como também à vaidade. De maneira mais abstrata, a cabeça aqui se relaciona à consciência.


A serpente – A serpente é um símbolo antigo e polissêmico. Basicamente, o simbolismo da serpente relaciona-se à energia em si, pura força. A serpente está intimamente ligada à força ctônica – as forças subterrâneas, o inconsciente. Nesse sentido, podemos ver a serpente aqui como um símbolo da parte mais ancestral do homem – o instintivo, o incontrolado, o caótico, nossas emoções mais primárias. Um exemplo do aspecto ctônico do simbolismo da serpente está no conceito indiano da kundalini – a energia ígnea, em forma de serpente enrolada, que adormece entre o ânus e o órgão sexual. Dessa forma, a serpente também pode ser vista como a energia sexual, a libido. Combinando a cabeça e a serpente, temos na parte superior do grupo de taças a dicotomia mente/corpo, espírito/matéria, luz/trevas, consciência/inconsciência – a cabeça, a parte mais alta, e a serpente, animal rasteiro. Isso pode ser visto como uma alegoria de que tanto o mundo consciente quanto os impulsos instintivos são ilusórios. No contexto da carta, a serpente que sai da taça pode ser um indicativo de perigo e ameaça, como também de instinto, emoções primárias e impulso sexual, bem como energia e força vital.

A figura velada – entre a cabeça e a serpente está a imagem mais misteriosa da carta – uma figura humana coberta por um manto branco, de braços abertos e cercada por uma aura vermelha. Tal imagem pode ser vista como uma representação do desconhecido. Vários de seus traços – sua posição central, a aura que a cerca, sua aparência misteriosa – destacam-na das outras imagens, tornando plausível supor que ela tenha uma significância especial. Com efeito, ela parece representar o Grande Mistério que atrai o homem. Eden Gray, em seu livro Mastering the Tarot, descreve a figura velada em relação ao homem como sendo “(…) a sua própria divindade, esperando para ser descoberta”. Suas características viabilizam essa ideia. Ela está de braços abertos, em postura receptiva ao homem. Suas vestes são brancas, sugerindo espiritualidade e pureza. O vermelho, a cor do brilho que ela emite, relaciona-se com energia e poder. Um ponto importante dessa figura está exatamente em sua combinação branco/vermelho. Tal combinação é recorrente no Waite-Smith (ex. o Mago, a Temperança), tendo especial significância no simbolismo do baralho, basicamente relacionada à dualidade espírito/matéria, feminino/masculino. Nesse sentido, o branco relaciona-se à Lua, e o vermelho ao Sol. Velada, ela é comparável à Sacerdotisa, relacionada à Lua, podendo, portanto, ser vista como a própria Sabedoria, a própria Torah. De todas as imagens surgindo das taças, ela é a pura, a genuína – a realidade que se esconde por trás da cortina de fumaça do nosso mundo. Em uma palavra, ela representa o verdadeiro eu do homem, aguardando por ele no centro, em meio às ilusões materiais.

A Torre/castelo – “Megalomania, a busca selvagem por ideias fantasiosas e mesquinhez formam o contexto desse símbolo”, diz Oswald Wirth a respeito do simbolismo da torre. A fortaleza do Sete de Copas é grande, e está no alto de uma montanha. Isso pode ser interpretado como desejo por realização, o desejo de alcançar o céu. Note que a torre está logo abaixo da cabeça, o que pode simbolizar a manifestação do poder representado pela cabeça do plano espiritual no mundo material. A torre ou o castelo representam certo distanciamento da natureza – uma construção artificial, que pretende criar um mundo separado, e controlável. Alegoricamente, a torre pode ser um símbolo da mente e do ego, e da construção de um sistema de crenças forte e resistente, porém fechado e vulnerável. No Sete de Copas, ela pode indicar o desejo ou o sonho por poder, domínio e segurança. Diferente da torre da carta 16, essa torre está firme e sólida – são crenças e posturas estabelecidas e enraizadas.

As joias – o monte de joias dentro da taça forma o que parece ser um tesouro. Evidentemente, indica fortuna e luxo. Observe que de um dos lados da taça pende uma corrente, o que poderia ser uma sugestão dos grilhões da ganância. As joias indicam sonhos de riqueza e posse, como também cobiça.

A coroa de louros – a coroa de louros é um conhecido símbolo de vitória, que tem suas origens na Grécia Antiga. O louro é associado a Apollo, o deus grego do Sol e da luz. Por ser uma planta sempre verde, o louro simboliza imortalidade, não só na cultura grega. O próprio Apollo é um deus eternamente jovem. Na Grécia Antiga, e posteriormente em Roma, coroas de louros eram usadas para indicar grandeza intelectual e vitória em competições e em batalhas. Uma coisa interessante que podemos pensar sobre o simbolismo dessa figura na carta é que a vitória que ela representa também se relaciona a fama e celebridade. A fama é uma forma de perpetuação da existência, através da memória que deixamos para a posteridade. O desejo de celebridade representa, portanto, a necessidade que temos de vencer a morte, de driblar nosso próprio fim. Esse pode ser o motivo da discreta sombra ou reflexo de caveira projetada na taça que abriga a coroa de louros. Popularmente, a caveira simboliza perigo – sua presença em recipientes indica que a substância ali contida é venenosa. Isso pode ser uma indicação de que o desejo de vitória e fama é o mais perigoso de todos.

O monstrinho/dragão – a última taça abriga um pequeno monstro ou dragão azul. Seu aspecto é assustador – ele parece prestes a atacar o homem. Ele pode ser uma representação dos medos, e da parte sombria, desconhecida e selvagem da alma. Assim como a cabeça e o castelo, ele é azul. O azul é a cor mais profunda, e expressa o infinito, inalcançável e surreal. A cor azul dos objetos sugere que eles estão distantes – e isso pode evocar tanto ideias de coisas inalcançáveis quanto associações com fantasias e sonhos.

Karen Hamaker-Zondag, no livro Tarot as a Way of Life: a Jungian Approach to the Tarot, oferece uma interpretação alternativa do grupo de taças dessa carta, dizendo que as taças inferiores expressam perigo, e as três superiores sugerem desenvolvimento psicológico proveitoso” (pg. 49).
Segundo a interpretação de Karen, o triângulo de taças é libertador e positivo, enquanto o quadrado é limitador e negativo

Nosso mundo emocional está completamente aberto a uma multidão de fantasias e sonhos, que podem desenvolver-se de uma maneira positiva, mas que podem nos afastar da realidade com igual facilidade. Sem de fato perceber, estamos defronte a duas fileiras de taças, todas elas parecendo-se com presentes da terra das nuvens. Porém, a fileira inferior incita-nos a jogos de poder, ganância, ambição ou agressão, antes que nos damos conta disso, enquanto a fileira superior pode levar-nos a um contato melhorado com nosso inconsciente, a um fluir ininterrupto de energia psíquica e, finalmente à fusão com nosso centro interno, nosso eu verdadeiro, que por hora ainda está sob um véu. Esta é uma carta de dois aspectos: ela previne contra desejos errados e contra o desenvolvimento de traços de caráter desagradáveis, os quais ignoramos; e, por outro lado, ela revela potencial para um tremendo crescimento espiritual e psicológico, e para nos tornarmos nós mesmos.” (tradução minha, pgs. 100-101. A expressão “terra das nuvens”, em itálico, é uma tradução literal da palavra cloudland, que traduz-se por “reino da imaginação/fantasia” em inglês).

Isso não deixa de fazer sentido, especialmente quando consideramos que as quatro taças de baixo estão ao alcance imediato do homem, enquanto as de cima são mais difíceis de serem alcançadas, e ainda são presididas pela figura coberta pelo véu, que expressa o desconhecido e o que existe por trás das ilusões da matéria.

Sendo uma carta de Copas, esse sete fala essencialmente de emoções e sentimentos, e é importante circunscrever a carta a esses termos na sua interpretação. A carta mostra como os sentimentos podem ser enganosos, ao mesmo tempo em que nos tentam e seduzem. O Sete de Copas ressalta o aspecto sedutor e enganoso do elemento Água. Desde tempos remotos, as águas têm exercido esse tipo de influência sobre o ser humano, mistura de medo e curiosidade, perigo e desejo. Sereias e monstros marinhos, figuras altamente recorrentes em diversas mitologias, personificam essa impressão que as águas causaram em nós. A mitologia grega contém uma série de narrativas que envolvem pessoas sendo seduzidas e levadas à perdição, ou à morte, por entidades aquáticas. O quadro Hilas e as Ninfas (1896), do pintor simbolista inglês John William Waterhouse, é uma boa ilustração de um mito sobre essa temática. O quadro ilustra Hilas, jovem de grande beleza, sendo seduzido e raptado pelas ninfas do rio de onde ele pretendia pegar água. A pintura mostra o momento em que as ninfas surpreendem Hilas, que ainda segura seu pote. O rapaz parece hipnotizado, e as ninfas, que aparentam ser todas a mesma, têm um olhar lânguido que sugere enlevo e certo torpor. Curiosamente, são em número de sete, e uma delas estende suas mãos cheias de pérolas, parecendo ofertá-las ao rapaz, o que me faz pensar na taça cheia de joias do Sete de Copas. Não acho provável que essa pintura tenha alguma relação com a carta pintada por Pamela Smith, mas é interessante notar certa similaridade entre as duas obras. Outra pintura de Waterhouse, A Sirena ou A Sereia (acima), mostra um marinheiro afogando-se aos pés de uma sereia que, segurando sua lira, olha para ele com indiferença. Ao seu lado, um pedaço de seu barco indica que ele acabou de chocar-se contra as rochas, certamente atraído pelo canto da sereia. Relacionado a isso ou não, uma das definições que a Golden Dawn dá ao Sete de Copas é “o ‘canto da sereia’ do engano, fazendo [o sujeito] esquecer-se de sua vontade” (The “siren song” of deception, causing one to forget his or her will, tradução minha).

Podemos entender melhor o Sete de Copas se considerarmos sua posição no naipe ao qual pertence. A relação do Sete de Copas com suas cartas vizinhas revela mais detalhes sobre seu significado. O Sete de Copas sucede o Seis, relacionado a prazer e bem-estar, e precede o Oito de Copas, que fala sobre enfado e renúncia. O Sete representa um abuso do bem-estar do Seis. O que antes era experimentado de forma espontânea e desapegada (as crianças do Seis de Copas), agora desperta ganância. A reação a isso é o Oito, a renúncia de todas essas coisas. O homem percebeu que a felicidade que ele busca não está nesse tipo de prazer efêmero, mas em coisas mais profundas. Das taças, ele escolheu a coberta por um véu, decidiu ver o que existe além daquele carnaval de sensações e emoções do mundo. Ele retira-se do mundo, como o Eremita da carta 9.

No sistema de correspondências da Golden Dawn, o Sete de Copas corresponde ao terceiro decanato de Escorpião, regido por Vênus – portanto, Vênus em Escorpião. Esse é um importante aspecto dessa carta, pois é de sua associação com tal decanato que tiraram o seu significado. Vênus representa o prazer de modo geral; aliado à energia intensa de Escorpião, por vezes obsessiva, o deleite do prazer representado por Vênus perde os limites e atinge níveis intoxicantes. A força de atração e a busca por amor e prazer de Vênus é intensificada por Escorpião, que representa a energia sexual. Essa combinação traduz-se por desejo avassalador e gera grande intensidade emocional que, aliada às contradições escorpinianas de desejo versus culpa, sugere esbórnia e libertinagem. Embora esse aspecto sexual de Vênus em Escorpião não esteja diretamente evidenciado no Sete de Copas do RWS, a entrega à auto-indulgência ilustrada na carta compara-se perfeitamente a essa combinação astrológica. Há aqui o abuso de todos os tipos de prazer, o “gozo que conduz à dependência”, como diz Hajo Banzhaf. Com efeito, esse parece ser o significado do Sete de Copas no qual Crowley se focou ao desenvolver o seu baralho Thoth. Nesse baralho, o Sete de Copas recebe o título de debauch, palavra de origem francesa que se traduz por “devassidão”, “depravação”, “dissipação” (em português, deboche tinha originalmente essa mesma conotação). Crowley associa essa carta a conceitos como toxidez, loucura e vício. A imagem da carta chega a ser um pouco asquerosa, com suas taças transbordando de um líquido esverdeado gosmento, que goteja incessantemente num pântano sem fim.

O Sete de Copas é chamado de Deboche. Esta é uma das piores idéias que se poder ter; seu método é veneno, sua meta, insanidade. Representa a ilusão do delirium tremens e do vício das drogas; representa o afundamento no lodo do prazer falso. Há algo quase suicida nesta carta. Ela é particularmente má porque não há nada, seja lá o que for, para equilibrá-la – nenhum planeta forte para sustentá-la. Vênus vai atrás de Vênus, e a Terra é agitada [para] dentro do pântano de escorpiões. (O Livro de Thoth, Aleister Crowley).

A imagem do Sete de Copas do RWS não é tão feia quanto a do Thoth, contudo. Apesar de essa conotação de devassidão estar inclusa nas associações astrológicas da carta, a imagem do RWS expõe mais em seu aspecto de fantasia e ilusão. Pamela pareceu ater-se mais ao lado espiritual e emocional da carta. Realmente, e isso é bom ressaltar, toda essa dissipação e excesso sugeridos pela combinação de Vênus e Escorpião existem, antes de tudo, no nível emocional e mental. Na imagem da carta, as taças flutuam sobre nuvens, e o personagem que as vê não faz mais do que de fato vê-las. Ainda que o Sete de Copas represente o excesso do deleite dos prazeres da carne, sua raiz é emocional. Por outro lado, Escorpião é também o guardião dos mistérios da vida e da morte (é por isso, inclusive, que ele é a energia sexual – a energia fecunda que origina a vida), o signo do desconhecido e do secreto. Essa ambivalência contraditória de Escorpião, que debate-se entre vida e morte, prazer e dor, medo e desejo, pode ser percebida na imagem da carta, que mistura figuras atrativas com coisas assustadoras e perigosas. Esse show de imagens distrai a atenção do homem para a figura velada, o Mistério maior, o segredo de Escorpião que se esconde em meio às coisas mundanas. Ele envolve-se com elas e perde de vista o seu foco.

É possível traçar um paralelo entre a ideia central do Sete de Copas e o conceito indiano de māyā, palavra sânscrita que significa “aquilo que não é”. No hinduísmo, māyā define-se pela ilusão de dualidade da qual sofre a consciência focada no mundo manifestado, que gera o engano de que o mundo objetivo é real, quando na verdade, ele é só um reflexo do Uno. A influência de māyā promove a identificação da alma com seu corpo e com o mundo objetivo. No pensamento hindu, o mundo objetivo é ilusório; seu estado de constante mudança é um reflexo disso. A mente, a passagem do tempo, as mudanças de estado, a vida e a morte – tudo isso é māyā. A raiz de māyā está na falsa noção de distinção entre o eu e o universo. Essa noção é a fonte do desejo e da repulsa, as duas forças que jogam o indivíduo de um lado para o outro no mundo. Isso pode ser visto nos dois elementos mais básicos da carta: o homem e as coisas que ele vê – o eu e o mundo, o sujeito e o objeto. Māyā é o que prende o homem às coisas que ele deseja ou repudia – os objetos saindo das taças da fileira inferior. Através dos sentidos, o indivíduo apega-se aos objetos ao seu redor e perde-se em seu desejo por eles, o que o faz esquecer-se de sua natureza intrínseca. Esquecendo-se de sua natureza, esquece-se de que ele mesmo e as outras coisas são um. Nesse contexto, a figura velada no centro da carta representa a Verdade por trás do véu de māyā. Com um véu sobre seu rosto, ela não tem identidade, é a neutralização do ego; é o Eu Superior, a centelha divina de verdade que existe dentro do indivíduo.

O Sete de Copas resume-se, portanto, ao ego. Todos os objetos saindo das taças são tentações ao ego. A noção de ego é o que leva o indivíduo à perdição no jogo de desejo e repulsa de suas emoções. Justamente em meio a esse jogo, oculta sob o véu das aparências, está a verdadeira natureza das coisas. Jayaram V nos oferece uma definição de māyā que eu achei especialmente comparável ao Sete de Copas –

“Afinal de contas, o que é ilusão? Ilusão é algo como uma miragem que te desencaminha para pensamentos e ações erradas. Esse mundo faz exatamente isso. Ele te oferece felicidade, mas te encaminha para as trevas do sofrimento. Ele te tenta com muitas coisas e, quando você corre atrás delas, descobre que são irreais e incapazes de matar sua sede por estabilidade e permanência.”

Observando com mais atenção a cena, percebemos um detalhe que o homem não percebe – as taças estão todas vazias. As coisas que saem de dentro delas não existem. O homem, deslumbrado, enxerga nas imagens mais do que elas são; ele só vê o que julga existir, e seu julgamento é intensamente influenciado por suas emoções. Consequentemente, ele projeta nelas seus anseios e apreensões – sua imaginação, seus sentimentos preenchem as taças. Nesse sentido, é viável sustentar que a figura velada do centro poderia representar o próprio desconhecido – pois a única coisa real dentro das taças é o nada, o vazio, que uma figura sem rosto representa. O Sete de Copas é o deslumbre pelo desconhecido; são nossos sentimentos tentando preencher as lacunas da parte de nossa vida que não conhecemos. O Sete de Copas marca o fim da experiência de Escorpião (o mergulho nas profundezas e a morte, a paixão pelo oculto e pelo mistério, o desvendar dos segredos da carne) e o começo da experiência de Peixes (a transcendência, o renascimento do espírito após a morte da carne, a negação do eu, a inexistência), iniciada com a renúncia do Oito de Copas, Saturno em Peixes. No Oito, ele deixa todas as taças para trás – vazias – e parte em busca de um real preenchimento, e em busca de desvelar esse desconhecido. É só no Nove, Júpiter em Peixes, que ele sacia essa sede – a mesma sede de que fala Jayaram V.

Veja também mais sobre o Sete de Copas aqui.

Algumas versões do Sete de Copas de outros baralhos

Diferentes baralhos fornecem diferentes formas de ver o Sete de Copas. Confira abaixo as várias versões que essa carta assumiu ao longo do tempo.

Royal Fez Moroccan Tarot, idealizado por Roland Berrill. O simbolismo é quase idêntico ao RWS. Na carta, as taças são dispostas mais simetricamente, revelando o padrão triângulo-quadrado, sugerindo a superioridade das três taças de cima. Observe como a figura velada está mais centralizada e enfatizada.

O Aquatic Tarot, pelo alemão Andreas Schröter, é uma versão em aquarela do RWS. A combinação cai bem particularmente ao Sete de Copas, que recebe um ar onírico, psicodélico.

No Aquarian Tarot, só as taças aparecem na carta, e alguns objetos foram modificados - como a figura velada, que virou algum tipo de máscara de aviador. Esse deck foi feito por David Palladini, e lançado em 1970 - como era de se suspeitar, rs.

Criado por Gianluca Cestaro e Pietro Alligo, e lançado pela Lo Scarabeo em 2003, o New Vision Tarot é uma versão do Waite-Smith que mostra o outro lado das cenas de cada carta. As nuvens do Sete de Copas desse deck parecem prateleiras que abrigam as taças. Ao fundo, duas moças presenciam a cena com o rapaz, uma delas maravilhada, e a outra apavorada.

Essa é uma das versões mais legais dessa carta que eu já vi. Faz parte do projeto The Webcomics Tarot Project, onde cada artista desenha uma carta. O Sete de Copas foi feito por Hyena Hell, artista de HQ's americana. A carta mostra as alucinações de um cara que bebeu demais, rs.

O Light and Shadow Tarot, desenhado por Michael Gopford, juntamente com Brian Williams, explora o contraste do preto e branco em suas ilustrações de linogravura. Seu Sete de Copas obedece o simbolismo tradicional. O mais interessante dessa versão é a figura humana que aparentemente fragmenta-se em meio as taças. O baralho foi lançado em 1997.

O Sete de Copas do The New Tarot mostra as imagens das taças em molduras, que parecem estar sobre uma lareira ou algo assim. As molduras também poderiam ser espelhos. Um detalhe interessante é que, em vez da aparição coberta por um véu, a imagem do meio parece a de uma TV fora do ar. Esse baralho foi lançado em 1974, criado por Jack e Rae Hurley, e ilustrado por John Horler.

O Tarot Druid Craft mostra um rapaz contemplando seis taças no reflexo da água, enquanto não percebe a única real ao seu lado. Semelhante ao Quatro de Copas, a imagem remete a Narciso, e lembra um pouco a pintura de Waterhouse de Hylas e as Ninfas.

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Interpretação Divinatória

Após essa extensa análise da carta, podemos falar da contribuição do Sete de Copas em uma leitura. Como afirmei anteriormente, o tema central dessa carta consiste em perdição e excesso – a perdição na ilusão do mundo, o excesso de luxo e de luxúria, etc. Por perdição eu quero dizer todo o tipo de tentação e interferência que nos tira de nosso caminho – qualquer que seja ele, sem evocar qualquer tipo de moralismo. Quanto ao excesso, basta lembrarmos o ditado que diz que “tudo o que é demais faz mal”.

Em uma leitura, o Sete de Copas traz a influência do poder que os sentimentos têm de nos fazer perder o contato com a realidade objetiva. A carta refere-se a engano, especialmente a auto-engano. O indivíduo aqui se deixa levar por seus desejos e vontades, frequentemente vendo as coisas mais do jeito que ele quer do que como de fato elas são. Alguém que fantasia com um amor que não existe, ou uma pessoa que sonha com uma vida que não tem, por exemplo.

O lado prejudicial dessas fantasias é que elas acabam nos impedindo de realmente alcançar o que queremos. O Sete de Copas mostra aquela nossa tendência em sonhar demais e fazer de menos. Quando essa carta aparecer, pergunte-se em que medida você está de fato fazendo coisas concretas por seus objetivos, e em que medida está apenas sonhando sobre eles. É muito legal dizer que o seu sonho é ter um apartamento, por exemplo, no entanto isso envolve economizar mais, e não gastar com um monte de coisas pouco necessárias.

Outro dos significados dessa carta é o deslumbramento, como bem ilustrado em sua imagem, onde o homem está ofuscado pelas visões fascinantes na sua frente. Muitas vezes, na vida, nos sentimos incondicionalmente atraídos a outras pessoas, coisas ou situações, que atiçam nossos sonhos, mas que realmente não significam nada. Nós é que projetamos nossas fantasias nessas coisas – nos as usamos apenas como simulacros para sustentar nossas próprias imagens internas.

A presença de Vênus em Escorpião traz uma forte tendência ao excesso, particularmente em relação a sexo – promiscuidade, mas também alcoolismo, uso excessivo de drogas, gulodice, ganância. Temos aqui uma energia de extremo prazer físico, que leva ao vício. Sempre que essa carta aparecer em uma leitura, veja se você não está perdendo-se no prazer carnal e entregando-se ao relaxo.

Contudo, nenhuma carta é só boa ou só ruim. Podemos também ver o Sete de Copas como a força da imaginação. Dependendo das outras cartas, o Sete de Copas pode significar simplesmente uma imaginação fértil, criatividade e inspiração. Outro de seus aspectos favoráveis tem a ver com beleza e atratividade – Vênus é a deusa da beleza e do amor.

  • Excesso
  • Perdição
  • Deslumbramento
  • Sonhos, fantasias
  • Desejos
  • Prazer físico vicioso
  • Imaginação, criatividade
  • (Auto) engano, ilusão

Análise SPR – Situação, Problema, Recursos

Resumo – análise do comportamento da carta nas três posições dessa disposição simples, a saber:

– 1. Situação, posição neutra, indicando a cena geral da questão e as disposições do consulente;

– 2. Problema, posição com nuances negativas, que evidencia o problema central que essa situação apresenta;

– 3. Recursos, posição com nuances positivas, reveladora dos recursos disponíveis para resolver o impasse indicado na posição dois.


1. Situação Na posição 1, o Sete de Copas assume seu significado neutro –
fantasia, ilusões, sentimentalismo, sonhos; deslumbre, fascinação por algo. Há uma forte tendência de o consulente estar desviando-se de seu caminho original por ser seduzido por coisas que apelam ao seu prazer. Geralmente eu vejo essa carta aparecendo para indicar que o consulente está seduzindo-se por suas próprias fantasias sobre coisas que ele deseja. Exemplo –

Mulher deseja sair de seu emprego atual e encontrar algo melhor (Pergunta hipotética)

Sete de Copas – Cinco de Espadas – Pajem de Copas

Duas cartas de Água e uma de Ar sugerem muito sonho e vontade, algumas ideias, mas nenhuma ação efetiva (Paus, Fogo) ou resultado concreto (Ouros, Terra). A consulente sonha demais com isso (Pajem e Sete de Copas), idealiza, fica pensando – mas nunca faz nada a respeito, realmente. O Sete indica que ela tem pouco foco no que quer, ficando completamente dispersa. É provável que ela esteja imaginando não uma, mas varias possibilidades de mudança, sem contudo fazer nada a respeito. Isso é intensificado pela presença do Pajem de Copas, personagem sonhador e fantasioso. As coisas aqui existem mais no reino das ideias. Ela pensa bastante em sair, sonha com isso, mas não sabe muito bem nem o que significa isso – não tem noção do lado prático da coisa. O Cinco de Espadas indica uma série de problemas que inviabilizam essa questão no momento. Disso podemos auferir que o mundo não lhe oferece suporte para tomar uma decisão dessas. O mercado na sua área talvez esteja competitivo demais, por exemplo. O Pajem de Copas como recursos indica que ela pode canalizar esse entusiasmo todo para vencer essas dificuldades. O Pajem de Copas é Terra de Água, ele traz o conteúdo emocional ao mundo objetivo, por meio de sua própria atitude. Pajens também são inícios de algo, o que me sugere que ela pode de fato ao menos começar a fazer algo a respeito. Figuras da corte representam ações, então eu diria que o recurso dela aqui é realmente materializar seus sonhos. Enquanto o Cinco diz que esses planos encontram muitos problemas, o pajem mostra que ela vence isso sendo otimista e acreditando mais no seu coração do que no mundo. Por enquanto a possibilidade é pouca, mas ela deve começar a agir, para que, lentamente, consiga alcançar seu objetivo. O legal aqui é que o pajem tem o poder de canalizar a energia do Sete e transformá-la em atitude.

2. Problema
– o desafio indicado por essa carta na posição 2 é, obviamente, manter os pés no chão e saber resistir às tentações. Essa combinação também indica uma necessidade de separar o que o real do fantasioso, o útil do supérfluo. Exemplo –

Esclarecimento sobre a situação de um rapaz que acabou de escrever um livro e procura ajuda para seu lançamento (pergunta hipotética)

Justiça – Sete de Copas – Dez de Paus

No aspecto elemental, temos aqui uma configuração oposta à exposta no exemplo anterior – a carta de Ar (Justiça) harmoniza-se e fortalece a carta de Fogo (o Dez), tirando as forças do Sete de Copas, Água. O rapaz age em direção aos seus objetivos e ideais, embora ainda não tenha tido nenhum resultado prático (cartas de Terra são ausentes). A Justiça é a carta mais forte da tiragem, e indica que ele considera cuidadosamente suas possibilidades. O Sete de Copas aqui indica que ele precisa lidar com seus sonhos de maneira mais objetiva. Essa carta tão enfraquecida na tiragem, numa posição que fala de desafios, sugere também que ele precisa dar mais atenção às suas emoções. Observe aqui a tensão entre a Justiça, que busca a harmonia e a certa medida, e o Sete de Copas, caótico, desorganizado e dionisíaco. O rapaz tende a perder-se nas opções por não saber separar as possibilidades reais das ilusórias. Ele consegue isso justamente prestando mais a atenção em sua intuição, que no momento não está sendo muito ouvida. Para que o equilíbrio buscado pela Justiça seja alcançado, seus sentimentos precisam aliar-se ao seu intelecto, sem que ele sucumba às tentações. A chave para alcançar esse equilíbrio está no Dez de Paus, que mostra grande força, tenacidade e capacidade de responder à altura de muita responsabilidade. Observe como a diversidade do Sete de Copas é sustentada bravamente no Dez – são vários aspectos da situação, vários projetos sendo sustentados de uma vez.

3. Recursos
– na posição 3, temos a possibilidade de explorar o potencial criativo do Sete de Copas. Levando em consideração particularmente a imagem dessa carta no RWS, é clara a sua relação com imaginação e fantasia. O número 7 é associado a misticismo e espiritualidade; ele é o contato entre o plano espiritual e o material, tema evidenciado nessa carta (ao contrário dos outros setes dos arcanos menores). As nuvens na carta marcam uma possível relação entre os dois planos, o que sugere inspiração. A visão que o homem presencia também parece ser espontânea. Assim, é possível tomar essa carta nessa posição como indicativa de criatividade, inspiração, inclinação espiritual ou boa capacidade intuitiva. Exemplo –

Leitura para uma moça, a respeito de seu estudo de Tarot

Dez de Ouros – Pajem de Ouros – Sete de Copas

Duas cartas de Terra para uma de Água tornam a situação bem fixa. A total presença de elementos passivos evoca receptividade e lentidão. A presença do Pajem de Ouros, Terra de Terra, parece reforçar isso. A moça está no inicio de sua jornada de aprendizado. Com tantas cartas de terra, ela com certeza está em busca de resultados concretos com seus estudos, possivelmente mesmo financeiros. O Dez de Ouros indica que ela tem bons recursos, e uma boa base. Além disso, essa carta sugere que a consulente tende a ver as coisas de forma conservadora, valorizando sempre o tradicional. Isso é confirmado pelo Pajem de Ouros, que nunca sai da risca e sempre recorre ao método. Nesta posição, ele alerta a consulente sobre ser dogmática e cabeça-dura demais, pois enquanto o Dez de Ouros sinaliza um background consistente e preparo, o pajem sugere demais dependência a essas bases. Nessa sequência, o Sete de Copas faz a diferença, desestabilizando parcialmente a fixidez das duas cartas anteriores. A carta indica que a moça tem uma imaginação poderosa, que pode ser útil em suas leituras e estudos. Rebelde e caótica, essa carta nega suas precedentes, basicamente indicando que a consulente pode usar a seu favor seu poder de intuição e sua criatividade. Para sobrepujar a morosidade do pajem, ela deve deixar sua imaginação correr solta, o que por vezes traduz-se por certo distanciamento do método. Muitas vezes, se não sempre, a espontaneidade e a capacidade de receber flashes de insight do Tarot são tão importantes quanto o método e a técnica.

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Fontes de Referência

Livros (título, autor, editora)

A Dictionary of Symbols, J. E. Cirlot, Routledge & Kegan Paul Ltd.

Dictionary of Symbols, Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Penguin Books

The Pictorial Key to the Tarot, Arthur E. Waite, U.S. Games Systems Inc.

O Tarô Cabalístico, Robert Wang, Ed. Pensamento

Manual do Tarô, Hajo Banzhaf, Ed. Pensamento

Seventy Eight Degrees of Wisdom, Rachel Pollack, Weiser Books

Tarot as a Way of Life: a Jungian Approach to the Tarot, Karen Hamaker-Zondag, Weiser Books

O Livro de Thoth, Aleister Crowley (tradução Edson Bino e Marcelo A. C. Santos, Ed. Madras


Sites

Wikipedia

Zohar – http://en.wikipedia.org/wiki/Zohar

History of the Alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_the_alphabet

Proto-Sinaitic Alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Proto-Sinaitic_alphabet

Proto-Canaanite alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Proto-Canaanite_alphabet

Resh (semitic letter) – http://en.wikipedia.org/wiki/Resh

Hebrew alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Hebrew_alphabet

Seven of Cups – http://en.wikipedia.org/wiki/Seven_of_Cups

Hylas – http://en.wikipedia.org/wiki/Hylas

Maya – http://en.wikipedia.org/wiki/Maya_(illusion)

Dicionários

Michaelis UOL – http://michaelis.uol.com.br/

Reverso – http://dictionary.reverso.net/portuguese-english/

The Free Dictionary – http://www.thefreedictionary.com/

Sites Diversos

The Astral Light, by Henry T. Edge – http://www.theosociety.org/pasadena/gdpmanu/astral/astral.htm#meaning

Egyptian fonts – http://www.fontspace.com/category/ancient,egyptian

Dicionário de hieróglifos online – http://hieroglyphs.net/0301/cgi/pager.pl?p=01

White/red symbolism – http://www.tarotmoon.com/articles/Symbols/symbols.html

Corax.com, Cards Meanings, Seven of Cups – http://www.corax.com/tarot/cards/index.html?cups-7

Supertarot – Seven of Cups meanings – http://supertarot.co.uk/minor-cups/seven.htm

http://www.victorianweb.org/painting/jww/paintings/kelly11.html

Site do Aquatic Tarot – http://www.aquatictarot.de/deck/tarot.html

Taroteca – http://taroteca.multiply.com/

The Power of Maya and the Nature of Reality, Jayaram V. – http://hinduwebsite.com/hinduism/h_maya.asp

Aeclectic Tarot – http://www.aeclectic.net/tarot/,

Aeclectic Tarot Forum – http://www.tarotforum.net/

The Webcomics Tarot Project – http://tarot.senshuu.com/

Hyena Hells’s Page – http://www.webcomicsinc.com/profile/HyenaHell


Obrigados especiais a Sil, Marcela e Carlos, que me ajudaram a trabalhar com as imagens, traduzir textos e pensar o simbolismo.

novembro 11, 2009

O Seis de Ouros (+ Exercício SPR)

Seis de Ouros - Waite-Smith Tarot (1909)Hoje falaremos de mais uma carta do naipe de Ouros, o Seis de Ouros.


O significado central do Seis de Ouros tem a ver com riqueza material. Em leituras, essa carta frequentemente tem uma conotação positiva, indicando prosperidade. Um dos aspectos do Seis de Ouros tem a ver com generosidade. Num nível um pouco mais profundo, vemos também a temática do dar e receber – a constante troca de valores, estados e posições.

Na versão do RWS (o baralho Rider-Waite-Smith) temos um homem, aparentemente um rico comerciante, dando com sua mão direita algumas moedas para dois mendigos, enquanto segura uma balança com a outra mão. Um dos mendigos recebe os trocos, enquanto o outro aguarda sua vez. Há nessa carta uma tênue noção de equilíbrio. O doador dá as moedas com sua mão direita enquanto segura uma balança com mão esquerda. O lado direito é associado à mente, à lógica e à razão; o lado esquerdo relaciona-se com o coração, a emoção e os sentimentos. A presença de uma balança na mão esquerda indica que o homem dá com parcimônia, e equilibra bem seus sentimentos ao entregar. Em outras palavras, ele doa com prudência, na medida de suas condições – ele dá o que pode. Por outro lado, alguns elementos da carta sugerem certo desequilíbrio – a balança pende levemente para a esquerda, e das seis moedas acima dos personagens, três pairam sobre o mendigo que recebe e só duas sobre o que não recebe. Ademais, sobre o mendigo da esquerda está a mão doadora, enquanto que sobre o da direita paira a balança – como se ele recebesse o “peso da justiça”. Essa leve discrepância parece sugerir o fluxo de alternância de ganhos e perdas da vida. Podemos imaginar que o segundo mendigo vai receber alguma coisa também, só que mais tarde, depois do primeiro; ou talvez ele não recebe por falta de merecimento (a balança sobre ele, a justiça sendo feita para ele). A mensagem implícita na carta é que o real valor de qualquer fortuna existe quando há a movimentação dos bens e valores. Parte dessa movimentação consiste na doação de recursos aos mais necessitados.

Variações hipotéticas do símbolo Sol+LuaNo livro Book T, MacGregor Mathers (um dos precursores da conceitualização moderna do Tarot) atribuiu cada uma das cartas numeradas dos Arcanos Menores (ou seja, todos os arcanos menores, com exceção dos ases e das figuras da corte) a um dos 36 decanatos astrológicos. Cada um dos 12 signos do Zodíaco equivale a trinta graus dos 360 da roda zodiacal. Os trinta graus referentes a cada signo são então divididos em três partes de dez graus cada, originando assim três decanatos para cada signo, num total de 36. De acordo com Mathers, o Seis de Ouros está associado ao segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua – temos então a combinação Lua em Touro, que sugere fertilidade – a combinação da fluência da lua com o Touro, símbolo antigo de fertilidade. A relação simbólica do touro/vaca com a lua é antiga e bastante significativa. Talvez pelo formato de seu chifre, a vaca e o touro foram associados à Lua desde há muito tempo, principalmente nas culturas indo-européias. Os chifres são associados à lua e, portanto ao ciclo menstrual, o que sugere fertilidade. Em algumas culturas, O touro também é associado ao Sol, incorporando seu aspecto masculino e viril; mais uma vez, temos a temática da fertilidade.

Um dos exemplos da profunda significância do simbolismo da vaca e do touro é a deusa egípcia Hathor, divindade associada à feminilidade, ao amor e ao prazer. Hathor era comumente retratada como uma mulher ou uma vaca carregando em sua cabeça o disco solar suportado por um par de chifres. O par de chifres pode ser visto como o crescente lunar, tendo o disco solar acima dele. Simbologicamente, o círculo é associado ao sol, e o semi-círculo (crescente lunar) à lua e ao feminino. Recorrente na simbologia egípcia, esse símbolo pode ser interpretado como a união do masculino (sol) com o feminino (chifres), que o envolve; nesse sentido, ele pode ser comparado ao T’ai Chi T’u, o símbolo do yin-yang chinês, que representa a constante mistura e alternância dos princípios duais. Ademais, um dos aspectos de Hathor (a Vaca Celestial) era sua identificação com Nut, a deusa-mãe céu, personificação da própria abóbada celeste, que “recebe” o sol em seu seio – como os chifres recebendo o disco solar. Da união fértil dos opostos surge o mundo, e a eterna interação entre os dois princípios é a fonte da energia universal. Como veremos mais adiante, a temática da união ecoa no próprio número do Seis de Ouros, que está numerologicamente ligado aos Enamorados, o grande Seis do Tarot, símbolo máximo da união dos opostos e da força de atração/interação.

CONEXÕES

O conjunto de símbolos que compõe o Tarot constitui-se em um sistema de significados que sustentam-se através da ligação existente entre cada elemento do sistema e os restantes. Podemos estabelecer várias conexões entre as cartas, de acordo com algum tema específico, símbolo recorrente, etc. A seguir, veremos mais detalhadamente algumas das conexões do Seis de Ouros com outras cartas.

O Hierofante

Podemos estabelecer duas correspondências entre o Seis de Ouros e o arcano 5, o Hierofante, sendo uma de caráter astrológico e outra de caráter pictórico.

De acordo com o sistema da Golden Dawn, ambas as cartas relacionam-se com o signo de Touro. O Hierofante é a própria representação do Touro no Tarot, enquanto o Seis de Ouros encara um dos três aspectos desse signo, seu aspecto lunar, do segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua. As três cartas numeradas associadas a Touro são a sequência 5-6-7 do naipe de Ouros. O signo de Touro é lento, metódico, segue a regra e faz tudo ao seu ritmo. Isso pode ter a ver com o significado da carta ligado ao método e ao formalismo. Como aspecto Lunar de Touro, o Seis de Ouros tem a ver com fertilidade e prosperidade. Touro é associado aos campos, à força de vida da terra e ao crescimento da colheita. Isso pode ser visto na carta, com sua imagem de riqueza. Talvez esse seja o motivo da próxima conexão entre as cartas, descrita no parágrafo seguinte.

Além de correspondências astrológicas, o Seis de Ouros também pode ser associado ao Hierofante pictoricamente; a estrutura pictórica das duas cartas é similar, e isso por si já sinaliza a existência de uma relação entre elas. Em ambas as figuras, vemos um personagem central principal, ladeado por dois personagens secundários a ele submissos. Mais do que isso, o gesto da mão direita dos dois personagens é o mesmo – dedos anular e mindinho recolhidos, dedos médio, indicador e polegar estendidos. Trata-se do sinal de benção, usado pelos padres católicos e ortodoxos ao fazerem o sinal da cruz para abençoarem os fiéis. No gesto de benção, é como se o padre estivesse servindo de intermediário entre Deus e os homens, repassando-lhes uma benção que eles supostamente não teriam como alcançarem por si mesmos. Benzer é transferir o poder de uma divindade para um objeto ou pessoa; o ato de benzer é feito por alguém que supostamente tem poder para isso, alguém que tem um contato especial com a divindade e que, portanto, serve de médium entre ela e o mundo terreno – ou seja, um sacerdote. Assim como o HierofanExemplos do sinal de benção em obras de arte de diversas épocas diferenteste abençoa seus discípulos trazendo-lhes a benção de Deus – dando-lhes caridosamente algo que eles não possuem e necessitam – o Seis de Ouros, num nível mais mundano, dá aos necessitados parte de sua fortuna. De certa forma, ele os abençoa. No Cinco de Ouros, a carta anterior, vemos mais uma referência a esse aspecto espiritual no vitral de igreja atrás dos dois mendigos, que não parecem percebê-lo. No Seis de Ouros, carta seguinte, os dois mendigos recebem a benção de alguém que tem mais do que eles. Um passo adiante foi dado, em direção à conscientização de sua própria condição. É o primeiro passo para o crescimento.

Essa temática de superioridade + caridade está presente nos quatro seis dos arcanos menores, e tem a ver com as associações qabalísticas dos seis no Tarot. Nesse sentido, o número seis sempre é associado a sucesso e vitória.

Os Enamorados e a Justiça

O paralelo entre o Seis de Ouros e os Enamorados é de caráter numerológico – ambas as cartas são 6, número relacionado à união e ao amor. A estrutura pictórica das cartas também é semelhante, com uma figura central superior e duas menores aos lados. Esse padrão pode ser considerado um símbolo em si na linguagem pictórica do Waite-Smith. O número 6 relaciona-se com equilíbrio e harmonia; no 6, os opostos estão equilibrados e interagem de forma harmônica, em uma constante e dinâmica troca.

O Seis de Ouros liga-se pictoricamente ao arcano 8, a Justiça, por meio da balança, presente em ambas as cartas. O símbolo da balança traz a conotação de avaliação e equilíbrio. É importante ressaltar que o equilíbrio representado pelo Seis de Ouros e a Justiça não é exatamente algo alcançado naturalmente, mas é fruto de uma cuidadosa avaliação e disciplina. Isso é mostrado na carta, onde o homem dá com cuidado, procurando não dar muito nem pouco, mas o necessário; ele alcança esse equilíbrio através de uma constante avaliação e controle. Essa frugalidade é uma característica compartilhada entre o Seis de Ouros e a Justiça.

No Seis de Ouros há um movimento de integração, de união. O recurso é passado de alguém que tem mais para alguém que tem menos, num processo que transparece um movimento em direção ao equilíbrio e à compensação. Temos aqui o aspecto do seis como união, generosidade e ajuda. Por outro lado, o 6 também é um número de equilíbrio e harmonia – o primeiro número par formado pela junção de dois números ímpares. Números pares são passivos e femininos, estáticos; números ímpares são ativos, masculinos e dinâmicos.

Resumo da carta

  • Sucesso material
  • Riqueza
  • Equilíbrio
  • Ponderação
  • Compartilhamento
  • Dar e receber
  • Compreensão
  • Compensação
  • Justiça, equidade
  • Igualdade
  • Comércio, troca

Significados objetivos

  • Riqueza, sucesso material
  • Generosidade, ajuda de alguém importante
  • Ajuda e receptividade – passar/doar conhecimento, experiência, recursos
  • Responsabilidade, equilíbrio, ponderação
  • Pesos e medidas, tudo muito certinho
  • Responsabilidade social, inter-rede humana e social

EXERCÍCIO SPR

Vamos agora aplicar nosso entendimento dessa carta à prática da leitura, usando como exemplo a disposição Situação, Problema e Recursos.

Posição I – A Situação – aqui essa carta indica sucesso material, ganhos e recompensa por esforços; indica também ajuda cuidadosa de pessoas com mais recursos. O consulente pode ser tanto a pessoa que recebe quando a que dá a ajuda. De maneira geral, pode também indicar uma situação que envolve interação dinâmica entre pessoas, especialmente tendo como pano de fundo assuntos materiais. Uma coisa importante a saber sobre o Seis de Ouros é que os resultados representados por ele são medidos pelo esforço investido previamente. Exemplo –

Pergunta hipotética de uma moça e seus estudos de Tarot –

SPR I - Seis de Ouros na SituaçãoSeis de Ouros – Pagem de Espadas – Rainha de Espadas

Ela tem uma base sólida de experiência e prática, e bons recursos e preparo para passar aos outros. Seus esforços começam a frutificar. O que atrapalha é a curiosidade incessante e certa presunção inocente de que sabe mais do que realmente sabe. Ela está apenas começando, e tem só um vislumbre do conhecimento, não deve deixar-se levar por seu entusiasmo. Seu melhor recurso é sua percepção aguçada, que combina intuição e sensibilidade com razão e ponderação; ela entende bem as pessoas, tem uma boa visão e percepção do outro, e certamente pode usar isso a seu favor.

Posição II – O Problema – Cabe aqui uma digressão para salientarmos a função exata dessa posição, algo que pode ser complicado para muitas pessoas, especialmente quem tem pouca experiência com essa disposição. Por “função” eu quero dizer qual o seu papel dentro da disposição, e qual efeito tem sobre a carta que cai nela. É provável que o leitor de cartas tenda a dar à posição Problema uma função anuladora/inversora, ou ainda uma função hiperbolizadora. A carta nessa posição seria então interpretada pela falta da energia que ela incorpora, ou como o inverso do seu significado normal, ou ainda como um exagero, um descontrole dessa mesma energia. Assim, o Seis de Ouros, por exemplo, poderia ser visto sob um viés de anulação/inversão (falta de recursos, estagnação da troca ou imprudência) ou sob um viés de exagero (meticulosidade em demasia, generosidade em demasia, dar demais, ou pensar demais e agir de menos). Essa forma de ver talvez venha de uma tendência a enxergar tal posição como essencialmente negativa e ruim. Eu creio que há vários problemas nisso. Primeiro, via de regra, não é isso que essa posição pretende indicar. Sua função é simplesmente mostrar o lado desafiante e antitético da situação, mais do que seu lado ruim, mau ou vil (o que endossa uma visão maniqueísta e limitadora das coisas, circunscrita a termos de bem contra mal, bom contra ruim); segundo, abordar essa posição como anuladora/limitadora/hiperbolizadora abre espaço para muita confusão e contradição. O Oito de Espadas, uma carta que fala de restrição, nessa posição poderia ser tanto liberdade
de pensamento, leveza, falta de restrições – ou muita restrição. Já uma carta considerada boa, como o Sol, poderia ser interpretada como orgulho, vaidade, ou como tristeza, decepção e ruína. Certamente escolher entre todas essas opções é algo contra-produtivo. Isso dito, é importante manter em mente que a função dessa posição é basicamente a de ter um efeito antitético. A energia da carta aqui não se inverte, enfraquece ou se exagera – ela apenas representa um obstáculo, um aspecto da situação que atrapalha ou traz problemas – e que, na verdade, representa uma fértil oportunidade de desenvolvimento e aprendizado. É a mesma energia, nem mais forte, nem mais fraca ou ausente, e nem inversa. Ela simplesmente precisa ser encarada, melhor manipulada ou sobrepujada – superada. É claro que esse equilíbrio entre a visão maniqueísta à qual estamos acostumados, e uma forma de ver menos presa às diferenças e mais às similaridades é algo um pouco difícil de ser alcançado – nada que alguma prática não supere, no entando.

Sendo assim, nessa posição o Seis de Ouros tem o mesmo significado que na posição anterior, só que visto de maneira a atrapalhar ou apresentar impedimentos e dificuldades ao consulente. O problema pode ser um forte senso de responsabilidade que impede o consulente de agir, ou pode haver alguma dificuldade no fluxo de transmissão de valores (materiais ou fixos). Exemplo –

Pergunta real de um rapaz que está pensando em pedir uma bolsa de estudos para um curso específico na empresa onde trabalha –

SPR II - problemaTrês de Paus – Seis de Ouros – Cavaleiro de Ouros

O rapaz é talentoso e capaz, e ainda um tanto independente e persistente em seus objetivos. Ele já chegou a certo ponto de desenvolvimento na área em questão, a ponto de ter certa autonomia estabilizada, mas volta seus olhos a horizontes mais amplos. Seu impulso ígneo, no entanto, é bastante freado pelas duas cartas de terra, mostrando as dificuldades das aplicações práticas de seus planos. O Seis de Ouros aqui indica a possibilidade de certos entraves no processo de concessão/aprovação da bolsa; o conjunto de critérios da empresa pode atrapalhar o consulente. Ele pode vencer esse obstáculo sendo persistente e paciente, e mantendo o foco em seu objetivo. Independente disso, as cartas sugerem que o consulente é capaz de seguir um caminho sozinho e aprender o que deseja por mérito próprio. Nessa leitura, o Seis de Ouros indicou a própria concessão da bolsa. Observe como a relação com o Hierofante (a Instituição, os procedimentos padrão – a empresa) aqui fica ressaltada.

Posição III – Os Recursos – disponibilidade de recursos necessários para se conseguir o que deseja, especialmente recursos materiais; ajuda dos outros sendo providencial; poder aquisitivo desempenhando um papel proeminente na situação. Nessa posição, o Seis de Ouros mostra recursos e fluência material.

Pergunta hipotética de uma mulher que deseja fazer uma viagem ao exterior –

SPR III - recursosSeis de Paus – Quatro de Paus – Seis de Ouros

A mulher está bastante confiante sobre sua viagem. Seu excesso de confiança, no entanto, pode atrapalhar seus planos, pois ela tende a repousar sobre seus louros. No entanto, ela realmente dispõe de recursos, e pode vencer sua tendência relaxar sendo mais prática e pensando mais antes de agir. Questões legais também pendem ao seu favor.

Ficou perceptível na descrição dessas leituras que a forma de interpretar as cartas depende muito do contexto e da associação. No entanto, creio que o mais importante seja absorvermos a essência de cada carta – o ponto de contato entre os vários sentidos a ela atribuídos, que na verdade é a origem do seu significado.

outubro 25, 2009

A Rainha de Copas (Exercício SPR)

Dando continuidade à sequencia do exercício SPR, hoje falaremos de mais uma figura da corte, a Rainha de Copas.

A Rainha de Copas é duplamente associada ao elemento Água, por pertencer ao naipe de Copas e ocupar a posição de rainha, ambas as características relacionadas a esse elemento. Isso faz dela a personificação do elemento Água. A Rainha de Copas encara o aspecto mais misterioso do estereótipo feminino – a mulher secreta, silenciosa, tímida. Num nível mais simbólico, como personificação de seu próprio naipe, a Rainha de Copas seria a própria Copa, a Taça em si, que executa sua finalidade sendo passivamente preenchida, servindo de recipiente. É o símbolo da Mãe do Deus-filho, que recebe em seu corpo a centelha divina.

A Rainha de Copas manifesta no âmbito dos Arcanos Menores a mesma energia da Sumo-Sacerdotisa dos Arcanos Maiores, a guardiã dos segredos do ser humano. Os adjetivos que caracterizam a Rainha de Copas incluem – sensível, receptiva, carinhosa, sonhadora, silenciosa (e mesmo tímida), introspectiva, transpessoal, intuitiva, compreensiva e espiritual. São essas as energias que essa rainha traz para as leituras, onde ela pode indicar tanto uma outra pessoa quanto um aspecto do próprio consulente.

Elementos pictóricos da carta

Acredito que seja pertinente uma digressão aqui. Embora seja difícil sabermos com exatidão o que o autor ou a desenhista do baralho Waite-Smith quiseram expressar com os desenhos das cartas, podemos tirar algumas impressões dos símbolos por livre associação. Evidentemente, esse método pode ser falho, por basear-se em referências pessoais e, portanto, possivelmente distanciar-se das ideias que os próprios autores intencionaram expor em cada carta. Entretanto, sua falta de exatidão é relativa, pois se o método é falho, é falho somente em relação a um padrão, que no caso é a interpretação dos autores a respeito de cada símbolo. No nível pessoal, a livre-associação pode estreitar a relação do estudante com a carta. O objetivo das associações listadas abaixo é, portanto, expor a minha interpretação dos símbolos, estreitando dessa forma minha relação com as cartas. Podemos entender melhor o que o autor quis dizer com os desenhos estudando o que ele deixou escrito a respeito de suas cartas. No entanto, tão quanto a compreensão do significado das imagens do Tarot, a relação que estabelecemos com tais imagens também é parte do desenvolvimento da nossa capacidade de compreendê-las. Tal capacidade é alcançada não somente através de uma ligação mental com cada carta, que seria o escopo da compreensão objetiva dos símbolos, mas também de uma ligação emocional com as cartas, que inclui nossa própria visão dos símbolos, segundo nosso referencial pessoal.

Abaixo, uma lista de alguns pontos proeminentes de carta, e de como eles contribuem para o seu significado –

A falésia – ao fundo da Rainha de Copas vemos um precipício, mais precisamente uma falésia, parte do que poderia ser um promontório. A falésia pode ser interpretada como a fronteira entre a terra (o mundo objetivo dos fatos) e a água (o mundo subjetivo dos sonhos). Um precipício é um lugar de risco, de perigo, e sugere a queda no abismo da morte, da inconsciência e da inexistência. Temos aqui um símbolo para a divisão entre o consciente e o inconsciente.

Elementos pictoricos da Rainha de CopasOutras cartas que mostram precipícios – tanto o Louco, quanto o Eremita e o Três de Paus mostram figuras no alto de precipícios ou montanhas. As três cartas mostram figuras que chegaram ao ápice em algum aspecto da experiência; o Louco e o Eremita transitam por regiões fronteiriças da experiência humana, marginais. O homem do Três de Paus está na altura, destacado do resto por seu mérito próprio, e olha o mundo de uma perspectiva nova – ele vê a big picture. No naipe de Copas, Oito de Copas e o Cavaleiro de Copas têm precipícios. Na primeira carta, o personagem está na região rochosa de uma praia, e prepara-se para começar a subir por um caminho íngreme (observe aqui a relação entre essa carta e o Eremita, ambas mostrando personagens retirando-se do mundo, partindo em peregrinação a um lugar mais alto, sozinhos; eles se erguem acima do mundo ordinário). O Cavaleiro de Copas, como a Rainha, está numa região seca às margens de um rio, com um planalto (que poderia ser a região do outro lado das montanhas atrás da Rainha).

Queen of Cups - Dreamer's DeckA beira-mar – no baralho Waite-Smith, a Rainha de Copas é retratada com seu trono à beira do mar, onde a sólida terra começa a esfarelar em areia e perde-se na profundidade das águas. Isso pode ser visto como uma metáfora visual à zona fronteiriça entre o consciente e o inconsciente, onde nossa percepção objetiva começa a dar lugar às visões interiores. A rainha do naipe de Copas está justamente em contato pleno com esse mundo, e faz como que a ponte entre ele e o nosso mundo consciente. A presença de motivos marítimos na carta a relacionam com todo o simbolismo do mar – cheio de segredos e perigos. A Rainha de Copas do Tarot Dreamers Deck, ainda em processo de criação, também é retratada com seu trono à beira-mar. O motivo para isso é que, segundo o autor, “esse é o lugar da mudança”.

O trono da Rainha de Copas – seu trono é coberto de alto-relevos retratando sereias, com uma concha no alto do espaldar. A concha, símbolo antigo e presente em diversas culturas, é associada à deusa grega Afrodite. Nascida da espuma do mar, Afrodite é a deusa do amor e da fertilidade. Além de aludirem ao mar, as figuras semelhantes a sereias também podem representar as ondinas, os espíritos elementais da água.

A taça – a taça da Rainha de Copas sempre chamou a minha atenção. A mais elaborada de todo o naipe de Copas, ela mal parece uma taça – assemelha-se mais a uma urna. Seu líquido não está exposto, pois a taça está tampada; como uma urna, ela oculta o líquido na escuridão de seu interior. Essa imagem, aparentemente mais um símbolo para o inconsciente, me sugere também o útero, onde a vida surge em segredo. A taça da Rainha de Copas também é muito similar a um cibório. O cibório é um cálice com tampa, usado nos rituais católicos para guardar as hóstias consagradas. É um objeto de significado espiritual.

Outro sinal presente na taça está no seu formato – sua silhueta, com os anjos de asas abertas, lembra um caranguejo. Ao idealizar seu baralho, Waite usou como um de seus principais referenciais o baralho da Golden Dawn, que segue as descrições feitas por MacGregor Mathers no livro Book T. A Rainha de Copas do baralho da Golden Dawn tem um lagostim saindo de sua taça (ver figura ao lado, versão do Golden Dawn Magical Tarot, uma versão moderna do Tarot da Golden Dawn, por Chic Cicero e Sandra Cicero, Llewellyn, 2001). Mathers inclui o lagostim da Rainha de Copas na lista dos sinais “especiais” dessa carta. É possível que Waite tenha tentado disfarçar o lagostim no formato da taça. Isso automaticamente associa a Rainha de Copas a outro arcano maior, A Lua, que tem em seu primeiro plano um lagostim ou caranguejo saindo das águas. Além de estar associada às emoções, medos e sonhos, a lua relaciona-se com o mar e o movimento das marés. A taça da Rainha de Copas sugere sua ligação com o inconsciente, com sentimentos e emoções secretas, misteriosas e ocultas. Suas visões são interiores, e mesmo secretas. A Rainha de Copas pertence a um reino sem palavras, sem definições estritas.

Exercício SPR

A disposição Situação, Problema e Recursos é uma tiragem simples de três cartas, que esclarece a situação do consulente. No exercício SPR analisamos como uma mesma carta se comportaria nas três posições da tiragem, que basicamente ressaltam os aspectos neutro, negativo e positivo de cada carta, respectivamente. Vale lembrar que a dicotomia problemas-recursos das duas últimas posições da tiragem não deve ser lida redutivamente em termos de ruim/bom, desfavorável/favorável. A posição “Problemas” muitas vezes mostra uma energia que está sendo usada ou recebida de forma inadequada. Além disso, o problema é o elemento-chave no processo de crescimento, representando a força que faz o indivíduo mudar, adaptar-se e crescer. Por outro lado, os recursos também requerem sabedoria para serem bem usados, devendo ser aplicados em concordância com o problema em questão.

Queen of Vessels, Alchemical Tarot, by Robert Place and Leisa ReFalo, Hermes Publication, 2008Posição 1, a Situação – aqui a Rainha de Espadas geralmente vai indicar que, quaisquer que sejam as motivações do consulente, elas são emocionais. Ele pode estar sendo sentimental, suas emoções podem estar em foco; ele pode também estar sentindo algo muito forte por outra pessoa. A Rainha de Copas não indica tanto um sentimento de amor romântico, mas mais uma devoção, uma dedicação ao outro. Além disso, nessa posição a Rainha de Copas pode indicar a presença de sonhos, imaginação, intuição e pressentimentos. Figuras da corte na posição 1 mostram alguma característica ou atitude do consulente que tem papel importante em sua situação. A relação da carta da posição 1 com as outras mostra seu teor. Exemplo – uma pessoa está pensando em mudar para outro estado, mas não está certa se suas motivações são válidas. Ela então tira três cartas, que acabam sendo a Rainha de Copas, o Quatro de Copas e o Quatro de Espadas. A Rainha de Copas indica que as motivações do consulente são emocionais – essa viajem para ele representa um sonho, um desejo profundo. Aqui, a rainha se harmoniza com o quatro, indicando que ele de fato não toma atitude nenhuma a respeito, e fica esperando que as coisas caiam do céu. A passividade da rainha combina-se com a falta de motivação do Quatro de Copas.

Posição 2, o Problema/desafio – uma atitude sonhadora, sensível demais ou insegura pode ser o maior obstáculo aqui. A carta pode também indicar uma outra, pessoa caracterizada por essa rainha, oferecendo dificuldades na situação. Eu costumo ver a Rainha de Copas mal-aspectada como alguém chorão e covarde. Outro aspecto negativo da Rainha de Copas surge quando a sua devoção se transforma em abnegação exagerada. Nesse caso, a presença da Rainha de Copas na posição 2 pode indicar uma necessidade de superar medos, colocar os pés no chão e ser mais objetivo.

Posição 3, Os Recursos/vantagens – como vantagens, a Rainha de Copas pode estar querendo dizer que o consulente deve usar sua intuição para resolver seu problema, ou abordar sua situação com seu coração, sendo delicado, carinhoso e dedicado. A visão profunda das emoções faz da Rainha de Copas uma ótima conselheira. Espiritualidade e visão transcendente também podem ajudar aqui.

setembro 25, 2009

Exercício SPR – Os Enamorados

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The Lovers - Waite-Smith TarotNaturalmente associada a amor e romance, a carta número seis do Tarot, Os Enamorados (variantes do nome incluem “Os Amantes”, e “O Enamorado”) esconde, logo abaixo da superfície, uma significância mais ampla, que envolve o simbolismo da força de atração entre os opostos e a Escolha inicial na caminhada do herói arquetipal.

Uma das bases para o desenvolvimento do simbolismo do Tarot, o neoplatonismo renascentista sustentava ser o Amor (Eros) a força primordial do universo. Essa noção tem sua origem na filosofia grega antiga. Na própria mitologia grega, como descrita na teogonia de Hesíodo, Eros aparece como a divindade primordial, surgida das profundezas da escuridão anterior à criação do universo. Eros é, assim, a força que nasce do caos para trazer a harmonia, a força cósmica que une tudo, que mantém o universo coeso e em estado constante de mudança – o poder da vida. Na arte grega, Eros era retratado tanto como um belo jovem rapaz, quanto como um menino, ambos alados. Ao contrário do que comumente se imagina, Eros nem sempre era retratado portando arco e flechas – muitas vezes ele aparece portando flores, ramos de hera ou fitas, presentes típicos dos apaixonados da época.

Em Roma, o Eros grego foi associado a Cupido, divindade romana com praticamente todas as características do deus grego do amor. Em latim, cupidus significa “desejoso”, “apaixonado”, “ávido”. A palavra tem sua origem no verbo cupere, “desejar”. A imagem do Cupido como um bebê ou menino alado, mais comum em Roma do que na Grécia, foi a que acabou perdurando, sendo largamente utilizada na arte, a partir do período renascentista, para retratar o deus do amor. Em versões mais antigas da carta dos Enamorados, podemos ver Cupido no alto da imagem, muitas vezes vendado, prestes a atirar uma flecha. Abaixo dele, geralmente são retratadas três figuras, que parecem compor um triângulo amoroso – um rapaz, entre duas mulheres, aparentemente dividido entre elas. Waite e Pamela modificaram um pouco o motivo dessa carta, trocando o deus alado do amor pelo arcanjo Gabriel, e o trio por Adão e Eva no Éden.

Eu considero Os Enamorados uma carta muito especial. Sucedendo cartas de figuras grandiosas, tais como a Imperatriz ou o Hierofante, os Enamorados representam uma quebra de paradigma em vários sentidos. Sallie Nichols, em seu famoso livro Jung e o Tarô – Uma Jornada Arquetípica, diz o seguinte a respeito dessa carta:

“Pela primeira vez na série do Tarô, a figura central não é pintada como um personagem mágico ou divino. Parece um ser humano comum, que enfrenta o mundo e seus dilemas com os pés solidamente plantados na realidade de todos os dias. À diferença dos dois padres retratados na última carta, mostra-se como um indivíduo que ostenta traços e trajes específicos, simbolizando assim um passo à frente na evolução da consciência – um passo para a percepção individual e para longe da consciência de grupo orientada para fora. Podemos ver nesse moço a personificação do jovem e vigoroso ego, pronto para enfrentar a vida e seus problemas sem a ajuda de ninguém. Não há aqui nenhuma figura de autoridade ao seu alcance para a qual possa apelar em busca de ajuda. Precisa, portanto, encontrar, dentro de si mesmo, a força para enfrentar a confrontação; precisa assumir sozinho, a responsabilidade por qualquer ação que pratique em relação a ele.”

O significado-raiz por trás da carta é diferenciação. Os Enamorados é a carta que mostra o nascimento do ego no Tarot, o estabelecimento da diferença entre o sujeito e o objeto, o eu e o outro. Podemos ver que, na verdade, a relação que a carta tem com o amor e a sua relação com o motivo da Grande Escolha e da individualidade são uma coisa só. Em sua escolha em retratar o mito do Éden, Waite faz um link com a temática do despertar da consciência mental – ou seja, do ego, e da mente.

A interpretação esotérica do mito do Éden, originada nas doutrinas gnósticas e provavelmente conhecida por Waite, pode jogar uma luz no significado dessa carta, especialmente em sua versão do baralho Waite-Smith: nascidos em um mundo perfeito, Adão e Eva vivem felizes, porém inconscientes de sua individualidade. O ganho da consciência, representado em Eva comendo o fruto da árvore do conhecimento, permite aos dois despertarem para sua individualidade; percebem-se nus, e têm vergonha; acordam para a diferença. Assim, a carta dos Enamorados retrata o momento de percepção da separação entre o que antes era uno – o eu versus o outro, o sujeito versus o objeto. Em outras palavras, trata-se do desenvolvimento da capacidade de abstração.

A carta número seis também representa um abandono da ortodoxia do Sumo Sacerdote. Fechando o ciclo quíntuplo (O Mago – Fogo, A Sacerdotisa – Água, A Imperatriz – Terra, O Imperador – Ar, O Hierofante – Éter, o espírito, transcendente), a carta cinco, o Hierofante, representa a criação de um sistema de verdades, que busca regular a experiência humana. O Hierofante, o Sumo Sacerdote, representa o cabeça de um grupo, que ele chefia impondo sua doutrina. Essa consciência grupal é quebrada na carta Os Enamorados, que mostra o nascimento da consciência individual. De certa forma, o enamorado agora sente que não mais precisa seguir uma verdade artificial, alheia a ele mesmo – seu coração fala muito mais alto, e soa a ele mais verdadeiro e legítimo. Muitas vezes, a descoberta do amor é o que demarca a nossa passagem de crianças a adultos – e o começo da noção de que nossos pais não são deuses, afinal. Pense na história clássica de Romeu e Julieta – ambos jovens, adolescentes (Julieta tinha de 13 para 14 anos, e Romeu provavelmente 16), rebelando-se contra tudo e todos em nome de seu amor proibido. Pare eles, nenhuma convenção ou norma valia mais do que o a paixão que um sentia pelo outro. Eles sentiam, correndo em seus corpos, a força vital da atração – Eros. É interessante notar que tanto Eros como Cupido sempre foram retratados ou como meninos, ou jovens rapazes.

O abandono da antiga ordem em nome da liberdade é o que caracteriza a Escolha. Na carta (especialmente nas versões anteriores ao Waite-Smith), o enamorado se vê dividido entre as opções de permanecer em seu mundo familiar e seguro, com o qual tem vínculos afetivos, ou seguir seu coração, sua paixão e vontade de viver, e abandonar segurança para lançar-se no mundo encantadoramente desconhecido. Esse conflito é a essência da carta dos Enamorados.

Perceba que o simbolismo dicotômico da carta está sempre presente – diferenciação, atração (entre dois elementos opostos e complementares), escolha (entre dois caminhos).

EXERCICIO SPR

Depois da breve análise da carta, podemos fazer algumas considerações sobre suas posições em cada uma das casas da disposição SPR

Casa I – A Situação

Dependendo do contexto, a carta pode indicar amor, um relacionamento, casamento e união; também pode mostrar uma situação onde está em jogo a escolha, a tentação e a ambivalência de valores.

Casa II – O Problema/desafio

Um relacionamento amoroso dificultando a situação; O dilema da escolha tendo especial importância na situação; conflito pessoal, íntimo ou moral.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Liberdade, vontade de viver, tesão pela vida. Aqui, o amor pode ajudar a pessoa a resolver sua situação.


setembro 19, 2009

Exercício SPR – Cinco de Copas

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 4:07 PM

five of cups - waite mini - menorO Cinco de Copas é provavelmente considerado umas das cartas mais incômodas do Tarot. Sua atmosfera depressiva é eloqüente, e fala por si só. De fato, geralmente o Cinco de Copas sinaliza tristeza, perdas, depressão e luto. Entretanto, quem estuda o Tarot logo percebe nas cartas a existência de um nível um pouco mais profundo de significado, pairando logo abaixo da superfície do óbvio. De maneira geral, essa linguagem “entreliminar” do Tarot esconde-se nos detalhes e, frequentemente, no plano de fundo das cenas indicadas nas cartas. Em relação à estrutura pictográfica das ilustrações do Tarot (mais especialmente do deck Waite-Smith, meu baralho de estudo/trabalho), é correto dizer que a regra geral define que o tema central da carta seja mostrado em primeiro plano, no centro, e quase sempre nos personagens. O plano de fundo das cenas retratadas nas cartas do Tarot – como também o cenário onde atuam os personagens – tem a função primária de complementar o tema central. Além disso, quase sempre é no segundo plano que encontramos dicas sobre o significado mais profundo. É isso que iremos investigar mais detalhadamente nesse post.

Para dar dois exemplos, podemos usar a carta número 2, A Sacerdotisa, e a carta número 15, O Diabo. Observe como a figura da Sacerdotisa e as duas colunas de seu templo dominam quase que completamente o primeiro plano da carta. Tanto que mal nos deixam ver o que está por trás da cena. Em vez de um templo, atrás da Sacerdotisa existe o que parece ser um vasto corpo de água (um oceano ou um lago) – símbolo do inconsciente, a vasta fonte que esconde nossas raízes. Em suas costas, a Sacerdotisa tem uma imensidão maior do que ela mesma, à qual, de certa forma, ela serve apenas de guardiã, ou representante. Preste um pouco de atenção agora na carta seguinte, O Diabo. Seu plano de fundo não expõe nada – apenas uma escuridão que começa logo atrás dos personagens da cena. Isso tira a sensação de tridimensionalidade da carta, deixando-a “chapada”, sem perspectiva. De fato, o arcano 15 fala da nossa prisão ao óbvio (o material, tangível, imediato) e da falta de perspectiva, de visão além que essa prisão causa.

The High Priestess & The Devil - Five of Cups post

Dito isso, podemos passar à análise do Cinco de Copas.

O Número 5

Na numerologia, o significado básico do número 5 é mudança. Caracterizado pelo seu dinamismo, intensidade e energia, o número 5 representa a ampliação da perspectiva, a aventura, e a liberdade. No Tarot, a carta número 5 é o Hierofante. Embora, a princípio, seja um pouco difícil relacionar a figura estática do Sacerdote Supremo ao ágil e hiperativo 5, a dificuldade começa a acabar ao passo que percebemos que hierofante é aquele que ensina, guia através da concessão de conhecimento – ou seja, comunicação, um dos traços mais proeminentes do número 5. O Hierofante é o mestre, o guru, cuja função principal é manter vivo o conhecimento de sua doutrina, exatamente passando-o aos novos iniciados.

As cartas 5 dos Arcanos Menores, em geral, tem uma atmosfera que sempre tende ao sofrimento. Isso se deve, em parte, ao fato de que o 5 representa mudança, transição. Todos os 5’s no Tarot relacionam-se ao Grande 5, o Hierofante; dessa maneira, todos os cincos nos naipes tratam de um movimento de expansão mental – o que caracteriza o aprendizado. Nesse caso, o aprendizado através da dor.

O naipe de Copas

O naipe de Copas é relacionado ao elemento Água – emoções, amor, união, combinação, associação, imaginação, e sonho. No Cinco de Copas, a passividade do naipe é perturbada pela agressividade do número 5. A energia 5 muitas vezes pode manifestar-se na forma de catástrofes e acidentes, trazendo a mudança de forma súbita e irreversível. Assim, da combinação entre as Copas e o 5, sonhos e fantasias se desmoronam, laços são desfeitos, e sentimentos são magoados. No entanto, aspecto de expansão consciencional do número 5 sugere que tais desilusões fazem parte do processo de aprendizado, onde nos desfazemos de laços antigos em nome de um conhecimento mais amplo sobre as coisas.

ELEMENTOS PICTOGRÁFICOS DA CARTA

Podemos passar agora para uma análise mais profunda dos detalhes da cena. Pense em cada carta como uma cena de peça de teatro. No teatro, o cenário tem papel fundamental – entre outros, o de comunicar ao expectador, de forma indireta, qual gama de emoções a cena cobre e, muitas vezes, qual o estado de espírito dos personagens presentes. Pamela Smith, a artista que desenhou o baralho Waite-Smith, também pintava cenários para peças teatrais e livros infantis. Podemos perceber essas tendências no estilo meio fantasioso e levemente teatral do baralho que ela desenhou. Levando-se em consideração que boa parte dos baralhos modernos baseia-se direta ou indiretamente no Waite-Smith, é possível afirmar que o estilo de Pamela perdurou e fez escola. Logo, as considerações seguintes não se aplicam necessariamente só ao baralho de Waite-Smith.

A seguir, analisaremos a composição da cena retratada no Cinco de Copas, começando por seu primeiro plano e ampliando cada vez mais nosso campo de visão. Será possível perceber certa progressão de significado – o simbolismo da carta vai se completando à medida que consideramos mais e mais os seus detalhes.

Primeiro Plano

  • O céu cinza sugere tristeza, apatia e confusão mental. Dias nublados e chuvosos geralmente são vistos como tristes, depressivos e nostálgicos;
  • Chão árido – nenhuma planta, pedra, ou qualquer coisa que seja. O chão árido confere à carta um aspecto desolado, sem vida. Estendendo-se por quase toda a área da carta, dá a ideia de um deserto – solidão e desamparo. A água que cai das três taças é absorvida pela terra infértil do chão, e provavelmente não vai frutificar em nada. São lágrimas na areia;
  • cinco de copas - personagemO personagem – o único personagem dessa carta está cercado por um ambiente árido, cinza e morto. Esse ambiente metaforiza o estado emocional do personagem. De costas, coberto por uma simples capa negra, numa postura reta e com os ombros encolhidos, ele olha insistentemente para as três taças caídas na sua frente. No Tarot, geralmente figuras de costas para o observador indicam isolamento, retirada. Sua capa negra pode representar luto; sua postura enrijecia, com os ombros encolhidos, sugere estagnação e extrema tensão. Os ombros encolhidos e voltados para dentro denotam também introversão e vulnerabilidade – encolhemos nossos ombros quando nos sentimos fragilizados, ou quando nos sentimos ameaçados;


  • cinco de copas - copasAs taças – as três taças caídas me lembram muito da história da menina e do leite, que provavelmente originaram a expressão “chorar pelo leite derramado”. O homem olha para elas fixamente, triste, perdido em sua desolação – distraído demais para notar a presença das duas taças que permanecem de pé, logo atrás dele. As duas taças podem remeter ao Dois de Copas, e, portanto, indicam que nem tudo está perdido, e que ainda resta esperança. A mensagem da carta começa, assim, a mudar um pouco de rumo. O que parecia antes aterrador se mostra agora não tão horrível.

Segundo Plano

Mais a frente, podemos ver um rio e, na margem do outro lado, uma construção que lembra um castelo ou fortaleza. A construção está cercada por um jardim verdejante. Ao longe, ligando as duas margens do rio, há uma ponte em arco. Olhando ao redor do personagem do Cinco de Copas, percebe-se que ele tem para onde ir caso queira deixar a solidão do lugar feio onde está. No entanto, ele não parece disposto a ir; isso envolve movimento, e ele não está disposto a sair do lugar – está firmemente plantado no chão, rígido e reto, como um cabo fincado na areia. Essa imagem pode ser interpretada como apego às mágoas, dificuldade de superar a decepção e continua a vida

  • cinco de copas - rioO rio – o rio tem um papel especial nessa carta. Ele aparece em diversas cartas do Waite-Smith, e sempre sinaliza uma mudança significativa. No site Dictionary of Symbolism, encontramos a seguinte definição para o simbolismo do rio:

    “Em seu fluir sem-fim, os rios vieram por simbolizar a própria vida; eles são ‘o fluxo do mundo em manifestação, o macrocosmo’. O cruzamento de um rio de uma margem a outra representa que um rito de passagem acabou de completar-se. A desembocadura do rio compartilha significado com o portão e a porta, representando uma passagem a outro mundo.”

    No site Symbolism.org, acerca do simbolismo do rio é dito que “(…) [o rio] representa a irreversível passagem do tempo e, em consequência, uma sensação de perda e esquecimento”. O rio simboliza uma transição de um estado a outro, de uma realidade a outra. No Cinco de Copas, o rio é o que separa o personagem desamparado do primeiro plano do castelo cercado de um jardim. Aqui, ele simboliza a mudança que faz o personagem chorar. Existe uma relação entre a água derramada das taças e a água do rio, que flui. Também, a presença do rio aqui liga o Cinco de Copas diretamente ao arcano 13, A Morte, que também tem um rio separando a terra seca do primeiro plano de campos verdejantes da outra marge. Aos poucos vamos percebendo que, mais do que tristeza e dor, o Cinco de Copas fala de mudança.

  • cinco de copas - ponteA ponte – segundo o site Dictionary of Symbolism, “a ponte é inerentemente simbólica de comunicação e união, seja entre o céu e a terra, ou entre dois reinos distintos. (…) é o final de um ciclo e o começo de outro. Em muitas culturas, a ponte é o limite entre o que pode ser visto e o que está além da percepção, ou ao menos uma mudança, ou desejo de mudança”. No Cinco de Copas, a ponte é o elo que une os dois estados de ser; ela representa o recurso de trasição entre a depressão e a recuperação – o personagem tristonho pode usá-la para cruzar o rio e dar as costas para suas mágoas. Não deve ser por acaso que, na carta, ela se posiciona logo acima das taças que permaneceram cheias, atrás do personagem, ode ele não pode vê-las. As suas perdas, levadas embora pelo rio, concentram toda a sua atenção.
  • cinco de copas - casteloO castelo/fortaleza – o castelo, que também poderia ser uma torre (compare-o com as torres da carta 18, por exemplo), representa basicamente proteção, conforto e segurança. No contexto da carta, ele representa o lugar de reabilitação, o lugar seguro onde o personagem vai recuperar-se das feridas que arranjou no meio do seu caminho. O castelo é o mundo construído por nós, o nosso próprio mundinho que nos afasta – e aliena – da natureza inconstante. Observe como o castelo é cercado por árvores e grama verdes. Em contraste com a terra seca que predomina na carta, o castelo do Cinco de Copas é como um oásis de vida.

Resumindo, podemos perceber aqui que uma carta de Tarot oferece um rico simbolismo muito além do que notamos à primeira vista. Cada detalhe da carta guarda algum significado no quebra-cabeça. Uma análise mais cuidadosa mostrou que, mais do que simplesmente indicar tristeza, o Cinco de Copas traz uma mensagem inerente de recuperação e superação. Cedo ou tarde, o personagem da carta vai dar-se conta de que não adianta mais chorar. Ele então vai pegar as taças que lhe sobram e vai cruzar a ponte, rumo ao castelo. Na carta seguinte, o Seis de Copas, vemos o mesmo castelo, já do lado de dentro. As duas taças que restaram das cinco que caíram estão agora cheias de lírios em flor, e a atmosfera assemelha-se a um filme infantil cheio de encanto. As crianças na carta podem simbolizar um novo desenvolvimento – o personagem “nasceu de novo”, agora cheio de vida e esperança.

five of cups - lo scarabeo universal tarotEXERCÍCIO SPR

Casa I – A Situação

Tristeza causada por uma perda. A perda pode ter sido relacionada a um relacionamento, ou um sonho que deu errado ou não se realizou. Geralmente, essa carta retrata uma situação onde a pessoa demonstra certa resistência a aceitar as mudanças, e se prende no passado.

Casa II – O Problema/desafio

O desafio aqui é justamente desapegar-se do que foi perdido, deixar para trás e continuar vivendo. O problema aqui é, claro, tristeza, desânimo e depressão. Nessa posição, a carta pode indicar que a pessoa está triste e se recusa a sair do lugar na situação, e isso a atrapalha.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Recursos? Sim, recursos. Poderíamos dizer aqui que, embora entristecedora, a mudança experimentada pela pessoa no fim das contas vai revelar-se benéfica, e trazer coisas boas. Talvez a capacidade de apegar-se seja também benéfica.

setembro 16, 2009

Exercício SPR – O Enforcado

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , — Leonardo Dias @ 1:16 AM

12 The Hanged ManA carta de hoje para o exercício SPR é o Enforcado – se não me engano, o segundo arcano maior a aparecer nesse exercício. Pra quem não tem acompanhado o blog, o exercício SPR basicamente consiste na análise do “comportamento” de uma determinada carta em cada uma das três posições da disposição Situação, Problema e Recursos, que recebe seu nome dos temas de cada uma de suas casas. A ideia é exercitar a compreensão do tema básico de cada carta inserido em três contextos: um “neutro” (a posição 1, a situação), e na dicotomia das duas posições seguintes – o contexto mais “negativo” da posição 2, o problema; e o sentido mais “positivo” da posição 3, os recursos. Encontrei esse exercício no site Tarot Studies, de Donald W, Stephens. Para introduzir a carta sorteada para a análise, eu também costumo falar um pouco sobre ela.

Sendo um dos Arcanos Maiores, o Enforcado, carta de número 12, é a representação/manifestação de um arquétipo, isto é, um conceito significativo que é parte da experiência comum a toda a humanidade, e que permeia o inconsciente coletivo, manifestando-se espontaneamente em diversas culturas através do tempo. Eu pessoalmente acho os Arcanos Maiores cartas muito “pesadas”, no sentido de terem um significado amplo e forte, e esse é um dos motivos por que eu uso todas as 78 cartas do Tarot juntas em uma consulta. Como o objetivo do exercício é analisar mais o significado divinatório das cartas, vamos deixar um pouco de lado os aspectos simbólicos/históricos do Enforcado por enquanto – certamente teremos outras oportunidades para falar sobre isso.

O significado básico do arcano 12, aquele que salta mais aos nossos olhos à primeira vista, é sofrimento. Na figura, vemos alguém que sofre por estar suspenso no ar, preso pelas pernas, tendo seus movimentos inibidos – completamente desamparado. O personagem da carta está totalmente entregue, à mercê. Podemos auferir disso a sugestão de um momento em que o indivíduo se vê forçado a permanecer suspenso em sua vida, numa espécie de limbo doloroso, onde ele está paralisado, sem poder fazer nada, a não ser esperar até que a situação se resolva por si mesma. Geralmente, essa é até a atitude mais aconselhável a se tomar nesses momentos – na maioria das vezes, quanto mais a gente tenta fazer alguma coisa, pior e mais dolorosa fica a situação. Por outro lado, nessas horas, é fácil entregar-se à apatia, ao conformismo, e mesmo à preguiça. Eu diria que essa é a tentação que o Enforcado oferece – a possibilidade de usarmos a nossa dor e a aparente situação de vítima das circunstâncias como justificativa para nossa preguiça e desmotivação. Essa mentalidade de vítima é uma das maiores tentações que essa carta pode indicar – mas ela é só a parte mais óbvia do Enforcado. Pensando com mais calma sobre o que ilustra a carta, não é muito difícil perceber que a situação do Enforcado representa, mais do que simplesmente sofrimento e imobilidade, uma oportunidade.

O momento de paralisia representado nessa carta traz uma oportunidade interessante de contemplação. Inerte, suspenso no ar pelos tornozelos, o Enforcado sofre sem poder fazer nada; no entanto, na reviravolta de ver tudo de cabeça para baixo, o personagem da carta pode ter uma perspectiva nova das coisas. E é esse um dos clicks dessa carta. Podemos usar nossos momentos de sofrimento como oportunidades para revermos nossas atitudes perante a vida, e enxergarmos o mundo de outra maneira, alterando assim o peso dos nossos valores e renovando nossas crenças. Psicologicamente, o trauma caracteriza-se pela mudança súbita de valores. No momento do trauma, tudo o que estava aparentemente equilibrado e estável vira de cabeça para baixo. Nossos valores e crenças são reorganizados – alguns se perdem, outros são adicionados e o resultado é um momento em que nos vemos forçados a repensar nossas crenças, e adaptá-las à nossa nova hierarquia de valores. Em várias versões do Enforcado, o personagem é retratado com um halo de luz ao redor de sua cabeça. Suspenso no ar, arrancado de seu contato com o chão (ou seja, com o mundo sólido e familiar) o Enforcado está entregue ao reino imaterial do espírito (a dicotomia Terra x Ar, matéria x espírito). Após alguma análise, fica evidente o forte caráter espiritual dessa carta, que pode representar uma mudança de valores, crenças e perspectivas de vida que advêm de eventos e situações a princípio traumáticas e desconfortáveis.

A mensagem principal do Enforcado é desprendimento. O momento de dor e impotência que ele representa requer uma boa dose de resignação e passividade. Sucessor da carta da Justiça (arcano 11) e antecessor da carta Morte (arcano 13), o Enforcado representa a morte/aniquilação do ego. Outro grande tema ilustrado por essa carta é a renúncia, que se origina de uma (re)avaliação da vida (A Justiça). O Enforcado é aquele que abandona tudo na vida para sair em busca de uma verdade maior – e a descobre não na constante movimentação, mas na imobilidade e na não-ação.

Divinatoriamente, o Enforcado geralmente vai cair mostrando momentos difíceis. De qualquer maneira, ele sempre traz consigo novas oportunidades de percepção e ampliação da consciência – mesmo que através da dor. De certa forma, o arcano 12 propõe escolhas – depois que seu mundo inteiro virou de cabeça para baixo, te deixando com a sensação de estar suspenso no vazio, você vai fechar os olhos e recolher-se ao seu sofrimento, ou vai abri-los para contemplar o novo mundo que se faz na sua frente?

Disposição da carta nas casas da SPR

Casa I, A Situação

Como dito anteriormente, o Enforcado pode indicar uma situação difícil, dolorosa e que se arrasta, deixando o indivíduo perdido na indefinição. Também pode indicar um momento de questionamento e reconsideração de valores. Frequentemente, a carta também pode indicar momentos caracterizados por essas duas coisas juntas – situações difíceis que obrigam o consulente a repensar suas crenças.

Casa II, O Problema/desafio

Aqui a tendência é a estagnação, o conformismo, a apatia e a mentalidade de vítima. Nessa posição, o Enforcado pode indicar uma tendência a entregar-se à situação passivamente. Fraqueza, insegurança, dúvidas com respeito a si mesmo e desmotivação. Essa carta, aqui, também pode sair para indicar uma necessidade de atitude desprendida e resignada.

Casa III, Os Recursos/vantagens

Os recursos oferecidos por essa carta têm a ver com as oportunidades de renovação da perspectiva e amadurecimento. Formas novas de ver as coisas podem portar a resolução de um problema ou impasse. Nessa posição, eu sempre penso muito na cabeça do personagem pendurado, cercada de luz, como se ele tivesse acabado de ter uma ideia, ou um insight. Quem nunca descobriu coisas valiosas ao abrir mão de coisas que lhes eram caras? Esse é o recurso mais precioso que o Enforcado pode oferecer.

fontes – 78notes.blogspot.com

Wikipedia

setembro 13, 2009

Exercício SPR – Dois de Paus

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 12:19 AM

A carta analisada no exercício SPR de hoje é o Dois de Paus. Pertencente ao naipe de Paus e, portanto, associada ao elemento Fogo, essa carta fala primariamente de poder, autoridade. A potência do Ás de Paus está aqui nas mãos de alguém, pronta para ser posta em uso.

Wands02Os significados atribuídos aos Arcanos Menores vêm, em parte, das associações feitas entre as cartas e a Numerologia, juntamente com a tradição dos quatro elementos e as quadruplicidades. Os significados provavelmente mudaram – e estão mudando – com o passar do tempo, mas é possível perceber ainda uma forte influência dessas duas doutrinas nos significados dos Arcanos Menores. É difícil, até certo ponto, traçarmos com correção a origem e o desenvolvimento da relação entre doutrinas esotéricas como a numerologia ou a astrologia e o Tarot, pois não se sabe ao certo se ele já surgiu com seu sistema de significados estruturado ou se a criação e o desenvolvimento de tal sistema é posterior à criação das cartas. Contudo, isso não me impede de dizer que podemos identificar os significados atribuídos às cartas numeradas (inclusive os ases) como um cruzamento das associações numerológicas com as associações elementais.

Por exemplo, a nossa carta a ser analisada hoje, o Dois de Paus. O número 2 caracteriza-se primariamente por seu dualismo, isto é, a existência de dois princípios opostos e complementares que ora se atraem, ora se repelem. No Dois de Paus, portanto, a força vital do naipe de Paus encontra essa dualidade. Na carta, vemos a imagem de um soberano contemplando a sua propriedade e, ao mesmo tempo, segurando um globo. Ele parece estar decidindo se deve contentar-se com o que já conquistou, ou se deve partir em busca de mais conquistas (como é natural do naipe de Paus). A dicotomia do 2 se manifesta aqui como as duas opções. Pensando nisso, eu sinto nessa carta uma vontade forte de fazer alguma coisa.

Casa I – A Situação

Autoridade, capacidade de realização e poder. Uma situação onde o indivíduo está no controle, sendo capaz de decidir os rumos de uma questão. Poder traz responsabilidade também, bom lembrar. Essa carta também pode indicar uma vontade forte de se fazer algo – a pessoa pode estar planejando coisas, organizando seus recursos para começar a agir. O Dois de Paus é poderoso, ativo e capaz.

Casa II – O Problema/desafio

A autoridade desta carta, nesta posição, transforma-se em autoritarismo. A atividade intensa dessa carta revela-se prejudicial. O consulente pode estar querendo mandar demais, ou talvez esteja forçando uma situação.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Criatividade, influência, iniciativa. Na casa III, essa carta indica que o consulente dispõe de recursos para conseguir o que deseja.

setembro 5, 2009

Exercício SPR – Rainha de Paus

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 3:43 AM

Wands13A carta sorteada hoje para análise é a Rainha de Paus. A Rainha de Paus incorpora a energia do naipe ao qual pertence, com a profundidade e a visão introspectiva característicos das Rainhas; é energética, charmosa e intensa. Eu a vejo como alguém que segue seu coração o tempo todo. Determinada e competente, ela sempre vai em busca do que quer. Todas as Rainhas do Tarot são intuitivas e sensíveis – na Rainha de Paus, isso manifesta-se como instinto. No Tarot, as rainhas são associadas ao elemento água. Na Rainha de Paus, temos então água mais fogo – ebulição. Como acontecimento, essa rainha indica sucesso nos empreendimentos e realização dos desejos. Aqui vai a análise dessa carta posicionada nas três casas da disposição de situação, problema e recursos:

Casa I – A Situação

Como situação, essa carta pode representar alguém com as características da Rainha de Paus que está envolvido de forma relevante na situação. Também podemos interpretá-la como esse lado do consulente se fazendo presente na situação onde ele se insere. Seu lado intento, idealista, dedicado e radiante pode estar ativo no momento. Ele pode estar investindo tudo de si em algo, ou fazendo alguma coisa com muita paixão. Ilustrando um acontecimento, temos aqui sucesso, vitória e realização.

Casa II – O Problema/desafio

O problema aqui é o exagero. A Rainha de Paus tende a ser dramática, intensa demais, e às vezes mesmo teatral – histriônica. Nesta posição, essa carta pode indicar que o consulente está fazendo uma tempestade em seu copo d’água. Ele pode estar reagindo de maneira muito exacerbada, pode estar fazendo um escândalo desproporcional. Outra possibilidade é a de ele estar investindo energia demais, ou cedo demais, ou mesmo em algo que não merece tanto investimento. Outros significados incluem autoritarismo, idealismo cego e mente fechada.

Casa III – Os Recursos/vantagens disponíveis

A posição três indica os recursos de que o consulente dispõe para lidar com a sua situação. A Rainha de Paus traz consigo boas doses de auto-confiança, fé nos ideais, carisma e magnetismo pessoal, charme, otimismo, paixão e boa disposição. Essa rainha também pode indicar, claro, uma pessoa específica que pode ajudar o consulente, dando-lhe coragem e restaurando sua fé em si mesmo, por exemplo.

Olhar os detalhes dos desenhos das cartas pode ser uma experiência instigante. Deles podemos extrair significados que nos ajudam a conhecer melhor cada carta, nos familiarizarmos com elas. Um detalhe que sempre me chamou a atenção na Rainha de Paus do baralho Waite-Smith é o gato preto aos pés da rainha. Essa carta também contem diversas imagens que aludem a outros felinos, os leões – ladeando o seu trono, e gravados em relevo em seu espaldar, junto com os girassóis. Isso automaticamente me remete a duas divindades egípcias – Bast, ou Pasht, a deusa-gato da fertilidade (leia-se capacidade de ter filhos), do lar e da feminilidade e; Sekhmet, a deusa leoa do Alto Egito, relacionada à guerra e ao próprio faraó. Ambas divindades são relacionadas ao sol. Os gatos costumam ter papéis proeminentes em diversas culturas, mas o fato de o Tarot ter sido tão associado ao Egito desde sua descoberta, no século XVIII, me sugere que o gato da Rainha de Paus tem uma conotação mais egípcia. Bast foi uma das deusas mais populares do Egito antigo. Originalmente associada à guerra e ao próprio sol, tais atributos mais tarde foram conferidos a Sekhmet, ficando Bast mais associada à fertilidade e ao lar. As duas deusas tem aspectos e atributos similares, e seus papéis muitas vezes se confundem. O caráter solar da Rainha de Paus é evidente. O gato, ali, além de poder significar o lado mais doméstico e dedicado dessa rainha, pode estar associado às bruxas e seus encantos. Os gatos também são associados, desde o Egito antigo, aliás, à Lua.

O Gato da Rainha de Paus - mais Deusas egípcias

Apesar de gostar de listas de significados, eu acredito que analisar cada carta em seus diversos níveis de interpretação (a imagem em si, os conceitos que ela expressa, as associações elementais/astrológicas/numerológicas, etc.) nos leva a uma compreensão mais consistente de cada arcano. Claro, isso leva tempo; e, sim, listas são legais por sintetizarem os conceitos de forma esquemática (o que facilita a memorização), e por servirem bem como fonte de consulta rápida. Contudo, a exemplo das palavras, os significados das cartas define-se pelo seu uso. Embora normalmente analisemos cada carta separadamente, é em conjunto, na leitura, que elas mostram sua vida.

setembro 4, 2009

Exercício SPR – Ás de Copas

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 3:05 AM

Cups01A carta de hoje para o exercício é o Ás de Copas. Agora só falta o Ás de Paus para completar os quatro naipes no exercício. O naipe de Copas, associado ao elemento Água, geralmente trata e fala de emoções e sentimentos. Também pode falar de sonhos, fantasias e intuições.

a mesa do magoOs Ases são cartas com uma proeminência especial no Tarot. Eles representam as forças elementais e, se pensarmos nos Quatro Elementos como arquétipos, logo tais cartas são quase tão significativas quanto os Arcanos Maiores, de certa forma. Sendo as cartas de número Um de cada naipe, cada ás está automaticamente associado à carta de número 1 no Tarot, o Mago. Creio que seja possível que essa associação entre o Mago e os ases tenha sido estabelecida há muito tempo, se não desde sempre, visto que na própria mesa do mago podemos ver os objetos representantes dos quatro naipes – uma taça (Copas), uma espada ou athame (Espadas), um pau (Paus) e um pentáculo (Ouros). O Mago manipula os quatro elementos – manipula a matéria, portanto. Eu estou atualmente fazendo uma pesquisa sobre a teoria dos Quatro Elementos e o Tarot, e logo teremos aqui no blog material novo sobre isso.

Os ases sempre indicam possibilidades – podemos pensar neles como os ingredientes para fazer uma receita: você pode ter todos os ingredientes com você, mas o prato só vai ficar pronto com o seu trabalho. Todos os ases pedem algum trabalho. Eles são o impulso, a força, e como tal devem ser explorados e aproveitados. O caminho de desenvolvimento de cada ás é a própria sequência de cada naipe.

Os significados divinatórios do Ás de Copas incluem sentimentos fortes, muitas vezes súbitos, emergindo; amor em geral, afeição e bem-querer; instinto e sentimento profundo sobre algo; um insight; o aparecimento de sentimentos por algo ou alguém e; inspiração. O poder no Ás de Copas é basicamente a força que atrai as coisas e que as faz buscarem a união; ele é a força de atração que une os opostos.

Casa I – A Situação

Aqui podemos ver o surgimento de sentimentos intensos por alguém ou alguma coisa específica. O consulente pode estar inspirado sobre algo, pode ter escutado algo dentro de si que chama sua atenção de forma especial. Também pode, é claro, indicar o começo de um amor por alguém. Aqui, o coração da pessoa pode estar levando-a para caminhos que a afastam da resolução de sua questão.

Casa II – O Problema/desafio

Uma das possibilidades de interpretação da influência negativa do Ás de Copas tem a ver com a força emocional exibida na carta. Nesta posição, ela pode estar indicando emoções súbitas ou intensas demais, muitas vezes pouco compreendidas, que induzem o consulente a fazer coisas das quais se arrependerá mais tarde, ou impedem-no de ver as coisas como realmente são.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Os atributos dessa carta que podem ser úteis ao consulente para resolver suas questões têm a ver com a força emocional desse ás. Posicionado assim, ele pode indicar um insight ou intuição que o consulente teve e deve seguir; pode mostrar mesmo que a pessoa em questão deve seguir o que manda seu coração, mesmo que isso pareça errado; pode mostrar, além disso, que o consulente pode usar ao seu favor o poder unificador dessa carta – associações e ajudas.


Leitura hipotética – uma moça está pensando em ir estudar no exterior. Pede ao Tarot que lhe mostre sobre esse seu plano. O resultado:

Post spr ás de copas, I

Aqui vemos que essa ideia surgiu de repente, e fez o coração da consulente bater mais rápido, rs. O Ás de Copas, juntamente com o valete do mesmo naipe, indica que ela aqui está movida por suas emoções e sonhos a respeito dessa viagem. O valete na posição dos problemas indica seu despreparo em relação a isso. A consulente pode estar fantasiando demais as coisas, sendo inocente, quando na verdade pode nunca ter sequer morado sozinha, ou ficado longe dos seus pais. Observe como o valete segura o Ás, e olha para ele como que maravilhado – a consulente está movida por seus sentimentos, não percebe as coisas mais práticas sobre esse assunto. O Cavaleiro de Paus, contudo, mostra sim que ela tem muita capacidade de fazer isso, e que sua energia abundante pode ser usada para isso – ela pode ir atrás do que quer. Contudo, a força do cavaleiro é enfraquecida pelas duas cartas de Copas, o que me sugere que a consulente corre grande risco de ficar só fantasiando sobre isso e não fazer nada de fato. Eu diria que ela pode conseguir, mas vai ter que se mexer para isso acontecer – seus sonhos apenas não bastam.


No segundo exemplo, um rapaz perguntando se é o momento certo para oficializar o relacionamento de cinco anos que tem com sua namorada:

Post spr ás de copas, II

Dois ases e o Louco – isso realmente sugere um novo começo na vida do rapaz. E podemos ver que esse novo começo está sendo pensado e sentido, antes de ser vivido. Ele realmente pensou sobre esse assunto e decidiu que é o que deve ser feito, é o que é justo a ser feito. O Ás de Espadas mostra uma decisão que ele se sente obrigado ou obriga-se a tomar – essa carta também pode mostrar que ele foi meio que colocado contra a parede – mas eu veria mais o lado da ideia surgindo na cabeça dele. o Ás de Copas na posição e problemas me sugere mesmo o começo de sentimentos por outra pessoa, que talvez estejam compelindo o consulente a fugir da situação obrigando-se a casar. Aqui, também podemos ver que, mesmo que mentalmente decidido, seu lado emocional ainda não está resolvido a esse respeito. O consulente tem o impulso e está pronto a se lançar nessa nova etapa, contudo – o Louco, na posição de recursos. Ele e sua futura esposa provavelmente vão se decidir sobre o casamento bem rápido, e em meses poderão estar casados. Nas Elemental dignities da consulta, temos duas cartas de ar e uma de água. Enquanto não enfraquecem o Ás de Copas, o Ás de Espada e o Louco reforçam um ao outro – o Louco é, assim, a carta mais potente da leitura, por ser um Arcano Maior bem-aspectado. Isso mostra que o cliente provavelmente vai se lançar nessa nova situação, e que ela representa mesmo um novo momento em sua vida.

setembro 3, 2009

Exercício SPR – Ás de Espadas

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , — Leonardo Dias @ 1:03 AM

Swords01A carta do exercício de hoje é o Ás de Espádas, segundo ás a aparecer na ordem do exercício. O Ás de Espadas é a raiz do naipe de Espadas, representante do elemento ar no Tarot. Ele é o poder do pensamento em sua raiz, a sua força cortante e objetiva, que define a realidade ao seu redor num só golpe.

Seus significados divinatórios incluem capacidade e poder mentais, uma nova ideia surgindo na mente do nada, compreensão, percepção súbita da realidade e razão. Esse ás é um flash que separa a verdade da ilusão.

Casa I – A Situação

Momento de percepção súbita da verdade. Como a espada, essa verdade tem dois gumes, ou seja, pode também ferir, machucar e magoar, pois separa as pessoas de suas tão bem acalentadas mentiras e falsidades. É importante, portanto, observarmos o caráter dual dessa carta. Ela mostra a verdade por si – seja ela boa ou má, a verdade, independentemente.

Casa II – O Problema/situação

Nesta posição, o Ás de Espadas pode falar de objetividade demasiada. Nossa capacidade de raciocínio nos habilita a classificar as coisas; porém, desprovida do auxílio da intuição, a emoção e a sensibilidade, ela permanece incapaz de contextualizar o que classifica. Aqui vemos que seu poder intelectual afasta do mundo, ao invés de unir a ele. Temos portanto a imagem da pessoa que, por ser objetiva demais, exagerada demais, acaba por afastar-se da verdade que busca, e das pessoas.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Uma nova informação-chave para a resolução do problema, capacidade de intelecto exercendo um papel proeminente na questão. Novas ideias e compreensão maior.

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