Descobrindo o Tarot

outubro 17, 2009

Tiragem – O Desejo Verdadeiro

Diagrama de tiragem - o desejo verdadeiroDesenvolvi essa tiragem no meio de uma consulta, e ela provou ser muito útil em momentos em que estamos confusos e precisamos de insights sobre nossos próprios sentimentos, objetivos e qual o melhor caminho a tomar. É composta de seis cartas, posicionadas de acordo com a figura ao lado.  O objetivo da tiragem é expor e analisar os desejos do consulente, e, através disso, descobrir a melhor forma de agir e lidar com eles. Abaixo, uma descrição mais detalhada de cada uma das seis posições da tiragem –

1 – O eu – o ponto de partida da tiragem é o próprio consulente. Essa carta serve de lastro para as outras, sendo a referência principal no entendimento das outras cartas. Na prática, isso quer dizer que todas as cartas seguintes, com exceção da última (que é uma partida do âmbito individual do consulente), devem ser confrontadas com essa em sua interpretação. Essa posição fala do consulente, como ele está no momento da consulta, por quais coisas ele está passando, etc.

2 – Emoção – como estão suas emoções, como ele se sente, seu foco emocional. Um truque para ler as cartas que caem nessa posição é olhar as figuras e imaginar como elas se sentem na situação onde estão. Por exemplo, se o Oito de Espadas cair aqui, poderíamos dizer que a pessoa se sente restringida, presa, confusa, e que não consegue entender seus sentimentos direito.

3 – Mente – o que o consulente pensa, suas concepções a respeito da situação em que está, como ele a entende.

4 – O que realmente quer – o desejo verdadeiro do consulente, o que ele quer no fundo.

5 – O que não percebe – Tanto essa quanto a próxima posição tem temas mais impessoais, menos focados no consulente e mais em aspectos de sua situação. Servem de contraponto a ele. Aqui, damos espaço para o Tarot exercer uma de suas funções mais importantes – pôr-nos em contato com o desconhecido em nossas vidas. A posição 5 traz à luz um aspecto importante da situação que o consulente não está percebendo, alguma coisa que ele não sabe sobre si mesmo, seu comportamento e atitude, ou a situação em si. Frequentemente essa posição vai mostrar oportunidades ocultas, não percebidas. Um arcano maior nessa posição vai indicar a força arquetipal que é o pano de fundo da situação. Por exemplo, na situação de uma consulente que deseja estudar no exterior, o Carro nessa posição indicaria seu momento de emancipar-se, ser independente e perseguir seus próprios sonhos. Ases nessa posição tendem a representar oportunidades significativas. Já uma carta da corte poderá estar mostrando um aspecto da personalidade do consulente que está emergindo ou deve ser cultivado, ou mesmo uma pessoa com papel proeminente na situação.

6 – Como agir – por fim, uma carta com sugestões e aconselhamentos ao consulente. Essa posição faz a diferença total com as cartas anteriores, pois não apresenta uma descrição estática, oferecendo inspiração em vez disso. Essa posição é como a fagulha de energia que fecunda a concepção estática apresentada nas cinco cartas anteriores.


Ideias sobre a tiragem

Uma coisa legal sobre essa tiragem é que ela se foca mais no consulente e sua atitude, e como ela se reflete na situação que ele está vivendo, e menos em detalhes da situação em si. A ideia é trazer o poder de decisão para as mãos do sujeito da história, tirando-o da posição passiva de vítima das circunstâncias.

As posições de 1 a 4 mostram o consulente de uma maneira geral – como ele está, suas emoções e pensamentos, e o que ele realmente quer. Basicamente são mais estáticas, fixas, descrevendo mais estados do que ações; elas servem mais para esclarecer. As duas posições seguintes são mais criativas, servindo mais para inspirar e contribuir com algo novo. É claro que essas definições são flexíveis – as posições 2 e 4 podem sim ser bem flexíveis e trazer esclarecimentos enormes sobre como o consulente se sente e pensa.

Podemos associar cada posição a um elemento, para assim estabelecer um esquema de Elemental Dignities que expande o significado da tiragem como um todo. Cada um pode associar cada posição ao elemento que lhe parecer mais adequado, contanto que se mantenha sempre o mesmo. O Tarot funciona sempre de acordo com os preceitos de quem o usa, então regularidade é importante. Um pouco de experiência com a jogada pode contribuir para uma associação elemental mais acurada. Aqui vão as minhas ideias sobre as associações –

1, O eu – TERRA – as bases da consulta, a realidade objetiva, o consulente como um todo.

2, Emoção – ÁGUA, o elemento tradicionalmente associado às emoções;

3, Mente – AR, tradicionalmente associado à mente, como a Água às emoções;

4, O que realmente quer – FOGO – o elemento associado ao desejo e aos objetivos, à vontade;

5, O que não percebe – ÁGUA – o elemento Água reflete os mistérios do nosso inconsciente, e o desconhecido em nossas vidas;de certa forma, é uma oitava superior da posição 2, a raiz das emoções, das motivações.

6, Como agir – AR – pelo aspecto mais racional e imparcial dessa posição.

Exemplo de leitura

Tiragem desejo verdadeiro, consulta RosanaVamos agora usar uma leitura para colocar em prática as associações elementais das posições. A leitura que usarei como exemplo a seguir foi feita para uma garota, sobre seu namoro. Rosana e Renato estão passando por um momento bastante difícil em seu relacionamento, a ponto de a moça não estar mais certa dos motivos que a fazem continuar no relacionamento. Basicamente, Rosana não sabe se seus sentimentos são verdadeiros ou se só está persistindo num sonho, iludindo-se. As cartas retiradas foram –

1 – O Sol

2 – A Justiça

3 – O Diabo

4 – Oito de Copas

5 – Ás de Paus

6 – Quatro de Espadas

De maneira sucinta, vemos que a consulente acabou de perceber a sua situação de uma maneira nova, que a faz ver as coisas muito mais claramente, o que a deixa sentindo-se mais segura. Emocionalmente, Rosana está sendo imparcial, fria e objetiva. Ela de fato pesa e compara, julga o valor de seus sentimentos, avalia-os e verifica a sua real significância. A Justiça é uma carta um pouco fria demais para figurar na posição dos sentimentos. Por outro lado, mentalmente não poderia estar pior – focada demais na situação, ela não pensa em outra coisa, pendendo para a obsessão. O Diabo mostra que, além disso, Rosana só percebe o lado ruim da situação, e não consegue ver muito além do óbvio. Cabeça fechada, obstinada e teimosa, propensa a desentendimentos violentos. Seu desejo mais profundo é deixar essa situação para trás, afastar-se mesmo dela, fugir. A carta Oito de Copas indica desgaste emocional e falta de esperança. No entanto, Rosana não percebe que essa situação, aparentemente já bastante desgastada, esconde oportunidades de novos começos e expansão. O Ás de Paus mostra que a situação guarda uma energia muito intensa de criatividade, que Rosana pode usar para explorar novas possibilidades emocionais em sua vida – não necessariamente com outras pessoas. O conselho do Tarot é que ela se permita um tempo para pensar sobre tudo. O Quatro de Espadas pede silêncio e paz, um momento de descanso e restabelecimento da razão. Ela precisa de um momento longe de tudo para que possa respirar e enxergar seus próprios sentimentos de maneira mais sensata.

Agora, para verificarmos como cada carta reage à posição onde se encontra, combinamos seu elemento com o elemento da posição.

Posição 1, Terra+Fogo – Combinação neutra. Aqui, o Fogo tem suporte para queimar e manter-se ativo. A Terra, a matéria, oferece uma estrutura para que o Fogo se manifeste. No entanto, os dois elementos não enfraquecem nem fortalecem um ao outro, mantendo-se estáveis em sua intensidade. A atividade e energia do Fogo contrabalanceia a passividade e receptividade da Terra.

Posição 2, Água+Ar – Combinação neutra. Mesma coisa aqui; ambos os elementos mutáveis e flexíveis. O intelecto do ar contrabalanceia a emotividade da Água. Aqui, vemos mais uma vez a dicotomia entre intelecto e emoções, a intensidade da carta não se altera.

Posição 3, Ar+Terra – Combinação negativa. Num domicílio regido pelo Ar, a carta de Terra perde sua força, ou seja, seu impacto deixa de ser tão grande quanto poderia ser. Isso indica que a falta de clareza mental e a obsessão representadas pela carta 15 podem ser combatidas facilmente.

Posição 4, Fogo+Água – Combinação negativa. Mais uma vez, o elemento da posição anula a força do elemento da carta. Ela quer deixá-lo, mas essa vontade não é suficientemente forte para que seja posta em prática.

Posição 5, Água+Fogo – Combinação negativa. As oportunidades indicadas pelo Ás não são tão grandiosas e tendem a sumir no ar.

Posição 6, Ar+Ar – Combinação positiva. Depois de tantas cartas enfraquecidas ou neutras, a posição 6 praticamente domina a jogada, sendo a única a exibir uma combinação positiva. Aqui, a força do conselho da leitura recebe um destaque maior. O Tarot parece estar indicando que, com um pouco de tempo e descanso do desgaste da situação, a consulente vai ter mais capacidade de entender melhor o que está acontecendo e, consequentemente, fazer uma decisão mais acertada.

Podemos notar que as associações elementais podem mudar bastante o sentido da consulta. Abaixo, uma interpretação da leitura à luz das confrontações elementais –

Vendo as coisas de uma maneira mais clara e ojetiva, Rosana agora avalia o real valor de seus sentimentos, pesando os prós e os contras de seu amor. A garota está um pouco fixada demais nesse assunto, e não consegue desvenciliar-se dele, mas combate isso procurando ser sensata focando-se em si mesma, e em suas próprias necessidades. Apesar de sentir uma vontade intensa de deixar tudo para trás e sair da situação, Rosana não tem forças suficientes para fazer isso, por enquanto. Seu desejo profundo está sufocado e enfraquecido no momento. Tal situação esconde oportunidades de expansão que, apesar de efêmeras, podem ser boas se aproveitadas no momento. Tudo que Rosana deve fazer é dar um tempo da situação e ficar algum tempo sozinha para pensar e examinar mais a fundo suas motivações, sem interferências para distraí-la. Dessa forma, Rosana poderá recobrar sua vitalidade e será mais capaz de tomar decisões acertadas.

Explicação das cores

As cores de cada casa correspondem ao elemento a ela associado – Laranja para Terra, Roxo para Água, Vermelho vivo para o Fogo e Verde claro para o Ar; eu considero as casas 5 e 6 como “oitavas superiores” das casas 2 e 3, então as colori com variações de matiz de roxo e verde (no caso, azul-escuro arroxeado e amarelo-esverdeado). As associações de cores com os elementos baseiam-se nos Tattwas da doutrina indiana.

outubro 13, 2009

Entendendo as figuras da corte através das associações elementais

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Tópicos

  1. Introdução – O Quaternário
  2. As associações elementais e as quatro funções da psique
  3. Os Pajens
  4. Os Cavaleiros
  5. O Casal Monárquico
  6. As Rainhas
  7. Os Reis
  8. Cruzando elementos e extraindo significados
  9. Tipos de combinação
  10. As personificações puras
  11. Finalização – por que estudar isso?

Introdução – O Quaternário

Para entendermos mais sobre as figuras da corte, precisamos buscar nas raízes de sua significância, o número 4. A estrutura numérica dos chamados Arcanos Menores é totalmente baseada nesse número – são cinquenta e seis cartas, divididas em quatro grupos de catorze cartas – os naipes. Dessas catorze cartas, dez são numeradas e quatro são figuras da corte. Ao que se sabe, a estrutura quaternária dos naipes existe desde a origem das cartas – ao menos, quando cartas de jogar surgiram na Europa, no final do século 14, já seguiam um sistema de quatro naipes. Experiências com mais naipes e figuras da corte foram feitas, mas o que realmente perdurou foi o esquema de quádruplo. Não se sabe ao certo a razão da existência desse princípio, mas isso não é exatamente estranho, se considerarmos que o número 4 acompanha a humanidade desde tempos ancestrais.

Nossa consciência é quaternária. Nossos corpos, com dois braços e duas pernas, naturalmente sugerem o número quatro. Percebemos quatro direções básicas – frente, atrás, direita e esquerda; essa consciência espacial é reproduzida naturalmente em nossas construções – nossas casas têm quatro paredes. Também são quatro os pontos cardeais. A percepção da natureza como se modificando através de quatro estações também pode figurar entre outro fator quaternário que ficou gravado no pensamento humano desde seus primórdios, tendo suas origens na percepção dos solstícios, também em número de quatro. Além disso, a cruz figura entre os símbolos mais antigos desenhados em cavernas.

Os elementos primordiais tradicionais, que servem de base para a existência de todas as coisas no universo, são um grupo de quatro – Fogo, Água, Ar e Terra. No mundo ocidental, a tradição dos elementos surgiu na filosofia grega antiga e, consolidada por Aristóteles, permeou todo o pensamento científico do ocidente desde a Antiguidade até o século 17, marcado pelo início da Era Moderna, que introduziu uma concepção de mundo mais calcada no pensamento racional, ligado aos fatos e seus desdobramentos lógicos – concepção essa que permanece em voga até hoje.

O sistema de associações entre as cartas do Tarot e a tradição dos quatro elementos é um dos fundamentos do entendimento esotérico do Tarot. Nesse sentido, as Figuras da Corte são um caso à parte. Além de estar associada ao elemento de seu respectivo naipe, cada figura da corte relaciona-se também a um dos quatro elementos por meio de sua posição hierárquica. O cruzamento entre esses dois fatores abre uma ampla dimensão de significado para as cartas da corte. Esse esquema de associações elementais, junto com as associações das figuras da corte com a Astrologia e com elementos cabalísticos, formam a tríade dos principais elementos na atribuição de significado a essas cartas. Sendo assim, entender esse esquema de associações elementais é entender melhor as próprias figuras da corte no contexto do Tarot.

Cada naipe é associado a um dos quatro elementos, que determina o tema tratado no naipe. As associações elementais de cada naipe e os temas tratados em cada um podem ser sumariamente esquematizados na tabela abaixo –

Naipe

Elemento

Tema

Paus

Fogo

Movimento, ação, as lutas (e conflitos) da vida, realização pessoal

Copas

Água

Emoções, relacionamentos, sonhos

Espadas

Ar

Lições de vida, valores, aprendizado, compreensão da vida, (daí) conflitos, sofrimento, dificuldades

Ouros

Terra

Assuntos materiais, o vai-e-vem do dinheiro, os resultados da nossa energia aplicada

As cartas que compõem o naipe falam do desenvolvimento da experiência no tal tema. Começando com o ás, que é a energia do elemento em seu estado bruto, vamos subindo até o dez, passando por diversas situações que representam um aspecto específico da experiência com o tema em questão, de forma progressiva. Sucedendo a ordem das cartas numeradas, as cartas das figuras da corte representam um estágio a mais no desenvolvimento da experiência no tema – o desenvolvimento da relação com a energia elemental no âmbito do indivíduo. Em outras palavras, as figuras da corte são personificações sucessivas de cada elemento, desde seu estado embrionário ou infantil em nós (os Pajens) até seu estado maduro e completamente desenvolto (os Reis/Rainhas). Enquanto as cartas numeradas representam a ação das forças elementais em nossas vidas, as figuras da corte representam a manifestação de tais energias em nós. É só pensar nas cartas numeradas como as situações do enredo de uma estória, e as figuras da corte como os personagens. Cada figura da corte é, portanto, um estágio de desenvolvimento da relação com a energia elemental no campo pessoal. Tal desenvolvimento é representado na progressão das quatro posições hierárquicas dentro do sistema da corte –

  • Os Pajens representam essa energia manifestando-se na personalidade em seu estado primário, pouco desenvolvido e bruto. Eles são as bases do naipe;
  • Os Cavaleiros personificam a energia do naipe se desenvolvendo a pleno vapor, com toda sua força. Representam a intensidade da energia do naipe crescendo;
  • As Rainhas representam essa energia já desenvolvida, de forma madura e profunda. São a energia do naipe amadurecida;
  • Os Reis também representam o completo desenvolvimento dessa energia. Eles são os reis do naipe, o estágio mais alto que eles podem alcançar em seu desenvolvimento.

Até agora, descobrimos então que:

1) cada naipe, relacionado a um dos quatro elementos, trata sobre as experiências em um determinado tema da vida;

2) enquanto as cartas numeradas falam de situações nas quais a energia desses elementos se manifesta, as figuras da corte representam a manifestação dessa energia no indivíduo;

3) tanto no caso das cartas numeradas quanto no caso das figuras, a ordem numérica imprime um senso de progressão na experiência com as energias elementais, que vai da inexperiência à experiência.

O primeiro a desenvolver um esquema de associações elementais a tais cartas foi o ocultista inglês MacGregor Mathers, em seu livro Book T, escrito no final do século 19. Nesse livro, Mathers baseia-se na Qabalah, astrologia e geomancia para traçar os paralelos entre os elementos e as figuras da corte. Seu sistema vigora até hoje, servindo de base para a maior parte de novos esquemas de associação. Um dos traços mais marcantes do sistema de Mathers foram as mudanças feitas por ele na hierarquia da corte do Tarot. Acreditando estar fazendo uma retificação, Mathers modificou os nomes e importância das posições, trocando os títulos tradicionais de Rei, Rainha, Cavaleiro e Pajem por Rei, Rainha, Príncipe e Princesa. Sua modificação mais discutida foi a alteração da importância de certas figuras na dinâmica da corte – Mathers colocou o Cavaleiro no posto mais alto, e rebaixou o Rei à posição de príncipe. Os motivos para tais mudanças baseiam-se em uma melhor associação do Tarot com a Qabalah.

Mathers foi um dos fundadores da Ordem Hermética da Golden Dawn. Os criadores dos dois baralhos de Tarot mais famosos da modernidade foram membros dessa Ordem – Aleister Crowley, que junto com Lady Frieda Harris criou o baralho de Thoth, entre 1938 e 1943; e Arthur Waite e Pamela Smith, criadores do baralho Waite-Smith, lançado em 1909. Ambos os baralhos exibem claramente influências do sistema esotérico e mágico da Golden Dawn em vários pontos, sendo um deles a associação elemental das Figuras da Corte. Dada a sua popularização através dos dois baralhos acima mencionados, o sistema desenvolvido pela Golden Dawn é hoje o mais aceito e reproduzido. Abaixo, a título de informação, uma tabela com as variações das figuras da corte, de acordo com os Mathers, Crowley e Waite –

Mathers

Crowley

Waite

Rei (antigo Cavaleiro)

Cavaleiro

Rei

Rainha

Rainha

Rainha

Príncipe (antigo Rei)

Príncipe (antigo Rei)

Cavaleiro

Princesa (antigo Pajem)

Princesa (antigo Pajem)

Pajem

Percebemos pela tabela que, enquanto Crowley adotou mais inteiramente o sistema de Mathers nas figuras da corte, Waite preferiu manter-se fiel à estrutura tradicional de Rei-Rainha-Cavaleiro-Pajem. O esquema tradicional faz mais sentido para mim, talvez por eu usar o Waite-Smith e estar habituado a esse esquema de hierarquia. Portanto, é dele que vamos tratar aqui. Contudo, é importante mencionar que não há um sistema certo e absoluto; tais associações foram feitas de acordo com a forma de pensar de cada ocultista, fazendo sentido no contexto do sistema de pensamento dele. Cabe a cada estudante escolher o sistema com o qual se sentir mais confortável, o que fizer mais sentido para ele.

Isto posto, agora temos as bases para estabelecer as associações elementais a cada posição hierárquica da corte.

As associações elementais e as quatro funções da psique

Usando a imagem da ascensão social, o caminho progressivo do Pajem ao Rei ilustra o desenvolvimento da energia elemental dentro de nós. Da manifestação primária dos Pajens ao completo desenvolvimento dos Reis, cada figura da corte representa um dos quatro estágios de manifestação dessas qualidades. A ideia esotérica por trás disso é a de que a manifestação do espiritual ao material é quaternária, e cada estágio subdivide-se em quatro estados, num total de dezesseis. Entendendo que a manifestação ocorre do mais sutil ao mais bruto, a ascensão ou retorno ao espírito faz logicamente o caminho inverso, do mais bruto ao mais sutil, onde está o Uno, a fonte primordial de tudo. De acordo com o pensamento místico, esse conceito serve como molde para o desenvolvimento de qualquer coisa existente, incluindo as pessoas e as coisas que elas produzem, os acontecimentos, a natureza e o cosmos. Vale lembrar que nenhum estágio é mais importante ou sagrado que o outro. Cada um tem sua própria importância e seu papel, fundamentais no processo de manifestação/ascensão.

Uma maneira de abordar a relação das figuras da corte com os quatro elementos é através da teoria das funções do ego, desenvolvida na primeira metade do século 20 pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Segundo Jung, o ego tem quatro funções, quatro formas fundamentais diferentes de perceber e interpretar a realidade e de lidar com o mundo; são elas Sensação, Intuição, Sentimento e Pensamento. Esse grupo de quatro funções consiste em dois pares de elementos opostos. De um lado temos o par Sensação-Intuição, que Jung chamou de funções irracionais, caracterizando-se pela percepção e simples resposta a estímulos . Do outro, temos o par Sentimento-Pensamento. Jung chamou as duas funções que compõem esse segundo par de racionais, pois ambas envolvem o ato de tomar decisões ou fazer julgamentos, mais do que simplesmente receber estímulos.

A função da Sensação consiste na recepção de informação por meio dos sentidos físicos. A função da Intuição define-se por uma percepção que funciona fora do processo consciente comum, consistindo numa complexa integração de grandes quantidades de informação, mais do que simplesmente ver ou ouvir. Ambas são irracionais, no sentido de que não envolvem julgamento. A Sensação é uma percepção mais voltada para o exterior, enquanto que a Intuição é uma percepção de estímulos psíquicos, interiores.

No segundo par, ambas as funções Sentimento e Pensamento são formas de avaliar a informação recebida, ou seja, dar a ela um valor, atribuir-lhe um sentido. Sentimento é a capacidade de fazer julgamentos baseando-se nas respostas emocionais, seguindo valores de bom/mau, agradável/desagradável. A função do Pensamento distingue-se de sua função oposta por basear-se na lógica e na razão para avaliar informações. Enquanto Emoção é voltada para dentro, ou seja, para a realidade interior dos sentimentos, Pensamento volta-se para o exterior, isto é, para as evidências e os fatos do mundo objetivo.

O próprio Jung baseou-se nas tradições antigas dos quatro elementos, através da teoria dos quatro humores de Hipócrates, para formular seu esquema de quatro funções psíquicas. Hipócrates, por sua vez, baseou-se na teoria dos quatro elementos de Empédocles, onipresente no pensamento filosófico grego antigo desde 600 a.C..

Abaixo, descrições mais detalhadas sobre cada figura.

OS PAJENS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Terra

Sensação

Infância

O Pajem é o estágio inicial do desenvolvimento. Nele, a energia do naipe está em seu estado bruto, não desenvolvido e primário. Como crianças, relacionam-se com o mundo de maneira bem simples e direta. Ligado ao elemento Terra, o Pajem no Tarot mostra que tudo começa no chão, e a ele está incondicionalmente ligado.

A figura do Pajem representa o aprendiz. Na Idade Média, o pajem era o servo de um cavaleiro, um aprendiz a escudeiro. Após sete anos servindo o cavaleiro, o pajem tornava-se um escudeiro que, depois de mais sete anos, poderia vir a ser ele mesmo um cavaleiro. O pajem executava as funções mais básicas, como cuidar da organização e limpeza dos aparatos de seu cavaleiro, ou levar e trazer mensagens. Simbolicamente, o pajem do Tarot representa o estágio mais básico do desenvolvimento no naipe. Ele é a experiência direta com o naipe, sem abstrações ou sofisticações. Sendo uma criança, o Pajem é neutro – pode ser tanto masculino quanto feminino.

O elemento Terra é o plano material, o mundo objetivo ao nosso redor, e o nosso próprio corpo. No ser humano, a experiência mais primária é a relação com nosso próprio corpo, que percebe o mundo que nos circunda através dos estímulos de nossos sentidos. Relacionados ao elemento terra, os Pajens representam essa experiência sensória, táctil, básica a todo ser humano. Eles estão em contato direto com a energia do elemento ao qual pertencem, sem abstração nenhuma. Psicologicamente, a figura do Pajem equivale à função da sensação, que se caracteriza pela consciência dos estímulos físicos. As características dos pajens incluem –

  • Curiosidade
  • Criatividade
  • Dedicação
  • Inocência
  • Sensitividade (no sentido de fisicalidade)
  • Inexperiência
  • Certa arrogância inocente
  • Visão limitada

OS CAVALEIROS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Fogo

Intuição

Juventude

O Cavaleiro é um impulso de energia; retrata o estágio de ascensão da intensidade da energia do naipe. Nele, a energia está subindo, ficando cada vez mais intensa. Os Cavaleiros são cheios de si. Enquanto os pajens são dedicados, quase despersonalizados (os pajens, como crianças, estão ainda desenvolvendo sua personalidade), os cavaleiros são personalidades desenvoltas; eles sabem quem são, e sabem o que querem – ou melhor dizendo, pensam que sabem. Relacionados ao elemento Fogo, os cavaleiros são o impulso da vida, que brota da terra em direção ao céu.

Na Idade Média, os cavaleiros eram os representantes da classe militar. Assim, a figura do cavaleiro é naturalmente associada à guerra, à missão, à luta por um ideal, uma crença (típicos do elemento Fogo). No Tarot, os cavaleiros tipicamente agem por impulso, seguindo seu coração e perseguindo os ideais onde depositam sua fé. No contexto evolutivo ilustrado na corte, a figura do cavaleiro representa o impulso criador fecundo, o ímpeto rumo ao progresso. Se os pajens são associados à infância, os cavaleiros estão ligados à juventude. Assim como os jovens, os cavaleiros são cheios de energia e disposição para negar, questionar e contestar tudo, preferindo sempre seguir seu próprio caminho.

O elemento Fogo corresponde à força criativa. Ele é a vida, o espírito que preenche a estrutura física formada pelo elemento Terra. Sem a vida do Fogo, toda a estrutura do elemento Terra torna-se um mero objeto inanimado. Psicologicamente, esse impulso vital traduz-se pela intuição, a função psíquica que se caracteriza pela manifestação de uma experiência espontaneamente trazida à consciência, em vez de provir de atividade mental (ou seja, pensamentos e emoções), ou de estímulos físicos (sensações). Trata-se de um sentimento instintivo, a fonte da inspiração, criatividade e ideias espontâneas. Psicologicamente, os cavaleiros também se relacionam à vontade. As características dos cavaleiros incluem –

  • Ação
  • Coragem
  • Idealismo
  • Impulsividade
  • Iniciativa
  • Paixão
  • Entusiasmo
  • Egocentrismo
  • Imaturidade
  • Teimosia
  • Inconstância

O Casal Monárquico

Existe uma tênue divisão na corte do Tarot entre o casal monárquico (o Rei e a Rainha) e os par de servos, o Cavaleiro e seu Pajem. Enquanto entre o Pajem e o Cavaleiro existe um movimento de ascensão perceptível (a diferença entre eles é comparável à diferença entre um aluno do ensino fundamental e um estudante universitário), as figuras do casal monárquico são mais estáticas e semelhantes. Nelas, o processo de desenvolvimento não é tão evidente como entre o Pajem e o Cavaleiro. A diferença está no fato de que o Rei e a Rainha são como as duas faces de uma mesma moeda. Seu poder é similar – o que distingue um do outro é o foco onde tal poder exerce sua força. Os Reis focam-se no mundo exterior, além das fronteiras de seu reino; as Rainhas concentram sua atenção ao mundo interior, dentro das fronteiras de seu reino.

Psicologicamente, poderíamos dizer que o Rei e a Rainha são os dois aspectos de uma mesma entidade, que personifica a maturidade da manifestação do elemento na personalidade, em seus aspectos ativo e passivo, yang e yin. O poder real das duas figuras do casal monárquico pode servir como metáfora para o domínio que uma pessoa completamente amadurecida tem sobre sua vida e a influência que exerce sobre os outros ao seu redor.

Na teoria jungiana das funções do ego, o grupo de quatro funções divide-se em dois pares; o par sensação-intuição caracteriza-se pela percepção de experiências irracionais, enquanto o segundo par, pensamento-sentimento se destaca por experiências racionais. A exemplo das funções psíquicas, o primeiro par de figuras da corte, Cavaleiro e Pajem, exibe formas mais imediatas de perceber a realidade; já o segundo par, Rei e Rainha, caracteriza-se pela abstração do julgamento.

O casal monárquico faz as decisões, enquanto os dois subalternos cuidam de executá-la. A exemplo do Rei e a Rainha, o par de subalternos também exibe a dicotomia de ativo/passivo, exterior/interior. O Cavaleiro é mais voltado ao mundo exterior ao reino, enquanto o Pajem ocupa-se principalmente das tarefas domésticas e cotidianas.

AS RAINHAS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Água

Emoção

Idade adulta/maturidade

A Rainha representa o completo desenvolvimento do naipe, voltado para o interior. É o entendimento de si mesmo. E, através da compreensão de si mesma, ela é capaz de compreender o outro. O estágio da Rainha é um contraponto ao estágio anterior do Cavaleiro. Ela representa o processo de internalização da energia do naipe, a transcendência da individualidade, e a percepção do outro. Enquanto o Cavaleiro está preocupado em se auto-afirmar, seguir seu próprio caminho e ser dono da sua própria vida (ou seja, sua individualidade), a Rainha já tem sua posição conquistada, e já tem sua identidade completamente estabelecida. A rainha encara a figura da matrona, da mãe, do feminino superior e autoritário. As Rainhas têm a mesma energia da Imperatriz, a carta 3, porém manifestada em um nível mais humano e imediato. De fato, é como se cada Rainha fosse um aspecto da Imperatriz.

O elemento Água é o responsável pela união, pela associação. A água serve de meio para a combinação de diversos elementos para o surgimento de algo novo. Ela é responsável pela manutenção da vida. Esse é o motivo devido ao qual o naipe de Copas se associa ao elemento Água – através de sua propriedade fluida, a Água aproxima e une as pessoas pelo que elas têm em comum, suas emoções. Por pertencerem a esse elemento, as Rainhas são sensíveis e conciliadoras. Elas enxergam as pessoas por dentro, conhecem e compreendem suas necessidades. Empédocles, o primeiro filósofo grego a propor a ideia de quatro elementos primordiais, já associava o elemento Água a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores, o mundo dos mortos. Nesse sentido, note-se a relação de Perséfone com a Sacerdotisa da carta 2. Atrás da Sacerdotisa há uma cortina estampada de romãs. Após ser raptada por Hades, o Rei dos mundos inferiores, Perséfone não pôde mais voltar por ter comido algumas sementes de romã. Através desse paralelo, a Sacerdotisa do Tarot pode ser também uma alusão a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores – do inconsciente, por assim dizer.

Psicologicamente, o elemento Água equivale à função psíquica da emoção. As características das Rainhas incluem –

  • Autoridade
  • Sensibilidade
  • Percepção
  • Sentimentalidade
  • Conhecimento
  • Receptividade
  • Experiência
  • Auto-segurança
  • Possessividade
  • Controle excessivo
  • Mutabilidade

OS REIS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Ar

Pensamento

Idade adulta/maturidade

O Rei representa o estágio de máximo desenvolvimento do naipe, voltado para o exterior e para a ação. Esse é o estágio do domínio, do poder total sobre as forças do naipe. Imagine cada naipe como um reino, então entenderá melhor o papel do Rei. Ele é a autoridade em seu campo. Assim como as Rainhas dos naipes estão relacionadas à Imperatriz do Tarot, cada Rei representa a manifestação da energia do Imperador no nível humano e tangível. A diferença é que, enquanto o poder do Imperador é absoluto, a autoridade de cada Rei se delimita ao seu campo, ou seja, ao naipe ao qual ele pertence.

Enquanto as figuras do Pajem e do Cavaleiro estão mais vinculadas a um momento específico da história, as figuras de rei e rainha estão presentes em todas as culturas, de todas as épocas. De certa forma a figura do rei era um reflexo maior da figura do pai em sua sociedade; assim como o pai era o chefe da família, o rei era chefe do povo. O papel do rei é comandar, e isso significa estabelecer as leis e dizer o que deve ser feito, e quando. Frequentemente, o rei detinha o papel de juiz máximo de seu povo, sendo responsável por definir o que era certo e o que era errado. O Rei é capaz de julgar e avaliar o exato valor de cada coisa, porque ele tem a experiência necessária para fazer um julgamento acertado, e a autoridade para ter sua palavra seguida.

A figura do Rei é associada ao elemento Ar. Empédocles associou o elemento Ar a Zeus, o Rei dos deuses. Psicologicamente, o elemento Ar traduz-se pelo intelecto – a capacidade de combinar informações e criar abstrações a partir disso. O aspecto intelectual do Ar está relacionado ao papel do Rei como juiz. A palavra “pensar tem origens em comum com a palavra “pesar” – ambas vêm do latim pendere, significando “pesar”. A função psíquica associada ao elemento Ar é o pensamento, a capacidade de emitir julgamentos e tomar decisões através do raciocínio. O raciocínio, por sua vez, consiste na habilidade de alcançar a verdade através de um processo de comparações e abstrações dos fatores existentes em uma certa questão. As principais características dos Reis são –

  • Autoridade
  • Poder
  • Liderança
  • Domínio
  • Julgamento
  • Razão
  • Discernimento
  • Experiência

Cruzando os elementos e extraindo significados

O Tarot é um jogo, um conjunto de elementos que seguem regras e têm cada qual sua função definida. Uma das “regras” do jogo do Tarot é a doutrina dos quatro elementos. Tal doutrina funciona como um denominador comum entre a quadruplicidade dos naipes e a quadruplicidade das figuras da corte. Observando a dinâmica dos quatro elementos através das cartas, podemos identificar o lugar delas no jogo do Tarot, ou seja, seu papel.

A coisa mais importante que deve ser entendida sobre esse processo de atribuição de significado é que ele acontece do geral ao específico, isto é, do âmbito simbólico do naipe ao âmbito simbólico de cada posição hierárquica. Cada figura da corte é um dos quatro aspectos de seu elemento e, como tal, incorpora um papel único entre as dezesseis figuras. Assim, todas as quatro figuras do naipe de Copas, por exemplo, pertencem ao elemento Água – são do “reino da Água”, por assim dizer; o que difere uma das outras é a associação elemental específica de sua função/posição. Todos os Pajens são de Terra, todos os Cavaleiros são de Fogo, todas as Rainhas são de Água e todos os Reis são de Ar. O Rei de Copas seria então “Ar de Água”, ou seja, a “parte ar” do elemento Água. Algumas pessoas preferem usar a fórmula “elemento do naipe + comportando-se como + elemento da posição, ou seja, “Água comportando-se como Ar”, no exemplo citado anteriormente. Abaixo, uma tabela listando as associações para cada figura da corte –


Ouros/Terra

Paus/Fogo

Copas/Água

Espadas/Ar

Pajem/Terra

Terra de Terra

Terra de Fogo

Terra de Água

Terra de Ar

Cavaleiro/Fogo

Fogo de Terra

Fogo de Fogo

Fogo de Água

Fogo de Ar

Rainha/Água

Água de Terra

Água de Fogo

Água de Água

Água de Ar

Rei/Ar

Ar de Terra

Ar de Fogo

Ar de Água

Ar de Ar

Isto tudo pode ser confuso no começo, mas fica fácil à medida que percebemos o sentido das denominações dos elementos. Os quatro elementos da tradição ocidental são na verdade símbolos-raiz. Quando dizemos Fogo, não nos referimos apenas ao fogo que queima na lareira; no sentido esotérico, o elemento Fogo diz respeito a todo um complexo de conceitos, que, por convenção e economia, resumem-se na palavra-símbolo “Fogo”, do qual o fogo da lareira é a manifestação física. Quando percebemos que, no lugar dos nomes dos elementos, podemos colocar outras palavras pertencentes a uma mesma categoria, as coisas começam a ficar mais fáceis. Por exemplo, em vez de dizermos que o Pajem de Copas é “Terra de Água” ou “Água comportando-se como Terra”, podemos dizer que ele é Emoção em Desenvolvimento. O elemento Terra nos Pajens traduz-se por um estado receptivo de desenvolvimento primário e inicial; o naipe de Copas caracteriza-se pela temática emocional. No Pajem de Copas temos a manifestação da emoção, do sentimento, de forma primária, direta, bruta e espontânea. É isso que faz de tal Pajem um personagem sonhador, delicado, sensível, doce, brincalhão, romântico e inocente; o contato direto que ele tem com suas emoções o faz vivenciá-las em sua forma pura. É isso também que faz o Pajem de Copas simbolizar o início de um sentimento ou sonho, ou a inspiração, ou uma afeição desapegada e espontânea. Através das chaves de dois elementos combinadas, podemos extrair uma infinidade de associações de significado. Esse sistema foi desenvolvido do final do século 19 ao começo do século 20, e perdura até hoje como uma base para a avaliação das figuras da corte.

Abaixo, um diagrama resumindo, em forma de imagem, os princípios que acabei de expor. No lado esquerdo temos o diagrama dos elementos, contendo em si seus aspectos quaternários; no lado direito vemos, como exemplo, o elemento Ar em destaque e, destacando-se dele, o seu aspecto Fogo – em outras palavras, Fogo de Ar, a configuração elemental correspondente ao Cavaleiro de Espadas.

Quaternidades nos quatro elementos - projeção fogo de ar

Tipos de combinações

A forma que os elementos se combinam determina traços da personalidade que emerge de tal combinação. As regras das combinações são as mesmas usadas no método de Elemental Dignities, já apresentada em um dos primeiros posts do blog.

Combinações entre elementos opostos (Água + Fogo e Ar +Terra), caracterizam-se por um conflito entre o elemento geral (do naipe) e o elemento especifico (da posição hierárquica). Isso resulta em uma personalidade ambivalente e conflitante, altamente mutável e imprevisível.

Combinações entre elementos amigáveis (Fogo + Ar, Água + Terra) resultam em uma personalidade poderosa, que se destaca no naipe ao qual pertencem.

Combinações entre elementos complementares (Água + Ar, Fogo + Terra) são equilibradas, flexíveis e adaptáveis.

As personificações puras

Observando o diagrama dos elementos, percebemos que, em cada ponta do quadrado, a parte do elemento permanece a mesma. Na tabela das associações, tais combinações estão em negrito. Esses são os aspectos puros de cada elemento, nos quais o estado de manifestação que ele representa e um dos seus próprios estados de manifestação coincidem. São o lado do elemento que permanece inalterado e puro. No Tarot, as figuras da corte relacionadas a esses aspectos personificam cada um dos quatro elementos de forma integral. Sua presença numa leitura indica – a) que a energia bruta dos ases está se manifestando no próprio consulente ou; b) que existe alguém, ou um acontecimento onde ele entrou em contato com essa energia. Tais cartas assemelham-se aos quatro ases, com a diferença de que elas não são impessoais como os ases; elas são os próprios elementos em forma de entidades.

Projeção dos quatro elementos puros - menor

Finalização – Por que estudar tudo isso?

Quem chegou até aqui, depois de ler o texto todo, pode estar perguntando-se qual a utilidade de tanta complexidade. E a resposta é bem simples – esses sistemas são o paradigma fundamental na atribuição de significado às cartas. É neles que se baseiam os significados que geralmente lemos nos livros. Mesmo as definições populares, em última instância, têm como referência esses paradigmas. Mas isso é definitivo? É mesmo necessário estudar essas coisas para entender melhor as cartas? Bem, depende.

Ao contrário do que muita gente pode imaginar, o Tarot não surgiu como um sistema divinatório. De acordo com a grande maioria das evidências de que dispomos hoje, seu uso original foi em jogos de cartas comuns. Registros de um uso divinatório/oracular das cartas datam de cerca de 300 anos após o seu surgimento. Até que, no final do século 18, as cartas do Tarot começaram a chamar a atenção de ocultistas Europeus mais influentes, que não demoraram a incluí-lo em seu sistema esotérico. Foi a chamada redescoberta do Tarot – ou invenção, de acordo com o seu ponto de vista. Os primeiros a olharem o Tarot como portador de um conhecimento secreto encararam-no como um sistema simbólico universal. Na crença de estarem descobrindo sua grandiosidade, tais estudiosos acabaram por inventar um novo Tarot, em muitos aspectos. Esse sistema serviu de base para os voos mais altos que fazemos hoje em dia, como associar o Tarot à psicologia jungiana, por exemplo. Qualquer pessoa que estuda o Tarot entra em contato com um conhecimento que foi estabelecido, a princípio, por essas pessoas. Independentemente do uso que fazemos das cartas, maior ou menor que seja nosso embasamento teórico, todos nós incorporamos, conscientes disso ou não, elementos das doutrinas desses estudiosos no nosso processo de entender e extrair significado das cartas. Pessoas como Court de Gébelin, Eliphas Lévi ou MacGregor Mathers são os responsáveis pela associação das cartas com a Astrologia, a Qabalah e a Tradição dos Quatro Elementos, as três doutrinas mais fortemente associadas ao Tarot. Tal união foi tão forte que o sistema imagético de versões novas do Tarot passou a ser produzido de acordo com esses novos parâmetros de significado. Não há, portanto como negar a importância de tais figuras na conceitualização e uso modernos do Tarot. Exceto no caso de usar um baralho anterior as inovações introduzidas por essas pessoas, alguém que deseja ter uma relação mais próxima com seu baralho de trabalho, bem como uma compreensão mais profunda dos símbolos contidos nele, certamente conseguirá isso melhor buscando a informação de onde ela veio, ou seja, na produção literária dessas pessoas.

Isso nos leva à seguinte conclusão – as associações das cartas com Astrologia, Qabalah ou elementos são um sistema artificial, mais inventado do que descoberto, ou percebido. Apesar do fato de a Astrologia e a doutrina dos quatro elementos terem feito parte do corpo de pensamento filosófico na época da criação do Tarot, não há hoje evidências apontando para uma profunda associação delas com as cartas que não seja anterior ao século 18. Isso quer dizer que os significados dados às cartas são sim relativos e particulares, o que significa basicamente que eles fazem total sentido quando inseridos em um sistema maior, que lhes dá a referência.

Mas, é possível não se basear nessas tradições para compor o corpo de significados das cartas? Sim, claro. Temos hoje uma infinidade de baralhos disponíveis, que se baseiam mais ou menos nos sistemas tradicionais – isso quando há algum embasamento tradicional sequer. Novos artistas, novos teóricos – e novos tarólogos – têm abordado as cartas por outros viés, contribuindo para uma nova concepção do Tarot – uma nova invenção do Tarot, por assim dizer. E eu acredito que a validade dessas novas teorias e visões não é algo que possa ser decidido objetivamente, cabendo a cada um que estuda as cartas decidir se elas cabem ou não no seu universo de concepção tarológica. Para alguém que amadurece sua comunicação com as cartas, as interpretações tradicionais servem mais como trampolins para uma relação mais íntima com as cartas. O Tarot é uma linguagem entre o tarólogo e seu próprio sistema de valores, símbolos e significados. Em última instância, o único compromisso que cada estudante de Tarot deve ter, é consigo mesmo.


BIBLIOGRAFIA/SITES

Livros

The Tarot: History, Mystery and Lore – Cynthia Giles, 1992, Paragon House

Understanding the Tarot Court – Mary K. Greer & Tom Little, 2004, Llewellyn

Seventy Eight Degrees of Wisdom: a Book of Tarot – Rachel Pollack, 1980 (ed. 1997), Weiser Books

Tarot Symbolism – Robert O’Neill, 1986 (ed. 2004), ATS

The Complete New Tarot: Theory, History, Practice – Onno & Rob Docters van Leeuwen

Sites

Taroteachings.com, de Avia Venefica – http://www.tarotteachings.com/tarot-court-cards-elements.html

Llewellyn.com – artigo “Hidden and Secret Meanings – The Court Cards, part II”, de David Allen Hulse (http://www.llewellyn.com/journal/article/387)

Kheper.net – artigo The Four Ego Functions, M. Alan Kazlev (http://www.kheper.net/topics/Jung/typology.html)

Wikipedia.com – verbetes Aristotle, Carl Jung, Knight, Queen, King, Page

Taroteca.multiply.com (imagens)

setembro 1, 2009

As Figuras da Corte

Filed under: Uncategorized — Tags:, — Leonardo Dias @ 2:33 AM

Figuras da Corte

As Figuras da Corte são talvez as cartas menos compreendidas do Tarot. Sua presença em uma leitura sempre dá espaço para confusão, especialmente para quem está começando, e mesmo para aqueles que já têm alguma experiência com as cartas.

Seguindo a tendência do Tarot como um todo, a maneira de interpretar as figuras da corte foi se modificando através do tempo, conforme as mudanças que a nossa mentalidade foi sofrendo. Assim, tais cartas passaram de representações de estereótipos físicos a indicadoras de traços de personalidade e disposições psicológicas. Foi talvez nelas que a influência da psicologia moderna sobre o Tarot fez-se mais presente – o estabelecimento de associações entre as figuras da corte e a teoria das quatro funções da psique, de Jung, por exemplo.

Eu pessoalmente prefiro deixar de lado as associações de características físicas às figuras da corte. Em leituras, não levo em consideração traços físicos, ou mesmo o gênero (rainhas = mulheres; reis = homens maduros, cavaleiros = rapazes) das figuras. Realmente, é muito mais comum eu interpretá-las como disposições psicológicas (uma Rainha de Copas poderia indicar sensibilidade; um Cavaleiro de Paus, senso de aventura e auto-afirmação), ou mesmo como acontecimentos. O que a gente tem que manter claro é que, mesmo representando acontecimentos, as figuras da corte essencialmente representam a parte pessoal do Tarot. Eu gosto de pensar nelas como os personagens das histórias contadas pelos Arcanos Maiores (os temas e conceitos-chave) e pelos Arcanos Menores (as situações e os acontecimentos).

Seguindo a corrente mais moderna de abordagem dessas cartas, uma forma de vermos as Figuras da Corte seria como estágios do desenvolvimento psicológico e pessoal das pessoas em um determinado campo ou questão. Mais abaixo, tentarei sumarizar essa minha ideia.

A ideia é enxergar o ranking das figuras da corte da mesma forma que a gente vê a escala de desenvolvimento das idades das pessoas. Dessa forma –

Os Valetes representariam a infância, com sua imaturidade e inocência, mas sua energia vibrante e entusiasmo, amor pela vida;

Os Cavaleiros seriam a adolescência, com seu inconformismo meio cego, suas paixões e precipitações, e seu desejo incontrolável de explorar. O amor inocente pela vida dos valetes se transformou no desejo de abraçar o mundo com as pernas dos cavaleiros;

As Rainhas seriam então a idade adulta, com experiência e sensibilidade. As rainhas também representam a maternidade, e a capacidade de gerar e cuidar de filhos;

Por fim, os Reis seriam a maturidade, a idade onde começamos a transcender muitas das questões contra as quais passamos a vida toda debatendo.

ASSOCIAÇÕES ELEMENTAIS

Entre o final do século XIX e o começo do século XX, acredito, no pleno fluxo do movimento de “renascimento” do Tarot e do Ocultismo geral, cada nível das figuras da corte foi atribuído um elemento. Tais atribuições são muito úteis no aprendizado do conceito dessas cartas. As atribuições podem variar, mas geralmente são–

Valetes – Terra

Cavaleiros – Fogo

Rainhas – Água

Reis – Ar

Através de tais associações, podemos fazer algumas considerações que podem nos ajudar bastante na compreensão da corte do Tarot.

Os valetes, associados ao elemento Terra, automaticamente se ligam à função psíquica da sensação – a percepção consciente através dos órgãos dos sentidos, e dos estímulos físicos. Essas figuras da corte estão sempre em contato direto, livre de abstrações, com o mundo ao seu redor. Para eles, seus sentimentos, fantasias e pensamentos se confundem com o mundo – não existe diferença entre um em outro, daí a inocência geralmente a elas atribuída. Os valetes levam as coisas ao pé da letra. Seus desejos, vontades e impulsos são experimentados fisicamente.

Seguindo a lógica, os cavaleiros seriam associados à função psíquica da intuição, e ao elemento Fogo. Poderíamos definir a intuição, na forma como Jung usou a palavra, como as ideias, inspirações e criações que não se originam diretamente da atividade mental, nem dos estímulos físicos. São aqueles sentimentos arrebatadores que se manifestam espontaneamente em nós. Da mesma forma, os cavaleiros perseguem seus ideais e desejos sem saber direito por que ou como – eles simplesmente sabem que têm que correr atrás de algo. Os cavaleiros nunca param, eles sempre estão em busca de uma satisfação que, mal sabem eles, não será encontrada no mundo exterior. Eles são criativos, transbordando de inspiração e crença.

É nas rainhas que essa busca pela satisfação exterior cessa. Associadas ao elemento Água e à função psíquica do sentimento, as rainhas simbolizam um processo de internalização. A função psíquica do sentimento pode ser definida essencialmente como a interpretação das coisas tendo como base o quanto elas são agradáveis ou desagradáveis. É o que as pessoas mais sentimentais tendem a fazer. As rainhas escutam seus sentimentos, e seu coração – mais do que seu corpo, como os valetes, ou seus desejos, como os cavaleiros. É senso comum que, como na Idade Média, as rainhas sirvam como mediadoras na corte do Tarot. Elas são a manifestação do feminino. Os valetes, apesar de retratados como entidades masculinas, são assexuados, como as crianças; já os cavaleiros são a primeira manifestação do masculino, da potencia fecundadora. As rainhas, assim, seriam o receptáculo dessa força.

Finalmente, os reis. Associados ao elemento Ar, naturalmente podemos atribuir-lhes a função psíquica do pensamentoa capacidade de racionalizar, de analisar as coisas racionalmente. A faculdade do pensamento pode definir-se pela habilidade de combinar ideias, imagens mentais, e assim formar pensamentos e abstrações. A palavra “pensar” tem origem comum com a palavra “pesar”. Ambas vêm da palavra latina para “suspender”, “pendurar”, em uma relação direta com a suspensão dos dois pratos da balança, onde pesamos os conceitos. Similarmente, o pensamento combina os opostos, com o objetivo de encontrar um meio-termo. Essa era, afinal, a função dos reis – a de juízes, definidores da verdade, e criadores da justiça. Mais do que todas as outras figuras, os reis vivem completamente imersos nas abstrações. Sua relação com a realidade é oposta à dos valetes – ela é inteiramente calcada em concepções e valores. Podemos perceber isso claramente comparando, por exemplo, o valete e o rei do naipe de Copas do baralho Waite-Smith –

Valete e Rei de Copas

Observe como o valete segura o cálice e parece conversar com o peixe que sai de dentro dele. Em contrapartida, o rei tem o cálice vazio, apenas representativo, e o peixe é o pingente de seu colar – não um peixe real, mas um simulacro; apesar de estar no meio do mar, seus pés estão firmes no chão de seu trono.

Essa última parte do texto sugeriu a existência de uma espécie de progressão existente dos valetes aos reis – da experiência básica à completa abstração da realidade. Nos posts seguintes, vamos explorar mais a fundo esse simbolismo, e sua associação com o tetragrammaton, a palavra sagrada. Vou escrever também posts especiais sobre o conceito dos quatro elementos, conhecimento básico para a compreensão da lógica existente por trás do Tarot.


agosto 26, 2009

Elemental Dignities II

Filed under: Elemental Dignities — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 4:07 AM

No post anterior eu apresentei os princípios e conceitos básicos do método de Elemental Dignities. Neste post, darei exemplos de como esse método pode ser aplicado em leituras.

Usarei primeiro dois exemplos, em combinações hipotéticas de duas cartas, respondendo a perguntas simples, para mostrar a interação dos elementos aliada aos significados dos arcanos; em seguida, mostrarei como a interação dos elementos pode atuar numa leitura de três cartas.

O objetivo desses exemplos é mais mostrar a dinâmica do método em funcionamento. Portanto, o leitor deve concentrar-se mais nisso do que nos significados que eu confiro às cartas, ou na minha forma de interpretação – coisas que, até certo ponto, são tão pessoais quanto o significado de cada palavra, para cada pessoa.

Exemplo 1

Uma pessoa deseja vender seu carro, para comprar um modelo melhor; quer saber sobre as possibilidades de esse plano dar certo. A resposta foi:

18 – A Lua                              16 – A Torre

água fogo

A Lua, pertencente ao elemento água, fica em desarmonia com a Torre, que é do elemento fogo. Uma carta enfraquece o significado da outra. Assim, podemos ver uma situação confusa, cheia de contratempos e problemas, enganos e imprevistos. Pode haver um problema na documentação, ou o carro mesmo acabar se envolvendo num acidente que, embora leve (a carta da Torre tem seu impacto atenuado pela perda de energia) atrapalhe a venda. A Lua mostra também que a própria pessoa não sabe direito o que quer, e é presa fácil de enganação e de pessoas querendo tirar vantagem. Eu diria que a venda do carro não vai acontecer de imediato, não sendo realmente um momento para se pensar nisso. A pessoa deve tomar cuidado, e dar-se mais algum tempo para decidir se é isso o que realmente quer.

Exemplo 2

Perspectivas de melhoria na vida sentimental de uma moça:

Rei de Paus                                Ás de Copas

fogo água

Embora ambas as cartas sugiram claramente o surgimento de sentimentos por um homem carismático e interessante, possivelmente maduro, a combinação fogo + água enfraquece a força das duas cartas. Enquanto o Rei de Paus perde um pouco do seu ímpeto com o Ás de Copas, o ás perde parte de sua intensidade, como a água começa a evaporar-se quando exposta ao fogo – os sentimentos não duram. Eu diria que há a possibilidade de aparecer um homem que vai mexer com os sentimentos da moça, mas que isso não vai ser muito duradouro ou significativo, no final das contas.

Exemplo 3

A disposição usada a seguir foi desenvolvida por eu mesmo, a partir da consulta com uma única carta. Essa disposição oferece uma resposta objetiva ao questionamento, bem como uma análise sucinta da situação, que pode ser expandida. Vale lembrar que essa disposição não descreve progressão temporal. Faz uso de três cartas, onde a primeira dá a resposta, enquanto as duas seguintes oferecem mais esclarecimentos e conselhos. A disposição é feita conforme a imagem abaixo –

Neste método teremos a oportunidade de explorar mais a dinâmica da interação dos elementos. A adição de uma terceira carta quebra a dicotomia limitada existente nos pares.

É importante dizer que existe aqui um esforço em descrever uma leitura de cartas, processo naturalmente espontâneo, de forma esquematizada, visando uma compreensão maior do leitor. No processo da leitura, todos os detalhes e análises de cada aspecto da interação fluem naturalmente, e as camadas de interpretação ficam misturadas. A interpretação acontece conforme eu analiso. Assim, por mais que a descrição detalhada de cada estágio de interpretação faça a coisa toda parecer complicada demais, a prática é natural.

A consulente, já há algum tempo trabalhando num estágio, gostaria de saber sobre a durabilidade deste serviço, e a possibilidade de ser efetivada. A disposição das cartas segue o esquema abaixo:

Os elementos das cartas são –

FOGO

TERRA ÁGUA

A energia geral desse grupo de cartas é claramente passiva, o que denota lentidão, e mesmo estagnação. A presença de somente números pares denota certa passividade, reforçada pela profusão de números quatro (em numerologia, números pares são de polaridade feminina). Todas as cartas indicam estados inertes. A primeira coisa que salta aos olhos aqui é a inércia da situação – as coisas tendem a progredir lentamente, os resultados custam a chegar, o trabalho parece ser lento e moroso. Por outro lado, existe estabilidade e durabilidade.

Definido o clima geral, vamos a algumas considerações sobre os elementos. A variedade de elementos aqui é tão saudável quanto um conjunto de três cartas permite, com cada carta pertencendo a um dos quatro elementos. No entanto, eu não diria o mesmo sobre o teor da relação entre eles. A relação entre os elementos pode ser colocada num esquema como o seguinte:

O elemento mais forte dessa disposição é claramente a terra, em perfeita harmonia com a água, e em compatibilidade com fogo. A tensão entre a água e o fogo enfraquece os dois. No entanto, tendo o suporte de sua relação positiva com a terra, a água não fica tão fraca quanto o fogo, que tem sua ação tolhida por tantas energias passiva.

Assim, poderíamos dizer que a situação é mais parada do que mutável. As ações tomadas têm suporte material, e frutificam em seu devido tempo. No entanto, não são muitas, e seu efeito também não é muito forte.

O impacto que essa interação tem na resposta é que o Dois de Paus, indicando domínio sobre a situação e capacidade de realização, tem sua força de ação enfraquecida pelas duas outras cartas. A carta retrata um soberano meio indeciso entre seu próprio reino e o resto do mundo a conquistar. Nesse caso, vemos o soberano permanecendo em seu reino, mesmo desejando conquistar novos campos. Sua resistência a mudanças (Quatro de Ouros) e sua desmotivação (Quatro de Copas) o impedem de pôr em prática os seus desejos e sonhos. Dessa forma, vemos que enquanto a consulente deseja talvez tentar trabalhar em lugares mais atrativos e instigantes, provavelmente permanecerá nesse emprego, porque a estabilidade que ele oferece lhe é mais interessante no momento. O Quatro de Copas sugere também certa apatia. Em suma, vemos uma situação estável e fixa, onde os desejos e aspirações encontram alguma dificuldade para se manifestarem com força.

Após analisarmos o funcionamento da interação dos elementos na leitura, aplicamos isso ao significado de cada carta. A seguir, algumas ideias sobre o significado de cada uma –

Dois de Pausautoridade, poder, iniciativa, capacidade, potencial

Quatro de Ourosestabilidade, controle, apego, posso, aversão a mudanças

Quatro de Copasapatiga, desmotivação, estagnação emocional, insatisfação, introspecção

O Dois de Paus como resposta diz basicamente que a consulente tem ótimas chances de sucesso nesse estágio. A carta sugere que seu trabalho é apreciado e respeitado, conferindo a ela mesmo certa notoriedade. A carta também parece indicar seu desejo de galgar novas posições, e se mostra positiva a esse respeito. Contudo, influenciada pela energia das cartas como um todo, esse Dois de Paus acaba tendo algo de sua força reprimida, ou retardada. O peso do Quatro de Ouros faz os planos do Dois de Paus acontecerem mais lentamente.

As duas cartas restantes dão pormenores sobre a resposta. Sendo a carta mais proeminente na disposição, o Quatro de Ouros indica estabilidade, mas também resistência/dificuldade de mudar. A consulente se encontra em uma situação que, embora vantajosa, progride lentamente. A influência do Quatro de Ouros estende-se às demais cartas, fortalecendo a estagnação apática do Quatro de Copas, e minando o ímpeto do Dois de Paus. O Quatro de Copas, apesar de enfraquecido pelo Dois de Paus, tem o suporte da carta de ouros. Esta carta me sugere que a consulente, mesmo muitas vezes insatisfeita com a sua situação, não encontra muita motivação para mudá-la.

O processo de interpretação pode ser esquematizado em camadas de sistemas de significação que, sobrepostas, formam a imagem geral de uma leitura.

agosto 21, 2009

Elemental Dignities

Filed under: Elemental Dignities — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 4:52 AM

Depois de algum tempo estudando Tarot e fazendo leituras, uma das coisas que a gente acaba por perceber é que a relação entre as cartas em uma disposição é tanto ou mais preponderante do que os significados particulares de cada carta. Apesar de serem símbolos autônomos e independentes, quando em conjunto os arcanos do Tarot se comportam essencialmente como palavras, tendo a sua significância (ou a sua gama particular de significados) regulada pelo contexto da leitura, pela interação entre as cartas, e o papel que exercem no todo que é a disposição. Há pouco tempo, descobri uma forma de relacionar as cartas que tem me interessado muito.

A relação entre as cartas é natural e se estabelece automaticamente. Com o desenvolvimento do estudo do Tarot através do tempo, as pessoas foram percebendo isso, e então desenvolveram-se métodos de associação e combinação das cartas. Entre tais sistemas, um dos mais populares hoje em dia é o método de Elemental Dignities (popularmente chamado de EDs). Traduzir essa expressão é um difícil – nunca vi nada semelhante a isso na literatura tarológica brasileira. Contudo, eu não sou a pessoa mais adequada para falar sobre isso, visto que a grande maioria das coisas que leio sobre Tarot vem de autores americanos ou ingleses. Sucintamente, é um método de avaliação da importância e atividade das cartas em uma disposição, baseando-se nos elementos associados a cada carta, e na relação que se forma entre eles. O primeiro a descrever esse método foi o ocultista MacGregor Mathers, em seu livro The Book T, escrito no final do século XIX.

Existem várias formas de dignities, que usam como base associações astrológicas, posicionais, e etc. Para muitos tarólogos, seu uso é fundamental. Muitos usam esse sistema como alternativa par as cartas invertidas. Eu mesmo conheci esse método enquanto procurava por artigos sobre cartas invertidas. Em minha opinião, o método de elemental dignities abre mais espaço para as cartas falarem entre si, bem como para uma quase infinita variação de nuances de significado. O que mais me atraiu nesse sistema foi a possibilidade de ter o significado de cada arcano alterado, sem que isso inclua reversão de cartas – nunca me senti muito confortável com a ideia de olhar cartas de cabeça para baixo, rs.

O esquema básico desse método é bastante simples. Ele requer apenas alguma intimidade com a simbologia dos elementos. Cada elemento se relaciona de certa forma com os demais, e tais relações podem ser classificadas como boas, neutras, ou ruins. Nesse contexto, “bom” e “ruim” descrevem o caráter da combinação, em relação ao ganho/perda de energia. Dizendo simplesmente, algumas combinações de elementos resultam em um aumento de energia – elas geram energia; outras combinações resultam num decréscimo de energia – tais combinações perdem energia, ao invés de produzirem mais. Seria como dizer que algumas interações são exotérmicas e outras endotérmicas, rsrs. No linguajar de Mathers, cada elemento tem seus “amigos” e seus “inimigos”. Poderíamos resumir esse princípio desta forma:

  • Quando duas ou mais cartas são “elementalmente” concordantes, a associação entre elas resulta em aumento de energia;
  • Quando duas ou mais cartas são elementalmente discordantes, associações entre elas resultam em diminuição de energia;
  • Quando duas ou mais cartas são elementalmente complementares, não ocorre nem aumento, nem diminuição de energia; sua força permanece a mesma.

Eu chamo uma carta envolvida em uma associação concordante de bem-aspectada, e uma carta envolvida em uma associação discordante de mal-aspectada.

Antes de irmos às regras, eu gostaria de esclarecer um ponto de importância fundamental na conceitualização das Elemental Dignities. O objetivo desse método é verificar a proeminência de cada carta numa disposição, através do quão cada carta está forte na disposição. Não se trata de descobrir quais cartas são “boas” e quais cartas são “ruins”. As combinações não têm a ver com o quanto uma coisa pode ser favorável ou desfavorável ao consulente, e sim com a intensidade da influência de cada carta. Exemplo: o Nove de Copas é uma carta geralmente considerada “boa”. Bem-aspectado, ele ganha energia, e seu bom efeito pode ser ainda maior; mal-aspectado, o Nove de Copas não vira uma carta “ruim” – ele enfraquece, apenas.

A regra para essas combinações é simples, e pode ser resumida assim –

  • Fogo e Ar são amigos e ativos;
  • Terra e Água são amigas e passivas;
  • Fogo e Água são inimigos – eles enfraquecem um ao outro;
  • Ar e Terra são inimigos – eles enfraquecem um ao outro;
  • Fogo e Terra fortalecem um ao outro, mas são neutros;
  • Ar e Água fortalecem um ao outro, mas são neutros.

A essas seis regras, eu acrescentaria mais uma –

  • Fogo e Fogo/Ar e Ar/Terra e Terra/Água e Água são amigos, se fortalecem, e caracterizam excesso.

As combinações amigáveis caracterizam-se por um acréscimo na energia; as combinações conflituosas apresentam um decréscimo na energia de ambos os envolvidos; as combinações classificadas como neutras representam um meio-termo entre essas duas. Por combinarem um elemento ativo com um passivo, suas forças meio que se equilibram.

Cartas envolvidas em combinações amigáveis são consideradas mais fortes, e seu significado é fortalecido; cartas que integram combinações conflituosas perdem energia, e seu significado é enfraquecido. A explicação para isso é simples – o aumento de energia gera mais atividade; o decréscimo de energia, mais passividade (pense num carro sendo acelerado e desacelerado). Quanto mais um elemento/carta é ativo, mais fortemente ele se manifesta em uma determinada situação ou coisa. A ausência de um ou mais elementos em uma leitura irá mostrar as carências e pontos fracos de uma situação. A influência das Elemental Dignities se sobrepõe ao significado de cada carta. É precisamente isso que altera e complementa a nossa visão em uma leitura.

A HIERARQUIA DE INFLUÊNCIA DENTRO DOS 78 ARCANOS

Embora todas as 78 cartas do Tarot tenham um valor igualmente importante e especial, certos tipos de arcanos têm mais relevância do que outros em uma leitura. Olhando com mais atenção para os 78 arcanos do Tarot, podemos perceber certa hierarquia de importância ou poder. Ao longo do tempo eu desenvolvi esse sistema, que classifica cada tipo de carta de acordo com sua força:

  • 1 Arcanos Maiores;
  • 2 Figuras da Corte;
    • Reis;
    • Rainhas;
    • Cavaleiros;
    • Pajens;
  • 3 Ases;
  • 4 Cartas Numeradas.

Os 22 Arcanos Maiores (as cartas que vão do Louco ao Mundo) são mais fortes do que todas as outras cartas. Eles representam arquétipos, grandes temas presentes na vida das pessoas. Numa leitura, sua presença tem mais peso do que as outras cartas. Mesmo que mal-aspectado, um arcano maior ainda detém parte de seu impacto.

As Figuras da Corte (Reis, Rainhas, Cavaleiros e Pajens) têm mais capacidade de lidar com a força dos Arcanos Maiores do que os Ases, ou as cartas numeradas, talvez por representarem personagens dentro da historinha do Tarot. Também, dentro da corte do Tarot é possível estabelecer-se um sub-ranking, onde Reis são mais fortes do que Rainhas, estas mais fortes do que Cavaleiros, etc. Os Pajens, contudo, ainda são mais fortes do que os Ases.

Ainda que considerados parte do grupo de cartas numeradas, os Ases podem ser separados em uma categoria especial, por representarem a raiz de cada um dos quatro elementos incorporados nos naipes. Sua força numa consulta é um pouco maior do que a das cartas numeradas. Em muitos decks (baralhos de Tarot, como o Waite-Smith, o Marselha, ou o Egipcian Kier) os Pajens são mostrados portando o símbolo do naipe nas mãos. Isso me sugere que eles “portam” os Ases. Realmente, Pajens e Ases têm em comum o fato de serem forças em estado potencial. A diferença, ao meu ver, é que os Ases são essas forças em si, enquanto os Pajens simbolizam a força dos Ases manifestando-se no indivíduo, de forma pouco desenvolvida.

Por último, temos as cartas numeradas, ou seja, os Arcanos Menores que vão do Dois ao Dez de cada naipe. Na minha experiência com o Tarot, tais cartas expressam mais experiências e situações. Eu poderia dizer que as cartas numeradas mostram o desenrolar dos elementos de cada naipe.

Poderíamos também relacionar cada classe de cartas com os níveis do esquema de acontecimentos da vida, sendo:

1 Arcanos Maiores Arquétipos ou grandes temas Símbolos, conceitos, temas, experiências-chave.
2 Figuras da Corte Os personagens sob a influência dos arquétipos As pessoas participantes em dada situação; aspectos da personalidade atuantes numa situação.
3 Ases As raízes das quatro forças elementais Manifestações dos elementos em seu estado “bruto” na vida das pessoas.
4 Cartas Numeradas Situações, fatos e experiências Situações ou estados de ser; posturas, comportamento, acontecimentos e circunstâncias.

Vendo por esse ângulo, fica mais fácil entender por que os Arcanos Maiores são mais poderosos do que os Arcanos menores numerados. O Carro, por exemplo, é a expressão de um grande tema – a conquista, a independência, o poder. O Seis de Paus expressa algo semelhante – êxito, vitória, respeitabilidade. No entanto, o segundo refere-se mais a um acontecimento ou circunstância do que a um conceito propriamente dito.

Até agora sabemos então que o teor das relações entre as cartas pode ser elucidado através da interação de seus elementos; também vimos que uma carta tem mais ou menos proeminência sobre as outras, de acordo com a categoria à qual pertence dentro do Tarot. Nos próximos posts, pretendo estender esse tópico com exemplos de leituras, e mais pormenores a respeito da dinâmica das EDs.

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