Descobrindo o Tarot

junho 25, 2012

TIRAGENS CUSTOMIZADAS (+ EXEMPLO DE LEITURA)

Filed under: Disposições — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 7:05 PM

Tenho experimentado bastante com arranjos posicionais customizados e orgânicos nas minhas leituras, em vez de somente reproduzir disposições tradicionais. A seguir, falo mais desses métodos, aproveito o ensejo para falar um pouco sobre como lemos as cartas e compartilho uma disposição, a título de exemplo.


Arranjos posicionais customizados e orgânicos – nome comprido. Posicionais porque são compostos por posições com função específica, que forçam mais exatidão sobre os significados das cartas que caem nelas; customizados por serem desenvolvidos exclusivamente para a questão do consulente, oque confere maior respeito às suas peculiaridades; finalmente, orgânicos¹, já que crescem de acordo com as necessidades da leitura, abrindo espaço para novos enfoques dentro de uma mesma questão. Junte tudo isso e você terá os tais arranjos posicionais customizados & orgânicos. O que esse nome carece em elegância, sobra em expressividade, ao menos.


A leitura de cartas não passa de uma sobreposição dinâmica de sistemas e estruturas que estabelecemos para impor precisão aos significados que damos às cartas, a fim de que esses possam ser arranjados em mensagens inteligíveis – legíveis, de fato. A ideia de usar cartas com significados para lançar prognósticos pede uma metodologia para dispô-las, já que sem ordem não é possível haver mensagem que componha prognóstico algum. Inseparavelmente associadas à noção de ler cartas desde seu princípio, as disposições posicionais foram naturalmente desenvolvidas como uma resposta a essa demanda; são parte essencial do aprendizado e da prática da leitura de cartas. Diferentes arranjos, compostos de posições apropriadas, são desenvolvidos para diferentes tipos de pergunta. Métodos de disposição ganham nome, função, fama, e até poder de alcance temporal; livros sobre leitura de cartas não deixam de incluir seções especiais para eles, enquanto leitores performam suas consultas com uma sucessão de várias disposições de leitura. Métodos de disposição fornecem, portanto, uma estrutura fixa à qual os significados das cartas podem ser firmemente pendurados. É uma consequência natural o fato de, com o tempo, certos arranjos adquirirem status de tradicionais.


A desvantagem dos arranjos posicionais tradicionais está justamente em sua firmeza: por consistirem sempre no mesmo conjunto de posições descrevendo sempre um mesmo aspecto de qualquer questão, eles nos obrigam a comprimir a situação do consulente em um esquema padronizado, o que caracteriza uma imposição de rótulos. O uso de arranjos sempre iguais encoraja a ideia de que todas as situações são iguais, pouco importando as variadas circunstâncias que as compõem. Podemos fazer melhor que isso, e é oque métodos posicionais customizados nos oferecem: moldando-se às particularidades de cada situação, permitem que cada questão seja contemplada pelo que tem de especial e, de quebra, tiram maior proveito da propriedade das cartas de se adaptarem a diferentes situações, revelando-as em sua integridade. Além disso, analisar uma situação com o objetivo de levantar seus pontos mais proeminentes é um exercício que nos força a considerá-la com mais objetividade.


O exemplo a seguir foi uma disposição que criei há alguns dias para analisar a situação de um casal que se separou recentemente. Na ausência de perguntas específicas, achei apropriado desenvolver um arranjo que empregasse os três potenciais básicos que uma leitura de cartas possui – o descritivo, o preditivo e o orientador. Decidi então usar as cartas para representar cinco aspectos da situação em questão: o consulente (um dos parceiros), o status da situação, suas causas, prognósticos e como o consulente deve agir. Duas das cinco posições – o status da situação e seus prognósticos – são compostas de um par de cartas, para mais detalhes. Sorteei sete cartas, que foram dispostas como na figura abaixo.

O formato da disposição foi definido sem muita consideração, apenas por me lembrar uma escada (a ideia de uma progressão de estágios). As funções de cada posição podem ser resumidas como


1 – O consulente
2 – o que acontece (2a, 2b)
3 – as causas do que acontece
4 – prognósticos (4a, 4b)
5 – como agir.


Temos aqui representados os dois aspectos principais de uma situação, isto é, a situação em si e o consulente como personagem principal da cena. Alternativamente, poderíamos adicionar uma posição extra entre a primeira e a segunda, representando seu parceiro.

O eixo 1-3-5 pode ser encarado como uma disposição à parte dentro do arranjo, indicando oque motiva (3) o consulente (1) a agir, além de orientá-lo a respeito de como (4) deve agir a fim de contextualizar suas ações mais proveitosamente à situação. A posição 3 tem relevância mais saliente no arranjo, pois pode ser vista como representante também das causas e motivações do consulente.

Sorteando sete cartas, obtive


Considerada uma das piores cartas do tarot, o Nove de Espadas representa as bases dessa situação (figura acima), indicando que o conflito entre os dois parceiros chegou a um nível de aflição que os impede de ver as coisas com clareza. Ninguém acredita em mais nenhuma possibilidade de acerto, ambos não sabem como as coisas foram chegar a esse estado. A combinação do Cavaleiro de Copas (o consulente) como Nove de Espadas indica que é o desespero que motiva o consulente a querer ficar com seu parceiro. Ele deve, no entanto, ser mais paciente, receptivo e humilde (Pajem de Pentáculos), pois a corrente situação de queda de braço, onde o primeiro que abrir a guarda admite submissão (Rainha de Bastões + Quatro de Pentáculos), dará lugar à concórdia em breve (Dez de Copas + Dois de Espadas). Ainda que essa concórdia não represente uma resolução real dos conflitos entre o casal (Dois de Espadas), ela trará felicidade e novas esperanças (Dez de Copas). Comparando as cartas de mesmo naipe (progressões de estado de um mesmo fator dentro da situação), vemos os conflitos do Nove chegando a um ponto de resolução no Dois. Os dois personagens de olhos tampados indicam que a felicidade dos que celebram o arco-íris que finaliza o fim da tempestade no Dez não é exatamente autêntica, pois advém de uma certa vista grossa aos reais problemas. Compare também o Pajem, humilde e contente com seu único disco, com o rei ganancioso do Quatro, que se apega como pode a tudo o que tem. O Quatro, aliás, combina bem com a Rainha, ambos falando de vaidade e egoísmo.


A possibilidade de enxergarmos conjuntos menores dentro de um mesmo arranjo de cartas (como o eixo 1-3-5) me faz pensar que podemos quebrar um arranjo em diversos blocos de posições ao longo da leitura. Você pode combinar as posições que compõem um arranjo de várias formas diferentes, criando vários subgrupos, podendo assim explorar diversos aspectos da questão numa mesma jogada. Para além dessa ideia, eu também posso pensar em blocos de posições livres que, como peças de lego, podem ser combinados de inúmeras formas diferentes para criar novos arranjos. É o caso da pequena cruz, um bloco de posições que eu tirei da Cruz Celta (suas posições 1 e 2) e que uso para compor ou complementar outros arranjos.


A ocasião da leitura, onde as ideias vão se combinando e se construindo conforme progride o diálogo entre consulente e leitor, é o momento ideal para o leitor usar os arranjos com mais liberdade, pois tudo está mais plástico. Métodos criados pelo próprio leitor lhe dão mais liberdade de ação para montá-los e remontá-los à sua escolha. Oque distingue o caráter de leituras orgânicas é justamente essa vivacidade que abre maior espaço à expressão individual do leitor, em contraste com um estilo de leitura que prioriza a reprodução repetitiva de modelos limitados.


Vale ressaltar que arranjos customizados não precisam antagonizar com arranjos tradicionais. Você pode enriquecer sua leitura usando as duas formas de dispor as cartas, aproveitando de cada qual oque ela oferece de melhor. A coisa toda não está exatamente nos métodos a serem usados, mas em como o leitor faz uso desses métodos. Se, por um lado, para obtermos mensagens dos significados das cartas, precisamos limitá-los, por outro, é preciso cuidar para que não consideremos os limites antes dos próprios significados. A simples possibilidade de, literalmente, construir a leitura ao mesmo tempo em que ela é feita, amplia os horizontes e ajuda a diminuir estruturas desnecessárias que acabam por prevenir nosso contato despojado, direto com as cartas.


NOTAS


1 James Ricklef fala mais sobre métodos de leitura “orgânicos” neste post de seu blog. É daí que eu tiro o termo, Ricklef sendo provavelmente seu criador. Vale a pena conferir o post, a propósito.

janeiro 10, 2011

MÉTODO POSICIONAL PARA AMOR COM NOVE CARTAS

Filed under: Disposições — Tags:, — Leonardo Dias @ 8:41 PM

Levando em consideração que o amor ocupa muito provavelmente o posto de assunto número um das leituras de cartas, métodos de leitura sobre amor são o que não falta por aí.

Ultimamente, tenho usado muito o esquema a seguir, e tenho gostado bastante. O esquema usa nove cartas, dispostas em cascata ao redor da primeira, cada lado para um dos parceiros. Ele não tem nada de muito novo, mas eu gosto da forma de disposição, e do fato de eu poder combinar as posições entre si para formar ensembles.

Eu gosto de mandar o consulente sortear carta por carta, enunciando a sua função na leitura a cada uma. Na hora de abrir, repito o processo – abro uma a uma, falando em voz alta sua função.

A posição 1 retrata o relacionamento de maneira geral. Você pode referir-se sempre a ela quando considerar as outras cartas, fazendo comparações e combinações.

As posições 2 e 3 falam sobre os dois integrantes do relacionamento em questão. As duas, mais a primeira posição são meio que o coração da leitura – os dois e a relação entre eles. Como essas três cartas se combinam? Existe algum tipo de afinidade entre duas delas em especial? Atenção à dinâmica das três.

4 e 5 mostram os sentimentos de cada parceiro, o que os move na relação. Procure sempre estabelecer comparações e relações entre uma carta e outra, vá construindo conexões de várias naturezas – pictórica, simbólica, numérica, astrológica, etc.

As posições 6 e 7 indicam as intenções de cada parceiro – quais são suas perspectivas, suas metas. Eu gosto de estabelecer entre esse par e o par anterior (4 e 5) uma relação meio que coração x mente, o presente par exercendo meio que a função de indicar também como cada parceiro avalia racionalmente a relação, o que ele apreende dela.

Por fim, nas posições 8 e 9 temos o que cada parceiro considera como a perfeição no relacionamento com o outro. Comparar esse par com o par anterior é bem interessante, sempre faço isso.



novembro 15, 2010

GATEWAY – MÉTODO COM OITO CARTAS

Filed under: Disposições — Tags:, — Leonardo Dias @ 7:08 PM

Uma das coisas que eu acho mais interessantes na prática do Tarot oracular é criar métodos de leitura. Eu costumo criar meus layouts, muitas vezes no próprio momento da consulta– deixa as coisas mais espontâneas. Há alguns meses, tive num lampejo a ideia de criar um layout que reunisse vários fatores importantes de uma vez. Passei algum tempo trabalhando a ideia na minha cabeça e, numa noite, tudo se juntou. O resultado foi um esquema de disposição de oito cartas. É dele que vamos falar aqui hoje.

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A Ideia

Desde o princípio, minha ideia foi criar uma leitura abrangente, que respondesse aos questionamentos do consulente e, ao mesmo tempo, lhe revelasse os aspectos não percebidos de si mesmo, seus atos e sua situação. Começou como um método descritivo, mas com o tempo foi se desenvolvendo a ideia de aproveitar o papel revelador do Tarot com uma leitura que também oferecesse ao consulente um vislumbre do desconhecido, do oculto agindo em sua vida.

As bases conceituais desse método erguem-se firmemente sobre uma visão que coloca o indivíduo no papel de “herói de sua própria lenda”. Isso equivale a dizer que esse layout tem por base a noção do indivíduo menos como paciente de seu destino, e mais como agente do mesmo.

O nome para o método me veio de maneira bastante espontânea. Fiquei meses pensando num nome, e foi quando eu organizava algumas notas sobre o blog que, ao anotar algo sobre essa jogada, escrevi de uma vez “Gateway”, que em inglês quer dizer “portão”, “passagem”, “entrada”. Provavelmente foi porque eu estava lendo alguma coisa que continha essa palavra alguns minutos antes, mas a palavra me veio, gostei dela, e ela ficou. A forma da disposição das cartas lembra mesmo um portal, então tudo faz sentido. As duas colunas de cartas, bem como a ideia de portal, fazem-me pensar no motivo recorrente dos pilares nas imagens do Waite-Smith (especialmente sua presença na carta da Grande Sacerdotisa), e suas associações com o feminino e a Deusa.

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O Layout

O layout do método consiste essencialmente de um par de cartas em cruz encimando duas colunas, compostas por três cartas cada. Decidi pelo formato meio que intuitivamente, e também por razões práticas – agrupar cartas em pares, um acima do outro, economiza espaço. Posteriormente, percebi que a forma do layout lembra uma porta ou portal, uma passagem, o que me sugeriu uma abertura – a descoberta de uma nova realidade, como olhos que se abrem para uma nova visão. O portal (coisas que se abrem para passagem, de modo geral) é essencialmente uma abertura e, portanto, remete à vulva; esta, por sua vez, guarda laços simbólicos com o próprio nascimento e o despertar. Portais e passagens em geral também representam a existência de uma zona fronteiriça, de uma transição entre mundos ou estados.

O processo da leitura desenrola-se num movimento que parte do indivíduo e estende-se para seu exterior, continuamente, até culminar na transposição da barreira do conhecido – o percebido – mergulhando naquele que é o mais exterior e estranho aspecto da nossa vida – o desconhecido.

As descrições de cada posição que farei mais abaixo são bastante abrangentes – no entanto eu admito que elas podem confundir um pouco na hora de jogar. Pensando nisso, preparei um resumo sobre cada posição, disponibilizado logo abaixo. As descrições posteriores servem de referência mais profunda à significação de cada posição, e minha ideia foi dar um vislumbre sobre como o tema que cada uma abrange pode ser aprofundado e expandido.

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Posições I e II

Dispostas como na pequena cruz central da Cruz Celta, as primeiras duas posições formam um par que expõe o consulente. Juntas, ambas funcionam como um ensemble, um elemento duplo formado por dois “sub-elementos” interdependentes e interagentes – pense no Taijitu, aquele símbolo famoso do yin-yang. Minhas ideias sobre a pequena cruz são muito influenciadas pelas ideias da escritora Rachel Pollack.

Para introduzir a conceitualização do par inicial, de importância cabal para essa leitura, traduzo aqui o que a própria Rachel diz, num trecho de seu livro Seventy-Eight Degrees of Wisdom, a respeito do par inicial da Cruz Celta –

“Em meu trabalho, eu desenvolvi uma forma um pouco diferente de ver as duas primeiras cartas, referindo-me a elas não como a que cobre e a ‘oposição’, mas como ‘Centro’ e ‘cruzamento’. De acordo com o contexto da leitura, defino-as como os aspectos ‘interno’ e ‘externo’, ou às vezes como o tempo ‘vertical’ e ‘horizontal’, ou simplesmente ‘ser’ e ‘fazer’. A carta Centro mostra alguma qualidade básica da pessoa, ou de sua situação. A carta cruzamento mostra então como essa qualidade afeta a pessoa, ou como ela se traduz em ação. Em outras palavras, a primeira mostra o que a pessoa é, a segunda, como ela age.” (pg. 281)

Mais adiante, ainda no mesmo capítulo, Rachel acrescenta –

“Com relação a leituras, o simbolismo da cruz pode mostrar a maneira como a substância de uma pessoa – ou seu ser interior – pode misturar-se com a forma como essa pessoa age no mundo (…)” (pg. 282)

A distinção entre as duas posições é muito importante. A primeira carta é mais estática – vertical, firme – e a segunda é mais dinâmica – horizontal, fluida. Analogicamente, podemos comparar a primeira posição à Sacerdotisa, e a segunda ao Mago – os dois princípios de passividade/atividade no simbolismo do Tarot. Entretanto, a forma que iremos interpretar o primeiro par não é única, e vai depender um pouco do contexto da leitura. Ainda que exista essa variedade de aspectos no par inicial, o básico sobre essas duas cartas é que o primeiro elemento é interior, e o segundo, exterior.

A segunda carta pode mesmo indicar uma influência imediata da situação sobre o consulente. Por exemplo, em uma leitura onde a consulente estava diante de uma decisão que envolvia escolha entre sua carreira e suas aspirações pessoais, a posição 1 identificou-a como uma analítica Rainha de Espadas, ao passo que a posição 2 abrigou a própria Justiça, a carta número 8 (ou 11). Além de identificar uma busca por harmonia, a Justiça aqui identificou a própria decisão, e a responsabilidade que dela advinha. Eu sugiro que o leitor não se deixe circunscrever por definições demais inflexíveis para as funções de cada posição, especialmente desse par. A ideia aqui é que os dois elementos se fundem em um só, e sua interação é o que vai portar a mensagem – mais que uma carta ou outra, consideradas individualmente. Rachel oferece um ótimo exemplo da interação das duas cartas em eu livro –

“O Ás de Copas no Centro indicaria um momento de felicidade na vida de uma pessoa, ou, mais precisamente, uma chance de felicidade, visto que os ases representam oportunidades. Se o Dez de Copas cruzasse o Ás, os dois implicariam que a pessoa reconhece as oportunidades e irá usá-las. Porém, se o Quatro de Copas estivesse cruzando o Ás, um significado diferente surgiria, indicando uma atitude desmotivada que impede a pessoa de apreciar o que a vida lhe oferece. A desmotivação, contudo, não cancelaria a oportunidade.” (pgs. 281-282)

Então, em resumo, podemos afirmar sobre essa pequena cruz inicial que:

  • Ambas as posições agem em conjunto e funcionam como um só fator, duplo;
  • A primeira posição é mais estática, e expõe a substância do indivíduo, um fato básico, firme e pouco mutável sobre ele – é a essência, o imaterial;
  • A segunda posição volta-se para a ação do indivíduo no dia-a-dia – é o mundo tangível, material, transitório, sua existência tridimensional sujeita ao tempo linear mundano, em oposição ao seu ser vertical, atemporal;
  • Podemos comparar as duas posições às duas partes da roda – seu eixo, centro, e sua extremidade. O centro é mais estático, enquanto a extremidade é mais dinâmica. A roda, entretanto, é fixa em sua mobilidade;
  • A coisa mais importante sobre essas duas cartas não está na natureza de uma versus a da outra, mas sim em como as duas interagem – entrelinhas, tudo está nas entrelinhas.

Uma boa sugestão é fazer exercícios somente com essas duas posições, pedindo ao Tarot que descreva alguém ou alguma situação (real, de preferência). Abra também leituras para amigos somente com essa pequena cruz, para poder ter um lastro real no exercício. Você perceberá como um simples par de cartas pode ser tão eloquente. Em seguida, alguns exemplos ilustrativos, com interpretações rápidas –

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Quatro de Copas + Enforcado – completa estagnação. Duas cartas pesadas de água. Consulente desmotivado e desinteressado que prefere observar a agir, e permanece em um círculo vicioso de não-ação/entrega. [Observe a presença do tronco de árvore em ambas as cartas, e o fato de o personagem central estar encostado no tronco, também em ambas].

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Nove de Ouros + Rei de Ouros – por um lado, extrema fartura e sensualidade. Por outro, grande refinamento e experiência, maturidade. Perfeccionismo e exigência sendo executados de maneira exemplar; muita competência. Poder pessoal e auto-confiança. [Observe a recorrência das uvas nas duas cartas; uvas remetem a Dionisos, trazendo conotações de sensualidade e prazer, como também de abundância e riqueza.]

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Valete de Copas + Enamorados – busca por um amor idealizado, fantasioso, perfeito. Entrega total ao amor, a outra pessoa. Também, alguém que se lança num projeto com paixão adolescente, pueril – entusiasmada, mas ao mesmo tempo infantil, de visão curta. Profundamente, tal par indica uma necessidade de discernir entre as fantasias e sonhos interiores e o mundo “real”, tangível..

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Seis de Copas + Ás de Paus – o consulente usa o apoio sincero dos outros para motivar-se, e agarra com as duas mãos as oportunidades oferecidas. De certa forma, ele alia um desejo de compreender o outro com um forte enfoque na ação.

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Posição III

Ainda concentrando-se no consulente, a posição III fala de sua alma. Esotericamente, o termo alma designa a junção das emoções e sentimentos com os pensamentos, a mente. Portanto, pondo numa fórmula bem simples, alma = coração + mente. Juntos, ambos formam a alma (do latim, anima), o elemento que, de fato, anima o outro par corpo etérico+corpo físico.

Existe entre nós um costume bem difundido de opor o mundo emocional à realidade mental, racional, transformando coração e mente em antagonistas. Seguindo esse princípio popular, é comum encontrarmos muitas leituras com posições separadas para as emoções e o pensamento racional, frequentemente como valores opostos. Ainda que essa não deixe de ser uma maneira efetiva de abordar as diferenças entre ambos os processos, podemos ver que, por outro lado, pensamentos e emoções funcionam/trabalham/manifestam-se costumeiramente em conjunto, de modo que se torna difícil separar uns dos outros em tão simples classificação de dois grupos. Ademais, quando pensamos em termos de impulsos cerebrais e hormônios, eu acredito que a distinção entre pensamento e emoção perde a maior parte da clareza que a ela conferimos – se é que existe de fato.

A posição III ilustra esse fator – o aspecto mutável, transitório do consulente: como ele está sentindo-se sobre o assunto, o que passa por sua cabeça, sua reação mais automática às situações, sua predisposição emocional e mental. Observe aqui o uso do gerúndio; a terceira posição enfatiza o estado de ser em constante transformação. As emoções e os pensamentos são a parte mais fluente e mutável do ser – em constante mudança e estado de alternância, são o ser menos fixo, mais fluido. Assim, se as duas primeiras posições falaram de quem o consulente é, a terceira posição fala de como ele está. A carta que cair aqui não tem duração nenhuma que não o presente. Sua função é abrir os olhos do consulente para seu estado atual, e como ele pode refletir nos outros elementos de sua situação.

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Posição IV

Chegamos aqui ao elemento que estimula o sujeito a entrar em ação – seu objeto de desejo. A quarta posição ilustra as aspirações do consulente, seus desejos e objetivos. O que ele quer, o que ele (acha que) precisa – o que o faria completo.

O papel dessa posição é proeminente, pois sua principal ação é revelar o que quebra a imobilidade do processo individual, por meio da adição de um elemento exterior que cria a diferença e, assim, traz a comparação, a dúvida e a consciência (ou impressão) de falta de completude – da individualidade em si. Sim, seus desejos te fazem ser mais você mesmo. Como eu disse antes, é o desejo que nos bota em moção (e-moção, como diz Sallie Nichols em Jung e o Tarot).

Ainda que, frequentemente, essa posição represente o ideal do consulente, muitas vezes as pessoas não são conscientes do que realmente querem. Em casos assim, a quarta posição indica o desejo real do consulente. É claro que falar em termos gerais assim é mais fácil em teoria do que na prática. Pensar sobre a natureza dos nossos desejos, e o quão conscientes deles estamos é uma questão profunda, e não cabe aqui discutirmos isso. O importante a se saber sobre essa posição é que ela, mais que simplesmente identificar, revela a natureza dos desejos do consulente, e o que eles lhe representam. Em uma leitura recente, o Diabo (carta 15) ocupou essa posição, sugerindo que a consulente desejava poder, autoridade, e extremo sucesso pessoal e material. Olhando a carta, a consulente também confessou ter alguns conflitos de moral a esse respeito – ser uma menina “boazinha”, ou ser “má” – e ir atrás do que quer.

A propósito, cartas popularmente vistas como negativas – como a carta 15 – podem ser especialmente difíceis em posições como essa. Eu acredito que a raiz desse dilema está nas nossas ideias pré-concebidas sobre o que seria uma carta ruim, e o que seria uma posição boa. Não há cartas essencialmente boas ou ruins; o que define seu caráter é a perspectiva em que são abordadas, e o contexto onde estão inseridas. Igualmente, o desejado nem sempre é uma coisa positiva, benéfica ou adequada. Ao pensar um pouco sobre esses dois pontos, você poderá perceber que o mais belo potencial dessa posição é o de justamente revelar que seus desejos e aspirações podem não ser tão “bons” quanto você pressente que eles são.

Por exemplo, o que dizer sobre um Oito de Espadas (uma carta que provavelmente todo mundo veria de cara como negativa) na quarta posição? Há mais possibilidades de interpretação do que parece. O consulente pode, por exemplo, desejar profundamente permanecer ou ocupar o papel de vítima na situação; ele pode pensar que, ao menos, vai permanecer imóvel, sem mais nenhuma grande surpresa. Geralmente, isso não é bom – mas ainda é o que ele quer. A dica aqui é – vá além do óbvio, não olhe para as cartas só pelo ângulo tido como normal, mas inverta sua visão, olhe de trás para frente – – como o Enforcado. A aventura do Tarot é essa.

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Posição V

Outra posição bastante dinâmica nessa leitura. Na verdade, já na posição 4 inauguramos o começo da aventura do indivíduo. Em busca de seu desejo, ele lança-se no mundo, colecionando nesse processo novas experiências e vendo-se diante de obstáculos – e a posição 5 fala exatamente disso, obstáculos. Aqui nos vemos diante da dificuldade que o consulente enfrenta ao tentar obter o que almeja. Pode ser tanto um fator externo, independente do indivíduo, como uma deficiência do próprio indivíduo – um traço que ele precisa desenvolver ou suprimir, controlar mais.

Simbolicamente, a importância do obstáculo é a importância do antagonista, do anti-sujeito. Nele, o indivíduo pode ver a si mesmo, pois o antagonista (o inimigo, o problema) não passa de um reflexo do próprio indivíduo. Falando de maneira bem simplificada, cada ser humano, enquanto ego, divide a totalidade do que percebe em duas partes: eu e o resto. O resto é o outro, e é outro tudo aquilo que não é eu. O outro, que no estágio anterior é desejado, nesse é repugnado. Em outras palavras, a posição 4 ilustra a face boa, atraente do mundo exterior (o outro), ao passo que sua posição seguinte revela seu aspecto repugnante, ruim. É o lado chato do mundo, a parte chata da vida.

A ideia aqui não é simplesmente aniquilar o obstáculo, mas identificá-lo, aceitá-lo e unir-se a ele (reconciliar-se seria um bom termo), num processo que pode ser comparado ao da carta 11, a Força, onde o leão é domado – dominado, não exatamente com força física, mas com um certo jeitinho. Continuando no exemplo de consulta que dei antes, a consulente que teve o Diabo na posição 4 recebeu na posição 5 o Oito de Ouros – outra carta de Terra. Foi interessante notar como tanto seu desejo como seu problema eram ambos de natureza material, concreta, e que se ela queria dominar a matéria, era preciso de fato trabalhá-la. [A imagem do Oito de Ouros é uma bela metáfora para alguém que literalmente constrói dinheiro (moedas) por meio de trabalho. Num nível profundo, o personagem da carta na verdade constrói
valor, pois seu trabalho também se traduz em experiência e aprendizado.]

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Posições VI e VII

Essas duas posições podem ser vistas como um par, pois giram em torno de uma mesma informação – a ação do indivíduo.

Depois do obstáculo da posição 5, a posição 6 indica os recursos que o consulente tem à disposição para neutralizá-lo e ir atrás de seus desejos. Nesse sentido, as posições 5 e 6 funcionam em conjunto, uma completando o sentido da outra. Deve-se sempre manter em mente que a posição 6 indica um fator disponível, porém não necessariamente utilizado. É basicamente isso – o que está ao seu alcance que pode ser usado para neutralizar ou combater seus problemas. Mais uma vez, temos o problema de cartas “ruins” nessa posição. De novo, a ideia é não prender-se a julgamentos de bom versus mal, mas inverter sua visão. O Cinco de Copas é outra daquelas cartas que poucos negariam ser uma carta negativa. No entanto, sua introversão poderia indicar que acontecimentos externos frustrantes provocam uma revisão de valores internos, por exemplo. É tudo questão de você não se deixar prender pelas suas ideias sobre o que é bom e o que é ruim – mesmo quando se tratar do Dez de Espadas, rs. No caso do RWS, geralmente a arte de Pamela tem certo grau de ambivalência – cenas tristes e pesadas sempre revelam detalhes positivos, ao passo que cenas aparentemente gloriosas tentam esconder seus cantinhos podres. Então, mais uma vez, olhe.

Agora, a posição seguinte. A diferença fundamental entre a posição 6 e a 7 está em seu dinamismo; a posição 7 é essencialmente dinâmica, indicando uma ação a ser tomada, mais do que um simples recurso disponível, que em si é estático. Imagine uma cena de teatro ou de filme: a posição 6 seria o texto a ser encenado, ao passo que a posição 7 é a atuação em si. Tal posição indica qual caminho o consulente deve seguir, qual deve ser sua atitude. A posição 2 pode ser comparada à posição 7, já que uma indica como o consulente age, e a outra, como ele deve agir. A interação entre as duas revela já se a atitude do consulente é adequada ou não, bem como onde ele pode estar errando. Uma diferença entre as duas denota uma necessidade de mudança de atitude.

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Posição VIII

A última posição é a que guarda o potencial mais interessante na leitura, porque revela ao consulente aspectos de sua situação que ele não percebe, ou não conhece. Temos aqui a presença do desconhecido na leitura, e o último estágio da abertura do portal – a revelação. O fator revelado aqui pode tanto ser em detalhe específico da situação, quanto uma espécie de moral da história, ou mesmo algum acontecimento futuro de importância proeminente.

 

 

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É isso. Futuramente, eu pretendo completar esse post com exemplos de leitura e mais discussões a respeito da Gateway. Sinta-se livre também para testar o método e me mostrar o resultado. Eu não vou ficar interpretando muito as leituras no blog, a ideia vai ser ver como as cartas e as posições se relacionam entre si.

Quando você lê cartas, você basicamente joga com significados, associações, combinações. Todo esse processo é dinâmico, e sua magia está exatamente no fato de ele ser parcialmente caótico. Técnica e intuição (basicamente o Mago e a Sacerdotisa) combinam-se. Nunca se esqueça disso.

 

outubro 18, 2010

VIDEOS – método de leitura ‘corte rápido’ + combinando pares de cartas

Filed under: Disposições, Videos — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 2:18 AM

Video falando um pouco sobre o quick cut, com explicações sobre o método e exemplos de leitura. Por favor, assistam em HD ou 480p, porque a qualidade está aquém do que eu considero razoável.


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Aproveitando que eu falei do quick cut, aqui também vai um video com algumas dicas de combinação das cartas.

Uma coisa que eu não falei no video – em pares de cartas onde ambaas pertencem a um mesmo elemento, pode ser muito interessante verificar o que a ausência do elemento oposto pode querer dizer. Ausências sempre são significativas, mas em casos de excesso ou totalidade de algum elemento, a ausência do elemento oposto é tão importante quanto a profusão de um determinado elemento. É geralmente tido que os quatro elementos se opõem da seguinte forma – –

FOGO     –     ÁGUA

AR          –     TERRA

Existem diversas formas de se associarem as cartas aos elementos. Eu sigo o sistema de correspondências da Golden Dawn, que pode ser sumarizado assim – –

Bastões = Fogo

Copas = Água

Espadas = Ar

Pentáculos = Terra

Ou seja, todas as cartas de Copas pertencem ao elemento Água, todas as de Pentáculos ao elemento Terra, etc. Com os arcanos maiores a coisa fica um pouco mais complicada. Os elementos regentes de cada carta maior são definidos pelo signo/planeta ao qual a carta maior em questão corresponde. Abaixo, uma tabela simples com as correspondências, de acordo com a GD – –

No caso do video, uma ausência do elemento Ar poderia indicar falta de lógica, apego demais aos procedimentos tradicionais, falta de abertura mental, incompreensão, e coisas do tipo.

Enfim, aqui vai o video – espero que gostem – –

agosto 26, 2010

SÉRIE ‘LEITURA DE CARTAS’, VIDEO I – INTRO + IMAGEM

Filed under: Videos — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 5:12 AM

Faz já algum tempo que eu tive a ideia de gravar uma série de videos sobre leitura de cartas, tratando da parte prática do Tarot. Para falar de uma coisa prática, nada melhor que um video, que apresenta um tipo de comunicação mais dinâmico.

Nessa série, eu pretendo tratar de vários aspectos da leitura de cartas, falando tanto do processo de ler cartas em si, com dicas e ideias, quanto de algumas implicações teóricas mais imediatas que se escondem por trás desse ato.

Uma coisa que eu acho importante ressaltar é que, apesar de eu ter optado por expor a informação mais ou menos em tópicos definidos, essa série de videos não se trata de um curso, ou alguma coisa assim. Eu não sou professor de Tarot. Minha intenção é, antes de tudo, expressar meus pensamentos acerca da atividade da leitura de cartas, e abrir espaço para mais discussão a esse respeito.

A imagem é o elemento mais básico do Tarot, a essência do Tarot é a imagem, então nada mais apropriado que começar falando sobre isso. No primeiro video da série, eu falo um pouco sobre a importância da relação com a imagem para um leitor de cartas, o processo de percepção da imagem, e sua influência em nossa mente.

Espero que gostem! Opinem, discutam, comentem, perguntem J

julho 23, 2010

ANALISANDO UM DILEMA NA CRUZ CELTA

Recentemente, a leitora Valentina Oliveira levantou uma questão muito interessante em um comentário para o post sobre como resolver leituras problemáticas. Achei que seria legal expor a questão aqui e respondê-la com um post. A pergunta de Valentina foi a seguinte –

(…) costumo usar o modelo de tiragem da Cruz Celta – exatamente como descreve Liz Greene e [Juliet] Sharman-Burke no Tarô Mitológico [livro lançado no Brasil pela Ed. Madras]. Fiz, certa vez, uma abertura para estudo; na posição número 6 (Influências Futuras) caiu a Oito de Copas, e na posição 10 (Resultado Final) caiu a Dez de Copas. Como interpretar essa situação? Fiquei confusa a respeito, e pra falar a verdade ainda tenho dúvidas.

Primeiro, Valentina, eu acredito que o aspecto mais básico do seu problema está no quão claras estão as atribuições de cada posição da Cruz Celta para você. A Cruz Celta é um método de leitura posicional – faz uso de posições com funções específicas. Métodos posicionais são, antes de qualquer coisa, estruturas; pra você tirar o melhor deles, portanto, é preciso seguir a estrutura o mais fielmente o possível. Regra básica.

Eu vou começar dizendo uma coisa que certamente já passou pela cabeça de muita gente:

Uma leitura de cartas pode ser vista como uma frase – é a afirmação, a determinação, é a descrição de um fato.

A estrutura das jogadas posicionais pode ser comparada ao mecanismo sintático de uma frase. É só lembrar-se das aulas de português – uma oração pode ser dividida em vários elementos, cada um com uma função sintática específica – sujeito, predicado, complementos, etc. O significado de cada palavra que compõe a frase é aderido ao contexto da frase, por meio de tais funções. Uma leitura de cartas posicional não funciona muito diferente – você tem as cartas, cada uma com seu significado; e você tem as posições onde elas caem, cada uma com sua função; ao combinar essas duas coisas e associá-las ao contexto da leitura, você tem a mensagem. Portanto, quanto melhor você entender a função de cada posição, mais fácil vai ser driblar aparentes inconsistências, como a que você citou. Ler Tarot é comparável a falar um idioma – o falante de uma determinada língua instintivamente domina a sua norma, e a usa para expressar-se. A ideia é habituar-se tanto com essa linguagem de funções posicionais a ponto de ela se tornar instintiva pra você. Para alcançar isso, é necessário introjetar a estrutura; e uma boa compreensão da estrutura advém da clareza. Mais uma vez, se você está usando uma estrutura, deve segui-la.

Dito isso, podemos partir para o próximo aspecto da questão, que é justamente a definição clara da função de cada posição. Em nome da objetividade, vamos nos concentrar aqui na informação que Valentina nos passou no comentário. Temos então que a posição 6 refere-se a “influências futuras”, ao passo que a posição 10 é o “resultado final”. Embora isso não fique óbvio à primeira vista, ambas as posições referem-se a coisas de naturezas bastante distintas. A diferença entre as duas é que, essencialmente, a posição 10 detém uma qualidade mais absoluta, enquanto que a posição 6 descreve fatores mais circunstanciais. A posição 6 indica o desenrolar da situação em um futuro próximo, ela é parte de uma linha do tempo. A posição 10, por outro lado, é a força maior sobre a situação – ela está acima do tempo. A posição do resultado final é, a propósito, um recurso muito empregado em vários métodos de leitura posicional. Uma de suas principais funções é a de dar um termo à leitura, amarrá-la num contexto geral e evitar que ela não se perca no ar. A posição 10 serve de referência e de balizadora para todas as outras cartas – em qualquer duvida, ela é a dona da palavra final.

Ao que me parece, a confusão de Valentina baseia-se na ideia comum de que o futuro guarda o termo para a questão – ele é o detentor da resposta, ele a determina. Pensando assim, fica mesmo fácil confundir o valor das duas posições. Já discutimos isso no post sobre o futuro e o tempo. De qualquer forma, no caso particular da posição 6 da Cruz Celta, o futuro aparece simplesmente como uma sequência ao momento presente. Tal posição não fornece nenhum decreto final sobre a situação, dando apenas um vislumbre dos próximos acontecimentos. No caso exposto por Valentina, o futuro reserva alguma situação Oito de Copas para o consulente – entretanto, a palavra final da situação pertence ao Dez.

Resumindo, o cerne da questão de Valentina está na diferença de natureza entre as duas posições. Ambas não possuem nenhum tipo de relação direta. As influências futuras são como os próximos capítulos da história. O resultado final determina mais acuradamente o termo da questão – seja ele presente, futuro, ou passado – cabendo às outras cartas da cruz Celta, inclusive a posição 6, fornecer-lhe dados complementares.

Pra finalizar, duas fontes de referência que considero completamente indispensáveis para quem gosta de praticar a Cruz Celta. Uma ótima descrição desse método pode ser encontrada no livro de Rachel Pollack 78 Graus de Sabedoria – Parte II, publicado no Brasil pela editora Nova Fronteira (a Parte I desse mesmo livro é igualmente excelente). Outra magnífica descrição da Cruz Celta pode ser encontrada aqui, e foi feita por Joan Bunning para o seu conhecido site LearnTarot.com. Cada posição é descrita com extremo detalhe, e Joan ainda sugere um passo-a-passo de como interpretar a disposição.

É isso. Obrigado a Valentina, e a todos os que participam do blog, enviando perguntas ou comentários. Se você tem alguma dúvida, pode também expor, e descobriremos juntos.


Imagem A imagem de hoje é um snapshot capturado e trabalhado de um video no YouTube chamado celtklein, que monstra a gradual criação de um nó celta desenhado. Quem nunca viu vídeos de desenhos de nós celtas deveria conferir – é muito legal.

maio 15, 2010

Sobrepondo métodos de disposição – Situação/ação/resultado

Filed under: Disposições, Notas — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 4:21 PM

Há alguns dias eu publiquei um post listando e discorrendo sobre várias formas de se jogar com três cartas. A lista de métodos incluía duas disposições no estilo situação/ação/resultado: uma com enfoque mais descritivo, analítico, e outra com enfoque mais aconselhador. Não demorou a eu perceber que os dois métodos poderiam ser combinados em uma leitura concentrada na ação e na atitude do consulente em relação até uma questão. O legal desse método é que ele é rápido, simples, e combina tanto o enfoque descritivo quanto o enfoque mais orientador para direcionar-se particularmente à ação do consulente, e sua repercussão.

Diagrama situação-ação-resultado sobrepostas

A imagem acima mostra o arranjo das posições na leitura. Ela não passa de uma sugestão, você pode optar por dispor as cartas de outra maneira. Ao sobrepor os dois métodos, a primeira posição, a situação, não se repete, já que é neutra. Comparar cada uma das posições opostas (2 x 4, 3 x 5) pode trazer grandes insights acerca de como você age e como seria a melhor forma de agir.

 As funções de cada posição são óbvias, e eu já falo bastante sobre cada uma no post mencionado anteriormente. Porém, um aspecto específico da posição 4 merece ser ressaltado aqui. A ideia por trás de uma carta indicando como o consulente deve agir calca-se numa noção de que a energia envolvida na situação (tanto a energia que vem de dentro de você quando a que você recebe do exterior) pode ser direcionada de uma determinada maneira (e aqui temos a presença do Mago especialmente forte); a ideia é que você pode usar a energia de um jeito x que lhe traga bons resultados.

O tamanho diminuto das disposições com três cartas nos dá incontáveis possibilidades de combinação. Outras jogadas daquele post podem ser sobrepostas também, então tudo depende da sua criatividade.

maio 9, 2010

Jogadas com Três Cartas

Filed under: Disposições — Tags:, — Leonardo Dias @ 6:56 PM

Tiragens de três cartas! Quem é que estuda Tarot e nunca aprendeu leituras com três cartas? Eu mesmo sempre gostei delas, particularmente por sua simplicidade. Pensando nisso, decidi pesquisar um pouco e listar aqui algumas das diversas maneiras de se ler com três cartas, e é isso que vamos ver hoje.

Esquemas de tiragem com três cartas são provavelmente os mais populares entre aqueles que praticam cartomancia. Tiragens de três são simples e flexíveis, ao mesmo tempo em que abrem espaço para ampla interpretação. É o número de cartas ideal para se ter uma leitura consistente, concisa e enriquecedora. Talvez a raiz para o seu sucesso esteja mesmo no número de elementos empregados. Não é nem demais, nem de menos. Analisar uma questão com uma única carta oferece pouca possibilidade de expansão; a adição de uma segunda carta ajuda, mas forma-se certa tensão entre as duas; uma terceira carta remedia tal tensão, substituindo-a por uma interação dinâmica.

Abaixo, listo alguns dos mais interessantes métodos de leitura com três cartas que conheço. Alguns deles já uso há algum tempo, enquanto que outros, descobri com a pesquisa para o post. Sempre que possível, darei exemplos simples para ilustrar seu funcionamento. Aproveitarei os exemplos para também falar sobre as várias formas possíveis de se lerem as cartas.

Dicas

  • Há certamente várias formas de se sortearem as cartas para a leitura. Uma que eu acho especialmente interessante – e rápida – consiste em cortar o maço em três montes (um saindo do outro) e abrir a primeira carta de cada monte. Essas cartas serão, então, as cartas sorteadas.
  • Uma coisa importante – o sucesso de uma leitura depende da clareza das atribuições que cada posição recebe. Não abra as cartas antes de estar certo que entendeu bem isso. Quanto mais isso for definido, mais facilmente você será capaz de identificar a resposta.

Agora, as disposições –


1+2, minha disposição de três cartas pessoal

Usos

  • Respostas rápidas para perguntas simples;
  • Bom método para leitura livre sobre um assunto;
  • Abrir consultas;
  • Exercitar livre associação com as cartas.

Criei esse layout a partir da leitura com uma única carta. Ao longo do tempo, comecei a acrescentar mais duas cartas à leitura de uma só carta, para obter informações complementares – daí o nome “1+2”. No layout, duas cartas são posicionadas logo abaixo da primeira, uma de cada lado, formando um triângulo. As posições não têm funções ou atribuições muito definidas.

A primeira carta é a principal, basicamente responde a questão. As duas cartas restantes são secundárias, fornecendo informações extras para a resposta da primeira. Frequentemente é percebido que se forma certa oposição entre as duas cartas secundárias, ainda que essa não tenha sido minha intenção inicial. Ambas podem vir a indicar aspectos favoráveis e desfavoráveis de uma questão, ou fatores que ajudam versus fatores que dificultam. Porém, não há nada como uma posição de “recursos” e outra de “desafios”; quando essa tensão surgir, vai ser natural, e você vai perceber. É também bom lembrar que elementos opostos são também complementares – duas cartas opostas podem indicar não problemas, mas oportunidades de conciliação.

Exemplo prático

Tirei três cartas no meu layout 1+2 para verificar as possibilidades de resultado em um estudo ao qual tenho pensado em dedicar mais atenção.

CartasÁs de Ouros + O Mundo e Nove de Espadas

O Ás de Ouros indica realmente o inicio de um novo projeto, a materialização de algo em seu estágio inicial – como o broto de uma flor. Existe aqui toda força e potencial de realização necessários. A situação é estável, as bases são sólidas, e os meios para se obterem resultados estão à mão. Ele, em si, já dá a resposta – resultados são possíveis, e mesmo esperados. O Mundo reforça a indicação de disponibilidade de recursos em profusão, e da consistência das bases – o conhecimento adquirido anteriormente é sólido. As duas cartas (Ás de Ouros + O Mundo) também sugerem o fechamento de um ciclo e o começo de outro, como se esse projeto fosse um novo estágio do meu aprendizado, ao mesmo tempo realização e início. Enquanto isso, o Nove de Espadas, adverte para uma tendência a preocupação em demasia e ansiedade. A carta indica que esse novo projeto pode trazer alguma preocupação e stress, que vêm principalmente de uma postura que exige demais de si mesmo. O Nove de Espadas indica uma forte propensão à obsessão – ficar pensando incessantemente sobre um mesmo assunto.

Com efeito, forma-se aqui uma oposição entre as duas cartas secundárias. Enquanto o Mundo é a total abundância que transcende o ser/estar (sendo que essa abundância vem exatamente dessa transcendência), o Nove de Espadas é a crise existencialista que vem da falta – essa carta representa um processo de concentração intensa na ausência, na falta, naquilo que não existe. O Mundo, sendo um arcano maior, mostra uma força supra-pessoal, enquanto o Nove de Espadas representa uma postura pessoal ou uma situação. A propensão à ansiedade e ao stress desnecessário são minhas; a conclusão de um estágio são da minha vida – maiores que eu. Assim, num nível ainda mais profundo, uma carta realmente complementa a outra. Falando simplesmente, elas mostram que eu vivo um novo estágio dos meus estudos, onde disponho de todos os recursos para fazer um bom trabalho nesse projeto, que trará resultados concretos e crescimento; uma propensão a duvidar e exigir demais de si mesmo, focando-se na deficiência mais do que na vantagem, pode trazer a esse processo uma angústia desnecessária.

Uma outra interpretação das duas cartas secundárias seria a mensagem de que a ansiedade deve ser combatida com a graça e a espontaneidade do Mundo.


Passado/Presente/Futuro

Usos

  • Verificar o andamento de uma situação;
  • Obter uma compreensão maior do momento atual;
  • Revelar as causas de algo, e ver aonde isso vai dar.

Esse é, muito provavelmente, o layout de três cartas mais popular. Levando em conta que a visão corriqueira do tempo o divide nessas três partes, nada mais natural que uma leitura que consista em uma carta para cada “face” do tempo. De fato, essa disposição é ótima para examinar rapidamente uma situação, observando o fluir do tempo através dela. A função de cada posição é óbvia, mas é interessante também fazermos um exercício de expansão do significado dessas posições. O Passado guarda a causa, enquanto o Futuro é portador do fim, da resolução da situação. O presente é a chave e o elo que une ambos, causa e fim; híbrido e mutável, ele é simultaneamente conseqüência do passado e causa/raiz do futuro. Podemos fazer algo como –

1, Passado – a origem da situação, razões, motivações, raízes. O que motivou/ocasionou a situação atual? Quais são suas origens?

2 – Presente – como está, no que deram aquelas raízes e motivações. Aqui temos a indicação de como se encontra a situação. A partir daí, podemos tirar proveito dessa informação para orientarmos nossas ações de maneira adequada. O presente é o palco onde o ator age, é o palco da ação.

3 – Futuro – como a situação vai se desenvolver, como ela vai ficar, quais serão os resultados. O que o estado presente atual se tornará? Qual o próximo capítulo da trama?

Essa tiragem também pode ser uma ótima opção para um rápido exame da vida do consulente – para iniciar uma leitura, por exemplo. Poderíamos colocar mais uma carta sobre a carta do presente, para indicar a ação a ser tomada.


Situação/ação/resultado I

Essa disposição pode ser lida de duas formas. Essa primeira variação, mais analítica e descritiva, é indicada para examinar a participação do consulente em determinada situação, e o impacto que sobre ela têm suas ações. O papel do Tarot aqui é examinar como a ação do consulente afeta a situação que ele vivencia.

Posição I – a situação em questão;

Posição II – como o consulente age;

Posição III – o impacto, a consequência que sua atitude provoca na situação.


Exemplo

Martha está apaixonando-se por um rapaz comprometido, e vivencia um conflito entre seus desejos e suas noções de certo e errado.

Cartas: Ás de Ouros – Nove de Espadas – Ás de Copas

A situaçãoÁs de Ouros – Martha sente que esse rapaz é como uma joia preciosa encontrada por sorte – ele parece ser perfeito. Ela sabe que essa relação pode ser proveitosa e gratificante, e está de fato encantada pelo homem.

A atitude (como a consulente lida com o fato indicado na posição um, e como ela age/reage a isso)Nove de Espadas
– Preocupação, angústia, stress – drama. Martha não consegue tirar esse assunto da cabeça, e isso está afetando sua vida demais. Essa situação pegou-a de surpresa e Martha sente-se vulnerável e fragilizada. Como na imagem da carta, é possível que Martha literalmente passe as noites em claro por causa disso. Apesar de parecer uma carta muito emocional, o Nove de Espadas retrata um conflito mental – nesse caso, o conflito moral que a garota vivencia; Martha sente-se em uma situação sem saída.

O resultadoÁs de Copas – o resultado desse comportamento de Martha é que seus sentimentos vão continuar aumentando. No drama em que vivencia, Martha só está, como na imagem da carta anterior, tapando seus olhos para a realidade. Enquanto se joga de um lado para o outro em seu desespero, a menina não percebe o fato de que está apaixonada.

Em suma, vemos aqui que, enquanto Martha se desespera, a vida acontece. Em vez de agir, Martha prefere entregar-se ao drama. Os ases são forças naturais intensas, e difíceis de controlar. Martha terá dificuldade em lidar com seus sentimentos e a situação justamente por se sentir tão fragilizada e incapaz de lidar com os problemas de maneira controlada. Nessa leitura, é importante perceber que a presença dos ases só indica potencial – nada aqui diz que Martha realmente vai ter uma relação boa com esse rapaz, ou que será feliz com ele. Isso dependerá de outros fatores, que a leitura não se presta a verificar.


Situação/ação/resultado II

Nessa segunda variação do método, o enfoque muda sensivelmente. De cunho mais orientador, essa jogada usa o Tarot mais como uma ferramenta de conselho. Eu não diria que esse método serve exatamente para responder a perguntas diretas, do tipo “Vou conseguir xx?”; essa tiragem funciona melhor quando você deseja saber qual a ação mais adequada a se tomar em uma situação.

Posição I – a situação em questão;

Posição II – como o consulente deve agir;

Posição III – a consequência de sua ação, ou em quê isso vai dar.


Exemplo II

Vamos usar o mesmo exemplo – Martha está apaixonando-se por um rapaz comprometido, e vivencia um conflito entre seus desejos e suas noções de certo e errado.

Cartas: Rainha de Ouros – Três de Ouros – O Carro

A situaçãoRainha de Ouros – na situação, Martha está mantendo seus pés no chão, esforçando-se para ser responsável e realista. A Rainha de Ouros indica uma atitude que valoriza a segurança e o que é garantido. Martha pensa antes de tomar uma decisão. Por outro lado, essa carta também indica segurança de si mesmo, ou seja, a garota não tem medo da situação. A Rainha de Ouros também sugere atratividade e beleza.

A ação – Três de Ouros longe de recriminar essa atitude, o Tarot parece incentivá-la. Prova disso é que ambas as cartas pertencem ao mesmo naipe, o que sugere que a atitude a ser tomada é uma questão de direcionar a energia da Rainha de Ouros de uma determinada maneira. Um fato interessante aqui é que tanto a Rainha quanto o Três de Ouros associam-se ao signo de Capricórnio, sendo que o Três de Ouros é Marte em Capricórnio. A ação aqui deve ser rápida e decisiva; Martha deve manter-se firme ao seu plano e continuar com os pés no chão. O Três de Ouros também fala sobre trabalho em grupo e ajuda dos outros. Falar com pessoas sobre isso pode ajudar – especialmente com profissionais, como terapeutas; mesmo uma simples conversa com um amigo pode ser positiva.

O resultado – O Carro – mantendo os pés no chão e sendo prática em relação aos seus sentimentos e à situação, Martha conseguirá adquirir maior controle sobre a situação, e sobre si mesma. O Carro mantém a temática da vaidade e do orgulho, deixando no ar que toda essa situação envaidece Martha. Sugerindo movimento, essa carta também poderia indicar que Martha vai superar essa situação e distanciar-se do homem.

Resumindo, Martha mantém uma postura realista e responsável sobre seus sentimentos pelo rapaz comprometido. O Tarot diz que essa atitude estrita e mesmo severa deve ser mantida. Assim, o controle sobre si mesma será estabelecido, e Martha sobrepujará os problemas.


Relacionamento

Usos

  • Analisar um relacionamento;
  • Responder a perguntas simples sobre um relacionamento;

Outro layout que eu inventei – se bem que, pela simplicidade, muitas outras pessoas devem ter tido essa mesma ideia antes de mim. A carta central, a principal, representa o relacionamento em si, e as duas laterais representam as duas partes da relação – ou seja, o casal. Logicamente, uma delas interpreta o consulente, e a outra seu parceiro. A relação entre cada uma das cartas secundárias com a carta principal vai indicar como cada parceiro lida com o relacionamento. A relação entre as duas cartas que representam o casal vai indicar a interação entre as duas pessoas, qual a dinâmica do relacionamento. Ao considerar a interação das duas cartas do casal, você pode atentar aos seguintes pontos –

  • Existe alguma tensão entre as cartas, ou elas se complementam?
  • As cartas pertencem a um mesmo naipe, ou a naipes diferentes? Se diferentes, qual a relação entre os naipes?
  • Alguma das duas cartas – ou as duas – é um arcano maior? Alguma carta é uma figura da corte?
  • Qual a relação elemental entre as cartas (amigável, neutra ou antagônica)?
  • Comparando as imagens nas duas cartas, você percebe alguma coisa que sugere uma relação simbólica? Veja os desenhos e tente criar uma historinha com eles.

    Dica
    Você pode estender essa jogada adicionando mais cartas para cada parceiro, com temas como “as expectativas da cada um”, “pontos fortes/fracos”, etc. Só certifique-se de incluir o mesmo número de cartas para os dois lados. A mesma coisa pode ser feita com a carta central – você decide o que pode ser mais relevante saber.

Vamos a um exemplo prático nessa leitura hipotética que fiz. Entre as cartas secundárias, a da esquerda representa o consulente, e a da direita, seu parceiro. [para os menos pacientes, os dois parágrafos seguintes serão suficientes; os parágrafos posteriores são mais especulativos]

Na leitura, os dois parceiros passam por um momento de poderosa transformação pessoal, que os leva a uma consciência nova sobre o relacionamento entre eles. A coisa ficou mais séria, um novo passo está prestes a ser dado, e ambos os parceiros vislumbram novos horizontes para sua relação.

A princípio, o relacionamento entre essas duas pessoas é estável e feliz; a maioria das pessoas concorda que o Dez de Copas é a carta ideal para questões sobre amor. A presença de duas cartas tão significativas para os parceiros indica que ambos passam por um momento decisivo tanto na relação quanto pessoalmente. Ambos podem estar considerando dar um passo maior no relacionamento – um casamento, ou mesmo morarem juntos. A sensação aqui é a de que os dois parceiros percebem que é preciso mudar. Para o consulente, a mudança vem mais como um despertar, ou uma renovação da forma que ele enxerga as coisas; para seu parceiro as mudanças são mais súbitas e menos subjetivas.

Entre as duas cartas dos parceiros, existem tanto coisas em comum quanto pontos de oposição:

  • As duas cartas retratam processos de transformação profunda. O Julgamento e a Morte ligam-se perfeitamente – no arcano 13 acontece a morte, o desfalecer, enquanto que o arcano 20 marca o renascimento, a ressurreição;
  • Ambas as cartas associam-se astrologicamente também, já que o Julgamento é regido por Plutão, e a Morte está ligada ao signo de Escorpião (Plutão é o planeta regente de Escorpião). Isso evidencia uma forte presença da energia profundamente transformadora de Plutão e Escorpião;
  • Elementalmente, existe certa oposição entre as duas cartas, pois a Morte pertence ao elemento Água (devido à sua associação com Escorpião), enquanto o Julgamento está associado ao Fogo (Plutão). Nesse sentido, uma carta enfraquece a outra. Apesar de os dois parceiros estarem encarando transformações pessoais, existe certo conflito entre eles. O consulente está mais entusiasmado, e seu parceiro esboça um pouco de medo e hesitação;
  • De fato, as duas cartas se opõem no sentido de que uma é o fim, a morte, enquanto outra é o recomeço, o renascimento, a nova vida. De acordo com isso, podemos auferir que, enquanto o consulente passa por um momento de renovação, e percebe novos horizontes no relacionamento, seu parceiro encara o fim de uma vida e o começo de outra, de maneira mesmo um pouco traumática.

Entretanto, é imageticamente que as três cartas da leitura exibem as relações mais curiosas. Podemos começar com o fato de que as três cartas exibem figuras humanas que, de alguma forma, sugerem alguma estrutura familiar – o casal e as crianças no Dez de Copas; o homem, a mulher e a criança no Julgamento; e a mulher, a criança e o rei na Morte. Similarmente, nas três cartas, todas as figuras direcionam sua atenção a uma entidade sobrenatural de presença numinosa – o anjo com cabelos de fogo no Julgamento, o cavaleiro da morte na carta 13, e o arco-íris com as taças no Dez de Copas. Todas as três entidades possuem traços e atributos que as associam à figura do mensageiro – tanto o anjo quanto o cavaleiro portam bandeiras, símbolos de mensagens; anjos sempre são vistos como mensageiros de Deus; a figura da Morte montada em um cavalo dá essa mesma impressão. O arco-íris, presente no Dez de Copas, carrega essa mesma conotação de ligação entre o céu e a terra. Na mitologia grega, Íris é a mensageira dos deuses, que viaja tão rápido quanto o vento. Seu voo no céu deixa um rastro colorido no céu – daí a palavra arco-íris, o arco de Íris. Todos esses sinais apontam para a ideia de que o casal vivencia um momento de despertar. A presença de figuras grupais podem indicar tanto que esse despertar é integral, quanto inserir um elemento social na questão.


O Semáforo

Essa é uma das tiragens mais legais que eu descobri recentemente. Encontrei-a no forum de Tarot do Aeclectic.net. Sua estrutura é bem simples e direta, o que a torna ideal para consultas rápidas. Mesmo assim, como todas as jogadas de três, o valor de suas posições pode ser expandido se quisermos investigar mais a fundo a jogada. As denominações das posições são descritas abaixo –

Posição I – Sinal Vermelho – Não faça isso – atitudes, ações ou pessoas que devem ser evitadas; coisas que podem prejudicar ou atrapalhar; perigos e ameaças;

Posição II – Sinal Verde – Vá em frente e faça isso – o caminho a seguir, a coisa mais adequada a fazer, as portas que estão abertas para você;

Posição III – Sinal amarelo – Atenção, cuidado, ou esteja consciente disso – coisas das quais você precisa estar consciente ou tomar cuidado, prestar a atenção; coisas que você não tem muito conhecimento, ou não tem considerado o suficiente.

Embora seja possível analisar qualquer tipo de questão com essa disposição, ela funciona melhor com perguntas abertas. A terceira posição dessa tiragem recebe destaque extra por ser mais neutra. A informação que ela oferece pode ser usada como referência para as outras duas posições. Isso quer dizer que você pode confrontar as cartas das posições 1 e 2 com a da posição três, exatamente para saber o que manter em mente enquanto não fazer isso e fazer aquilo.

Exemplo

Consulente deseja saber sobre seus planos de lançar-se num novo projeto. [Observe como a pergunta não questiona sobre algo específico, ela apenas lança o tema da leitura, que é o novo projeto do consulente]

Cartas – Oito de Ouros – Rainha de Paus – Seis de Ouros

O consulente deve evitar ser muito meticuloso e metódico; em vez disso, deve confiar em si mesmo e manter uma atitude direta e ousada. A oposição entre o Oito de Ouros e a Rainha de Paus (o aprendiz versus a soberana) indica que o consulente não precisa ter medo de errar ou de acreditar em sua própria verdade, seguir sua intuição. A Rainha de Paus também fala sobre uma necessidade de afirmar-se e impor mais suas opiniões. Além disso, o consulente deve estar consciente do constante câmbio de valores indicado pelo Seis de Ouros. Ele tem muito a ensinar e a aprender com esse projeto, e é uma via de mão dupla. Por fim, o Seis de Ouros pede equilíbrio e parcimônia, tanto no dar quanto no receber; as medidas exatas devem ser mantidas para que haja um equilíbrio. O que o consulente não percebe é o potencial de troca, intercâmbio que esse novo projeto oferece.

Como eu disse, as duas primeiras cartas podem ser lastreadas pela segunda. No exemplo, o Seis de Ouros serve como perfeito ponto de equilíbrio entre a meticulosidade e a cautela do Oito de Ouros, e o idealismo passional da Rainha de Paus. A Rainha de Paus pode ser muito egocêntrica, e o Seis de Ouros a lembra de pensar nos outros também.


Escolha entre duas alternativas

Você pode usar essa tiragem para jogar luz em uma situação onde é preciso escolher entre duas coisas, dois caminhos, ou duas opções diferentes. A tiragem começa analisando o próprio consulente, e depois apresenta as alternativas –

Posição I – O Eu – o indivíduo como sujeito da situação: seus desejos, o que ele realmente quer, como ele está diante da escolha que deve fazer.

Posições II e III – As alternativas – as duas alternativas diante das quais o sujeito se encontra. As cartas revelarão o caráter de cada alternativa, ou seja, o que cada uma representa para o consulente e o que cada uma lhe oferece.

A melhor alternativa pode ser verificada por meio das possíveis afinidades que surgirão entre cada uma das cartas das escolhas e a carta do consulente. Caso a resposta não fique clara com as três cartas, uma quarta pode ser posta cruzada sobre a primeira carta para indicar o que o consulente deve fazer.

Essa jogada, claro, também pode ser usada em situações onde o consulente se vê em dúvida entre duas possibilidades de relacionamento, ou dois parceiros românticos.

Exemplo

Jocasta está prestes a comprar uma nova casa, porém está em dúvida entre dois imóveis que lhe agradaram muito. Agora ela só precisa escolher entre as duas para começar a dar andamento ao processo de compra. [tiragem hipotética]

CartasA consulente – Quatro de Espadas; Alternativa A – Rainha de Copas; Alternativa B – O Diabo.

O que Jocasta realmente quer é tranqüilidade. O Quatro de Espadas indica que ela busca por um lugar onde pode descansar e sentir-se longe de preocupações. Essa carta também indica que a consulente analisa e pesa os prós e os contras de cada opção. Na segunda posição, a primeira casa parece ser mais tranquila, como Jocasta quer. A Rainha de Copas, regida por Câncer, realça justamente a ideia de lar, paz e proteção. Enquanto isso, o Diabo na segunda posição sugere que o maior apelo que a segunda casa tem sobre Jocasta está relacionado ao status que ela pode conferir-lhe. A casa pode ser mais moderna ou mais bonita, pode parecer mais cara ou ser mais impressionante. O que mais conta aqui é a aparência, o status. Jocasta pode estar sentindo-se atraída por essa casa por motivos mais egoístas, de valor mais efêmero. Examinando as três cartas, percebemos que a primeira casa é a melhor escolha.

Na figura ao lado temos a representação da tiragem de acordo com os elementos a que pertence cada carta. A segunda posição, Água, harmoniza-se bem melhor com a primeira, Ar, do que a segunda, Terra.


Um exemplo de leitura diária com três cartas

Fonte – TarotTeachings.com

Aqui vai um bom exemplo de como você pode usar uma tiragem de três cartas em leituras diárias. A prática de leituras diárias é frequentemente sugerida para quem está começando a estudar o Tarot, e pode realmente ser bastante benéfica. Praticando diariamente, você tem a oportunidade de estreitar seus laços com o Tarot, exercitar combinações de cartas, com a prerrogativa de ter o resultado real na sua frente, no final do dia.

Posição IVocê – como você está, suas disposições, sua situação atual;

Posição IIAs influências do dia – o que esse dia lhe reserva, que acontecimentos esperam por você nesse dia.

Posição III – Resultado – como você vai lidar com as influências do dia, como isso vai ser.

A posição III é chave por ilustrar o produto da combinação das duas posições anteriores. É como a quintessência da disposição, pois descreve a ação em si. A posição III pode também dar ideias sobre como lidar com as influências indicadas na posição anterior.


Exemplo

Cartas – Seis de Paus – Seis de Ouros – Julgamento

Posição I – momento de sucesso, realização pessoal, êxito. O consulente está seguro de si, e exibe algum orgulho e vaidade. Respeito e reconhecimento vindo das pessoas ao seu redor.

Posição II – troca, ajuda, generosidade, abundância. A coisa mais direta que essa carta sugere é transações financeiras – compra/venda, troca de dinheiro, empréstimos. Ela também pode mostrar ajuda generosa partindo de você ou chegando a você.

Posição III – renovação, revelação, renascimento, surpresas. Sempre que eu vejo essa carta eu penso numa folha em branco, novinha em folha, como se uma folha velha fosse jogada fora. A carta sugere transformações profundas, surpresas e novidades, acontecimentos inesperados que resolvem o quebra-cabeças.

As duas primeiras cartas se combinam, mostrando que a atitude otimista e segura do consulente terão eco no mundo externo: ambas as cartas ilustram figuras em posição superior. Levando em conta que a própria carta do consulente retrata-o numa posição acima, a carta seguinte mostra oportunidades que ele terá de beneficiar os outros com essa posição. O Julgamento indica surpresas a caminho – ele poderá perceber algo com isso, ou sentirá um chamado interior forte.


Equilíbrio Interior

Fonte: TarotTeachings.com

A disposição de que tratarei a seguir faz um grande uso da qualidade balanceadora do número 3, e tem como objetivo encontrar uma linha de equilíbrio entre as deficiências e potenciais do consulente. Ao executar essa leitura, procure manter o espaço livre para uma exploração ampla na resposta, já que a tiragem funciona melhor descrevendo temas gerais, em vez de questões específicas.

Posição I – Deficiências – suas fraquezas, falhas, áreas onde tem problemas, sentimentos/pensamentos que tem dificuldade em lidar;

Posição II – Forças – seu poder, coisas em que você é bom, suas capacidades, potenciais pessoais que podem ser usados ao seu favor;

Posição III – Orientação – como conciliar suas fraquezas e forças, o caminho do meio.

Exemplo

Lucas deseja saber sobre dinheiro. [pergunta real, nome fictício]

Cartas – I Sete de Copas; II Seis de Ouros; III Nove de Ouros.


Posição I Deficiências – Sete de Copas – essa carta na posição I indica basicamente que o consulente lida de forma literalmente libertina com seu dinheiro. O consulente usa seu dinheiro de forma mais espontânea, sem muito planejamento, para preencher seus desejos mais imediatos. Seu fluxo monetário é instável, e há aqui uma tendência considerável a gastar dinheiro com coisas que apelam mais aos sentidos e ao prazer do que a necessidades reais. Na mão de Lucas, o dinheiro não para muito – ele gasta logo, assim que recebe. Contextualizado dessa forma, o Sete de Copas também sugere uma relação superficial e viciosa com o dinheiro. Há uma forte ideia de que ele pode trazer a satisfação esperada, quando fica claro que isso não acontece, já que a busca por mais é incessante.

Posição II – Forças – Seis de Ouros – por outro lado, Lucas nunca realmente fica sem dinheiro. O Seis de Ouros é uma carta que fala muito de abundância e riqueza. O ponto forte de sua relação com o dinheiro tem a ver com a constante movimentação que Lucas mantém. O consulente não se importa em gastar com outras pessoas, tanto por diversão quanto quando elas precisam de alguma ajuda. Lucas realmente não vê o dinheiro como um fim, mas como um meio. Essa postura garante-lhe certa compensação financeira – de alguma forma, por mais que gaste, Lucas sempre tem.

Posição III – Orientação – Nove de Ouros – nesta posição, essa carta pede mais foco. O Nove de Ouros combina perfeitamente as das cartas anteriores. Na imagem, as uvas estão maduras no canteiro, prontas para serem colhidas – ainda existe o deleite do Sete de Copas (as uvas, o vinho dionisíaco que excita as sensações) mas esse é desfrutado na medida certa. Lucas deve cuidar para focar sua busca pelo prazer nos lugares e na medida certos. Essa carta também me sugeriu que o consulente deveria reconhecer melhor sua fortuna, e saber valorizá-la; isso em si já leva a um uso mais consciente do dinheiro. O prazer do Sete de Copas está presente na carta (uma rica dama desfrutando uma tarde nas vinhas de sua mansão), mas ele é vivenciado de forma mais refinada e madura. A orientação aqui é moderação, mais consciência, e mais pés no chão.


Leitura de três cartas de RedEarth

Fonte: TarotForum.net

Encontrei esse método em um fórum de Tarot online, exposto pelo usuário RedEarth, e achei incrível. Nas próprias palavras de RedEarth (não sei seu verdadeiro nome) é uma boa disposição para aqueles momentos em que você “está num estado tal que nem sabe o que perguntar, ou qual é a verdadeira questão”. Ainda de acordo com a autora, “O propósito por trás da leitura é esclarecer e ajudar a pessoa a superar seu estado de confusão (…) e confortá-la, mostrando que ela não se sentirá assim para sempre”.

As descrições abaixo são uma mistura de tradução e interpretação que eu fiz das descrições para cada posição feitas pela própria RedEarth. Pra quem quiser ver o tread na íntegra, seu link está aqui.

Posição IQual a verdadeira questão?Esta posição neutraliza a complicação de se ter várias possíveis questões problemáticas em uma situação, afirmando de maneira categórica e definitiva a real questão que deve ser considerada;

Posição IIO que eu preciso fazer? – Esta é a posição da ação, que mostra onde a energia deve ser direcionada. Sua função é te apresentar uma tarefa, algo que você pode fazer para sair do estado de confusão e sobrepujar seus problemas;

Posição IIIAonde isso tudo vai me levar? – A terceira posição fornece um senso de propósito, de razão, bem como aponta para a direção certa além de seus sentimentos imediatos.


Fast Solution – Solução Rápida

Fonte: TarotForum.net

Outra jogada ótima para quem não gosta de perder tempo; e também outra que eu achei no forum do Aeclectic.net. Segundo Kath, a usuária que postou o tread sobre essa (e outras) tiragem, o esquema foi tirado do livro Power Tarot, de Trish MacGregor, Phyllis Vega. As posições dispensam descrições –

Posição I – A natureza do problema

Posição II – A causa do problema

Posição III – A solução para o problema

Se você não distinguiu bem a diferença entre as duas primeiras posições, a posição I define em que consiste o problema; já a posição II mostra suas origens, o que o provoca. Essas duas informações, preciosíssimas, preparam o campo para o golpe final da solução, que pode ser interpretada tanto como um imperativo (um conselho, orientação) como uma mera indicação do caminho de saída da complicação.

Exemplo

Posição I – Ás de Ourosa natureza do problema é de ordem material. A carta pode apontar para uma dificuldade em dar corpo para alguma ideia, ou mesmo uma insuficiência de recursos para realizar algo.

Posição II – Roda da Fortuna
a julgar pelas duas cartas mencionadas, estamos diante de uma situação que envolve o início de algo. A Roda da Fortuna sugere que a causa do problema está justamente na mudança – ela pode ter sido brusca demais, por exemplo. A carta 10 também refere-se a intensa atividade, então sua presença poderia indicar também instabilidade.

Posição III – A Estrela
a solução para o problema está em refinar a visão, olhar mais alto. É importante que se tenha fé e confiança. A instabilidade, mencionada anteriormente, é aqui confirmada com mais uma carta de Ar, o que deixa o jogo com duas de Ar contra uma de Terra. Existe mesmo instabilidade e falta de chão, mas o consulente deve aproveitar isso para voar mais alto e ser mais livre e inovador.

outubro 20, 2009

Disposição em Cruz/Péladan

Filed under: Disposições — Tags:, , — Leonardo Dias @ 1:54 AM

Essa tiragem, aparentemente mais popular no Brasil do que no mundo anglo-falante, foi uma das primeiras que aprendi, e uso até hoje. Sua versão inicial foi concebida por Joséphin Péladan, romancista e ocultista relativamente famoso do final do século 19, contemporâneo de Papus e um dos envolvidos na reconstrução da Ordem Rosacruciana na França. A tiragem que eu geralmente uso distancia-se um pouco da original de Péladan, e baseia-se em uma tiragem chamada “A cruz ou a pergunta”, incluída no livro ABC do Tarot, de Colette H. Silvestre (1987, Ed. Círculo do Livro, edição de 1998). É bem provável que a tiragem do livro de Silvestre esteja relacionada à de Péladan. Realmente, existem várias versões dessa disposição, e uma busca rápida online poderá mostrar suas diversas formas. Seu escopo, no entanto, permanece o mesmo – obter esclarecimentos sucintos e uma resposta rápida a perguntas simples, com prognósticos de curta-média duração.

Ambos os métodos consistem em quatro cartas, arranjadas em cruz, com uma quinta carta no meio, obtida através da soma numérica das quatro cartas, pela redução teosófica. A seguir, uma descrição das duas formas da tiragem.

Diagrama de esquema de tiragem Péladan - Cruz

MÉTODO I – O meu

Baseando-me na disposição exposta no livro de Silvestre, ao longo do tempo fui desenvolvendo a minha própria forma de fazer essa tiragem.

Posição 1 – de acordo com Silvestre, “a primeira lâmina representa o consulente diante de sua pergunta”. É essencialmente a posição do consulente, elemento costumeiro nas tiragens. Eu a interpreto como indicativa de suas atitudes e posturas perante a situação onde ele se insere, ou como indicativa de alguma qualidade ou característica sua que tem papel proeminente na situação.

Posição 2 – tradicionalmente, a segunda posição ajuda ou contraria a carta da primeira. Eu levo sua interpretação um pouco mais adiante, abordando-a como o momento ou o ambiente no qual o consulente está inserido. De certa forma, ela ainda endossa ou opõe-se à atividade do indivíduo, mas no sentido de ser uma resposta do momento ou do ambiente a ela. Costumo ver as duas primeiras posições como as duas primeiras cartas da Cruz Celta.

Posição 3 – eu vejo a posição 3 como a “rainha” da jogada. Como o anjo na carta dos Enamorados, ela é o poder que paira sobre o mundo horizontal das duas cartas anteriores, a força maior que rege a situação. Em certo sentido, ela resolve a dicotomia das duas cartas anteriores. Sendo assim, uma afinidade de sentido ou elemento poderá indicar o lado de quem ela fica. Eu também costumo interpretar essa posição como o conselho.

Posição 4 – fechando a tiragem, a posição 4 basicamente vai dar a resposta à pergunta feita, à luz do que foi esclarecido pelas três cartas anteriores. Às vezes, aparece na posição 4 uma carta desfavorável fechando uma sequência de três cartas muito favoráveis à questão. Eu interpreto isso como um sinal de que o desfecho será favorável ao consulente, mas custará a chegar; ou então que não será exatamente como o consulente deseja, sendo contudo bom para ele, no estilo “uma porta se fecha mas uma janela se abre”.

A quinta carta é definida pela soma das quatro cartas. Constituída pelas quatro cartas, a soma é literalmente a quintessência da tiragem, a representação do todo que elas formam. A quinta carta é a força que está no background da situação, o denominador comum entre as quatro cartas.

Para obter a quintessência, pega-se o valor bruto da soma e somam-se seus algarismos entre si, até que reste um número entre 1 e 22. Esse processo chama-se redução teosófica. O resultado evocará, por paralelo numérico, um dos 22 Arcanos Maiores. Por exemplo, se a soma der 47, a conta a ser feita será:

47 = 4+7 = 11 – A Força

Em numerologia, representamos essa decomposição de um número com uma barra (/), da seguinte forma – 47/11. O número 22 é somente nesse caso atribuído ao Louco, normalmente visto como a carta 0 ou sem número. Figuras da Corte não têm valor numérico e Ases valem 1. Algumas pessoas, entretanto, atribuem valores numéricos às figuras, incluindo-as na soma. Pessoalmente, não acho isso necessário, mas é uma escolha particular.

MÉTODO II – Péladan

O método de Péladan diferencia-se ligeiramente do que eu sempre usei. Eu nunca simpatizei muito com esse método, mas hoje mais cedo decidi testá-lo e gostei muito do resultado. Ele oferece uma visão mais dualista do que sua versão mais moderna, que pode ser muito interessante ao analisarmos uma situação. Eu achei mais interessante a versão dessa tiragem descrita por Oswald Wirth, que é a que eu vou expor aqui –

Posição 1 – o que está a favor, os prós da situação; a força positiva e afirmativa. A carta dessa posição deve ser abordada pelos seus aspectos mais positivos;

Posição 2 – em oposição à primeira posição, indica os contras – obstáculos e oposições à ação iniciada na primeira carta. A carta que cair aqui deve ser vista por seus aspectos negativos;

Posição 3 – a posição três é o juiz que decide o impasse e contrabalanceia a tensão entre as duas cartas anteriores;

Posição 4 – a sentença enunciada pelo juiz, que vai dar a resposta e definir a questão.

A versão de Péladan também faz uso de uma quinta carta no meio que é obtida pela soma do valor das quatro cartas. Sua função é basicamente a mesma que a do meu método.

Aprofundando-se na lógica por trás do esquema da tiragem

Quem conhece um pouco de filosofia vai talvez identificar nessa tiragem os três elementos básicos da dialética hegeliana – a tese, a antítese e a síntese. De acordo com Hegel (1770 – 1831, Alemanha), todo o processo é o resultado de um eterno conflito entre opostos. Sucintamente, uma tese é uma proposição, uma ideia; por ser parcial ou incompleta, a tese origina uma antítese, uma proposição diametralmente oposta à primeira, que com ela entra em conflito. Tal conflito é resolvido pela síntese, que representa um terceiro ponto de vista que concilia as verdades contidas na tese e na antítese. A síntese é em si uma nova tese, o que recomeça o processo de conflito. Nesse caso, a síntese seria representada pelas duas últimas cartas, em seu aspecto de conciliadora e nova tese. Não sei dizer se Péladan ou Wirth tinham a dialética de Hegel em mente quando falaram de sua tiragem em cruz. De qualquer maneira, tal disposição pode ser analisada por essa ótica, e funciona bastante bem. Uma coisa interessante que essa tiragem sugere é que não precisamos ver a oposição representada pela posição 2 como algo ruim, negativo. É exatamente da diferença fundamental entre as duas primeiras posições que vem a fertilidade, o dinamismo que provoca o desenvolvimento. A oposição inspira a ação que busca conciliá-la, e nisso consiste o aprendizado e, portanto, o crescimento.

Formas de interpretação

DiagonalidadesA tiragem da Cruz pode ser interpretada de diversas formas. De fato, com a prática, cada um vai descobrindo sua própria forma de usar essa disposição. Uma coisa que eu costumo fazer é analisar o que eu chamo de “diagonalidades” da tiragem. Isso consiste em analisar a combinação das cartas também em diagonal, e adicionar tais interpretações à leitura. Isso frequentemente me revela relações muito interessantes entre as cartas.

As elemental dignities das cartas da leitura são uma boa forma de analisar a interação entre as cartas. Eu não costumo associar cada posição a um elemento, mas ultimamente eu tenho aplicado o método de bases elementais a essa leitura. Tal método resume-se a usar um dos quatro elementos como base, de acordo com o tema de que tratam, e ver como as cartas reagem a isso. As associações podem ser rapidamente definidas como –

Fogo – atividades, afazeres cotidianos, carreira;

Água – emoções, sentimentos, relacionamentos, espiritualidade, inspiração;

Ar – projetos, estudos, aprendizado, processos legais, dificuldades;

Terra – trabalho, questões materiais e financeiras, dia-a-dia.

Podemos também aplicar cada um dos elementos como base elemental, para ver os quatro aspectos da situação, e como as cartas podem influenciadas por eles.

Consulta LuanaExemplo de leitura

Decidi usar o método de Péladan numa leitura feita para uma moça, sobre seus estudos de Tarot. Luana (nome fictício) quer saber sobre os progressos que tem feito como taróloga. Sua pergunta foi “Vou conseguir ser uma boa taróloga?”. A resposta –

O Pajem de Paus mostra Luana como uma estudante curiosa e entusiasmada, apaixonada por seus estudos de Tarot. Ela é capaz, tem um bom potencial e acredita em si mesma. Deve no entanto tomar cuidado para não ser precipitada e impulsiva, e para não ser inocente e confiar demais em si, deixando passar despercebidos detalhes importantes. Luana pode ser um pouco impaciente demais, e isso pode minar seu acesso ao conhecimento menos imediato do Tarot, mais distante da superfície. Isso parece ser confirmado pela presença da segunda carta como oposição. Serena, experiente e estática, a Sacerdotisa é um total contraponto ao Pajem, inquieto e inocente. Ela mostra que o Tarot exige de seu estudante uma postura contemplativa, receptiva e tranqüila, que espera receber a mensagem, mais do que esforçar-se para extraí-la das cartas. Luana confirma que não consegue muito parar para aprofundar-se nas cartas, e que isso é uma das coisas que ela sente estarem faltando em suas leituras. A Sacerdotisa personifica exatamente o desconhecido, aquela região de transferência entre o nosso mundo familiar e o mundo não acessado por nossa percepção ou imaginação. Esse é o obstáculo que Luana enfrenta – compreender o não-dito. A Sacerdotisa também representa aqui o conhecimento oculto, hermético, não pronunciado do Tarot, que Luana tem dificuldade – e pouca paciência – para alcançar. Como juiz, a Rainha de Paus na terceira posição une graciosamente a Água da Papisa com o Fogo do mesmo naipe do Pajem – é um perfeito contraponto entre as duas cartas anteriores. Ela indica que Luana deve aliar a intuição e percepção interior da Sacerdotisa ao impulso e curiosidade do Pajem, personificados na Rainha de Paus. A Rainha de Paus está a dois níveis acima do Pajem, mostrando que Luana deve aliar à sua energia criativa o poder introspectivo da Sacerdotisa. Por fim, o Rei de Copas indica que sim, Luana tem ótimas chances de ser uma boa taróloga. O Rei de Copas controla e dá corpo as suas emoções e intuições. Mostra alguém experiente, diplomático e sábio, com um conhecimento cristalizado em sua área de atuação. O Rei de Copas também incorpora a figura do conselheiro, daquele que vê e entende a alma humana profundamente.

A tiragem é composta somente de figuras da corte, o que indica um processo de auto-descoberta e desenvolvimento pessoal. Existe a busca por crescimento, impressa na progressão hierárquica das figuras. Interessante notar que essa progressão segue a ordem da tiragem, com um Pajem sendo sucedido por uma Rainha, que antecede o Rei, posto máximo. Isso denota a existência de uma progressão real, um desenvolvimento. Podemos perceber nessa tiragem uma dualidade forte entre Água e Fogo, elementos opostos. Isso denota um conflito interno na consulente – de um lado, seu desejo expansivo de descobrir, explorar e aventurar-se nesse campo de estudo; do outro, a necessidade de parar para contemplar, sentir, e dar espaço para a voz interior. A Sacerdotisa domina no jogo, por vários motivos. Ela é o único arcano maior, e única carta com número. A síntese do jogo, nesse caso, manifesta-se no próprio jogo, e isso tem uma significância especial. A tiragem é toda tematizada pela Sacerdotisa, que mostra a manifestação do inconsciente, do mistério e do desconhecido para Luana. O fato de a Sacerdotisa estar na posição de obstáculo mostra que esse é o desafio que Luana enfrenta em sua busca por aprender melhor o Tarot. A Sacerdotisa é a sua antítese. Ela impõe a Luana o desafio de olhar mais a fundo e ver nas entrelinhas. Por ser a mantenedora da doutrina esotérico (oposta ao Hierofante, o mantenedor da doutrina exotérica), a Sacerdotisa sugere também a importância do esoterismo nos estudos de Luana. Há aqui uma ênfase ao elemento Água, receptivo, profundo e introspectivo, enquanto a atitude de Luana é tipicamente ígnea – expansiva, auto-afirmativa e passional. Com efeito, seu signo solar também pertence ao elemento Fogo. A Rainha de Paus, como força dominante, sugere uma mistura das características ígneas do Pajem com a introspecção da Sacerdotisa. Por fim, o Rei mostra isso de maneira especial, como resposta, pois ele alia o elemento Água ao Ar, ou seja, a compreensão, a racionalização dos impulsos inconscientes e da intuição. Ele em si é um indicativo de que Luana terá sucesso em sua jornada de (auto)descoberta com o Tarot. Ela deve, no entanto, enfrentar a Sacerdotisa nesse processo, a Rainha dos Mistérios subterrâneos, a dona dos segredos. E a Sacerdotisa diz: “pare, e escute o som do silêncio”.

FONTES DE REFERÊNCIA

Livros

ABC do Tarot – Colette H. Silvestre

Online

Wikipedia

Joséphin Péladan – http://en.wikipedia.org/wiki/Joséphin_Péladan

Oswald Wirth – http://en.wikipedia.org/wiki/Oswald_Wirth

Thesis, Antithesis, Synthesis – http://en.wikipedia.org/wiki/Thesis,_antithesis,_synthesis

Hegelian Dialetic – http://en.wikipedia.org/wiki/Dialectic#Hegelian_dialectic

Antithesis – http://en.wikipedia.org/wiki/Antithesis

Clube do Tarô, tiragens – http://www.clubedotaro.com.br/site/p52_2_simples.asp#cruz

Tarot Elements – Adding an Elemental Base To Your Tarot Card Readingshttp://www.tarotelements.com/elemental-dignities/adding-an-elemental-base-to-your-tarot-card-readings/

Thesis — Antithesis – Synthesis, post by Jim Meskauskas – http://www.clickz.com/917191

outubro 17, 2009

Tiragem – O Desejo Verdadeiro

Diagrama de tiragem - o desejo verdadeiroDesenvolvi essa tiragem no meio de uma consulta, e ela provou ser muito útil em momentos em que estamos confusos e precisamos de insights sobre nossos próprios sentimentos, objetivos e qual o melhor caminho a tomar. É composta de seis cartas, posicionadas de acordo com a figura ao lado.  O objetivo da tiragem é expor e analisar os desejos do consulente, e, através disso, descobrir a melhor forma de agir e lidar com eles. Abaixo, uma descrição mais detalhada de cada uma das seis posições da tiragem –

1 – O eu – o ponto de partida da tiragem é o próprio consulente. Essa carta serve de lastro para as outras, sendo a referência principal no entendimento das outras cartas. Na prática, isso quer dizer que todas as cartas seguintes, com exceção da última (que é uma partida do âmbito individual do consulente), devem ser confrontadas com essa em sua interpretação. Essa posição fala do consulente, como ele está no momento da consulta, por quais coisas ele está passando, etc.

2 – Emoção – como estão suas emoções, como ele se sente, seu foco emocional. Um truque para ler as cartas que caem nessa posição é olhar as figuras e imaginar como elas se sentem na situação onde estão. Por exemplo, se o Oito de Espadas cair aqui, poderíamos dizer que a pessoa se sente restringida, presa, confusa, e que não consegue entender seus sentimentos direito.

3 – Mente – o que o consulente pensa, suas concepções a respeito da situação em que está, como ele a entende.

4 – O que realmente quer – o desejo verdadeiro do consulente, o que ele quer no fundo.

5 – O que não percebe – Tanto essa quanto a próxima posição tem temas mais impessoais, menos focados no consulente e mais em aspectos de sua situação. Servem de contraponto a ele. Aqui, damos espaço para o Tarot exercer uma de suas funções mais importantes – pôr-nos em contato com o desconhecido em nossas vidas. A posição 5 traz à luz um aspecto importante da situação que o consulente não está percebendo, alguma coisa que ele não sabe sobre si mesmo, seu comportamento e atitude, ou a situação em si. Frequentemente essa posição vai mostrar oportunidades ocultas, não percebidas. Um arcano maior nessa posição vai indicar a força arquetipal que é o pano de fundo da situação. Por exemplo, na situação de uma consulente que deseja estudar no exterior, o Carro nessa posição indicaria seu momento de emancipar-se, ser independente e perseguir seus próprios sonhos. Ases nessa posição tendem a representar oportunidades significativas. Já uma carta da corte poderá estar mostrando um aspecto da personalidade do consulente que está emergindo ou deve ser cultivado, ou mesmo uma pessoa com papel proeminente na situação.

6 – Como agir – por fim, uma carta com sugestões e aconselhamentos ao consulente. Essa posição faz a diferença total com as cartas anteriores, pois não apresenta uma descrição estática, oferecendo inspiração em vez disso. Essa posição é como a fagulha de energia que fecunda a concepção estática apresentada nas cinco cartas anteriores.


Ideias sobre a tiragem

Uma coisa legal sobre essa tiragem é que ela se foca mais no consulente e sua atitude, e como ela se reflete na situação que ele está vivendo, e menos em detalhes da situação em si. A ideia é trazer o poder de decisão para as mãos do sujeito da história, tirando-o da posição passiva de vítima das circunstâncias.

As posições de 1 a 4 mostram o consulente de uma maneira geral – como ele está, suas emoções e pensamentos, e o que ele realmente quer. Basicamente são mais estáticas, fixas, descrevendo mais estados do que ações; elas servem mais para esclarecer. As duas posições seguintes são mais criativas, servindo mais para inspirar e contribuir com algo novo. É claro que essas definições são flexíveis – as posições 2 e 4 podem sim ser bem flexíveis e trazer esclarecimentos enormes sobre como o consulente se sente e pensa.

Podemos associar cada posição a um elemento, para assim estabelecer um esquema de Elemental Dignities que expande o significado da tiragem como um todo. Cada um pode associar cada posição ao elemento que lhe parecer mais adequado, contanto que se mantenha sempre o mesmo. O Tarot funciona sempre de acordo com os preceitos de quem o usa, então regularidade é importante. Um pouco de experiência com a jogada pode contribuir para uma associação elemental mais acurada. Aqui vão as minhas ideias sobre as associações –

1, O eu – TERRA – as bases da consulta, a realidade objetiva, o consulente como um todo.

2, Emoção – ÁGUA, o elemento tradicionalmente associado às emoções;

3, Mente – AR, tradicionalmente associado à mente, como a Água às emoções;

4, O que realmente quer – FOGO – o elemento associado ao desejo e aos objetivos, à vontade;

5, O que não percebe – ÁGUA – o elemento Água reflete os mistérios do nosso inconsciente, e o desconhecido em nossas vidas;de certa forma, é uma oitava superior da posição 2, a raiz das emoções, das motivações.

6, Como agir – AR – pelo aspecto mais racional e imparcial dessa posição.

Exemplo de leitura

Tiragem desejo verdadeiro, consulta RosanaVamos agora usar uma leitura para colocar em prática as associações elementais das posições. A leitura que usarei como exemplo a seguir foi feita para uma garota, sobre seu namoro. Rosana e Renato estão passando por um momento bastante difícil em seu relacionamento, a ponto de a moça não estar mais certa dos motivos que a fazem continuar no relacionamento. Basicamente, Rosana não sabe se seus sentimentos são verdadeiros ou se só está persistindo num sonho, iludindo-se. As cartas retiradas foram –

1 – O Sol

2 – A Justiça

3 – O Diabo

4 – Oito de Copas

5 – Ás de Paus

6 – Quatro de Espadas

De maneira sucinta, vemos que a consulente acabou de perceber a sua situação de uma maneira nova, que a faz ver as coisas muito mais claramente, o que a deixa sentindo-se mais segura. Emocionalmente, Rosana está sendo imparcial, fria e objetiva. Ela de fato pesa e compara, julga o valor de seus sentimentos, avalia-os e verifica a sua real significância. A Justiça é uma carta um pouco fria demais para figurar na posição dos sentimentos. Por outro lado, mentalmente não poderia estar pior – focada demais na situação, ela não pensa em outra coisa, pendendo para a obsessão. O Diabo mostra que, além disso, Rosana só percebe o lado ruim da situação, e não consegue ver muito além do óbvio. Cabeça fechada, obstinada e teimosa, propensa a desentendimentos violentos. Seu desejo mais profundo é deixar essa situação para trás, afastar-se mesmo dela, fugir. A carta Oito de Copas indica desgaste emocional e falta de esperança. No entanto, Rosana não percebe que essa situação, aparentemente já bastante desgastada, esconde oportunidades de novos começos e expansão. O Ás de Paus mostra que a situação guarda uma energia muito intensa de criatividade, que Rosana pode usar para explorar novas possibilidades emocionais em sua vida – não necessariamente com outras pessoas. O conselho do Tarot é que ela se permita um tempo para pensar sobre tudo. O Quatro de Espadas pede silêncio e paz, um momento de descanso e restabelecimento da razão. Ela precisa de um momento longe de tudo para que possa respirar e enxergar seus próprios sentimentos de maneira mais sensata.

Agora, para verificarmos como cada carta reage à posição onde se encontra, combinamos seu elemento com o elemento da posição.

Posição 1, Terra+Fogo – Combinação neutra. Aqui, o Fogo tem suporte para queimar e manter-se ativo. A Terra, a matéria, oferece uma estrutura para que o Fogo se manifeste. No entanto, os dois elementos não enfraquecem nem fortalecem um ao outro, mantendo-se estáveis em sua intensidade. A atividade e energia do Fogo contrabalanceia a passividade e receptividade da Terra.

Posição 2, Água+Ar – Combinação neutra. Mesma coisa aqui; ambos os elementos mutáveis e flexíveis. O intelecto do ar contrabalanceia a emotividade da Água. Aqui, vemos mais uma vez a dicotomia entre intelecto e emoções, a intensidade da carta não se altera.

Posição 3, Ar+Terra – Combinação negativa. Num domicílio regido pelo Ar, a carta de Terra perde sua força, ou seja, seu impacto deixa de ser tão grande quanto poderia ser. Isso indica que a falta de clareza mental e a obsessão representadas pela carta 15 podem ser combatidas facilmente.

Posição 4, Fogo+Água – Combinação negativa. Mais uma vez, o elemento da posição anula a força do elemento da carta. Ela quer deixá-lo, mas essa vontade não é suficientemente forte para que seja posta em prática.

Posição 5, Água+Fogo – Combinação negativa. As oportunidades indicadas pelo Ás não são tão grandiosas e tendem a sumir no ar.

Posição 6, Ar+Ar – Combinação positiva. Depois de tantas cartas enfraquecidas ou neutras, a posição 6 praticamente domina a jogada, sendo a única a exibir uma combinação positiva. Aqui, a força do conselho da leitura recebe um destaque maior. O Tarot parece estar indicando que, com um pouco de tempo e descanso do desgaste da situação, a consulente vai ter mais capacidade de entender melhor o que está acontecendo e, consequentemente, fazer uma decisão mais acertada.

Podemos notar que as associações elementais podem mudar bastante o sentido da consulta. Abaixo, uma interpretação da leitura à luz das confrontações elementais –

Vendo as coisas de uma maneira mais clara e ojetiva, Rosana agora avalia o real valor de seus sentimentos, pesando os prós e os contras de seu amor. A garota está um pouco fixada demais nesse assunto, e não consegue desvenciliar-se dele, mas combate isso procurando ser sensata focando-se em si mesma, e em suas próprias necessidades. Apesar de sentir uma vontade intensa de deixar tudo para trás e sair da situação, Rosana não tem forças suficientes para fazer isso, por enquanto. Seu desejo profundo está sufocado e enfraquecido no momento. Tal situação esconde oportunidades de expansão que, apesar de efêmeras, podem ser boas se aproveitadas no momento. Tudo que Rosana deve fazer é dar um tempo da situação e ficar algum tempo sozinha para pensar e examinar mais a fundo suas motivações, sem interferências para distraí-la. Dessa forma, Rosana poderá recobrar sua vitalidade e será mais capaz de tomar decisões acertadas.

Explicação das cores

As cores de cada casa correspondem ao elemento a ela associado – Laranja para Terra, Roxo para Água, Vermelho vivo para o Fogo e Verde claro para o Ar; eu considero as casas 5 e 6 como “oitavas superiores” das casas 2 e 3, então as colori com variações de matiz de roxo e verde (no caso, azul-escuro arroxeado e amarelo-esverdeado). As associações de cores com os elementos baseiam-se nos Tattwas da doutrina indiana.

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