Descobrindo o Tarot

setembro 25, 2011

LEITURA: 6 CARTAS PARA UMA ESCOLHA

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outubro 13, 2010

UPDATES DE SIGNIFICADO 3 – Três de Pentáculos, Quatro de Copas, Quick Cut Exemplos

Duas cartas que me chamaram a atenção em leituras recentes, e cujo significado tomou cores novas, em consequência de seu papel em tais leituras. Já digo logo no começo – podcast AQUI.

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QUATRO DE COPAS………………..No RWS, essa carta fala basicamente de enfado, enjoo de uma coisa. Olhe para a imagem – o rapaz senta-se recostado na árvore, braços cruzados, expressão de descontentamento. Ele claramente não está satisfeito. Sua aparente falta de satisfação contrasta com a profusão de copas enormes logo em sua frente. Ainda que tem muito, ele não tem nada, pois é a insatisfação em pessoa. Observe também a mão mágica saindo de uma nuvenzinha, oferecendo-lhe um novo tipo de bebida – que ele, no entanto, mal parece perceber. Sobre essa carta, Waite diz –

Cansaço, desgosto, aversão, aborrecimentos imaginários, como se o vinho desse mundo só tivesse causado saciedade; outro vinho, como um presente mágico, é agora oferecido ao perdulário, mas ele vê aí consolo algum. Esta é também uma carta de prazer atenuado.

A ideia central da descrição de Waite parece ser a de repulsa por excesso – é o que ele sugere com a comparação do vinho do mundo causando saciedade. É interessante a gente checar os significados atribuídos a essa mesma carta por Etteilla – –

Cansaço, desgosto, descontentamento, repulsa, aversão, inimizade, ódio, horror, angústia, sofrimento mental, desânimo brando, aborrecimento doloroso, irritante, desagradável, desaventurado, incômodo.

Ainda que mais dramática, a ideia de Etteilla é a mesma – e fica claro aqui como que Waite se baseou em Etteilla na conceitualização dessa carta. Mesmo assim, eu não iria tão longe quanto Etteilla ao considerar os significados. A visão de Waite sobre ela parece ter girado mais em torno do enfastio e do desânimo brando. A última sentença da descrição de Waite, aliás, repete a definição da Golden Dawn, que chama essa carta de “Senhor do Prazer Atenuado” (‘Lord of the Blended Pleasure’).

Em uma leitura recente, essa carta apareceu para indicar justamente que a consulente estava cansada, enjoada de certa situação com uma pessoa, e que, por mais que ela gostasse dessa determinada pessoa, o aborrecimento geral da situação já não mais lhe palpitava. O sentimento estava já enchendo o saco.

O Quatro de Copas é basicamente a carta do saco cheio. Irritação, descontentamento e aversão – ou mesmo repulsa, dependendo da dignidade.

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“O Vinho do Mundo”…………………Uma coisa em particular me chamou a atenção na descrição de Waite para o Quatro de Copas – a metáfora do vinho desse mundo versus outro vinho (wine of this world, another wine). Sabemos que Waite era um profundo conhecedor do simbolismo cristão – de fato, Waite nunca deixou de considerar-se católico. O vinho é um símbolo muito usado no texto bíblico, e recebe uma série de significados ao longo dos livros da Bíblia. Essa expressão em particular, “o vinho do mundo”, é usada até hoje.

“E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissipação, mas enchei-vos do Espírito” (Efésios 5:18)

A Bíblia fala de dois tipos de vinho – o vinho do mundo, e o vinho do Espírito. O primeiro pode ser lido como uma metáfora para as coisas do mundo, que nos “embriagam” e nos conduzem à perdição – os desejos da carne, cuja satisfação traz falsa saciedade. O segundo é a fonte da verdadeira satisfação, o vinho que nos “embriaga” com a Graça divina – o próprio sangue de Cristo, de certa forma. Assim, podemos ler o trecho acima como uma admoestação para que não nos entreguemos aos prazeres falsos da carne, mas à real satisfação da Graça do Espírito.

Na imagem, as três taças diante do personagem são uma referência a esse “vinho do mundo”, o qual ele já bebeu, pois as taças encontram-se vazias. Com efeito, na carta anterior, o Três de Copas, vemos a própria embriaguez com os prazeres da vida, em uma celebração dionisíaca. A quarta taça, saída das nuvens como que por pura mágica (muito semelhante ao próprio Ás de Copas, a propósito), pode ser vista como o vinho do Espírito, a verdadeira saciedade, a felicidade real. Essa semelhança da quarta taça com o Ás de Copas é interessante, pois esse ás exibe a pomba e a hóstia em sua carta, de modo que podemos compará-lo à própria Graça do Espírito Santo. Após ter bebido do vinho do mundo e se saciado, o personagem do Quatro de Copas não consegue ver consolo no vinho do Espíritoa fairy gift como o chama Waite, fairy, que também significa “fada”, dando assim ideia de encanto sobrenatural, divino. Perceba aqui a semelhança da temática do Quatro de Copas, à luz dessa breve análise pictórica, às temáticas do Sete e do Oito de Copas, que também tratam dessa relação do indivíduo com os prazeres da carne, e os assim chamados reais prazeres do espírito.

A imagem do Quatro de Copas parece, portanto, brincar com esse simbolismo do vinho como a saciedade, ou como o preenchimento, a satisfação que nos embriaga. Mais uma vez, o teor primariamente mnemônico do simbolismo, intenção inicial do emprego de imagens nas cartas menores do RWS, parece ter sido excedido por um caráter mais profundo nesse simbolismo, onde vemos sendo posta em discussão a própria temática da real felicidade. Trocando em miúdos – temos aí mais uma evidência de que, embora a ideia inicial fosse apenas incluir desenhos nas imagens das cartas menores para facilitar a lembrança de seu significado, Pamela parece ter inserido um simbolismo mais complexo e rico nas imagens.

Agora, compare esses dois tipos de saciedade - a do Quatro de Copas e o do Nove de Copas. Em que elas são diferentes? A postura das duas figuras é até semelhante. Interessante - para tornar-se 9, o 4 precisa do 5 😉

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TRÊS DE PENTÁCULOS…………………Embora isso não seja muito mencionado por aí, a julgar pelo livro The Pictorial Key to the Tarot, a sequência dos Arcanos Menores do RWS não conta de forma crescente (Ás – Rei), mas decrescente (Rei-Ás). Isso significa que, se é verdade que cada naipe incorpora uma narrativa, tal narrativa é verificada quando olhamos o Dez como primeiro capítulo, e o Dois como o último (ases são outra história). Isso passa a fazer mais sentido quando consideramos as relações do RWS com a Cabala – todos os quatro Dez são relacionados à décima sephirah, Malkuth. Essa sephirah representa o nosso mundo manifestado, a nossa existência física, que na Cabala é vista como meramente o último estágio no processo de manifestação. Se Malkuth é o último estágio para Deus, é o primeiro para os homens – nossa existência material é o ponto de partida para nossa ascensão rumo justamente a Deus. Logo, a ideia por trás da sequência decrescente dos naipes seja talvez a de expressar a ascensão da consciência em cada plano. Sobre isso é interessante notar que o próprio sistema de graus da Golden Dawn consistia em uma alusão à sequência das sephirot da Árvore da Vida cabalística, de forma decrescente – o estudante iniciava sua trajetória na ordem como 0=0, depois partia para 1=10 (Malkuth), 2=9 (Yesod), e assim por diante, até atingir o grau mais alto, 10=1, Kether. Nesse sentido, no naipe de Espadas, por exemplo, o indivíduo passaria da total ruína do Dez de Espadas, para a conciliação do Dois de Espadas. O sol nascente do Dez então passa até a fazer mais sentido.

Enfim, eu começo falando de tudo isso porque a descrição de Waite para o Três de Pentáculos é uma boa evidência dessa ordem, que aliás é a ordem que as cartas são apresentadas no livro. Abaixo, um trecho da descrição – –

(…) Compare-se com o desenho que ilustra o Oito de Pentáculos. O aprendiz ou amador de lá recebeu sua recompensa e agora trabalha com empenho.

Tal afirmação é o suficiente para ligarmos essa carta ao Oito de Pentáculos, que realmente retrata o aprendiz, que agora se tornou um profissional célebre. Observe que, exceto pelas cores, as roupas dos dois personagens é idêntica – ele até aparece com a mesma mesa nas duas cartas, sentado em uma e de pé na outra. Seus discos, que antes se pareciam com objetos feitos em série para treinamento, no Três são vistos esculpidos em pedra na própria parede, parte da decoração – seu trabalho se condensou, tomou corpo definido e definitivo. Também, seu trabalho não é feito sozinho agora, mas é parte do contexto de um trabalho maior, feito em equipe, como a presença dos outros dois tipos de profissionais atesta.

Vista sob o contexto dessa narrativa, a imagem do Três de Pentáculos parece dar corpo também ao significado menos conhecido para essa carta – além de habilidade profissional e competência, essa carta também indica glória e sucesso em uma determinada atividade. Waite faz questão de salientar isso, quando menciona que, apesar de o Três de Pentáculos ser visto como “profissão e trabalho especializado“, ele é, contudo, “comumente visto como uma carta de nobreza, aristocracia, renome e glória“. Com essa ressalva, Waite mais uma vez veladamente se refere a Etteilla, que enche a folha para essa carta com elogios da mais alta categoria, tais como fama, esplendor, celebridade e magnificência.

Prá resumir – Três de Pentáculos = sucesso profissional. Dependendo das cartas, pode falar de reconhecimento, grande habilidade, destreza em nível profissonal, renome e fama decorrentes dessa habilidade.

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EXEMPLOS DE QUICK CUTS………………..Faz alguns dias falei sobre esse método de tiragem muito legal que condensa, num só movimento, o corte e a disposição das cartas. Andei colocando-o em prática, e aqui vão alguns exemplos de quick cuts que fiz ultimamente – –

Tá se perguntando o que essa imagem tem a ver com o texto? NADA, nada a ver, rsrsrs.


Quick cut sobre a vida amorosa de consulente que se encontra entre uma pessoa de quem ela gosta muito, mas com quem tem um relacionamento frustrado, e outra pessoa que a aprecia muito, mas de quem ela não gosta tanto (caso clássico, rs).

Nove de Espadas + Dois de Pentáculos – apesar do estado interno de angústia e desespero, a consulente busca agir e lidar com o conflito de uma forma prática. O Dois de Pentáculos nos oferece uma ótima ilustração das duas opções, sendo equilibradas com habilidade pelo malabarista.

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Consulente deseja saber se vai obter sucesso em sua corrente atividade.

Três de Pentáculos + Três de Copas – duas vezes o número três deve significar algo. O 3 é um número de muita abundância e sucesso, então isso em si já é um primeiro sinal de que o consulente terá seus esforços reconhecidos. A primeira carta da a resposta, a segunda fornece um complemento. O Três de Pentáculos, como eu já disse, fala justamente de reconhecimento profissional e sucesso; o Três de Copas só reforça essa ideia, e a tempera com cores alegres e leves. Em ambas as cartas temos também o elemento externo nas outras pessoas – esse sucesso não vem sem a participação de amigos e auxiliares.

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Consulente deseja saber como foi, para a outra pessoa, a conversa que tiveram recentemente.

Nove de Espadas + Diabo – a outra pessoa não se sentiu nem um pouco confortável. A conversa foi um terror, e deixou a pessoa arrasada por dentro. Ainda assim, por fora ela manteve as aparências. O Diabo como carta externa indica uma postura de domínio, autoridade e poder. Resumindo – a pessoa se gabou até dizer chega, puxou sardinha pra si o tempo todo, se manteve soberba, mas isso tudo foi só um expediente para esconder seu total desespero e vulnerabilidade emocional.

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SOM

O som pro podcast de hoje, mais uma vez, girou em torno do house e disco. Confira abaixo o set em detalhe – –

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O podcast já abre no clima com CLEO & PATRA, badalando com Marcus Antonius on the Run, do EP On the Nile.

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Em sequência, Untitled Love, de STILL GOING, mais uma de um EP, Spaghetti Circus/Untitled Love.

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You’ve Got Me Runnin’ é cantada por LENNY WILLIAMS, e integra o set do album Spark of Love, de 1978. Essa faixa é a base pro remix de Marcus Antonius on the Run, que abriu o podcast.

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A gente segue com HOT TODDY, Flotation Tank, do album super legal Late Night Boogie.

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Finalizando com They Call It Edit (LTJ Rework Edit), faixa composta por, IT’S A SMALL WORLD DISCO.

maio 9, 2010

Jogadas com Três Cartas

Filed under: Disposições — Tags:, — Leonardo Dias @ 6:56 PM

Tiragens de três cartas! Quem é que estuda Tarot e nunca aprendeu leituras com três cartas? Eu mesmo sempre gostei delas, particularmente por sua simplicidade. Pensando nisso, decidi pesquisar um pouco e listar aqui algumas das diversas maneiras de se ler com três cartas, e é isso que vamos ver hoje.

Esquemas de tiragem com três cartas são provavelmente os mais populares entre aqueles que praticam cartomancia. Tiragens de três são simples e flexíveis, ao mesmo tempo em que abrem espaço para ampla interpretação. É o número de cartas ideal para se ter uma leitura consistente, concisa e enriquecedora. Talvez a raiz para o seu sucesso esteja mesmo no número de elementos empregados. Não é nem demais, nem de menos. Analisar uma questão com uma única carta oferece pouca possibilidade de expansão; a adição de uma segunda carta ajuda, mas forma-se certa tensão entre as duas; uma terceira carta remedia tal tensão, substituindo-a por uma interação dinâmica.

Abaixo, listo alguns dos mais interessantes métodos de leitura com três cartas que conheço. Alguns deles já uso há algum tempo, enquanto que outros, descobri com a pesquisa para o post. Sempre que possível, darei exemplos simples para ilustrar seu funcionamento. Aproveitarei os exemplos para também falar sobre as várias formas possíveis de se lerem as cartas.

Dicas

  • Há certamente várias formas de se sortearem as cartas para a leitura. Uma que eu acho especialmente interessante – e rápida – consiste em cortar o maço em três montes (um saindo do outro) e abrir a primeira carta de cada monte. Essas cartas serão, então, as cartas sorteadas.
  • Uma coisa importante – o sucesso de uma leitura depende da clareza das atribuições que cada posição recebe. Não abra as cartas antes de estar certo que entendeu bem isso. Quanto mais isso for definido, mais facilmente você será capaz de identificar a resposta.

Agora, as disposições –


1+2, minha disposição de três cartas pessoal

Usos

  • Respostas rápidas para perguntas simples;
  • Bom método para leitura livre sobre um assunto;
  • Abrir consultas;
  • Exercitar livre associação com as cartas.

Criei esse layout a partir da leitura com uma única carta. Ao longo do tempo, comecei a acrescentar mais duas cartas à leitura de uma só carta, para obter informações complementares – daí o nome “1+2”. No layout, duas cartas são posicionadas logo abaixo da primeira, uma de cada lado, formando um triângulo. As posições não têm funções ou atribuições muito definidas.

A primeira carta é a principal, basicamente responde a questão. As duas cartas restantes são secundárias, fornecendo informações extras para a resposta da primeira. Frequentemente é percebido que se forma certa oposição entre as duas cartas secundárias, ainda que essa não tenha sido minha intenção inicial. Ambas podem vir a indicar aspectos favoráveis e desfavoráveis de uma questão, ou fatores que ajudam versus fatores que dificultam. Porém, não há nada como uma posição de “recursos” e outra de “desafios”; quando essa tensão surgir, vai ser natural, e você vai perceber. É também bom lembrar que elementos opostos são também complementares – duas cartas opostas podem indicar não problemas, mas oportunidades de conciliação.

Exemplo prático

Tirei três cartas no meu layout 1+2 para verificar as possibilidades de resultado em um estudo ao qual tenho pensado em dedicar mais atenção.

CartasÁs de Ouros + O Mundo e Nove de Espadas

O Ás de Ouros indica realmente o inicio de um novo projeto, a materialização de algo em seu estágio inicial – como o broto de uma flor. Existe aqui toda força e potencial de realização necessários. A situação é estável, as bases são sólidas, e os meios para se obterem resultados estão à mão. Ele, em si, já dá a resposta – resultados são possíveis, e mesmo esperados. O Mundo reforça a indicação de disponibilidade de recursos em profusão, e da consistência das bases – o conhecimento adquirido anteriormente é sólido. As duas cartas (Ás de Ouros + O Mundo) também sugerem o fechamento de um ciclo e o começo de outro, como se esse projeto fosse um novo estágio do meu aprendizado, ao mesmo tempo realização e início. Enquanto isso, o Nove de Espadas, adverte para uma tendência a preocupação em demasia e ansiedade. A carta indica que esse novo projeto pode trazer alguma preocupação e stress, que vêm principalmente de uma postura que exige demais de si mesmo. O Nove de Espadas indica uma forte propensão à obsessão – ficar pensando incessantemente sobre um mesmo assunto.

Com efeito, forma-se aqui uma oposição entre as duas cartas secundárias. Enquanto o Mundo é a total abundância que transcende o ser/estar (sendo que essa abundância vem exatamente dessa transcendência), o Nove de Espadas é a crise existencialista que vem da falta – essa carta representa um processo de concentração intensa na ausência, na falta, naquilo que não existe. O Mundo, sendo um arcano maior, mostra uma força supra-pessoal, enquanto o Nove de Espadas representa uma postura pessoal ou uma situação. A propensão à ansiedade e ao stress desnecessário são minhas; a conclusão de um estágio são da minha vida – maiores que eu. Assim, num nível ainda mais profundo, uma carta realmente complementa a outra. Falando simplesmente, elas mostram que eu vivo um novo estágio dos meus estudos, onde disponho de todos os recursos para fazer um bom trabalho nesse projeto, que trará resultados concretos e crescimento; uma propensão a duvidar e exigir demais de si mesmo, focando-se na deficiência mais do que na vantagem, pode trazer a esse processo uma angústia desnecessária.

Uma outra interpretação das duas cartas secundárias seria a mensagem de que a ansiedade deve ser combatida com a graça e a espontaneidade do Mundo.


Passado/Presente/Futuro

Usos

  • Verificar o andamento de uma situação;
  • Obter uma compreensão maior do momento atual;
  • Revelar as causas de algo, e ver aonde isso vai dar.

Esse é, muito provavelmente, o layout de três cartas mais popular. Levando em conta que a visão corriqueira do tempo o divide nessas três partes, nada mais natural que uma leitura que consista em uma carta para cada “face” do tempo. De fato, essa disposição é ótima para examinar rapidamente uma situação, observando o fluir do tempo através dela. A função de cada posição é óbvia, mas é interessante também fazermos um exercício de expansão do significado dessas posições. O Passado guarda a causa, enquanto o Futuro é portador do fim, da resolução da situação. O presente é a chave e o elo que une ambos, causa e fim; híbrido e mutável, ele é simultaneamente conseqüência do passado e causa/raiz do futuro. Podemos fazer algo como –

1, Passado – a origem da situação, razões, motivações, raízes. O que motivou/ocasionou a situação atual? Quais são suas origens?

2 – Presente – como está, no que deram aquelas raízes e motivações. Aqui temos a indicação de como se encontra a situação. A partir daí, podemos tirar proveito dessa informação para orientarmos nossas ações de maneira adequada. O presente é o palco onde o ator age, é o palco da ação.

3 – Futuro – como a situação vai se desenvolver, como ela vai ficar, quais serão os resultados. O que o estado presente atual se tornará? Qual o próximo capítulo da trama?

Essa tiragem também pode ser uma ótima opção para um rápido exame da vida do consulente – para iniciar uma leitura, por exemplo. Poderíamos colocar mais uma carta sobre a carta do presente, para indicar a ação a ser tomada.


Situação/ação/resultado I

Essa disposição pode ser lida de duas formas. Essa primeira variação, mais analítica e descritiva, é indicada para examinar a participação do consulente em determinada situação, e o impacto que sobre ela têm suas ações. O papel do Tarot aqui é examinar como a ação do consulente afeta a situação que ele vivencia.

Posição I – a situação em questão;

Posição II – como o consulente age;

Posição III – o impacto, a consequência que sua atitude provoca na situação.


Exemplo

Martha está apaixonando-se por um rapaz comprometido, e vivencia um conflito entre seus desejos e suas noções de certo e errado.

Cartas: Ás de Ouros – Nove de Espadas – Ás de Copas

A situaçãoÁs de Ouros – Martha sente que esse rapaz é como uma joia preciosa encontrada por sorte – ele parece ser perfeito. Ela sabe que essa relação pode ser proveitosa e gratificante, e está de fato encantada pelo homem.

A atitude (como a consulente lida com o fato indicado na posição um, e como ela age/reage a isso)Nove de Espadas
– Preocupação, angústia, stress – drama. Martha não consegue tirar esse assunto da cabeça, e isso está afetando sua vida demais. Essa situação pegou-a de surpresa e Martha sente-se vulnerável e fragilizada. Como na imagem da carta, é possível que Martha literalmente passe as noites em claro por causa disso. Apesar de parecer uma carta muito emocional, o Nove de Espadas retrata um conflito mental – nesse caso, o conflito moral que a garota vivencia; Martha sente-se em uma situação sem saída.

O resultadoÁs de Copas – o resultado desse comportamento de Martha é que seus sentimentos vão continuar aumentando. No drama em que vivencia, Martha só está, como na imagem da carta anterior, tapando seus olhos para a realidade. Enquanto se joga de um lado para o outro em seu desespero, a menina não percebe o fato de que está apaixonada.

Em suma, vemos aqui que, enquanto Martha se desespera, a vida acontece. Em vez de agir, Martha prefere entregar-se ao drama. Os ases são forças naturais intensas, e difíceis de controlar. Martha terá dificuldade em lidar com seus sentimentos e a situação justamente por se sentir tão fragilizada e incapaz de lidar com os problemas de maneira controlada. Nessa leitura, é importante perceber que a presença dos ases só indica potencial – nada aqui diz que Martha realmente vai ter uma relação boa com esse rapaz, ou que será feliz com ele. Isso dependerá de outros fatores, que a leitura não se presta a verificar.


Situação/ação/resultado II

Nessa segunda variação do método, o enfoque muda sensivelmente. De cunho mais orientador, essa jogada usa o Tarot mais como uma ferramenta de conselho. Eu não diria que esse método serve exatamente para responder a perguntas diretas, do tipo “Vou conseguir xx?”; essa tiragem funciona melhor quando você deseja saber qual a ação mais adequada a se tomar em uma situação.

Posição I – a situação em questão;

Posição II – como o consulente deve agir;

Posição III – a consequência de sua ação, ou em quê isso vai dar.


Exemplo II

Vamos usar o mesmo exemplo – Martha está apaixonando-se por um rapaz comprometido, e vivencia um conflito entre seus desejos e suas noções de certo e errado.

Cartas: Rainha de Ouros – Três de Ouros – O Carro

A situaçãoRainha de Ouros – na situação, Martha está mantendo seus pés no chão, esforçando-se para ser responsável e realista. A Rainha de Ouros indica uma atitude que valoriza a segurança e o que é garantido. Martha pensa antes de tomar uma decisão. Por outro lado, essa carta também indica segurança de si mesmo, ou seja, a garota não tem medo da situação. A Rainha de Ouros também sugere atratividade e beleza.

A ação – Três de Ouros longe de recriminar essa atitude, o Tarot parece incentivá-la. Prova disso é que ambas as cartas pertencem ao mesmo naipe, o que sugere que a atitude a ser tomada é uma questão de direcionar a energia da Rainha de Ouros de uma determinada maneira. Um fato interessante aqui é que tanto a Rainha quanto o Três de Ouros associam-se ao signo de Capricórnio, sendo que o Três de Ouros é Marte em Capricórnio. A ação aqui deve ser rápida e decisiva; Martha deve manter-se firme ao seu plano e continuar com os pés no chão. O Três de Ouros também fala sobre trabalho em grupo e ajuda dos outros. Falar com pessoas sobre isso pode ajudar – especialmente com profissionais, como terapeutas; mesmo uma simples conversa com um amigo pode ser positiva.

O resultado – O Carro – mantendo os pés no chão e sendo prática em relação aos seus sentimentos e à situação, Martha conseguirá adquirir maior controle sobre a situação, e sobre si mesma. O Carro mantém a temática da vaidade e do orgulho, deixando no ar que toda essa situação envaidece Martha. Sugerindo movimento, essa carta também poderia indicar que Martha vai superar essa situação e distanciar-se do homem.

Resumindo, Martha mantém uma postura realista e responsável sobre seus sentimentos pelo rapaz comprometido. O Tarot diz que essa atitude estrita e mesmo severa deve ser mantida. Assim, o controle sobre si mesma será estabelecido, e Martha sobrepujará os problemas.


Relacionamento

Usos

  • Analisar um relacionamento;
  • Responder a perguntas simples sobre um relacionamento;

Outro layout que eu inventei – se bem que, pela simplicidade, muitas outras pessoas devem ter tido essa mesma ideia antes de mim. A carta central, a principal, representa o relacionamento em si, e as duas laterais representam as duas partes da relação – ou seja, o casal. Logicamente, uma delas interpreta o consulente, e a outra seu parceiro. A relação entre cada uma das cartas secundárias com a carta principal vai indicar como cada parceiro lida com o relacionamento. A relação entre as duas cartas que representam o casal vai indicar a interação entre as duas pessoas, qual a dinâmica do relacionamento. Ao considerar a interação das duas cartas do casal, você pode atentar aos seguintes pontos –

  • Existe alguma tensão entre as cartas, ou elas se complementam?
  • As cartas pertencem a um mesmo naipe, ou a naipes diferentes? Se diferentes, qual a relação entre os naipes?
  • Alguma das duas cartas – ou as duas – é um arcano maior? Alguma carta é uma figura da corte?
  • Qual a relação elemental entre as cartas (amigável, neutra ou antagônica)?
  • Comparando as imagens nas duas cartas, você percebe alguma coisa que sugere uma relação simbólica? Veja os desenhos e tente criar uma historinha com eles.

    Dica
    Você pode estender essa jogada adicionando mais cartas para cada parceiro, com temas como “as expectativas da cada um”, “pontos fortes/fracos”, etc. Só certifique-se de incluir o mesmo número de cartas para os dois lados. A mesma coisa pode ser feita com a carta central – você decide o que pode ser mais relevante saber.

Vamos a um exemplo prático nessa leitura hipotética que fiz. Entre as cartas secundárias, a da esquerda representa o consulente, e a da direita, seu parceiro. [para os menos pacientes, os dois parágrafos seguintes serão suficientes; os parágrafos posteriores são mais especulativos]

Na leitura, os dois parceiros passam por um momento de poderosa transformação pessoal, que os leva a uma consciência nova sobre o relacionamento entre eles. A coisa ficou mais séria, um novo passo está prestes a ser dado, e ambos os parceiros vislumbram novos horizontes para sua relação.

A princípio, o relacionamento entre essas duas pessoas é estável e feliz; a maioria das pessoas concorda que o Dez de Copas é a carta ideal para questões sobre amor. A presença de duas cartas tão significativas para os parceiros indica que ambos passam por um momento decisivo tanto na relação quanto pessoalmente. Ambos podem estar considerando dar um passo maior no relacionamento – um casamento, ou mesmo morarem juntos. A sensação aqui é a de que os dois parceiros percebem que é preciso mudar. Para o consulente, a mudança vem mais como um despertar, ou uma renovação da forma que ele enxerga as coisas; para seu parceiro as mudanças são mais súbitas e menos subjetivas.

Entre as duas cartas dos parceiros, existem tanto coisas em comum quanto pontos de oposição:

  • As duas cartas retratam processos de transformação profunda. O Julgamento e a Morte ligam-se perfeitamente – no arcano 13 acontece a morte, o desfalecer, enquanto que o arcano 20 marca o renascimento, a ressurreição;
  • Ambas as cartas associam-se astrologicamente também, já que o Julgamento é regido por Plutão, e a Morte está ligada ao signo de Escorpião (Plutão é o planeta regente de Escorpião). Isso evidencia uma forte presença da energia profundamente transformadora de Plutão e Escorpião;
  • Elementalmente, existe certa oposição entre as duas cartas, pois a Morte pertence ao elemento Água (devido à sua associação com Escorpião), enquanto o Julgamento está associado ao Fogo (Plutão). Nesse sentido, uma carta enfraquece a outra. Apesar de os dois parceiros estarem encarando transformações pessoais, existe certo conflito entre eles. O consulente está mais entusiasmado, e seu parceiro esboça um pouco de medo e hesitação;
  • De fato, as duas cartas se opõem no sentido de que uma é o fim, a morte, enquanto outra é o recomeço, o renascimento, a nova vida. De acordo com isso, podemos auferir que, enquanto o consulente passa por um momento de renovação, e percebe novos horizontes no relacionamento, seu parceiro encara o fim de uma vida e o começo de outra, de maneira mesmo um pouco traumática.

Entretanto, é imageticamente que as três cartas da leitura exibem as relações mais curiosas. Podemos começar com o fato de que as três cartas exibem figuras humanas que, de alguma forma, sugerem alguma estrutura familiar – o casal e as crianças no Dez de Copas; o homem, a mulher e a criança no Julgamento; e a mulher, a criança e o rei na Morte. Similarmente, nas três cartas, todas as figuras direcionam sua atenção a uma entidade sobrenatural de presença numinosa – o anjo com cabelos de fogo no Julgamento, o cavaleiro da morte na carta 13, e o arco-íris com as taças no Dez de Copas. Todas as três entidades possuem traços e atributos que as associam à figura do mensageiro – tanto o anjo quanto o cavaleiro portam bandeiras, símbolos de mensagens; anjos sempre são vistos como mensageiros de Deus; a figura da Morte montada em um cavalo dá essa mesma impressão. O arco-íris, presente no Dez de Copas, carrega essa mesma conotação de ligação entre o céu e a terra. Na mitologia grega, Íris é a mensageira dos deuses, que viaja tão rápido quanto o vento. Seu voo no céu deixa um rastro colorido no céu – daí a palavra arco-íris, o arco de Íris. Todos esses sinais apontam para a ideia de que o casal vivencia um momento de despertar. A presença de figuras grupais podem indicar tanto que esse despertar é integral, quanto inserir um elemento social na questão.


O Semáforo

Essa é uma das tiragens mais legais que eu descobri recentemente. Encontrei-a no forum de Tarot do Aeclectic.net. Sua estrutura é bem simples e direta, o que a torna ideal para consultas rápidas. Mesmo assim, como todas as jogadas de três, o valor de suas posições pode ser expandido se quisermos investigar mais a fundo a jogada. As denominações das posições são descritas abaixo –

Posição I – Sinal Vermelho – Não faça isso – atitudes, ações ou pessoas que devem ser evitadas; coisas que podem prejudicar ou atrapalhar; perigos e ameaças;

Posição II – Sinal Verde – Vá em frente e faça isso – o caminho a seguir, a coisa mais adequada a fazer, as portas que estão abertas para você;

Posição III – Sinal amarelo – Atenção, cuidado, ou esteja consciente disso – coisas das quais você precisa estar consciente ou tomar cuidado, prestar a atenção; coisas que você não tem muito conhecimento, ou não tem considerado o suficiente.

Embora seja possível analisar qualquer tipo de questão com essa disposição, ela funciona melhor com perguntas abertas. A terceira posição dessa tiragem recebe destaque extra por ser mais neutra. A informação que ela oferece pode ser usada como referência para as outras duas posições. Isso quer dizer que você pode confrontar as cartas das posições 1 e 2 com a da posição três, exatamente para saber o que manter em mente enquanto não fazer isso e fazer aquilo.

Exemplo

Consulente deseja saber sobre seus planos de lançar-se num novo projeto. [Observe como a pergunta não questiona sobre algo específico, ela apenas lança o tema da leitura, que é o novo projeto do consulente]

Cartas – Oito de Ouros – Rainha de Paus – Seis de Ouros

O consulente deve evitar ser muito meticuloso e metódico; em vez disso, deve confiar em si mesmo e manter uma atitude direta e ousada. A oposição entre o Oito de Ouros e a Rainha de Paus (o aprendiz versus a soberana) indica que o consulente não precisa ter medo de errar ou de acreditar em sua própria verdade, seguir sua intuição. A Rainha de Paus também fala sobre uma necessidade de afirmar-se e impor mais suas opiniões. Além disso, o consulente deve estar consciente do constante câmbio de valores indicado pelo Seis de Ouros. Ele tem muito a ensinar e a aprender com esse projeto, e é uma via de mão dupla. Por fim, o Seis de Ouros pede equilíbrio e parcimônia, tanto no dar quanto no receber; as medidas exatas devem ser mantidas para que haja um equilíbrio. O que o consulente não percebe é o potencial de troca, intercâmbio que esse novo projeto oferece.

Como eu disse, as duas primeiras cartas podem ser lastreadas pela segunda. No exemplo, o Seis de Ouros serve como perfeito ponto de equilíbrio entre a meticulosidade e a cautela do Oito de Ouros, e o idealismo passional da Rainha de Paus. A Rainha de Paus pode ser muito egocêntrica, e o Seis de Ouros a lembra de pensar nos outros também.


Escolha entre duas alternativas

Você pode usar essa tiragem para jogar luz em uma situação onde é preciso escolher entre duas coisas, dois caminhos, ou duas opções diferentes. A tiragem começa analisando o próprio consulente, e depois apresenta as alternativas –

Posição I – O Eu – o indivíduo como sujeito da situação: seus desejos, o que ele realmente quer, como ele está diante da escolha que deve fazer.

Posições II e III – As alternativas – as duas alternativas diante das quais o sujeito se encontra. As cartas revelarão o caráter de cada alternativa, ou seja, o que cada uma representa para o consulente e o que cada uma lhe oferece.

A melhor alternativa pode ser verificada por meio das possíveis afinidades que surgirão entre cada uma das cartas das escolhas e a carta do consulente. Caso a resposta não fique clara com as três cartas, uma quarta pode ser posta cruzada sobre a primeira carta para indicar o que o consulente deve fazer.

Essa jogada, claro, também pode ser usada em situações onde o consulente se vê em dúvida entre duas possibilidades de relacionamento, ou dois parceiros românticos.

Exemplo

Jocasta está prestes a comprar uma nova casa, porém está em dúvida entre dois imóveis que lhe agradaram muito. Agora ela só precisa escolher entre as duas para começar a dar andamento ao processo de compra. [tiragem hipotética]

CartasA consulente – Quatro de Espadas; Alternativa A – Rainha de Copas; Alternativa B – O Diabo.

O que Jocasta realmente quer é tranqüilidade. O Quatro de Espadas indica que ela busca por um lugar onde pode descansar e sentir-se longe de preocupações. Essa carta também indica que a consulente analisa e pesa os prós e os contras de cada opção. Na segunda posição, a primeira casa parece ser mais tranquila, como Jocasta quer. A Rainha de Copas, regida por Câncer, realça justamente a ideia de lar, paz e proteção. Enquanto isso, o Diabo na segunda posição sugere que o maior apelo que a segunda casa tem sobre Jocasta está relacionado ao status que ela pode conferir-lhe. A casa pode ser mais moderna ou mais bonita, pode parecer mais cara ou ser mais impressionante. O que mais conta aqui é a aparência, o status. Jocasta pode estar sentindo-se atraída por essa casa por motivos mais egoístas, de valor mais efêmero. Examinando as três cartas, percebemos que a primeira casa é a melhor escolha.

Na figura ao lado temos a representação da tiragem de acordo com os elementos a que pertence cada carta. A segunda posição, Água, harmoniza-se bem melhor com a primeira, Ar, do que a segunda, Terra.


Um exemplo de leitura diária com três cartas

Fonte – TarotTeachings.com

Aqui vai um bom exemplo de como você pode usar uma tiragem de três cartas em leituras diárias. A prática de leituras diárias é frequentemente sugerida para quem está começando a estudar o Tarot, e pode realmente ser bastante benéfica. Praticando diariamente, você tem a oportunidade de estreitar seus laços com o Tarot, exercitar combinações de cartas, com a prerrogativa de ter o resultado real na sua frente, no final do dia.

Posição IVocê – como você está, suas disposições, sua situação atual;

Posição IIAs influências do dia – o que esse dia lhe reserva, que acontecimentos esperam por você nesse dia.

Posição III – Resultado – como você vai lidar com as influências do dia, como isso vai ser.

A posição III é chave por ilustrar o produto da combinação das duas posições anteriores. É como a quintessência da disposição, pois descreve a ação em si. A posição III pode também dar ideias sobre como lidar com as influências indicadas na posição anterior.


Exemplo

Cartas – Seis de Paus – Seis de Ouros – Julgamento

Posição I – momento de sucesso, realização pessoal, êxito. O consulente está seguro de si, e exibe algum orgulho e vaidade. Respeito e reconhecimento vindo das pessoas ao seu redor.

Posição II – troca, ajuda, generosidade, abundância. A coisa mais direta que essa carta sugere é transações financeiras – compra/venda, troca de dinheiro, empréstimos. Ela também pode mostrar ajuda generosa partindo de você ou chegando a você.

Posição III – renovação, revelação, renascimento, surpresas. Sempre que eu vejo essa carta eu penso numa folha em branco, novinha em folha, como se uma folha velha fosse jogada fora. A carta sugere transformações profundas, surpresas e novidades, acontecimentos inesperados que resolvem o quebra-cabeças.

As duas primeiras cartas se combinam, mostrando que a atitude otimista e segura do consulente terão eco no mundo externo: ambas as cartas ilustram figuras em posição superior. Levando em conta que a própria carta do consulente retrata-o numa posição acima, a carta seguinte mostra oportunidades que ele terá de beneficiar os outros com essa posição. O Julgamento indica surpresas a caminho – ele poderá perceber algo com isso, ou sentirá um chamado interior forte.


Equilíbrio Interior

Fonte: TarotTeachings.com

A disposição de que tratarei a seguir faz um grande uso da qualidade balanceadora do número 3, e tem como objetivo encontrar uma linha de equilíbrio entre as deficiências e potenciais do consulente. Ao executar essa leitura, procure manter o espaço livre para uma exploração ampla na resposta, já que a tiragem funciona melhor descrevendo temas gerais, em vez de questões específicas.

Posição I – Deficiências – suas fraquezas, falhas, áreas onde tem problemas, sentimentos/pensamentos que tem dificuldade em lidar;

Posição II – Forças – seu poder, coisas em que você é bom, suas capacidades, potenciais pessoais que podem ser usados ao seu favor;

Posição III – Orientação – como conciliar suas fraquezas e forças, o caminho do meio.

Exemplo

Lucas deseja saber sobre dinheiro. [pergunta real, nome fictício]

Cartas – I Sete de Copas; II Seis de Ouros; III Nove de Ouros.


Posição I Deficiências – Sete de Copas – essa carta na posição I indica basicamente que o consulente lida de forma literalmente libertina com seu dinheiro. O consulente usa seu dinheiro de forma mais espontânea, sem muito planejamento, para preencher seus desejos mais imediatos. Seu fluxo monetário é instável, e há aqui uma tendência considerável a gastar dinheiro com coisas que apelam mais aos sentidos e ao prazer do que a necessidades reais. Na mão de Lucas, o dinheiro não para muito – ele gasta logo, assim que recebe. Contextualizado dessa forma, o Sete de Copas também sugere uma relação superficial e viciosa com o dinheiro. Há uma forte ideia de que ele pode trazer a satisfação esperada, quando fica claro que isso não acontece, já que a busca por mais é incessante.

Posição II – Forças – Seis de Ouros – por outro lado, Lucas nunca realmente fica sem dinheiro. O Seis de Ouros é uma carta que fala muito de abundância e riqueza. O ponto forte de sua relação com o dinheiro tem a ver com a constante movimentação que Lucas mantém. O consulente não se importa em gastar com outras pessoas, tanto por diversão quanto quando elas precisam de alguma ajuda. Lucas realmente não vê o dinheiro como um fim, mas como um meio. Essa postura garante-lhe certa compensação financeira – de alguma forma, por mais que gaste, Lucas sempre tem.

Posição III – Orientação – Nove de Ouros – nesta posição, essa carta pede mais foco. O Nove de Ouros combina perfeitamente as das cartas anteriores. Na imagem, as uvas estão maduras no canteiro, prontas para serem colhidas – ainda existe o deleite do Sete de Copas (as uvas, o vinho dionisíaco que excita as sensações) mas esse é desfrutado na medida certa. Lucas deve cuidar para focar sua busca pelo prazer nos lugares e na medida certos. Essa carta também me sugeriu que o consulente deveria reconhecer melhor sua fortuna, e saber valorizá-la; isso em si já leva a um uso mais consciente do dinheiro. O prazer do Sete de Copas está presente na carta (uma rica dama desfrutando uma tarde nas vinhas de sua mansão), mas ele é vivenciado de forma mais refinada e madura. A orientação aqui é moderação, mais consciência, e mais pés no chão.


Leitura de três cartas de RedEarth

Fonte: TarotForum.net

Encontrei esse método em um fórum de Tarot online, exposto pelo usuário RedEarth, e achei incrível. Nas próprias palavras de RedEarth (não sei seu verdadeiro nome) é uma boa disposição para aqueles momentos em que você “está num estado tal que nem sabe o que perguntar, ou qual é a verdadeira questão”. Ainda de acordo com a autora, “O propósito por trás da leitura é esclarecer e ajudar a pessoa a superar seu estado de confusão (…) e confortá-la, mostrando que ela não se sentirá assim para sempre”.

As descrições abaixo são uma mistura de tradução e interpretação que eu fiz das descrições para cada posição feitas pela própria RedEarth. Pra quem quiser ver o tread na íntegra, seu link está aqui.

Posição IQual a verdadeira questão?Esta posição neutraliza a complicação de se ter várias possíveis questões problemáticas em uma situação, afirmando de maneira categórica e definitiva a real questão que deve ser considerada;

Posição IIO que eu preciso fazer? – Esta é a posição da ação, que mostra onde a energia deve ser direcionada. Sua função é te apresentar uma tarefa, algo que você pode fazer para sair do estado de confusão e sobrepujar seus problemas;

Posição IIIAonde isso tudo vai me levar? – A terceira posição fornece um senso de propósito, de razão, bem como aponta para a direção certa além de seus sentimentos imediatos.


Fast Solution – Solução Rápida

Fonte: TarotForum.net

Outra jogada ótima para quem não gosta de perder tempo; e também outra que eu achei no forum do Aeclectic.net. Segundo Kath, a usuária que postou o tread sobre essa (e outras) tiragem, o esquema foi tirado do livro Power Tarot, de Trish MacGregor, Phyllis Vega. As posições dispensam descrições –

Posição I – A natureza do problema

Posição II – A causa do problema

Posição III – A solução para o problema

Se você não distinguiu bem a diferença entre as duas primeiras posições, a posição I define em que consiste o problema; já a posição II mostra suas origens, o que o provoca. Essas duas informações, preciosíssimas, preparam o campo para o golpe final da solução, que pode ser interpretada tanto como um imperativo (um conselho, orientação) como uma mera indicação do caminho de saída da complicação.

Exemplo

Posição I – Ás de Ourosa natureza do problema é de ordem material. A carta pode apontar para uma dificuldade em dar corpo para alguma ideia, ou mesmo uma insuficiência de recursos para realizar algo.

Posição II – Roda da Fortuna
a julgar pelas duas cartas mencionadas, estamos diante de uma situação que envolve o início de algo. A Roda da Fortuna sugere que a causa do problema está justamente na mudança – ela pode ter sido brusca demais, por exemplo. A carta 10 também refere-se a intensa atividade, então sua presença poderia indicar também instabilidade.

Posição III – A Estrela
a solução para o problema está em refinar a visão, olhar mais alto. É importante que se tenha fé e confiança. A instabilidade, mencionada anteriormente, é aqui confirmada com mais uma carta de Ar, o que deixa o jogo com duas de Ar contra uma de Terra. Existe mesmo instabilidade e falta de chão, mas o consulente deve aproveitar isso para voar mais alto e ser mais livre e inovador.

dezembro 20, 2009

Sete de Copas (+SPR)

O tema de que trata a sétima carta do naipe de Copas é ilusão. No contexto do naipe, o Sete de Copas representa o lado enganador das emoções, particularmente quando ligadas a coisas materiais. A mensagem principal dessa carta é a de que, embora pareça genuína, a felicidade encontrada nas coisas mundanas revela-se passageira e vazia. Em sua raiz primária, a carta fala da força da imaginação, manifestada como fantasia. A seguir, analisaremos mais de perto os diversos aspectos e detalhes dessa carta, a fim de entendermos melhor o funcionamento de seu simbolismo.

Logo de cara, a atmosfera do Sete de Copas passa certa impressão de devaneio. A cena é esquisita – um homem de costas, vendo em sua frente um grupo de taças flutuando sobre nuvens densas. De cada taça sai uma coisa, cada uma parecendo chamar mais a atenção dele que as outras. De cima para baixo, vemos: uma cabeça, uma figura coberta por um véu, uma serpente, um castelo, um monte de joias, uma coroa de louros, e um dragão/monstro azul. As taças nas nuvens compõem o que parece ser uma visão que o homem, assombrado, presencia. Tal imagem pode ser vista como uma alegoria para a excitação das emoções e sentidos, que cria imagens tentadoras, dançando diante de nós.

No post sobre o Cinco de Copas, eu introduzi a ideia de que, nas cenas do Waite-Smith, a distribuição dos elementos pelos planos diz bastante sobre o que tais cenas representam. De modo geral, o primeiro plano mostra o tema principal de uma imagem, enquanto o segundo fornece complementos a esse tema. O Sete de Copas é um caso específico nesse sentido, pois o segundo plano chama mais a atenção e parece mais significativo que o primeiro. No primeiro plano temos apenas um homem, de costas, olhando para as taças. Sua postura sugere surpresa. Aparentemente, a visão emite luz forte, já que dele vemos apenas a sombra. É como se, diante de tal espetáculo, o homem fosse reduzido aos seus contornos – ofuscado, despersonalizado, eclipsado por suas visões. É curioso que a maioria das pessoas sequer dá atenção à figura obscurecida do primeiro plano, quando na verdade é ela que indica o tema principal da carta – a total absorção do indivíduo pelas ilusões do mundo. Talvez propositalmente, as taças atraem mais nossa atenção imediata – somos como o homem da carta, seduzidos pelo mistério das imagens. O baralho Light and Shadow, de Brian Williams & Michael Gopford, parece confirmar essa ideia de absorção do indivíduo. Seu Sete de Copas mostra a figura humana delineada somente com uma série de traços, cercada pelas taças, como se estivesse desintegrando-se (vide a seção de versões, logo abaixo).

As nuvens que dominam o segundo plano da carta evocam a presença do elemento Ar, o reino dos pensamentos e sonhos. Mutáveis e quase imateriais, nuvens sugerem confusão mental, falta de clareza e propensão ao engano. Juan Eduardo Cirlot, autor de A Dictionary of Symbols, cita Éliphas Lévi, dizendo que nuvens estão “(…) sempre em um estado de metamorfose, o que obscurece a qualidade imutável da verdade maior” (tradução minha). Na carta, atrás das nuvens com as taças há somente um azul estático e absoluto – a verdade maior de que fala Lévi. Outro aspecto do simbolismo das nuvens é sua conotação epifânica. Nesse sentido, nuvens simbolizam contato com o plano superior (celeste) dos deuses. Nas mitologias de várias culturas, temos exemplos de deuses aparecendo em meio a nuvens. Exemplos no próprio RWS incluem as cartas Os Enamorados e O Julgamento, nas quais anjos saem de nuvens, e os ases, onde os objetos de cada um dos naipes são segurados por mãos que saem de nuvens. Sob essa ótica, as taças nas nuvens podem ser vistas como “coisas de outro mundo”, manifestações vindas direto do plano espiritual ao plano material, onde está focada nossa consciência.

Há três taças em cima e quatro embaixo, sugerindo a trindade do espiritual sobre o quaternário da matéria. O triângulo sobre o quadrado é a representação geométrica do número 7. Com efeito, as três taças superiores ilustram conceitos abstratos, enquanto as inferiores representam coisas mais mundanas. Apesar de ser senso comum que os objetos da carta simbolizam tentações, o que eles representam precisamente é discutível, e varia de acordo com o ponto de vista. Seguindo o princípio do valor do conjunto sobre o valor de seus elementos constituintes, as sete taças devem ser vistas primeiro como um setenário, e só depois consideradas como símbolos separados. É certo que podem ser associadas aos setenários em geral, como os Sete Pecados Capitais, por exemplo. Curiosamente, os sete arcanos planetários podem ser comparadas aos objetos do Sete de Copas. Por exemplo, a torre pode ser comparada à própria torre da carta 16, que corresponde a Marte. A figura velada lembra a Sacerdotisa – a Lua; e a serpente, o cinto do Mago – Mercúrio. Assim, os objetos podem ser associados aos sete planetas do sistema astrológico caldeu – as três taças superiores ao Sol (rosto), Lua (figura velada) e Mercúrio (serpente); e as quatro inferiores a Marte (torre), Vênus (joias), Saturno (coroa de louros) e Júpiter (dragão/monstro). Ao lado, temos uma tentativa de associar cada objeto a um planeta, de acordo com suas comparações com os arcanos maiores planetários. A seguir, ofereço uma explicação mais detalhada sobre cada um dos objetos, com base na minha forma de ver e interpretar os símbolos. Embora possam ser levados em conta como verdadeiros no entendimento da carta, essas ideias não são a verdade absoluta sobre ela. Cada estudante tem o direito (e mesmo o dever) de interpretar os símbolos ao seu próprio modo (contanto que tenha conhecimento da tradição à qual eles pertencem). Esse, a meu ver, é o Tarot – como diz Cynthia Gilles, “O verdadeiro Tarot é o produto da busca de cada indivíduo para entendê-lo” –

A cabeça – De maneira geral, a cabeça evoca ideias de força de comando, centro e individualidade. O simbolismo da cabeça relaciona-se ao símbolo do uno, da individualidade, e do ego – a cabeça é a “morada do eu”. O Zohar associa a cabeça à Luz Astral. A noção de identidade baseia-se largamente na imagem do rosto, que por sinal é onde se encontra a maioria dos órgãos dos sentidos, nos quais nossa experiência de vida se constrói. A cabeça corresponde ao Sol, o centro, astrologicamente associado ao ego e ao uno. No sistema de correspondências cabalísticas da Golden Dawn, a carta 19, o Sol, corresponde à letra hebraica resh, . O alfabeto hebraico tem suas raízes no alfabeto fenício, onde a letra que veio a desenvolver-se na resh hebraica tem sua origem no hieróglifo egípcio de uma cabeça, , com som de tp (tabela abaixo). Além de seu significado óbvio, tal hieróglifo também significa sobre, em cima e chefe, comandante. A propósito, podemos ver o próprio rosto no sol na carta 19 como uma alegoria que ilustra a ideia do Sol como a cabeça, o centro. Por conseguinte, no contexto da carta Sete de Copas, a cabeça simboliza o ego, e relaciona-se ao intelecto, poder e autoridade, como também à vaidade. De maneira mais abstrata, a cabeça aqui se relaciona à consciência.


A serpente – A serpente é um símbolo antigo e polissêmico. Basicamente, o simbolismo da serpente relaciona-se à energia em si, pura força. A serpente está intimamente ligada à força ctônica – as forças subterrâneas, o inconsciente. Nesse sentido, podemos ver a serpente aqui como um símbolo da parte mais ancestral do homem – o instintivo, o incontrolado, o caótico, nossas emoções mais primárias. Um exemplo do aspecto ctônico do simbolismo da serpente está no conceito indiano da kundalini – a energia ígnea, em forma de serpente enrolada, que adormece entre o ânus e o órgão sexual. Dessa forma, a serpente também pode ser vista como a energia sexual, a libido. Combinando a cabeça e a serpente, temos na parte superior do grupo de taças a dicotomia mente/corpo, espírito/matéria, luz/trevas, consciência/inconsciência – a cabeça, a parte mais alta, e a serpente, animal rasteiro. Isso pode ser visto como uma alegoria de que tanto o mundo consciente quanto os impulsos instintivos são ilusórios. No contexto da carta, a serpente que sai da taça pode ser um indicativo de perigo e ameaça, como também de instinto, emoções primárias e impulso sexual, bem como energia e força vital.

A figura velada – entre a cabeça e a serpente está a imagem mais misteriosa da carta – uma figura humana coberta por um manto branco, de braços abertos e cercada por uma aura vermelha. Tal imagem pode ser vista como uma representação do desconhecido. Vários de seus traços – sua posição central, a aura que a cerca, sua aparência misteriosa – destacam-na das outras imagens, tornando plausível supor que ela tenha uma significância especial. Com efeito, ela parece representar o Grande Mistério que atrai o homem. Eden Gray, em seu livro Mastering the Tarot, descreve a figura velada em relação ao homem como sendo “(…) a sua própria divindade, esperando para ser descoberta”. Suas características viabilizam essa ideia. Ela está de braços abertos, em postura receptiva ao homem. Suas vestes são brancas, sugerindo espiritualidade e pureza. O vermelho, a cor do brilho que ela emite, relaciona-se com energia e poder. Um ponto importante dessa figura está exatamente em sua combinação branco/vermelho. Tal combinação é recorrente no Waite-Smith (ex. o Mago, a Temperança), tendo especial significância no simbolismo do baralho, basicamente relacionada à dualidade espírito/matéria, feminino/masculino. Nesse sentido, o branco relaciona-se à Lua, e o vermelho ao Sol. Velada, ela é comparável à Sacerdotisa, relacionada à Lua, podendo, portanto, ser vista como a própria Sabedoria, a própria Torah. De todas as imagens surgindo das taças, ela é a pura, a genuína – a realidade que se esconde por trás da cortina de fumaça do nosso mundo. Em uma palavra, ela representa o verdadeiro eu do homem, aguardando por ele no centro, em meio às ilusões materiais.

A Torre/castelo – “Megalomania, a busca selvagem por ideias fantasiosas e mesquinhez formam o contexto desse símbolo”, diz Oswald Wirth a respeito do simbolismo da torre. A fortaleza do Sete de Copas é grande, e está no alto de uma montanha. Isso pode ser interpretado como desejo por realização, o desejo de alcançar o céu. Note que a torre está logo abaixo da cabeça, o que pode simbolizar a manifestação do poder representado pela cabeça do plano espiritual no mundo material. A torre ou o castelo representam certo distanciamento da natureza – uma construção artificial, que pretende criar um mundo separado, e controlável. Alegoricamente, a torre pode ser um símbolo da mente e do ego, e da construção de um sistema de crenças forte e resistente, porém fechado e vulnerável. No Sete de Copas, ela pode indicar o desejo ou o sonho por poder, domínio e segurança. Diferente da torre da carta 16, essa torre está firme e sólida – são crenças e posturas estabelecidas e enraizadas.

As joias – o monte de joias dentro da taça forma o que parece ser um tesouro. Evidentemente, indica fortuna e luxo. Observe que de um dos lados da taça pende uma corrente, o que poderia ser uma sugestão dos grilhões da ganância. As joias indicam sonhos de riqueza e posse, como também cobiça.

A coroa de louros – a coroa de louros é um conhecido símbolo de vitória, que tem suas origens na Grécia Antiga. O louro é associado a Apollo, o deus grego do Sol e da luz. Por ser uma planta sempre verde, o louro simboliza imortalidade, não só na cultura grega. O próprio Apollo é um deus eternamente jovem. Na Grécia Antiga, e posteriormente em Roma, coroas de louros eram usadas para indicar grandeza intelectual e vitória em competições e em batalhas. Uma coisa interessante que podemos pensar sobre o simbolismo dessa figura na carta é que a vitória que ela representa também se relaciona a fama e celebridade. A fama é uma forma de perpetuação da existência, através da memória que deixamos para a posteridade. O desejo de celebridade representa, portanto, a necessidade que temos de vencer a morte, de driblar nosso próprio fim. Esse pode ser o motivo da discreta sombra ou reflexo de caveira projetada na taça que abriga a coroa de louros. Popularmente, a caveira simboliza perigo – sua presença em recipientes indica que a substância ali contida é venenosa. Isso pode ser uma indicação de que o desejo de vitória e fama é o mais perigoso de todos.

O monstrinho/dragão – a última taça abriga um pequeno monstro ou dragão azul. Seu aspecto é assustador – ele parece prestes a atacar o homem. Ele pode ser uma representação dos medos, e da parte sombria, desconhecida e selvagem da alma. Assim como a cabeça e o castelo, ele é azul. O azul é a cor mais profunda, e expressa o infinito, inalcançável e surreal. A cor azul dos objetos sugere que eles estão distantes – e isso pode evocar tanto ideias de coisas inalcançáveis quanto associações com fantasias e sonhos.

Karen Hamaker-Zondag, no livro Tarot as a Way of Life: a Jungian Approach to the Tarot, oferece uma interpretação alternativa do grupo de taças dessa carta, dizendo que as taças inferiores expressam perigo, e as três superiores sugerem desenvolvimento psicológico proveitoso” (pg. 49).
Segundo a interpretação de Karen, o triângulo de taças é libertador e positivo, enquanto o quadrado é limitador e negativo

Nosso mundo emocional está completamente aberto a uma multidão de fantasias e sonhos, que podem desenvolver-se de uma maneira positiva, mas que podem nos afastar da realidade com igual facilidade. Sem de fato perceber, estamos defronte a duas fileiras de taças, todas elas parecendo-se com presentes da terra das nuvens. Porém, a fileira inferior incita-nos a jogos de poder, ganância, ambição ou agressão, antes que nos damos conta disso, enquanto a fileira superior pode levar-nos a um contato melhorado com nosso inconsciente, a um fluir ininterrupto de energia psíquica e, finalmente à fusão com nosso centro interno, nosso eu verdadeiro, que por hora ainda está sob um véu. Esta é uma carta de dois aspectos: ela previne contra desejos errados e contra o desenvolvimento de traços de caráter desagradáveis, os quais ignoramos; e, por outro lado, ela revela potencial para um tremendo crescimento espiritual e psicológico, e para nos tornarmos nós mesmos.” (tradução minha, pgs. 100-101. A expressão “terra das nuvens”, em itálico, é uma tradução literal da palavra cloudland, que traduz-se por “reino da imaginação/fantasia” em inglês).

Isso não deixa de fazer sentido, especialmente quando consideramos que as quatro taças de baixo estão ao alcance imediato do homem, enquanto as de cima são mais difíceis de serem alcançadas, e ainda são presididas pela figura coberta pelo véu, que expressa o desconhecido e o que existe por trás das ilusões da matéria.

Sendo uma carta de Copas, esse sete fala essencialmente de emoções e sentimentos, e é importante circunscrever a carta a esses termos na sua interpretação. A carta mostra como os sentimentos podem ser enganosos, ao mesmo tempo em que nos tentam e seduzem. O Sete de Copas ressalta o aspecto sedutor e enganoso do elemento Água. Desde tempos remotos, as águas têm exercido esse tipo de influência sobre o ser humano, mistura de medo e curiosidade, perigo e desejo. Sereias e monstros marinhos, figuras altamente recorrentes em diversas mitologias, personificam essa impressão que as águas causaram em nós. A mitologia grega contém uma série de narrativas que envolvem pessoas sendo seduzidas e levadas à perdição, ou à morte, por entidades aquáticas. O quadro Hilas e as Ninfas (1896), do pintor simbolista inglês John William Waterhouse, é uma boa ilustração de um mito sobre essa temática. O quadro ilustra Hilas, jovem de grande beleza, sendo seduzido e raptado pelas ninfas do rio de onde ele pretendia pegar água. A pintura mostra o momento em que as ninfas surpreendem Hilas, que ainda segura seu pote. O rapaz parece hipnotizado, e as ninfas, que aparentam ser todas a mesma, têm um olhar lânguido que sugere enlevo e certo torpor. Curiosamente, são em número de sete, e uma delas estende suas mãos cheias de pérolas, parecendo ofertá-las ao rapaz, o que me faz pensar na taça cheia de joias do Sete de Copas. Não acho provável que essa pintura tenha alguma relação com a carta pintada por Pamela Smith, mas é interessante notar certa similaridade entre as duas obras. Outra pintura de Waterhouse, A Sirena ou A Sereia (acima), mostra um marinheiro afogando-se aos pés de uma sereia que, segurando sua lira, olha para ele com indiferença. Ao seu lado, um pedaço de seu barco indica que ele acabou de chocar-se contra as rochas, certamente atraído pelo canto da sereia. Relacionado a isso ou não, uma das definições que a Golden Dawn dá ao Sete de Copas é “o ‘canto da sereia’ do engano, fazendo [o sujeito] esquecer-se de sua vontade” (The “siren song” of deception, causing one to forget his or her will, tradução minha).

Podemos entender melhor o Sete de Copas se considerarmos sua posição no naipe ao qual pertence. A relação do Sete de Copas com suas cartas vizinhas revela mais detalhes sobre seu significado. O Sete de Copas sucede o Seis, relacionado a prazer e bem-estar, e precede o Oito de Copas, que fala sobre enfado e renúncia. O Sete representa um abuso do bem-estar do Seis. O que antes era experimentado de forma espontânea e desapegada (as crianças do Seis de Copas), agora desperta ganância. A reação a isso é o Oito, a renúncia de todas essas coisas. O homem percebeu que a felicidade que ele busca não está nesse tipo de prazer efêmero, mas em coisas mais profundas. Das taças, ele escolheu a coberta por um véu, decidiu ver o que existe além daquele carnaval de sensações e emoções do mundo. Ele retira-se do mundo, como o Eremita da carta 9.

No sistema de correspondências da Golden Dawn, o Sete de Copas corresponde ao terceiro decanato de Escorpião, regido por Vênus – portanto, Vênus em Escorpião. Esse é um importante aspecto dessa carta, pois é de sua associação com tal decanato que tiraram o seu significado. Vênus representa o prazer de modo geral; aliado à energia intensa de Escorpião, por vezes obsessiva, o deleite do prazer representado por Vênus perde os limites e atinge níveis intoxicantes. A força de atração e a busca por amor e prazer de Vênus é intensificada por Escorpião, que representa a energia sexual. Essa combinação traduz-se por desejo avassalador e gera grande intensidade emocional que, aliada às contradições escorpinianas de desejo versus culpa, sugere esbórnia e libertinagem. Embora esse aspecto sexual de Vênus em Escorpião não esteja diretamente evidenciado no Sete de Copas do RWS, a entrega à auto-indulgência ilustrada na carta compara-se perfeitamente a essa combinação astrológica. Há aqui o abuso de todos os tipos de prazer, o “gozo que conduz à dependência”, como diz Hajo Banzhaf. Com efeito, esse parece ser o significado do Sete de Copas no qual Crowley se focou ao desenvolver o seu baralho Thoth. Nesse baralho, o Sete de Copas recebe o título de debauch, palavra de origem francesa que se traduz por “devassidão”, “depravação”, “dissipação” (em português, deboche tinha originalmente essa mesma conotação). Crowley associa essa carta a conceitos como toxidez, loucura e vício. A imagem da carta chega a ser um pouco asquerosa, com suas taças transbordando de um líquido esverdeado gosmento, que goteja incessantemente num pântano sem fim.

O Sete de Copas é chamado de Deboche. Esta é uma das piores idéias que se poder ter; seu método é veneno, sua meta, insanidade. Representa a ilusão do delirium tremens e do vício das drogas; representa o afundamento no lodo do prazer falso. Há algo quase suicida nesta carta. Ela é particularmente má porque não há nada, seja lá o que for, para equilibrá-la – nenhum planeta forte para sustentá-la. Vênus vai atrás de Vênus, e a Terra é agitada [para] dentro do pântano de escorpiões. (O Livro de Thoth, Aleister Crowley).

A imagem do Sete de Copas do RWS não é tão feia quanto a do Thoth, contudo. Apesar de essa conotação de devassidão estar inclusa nas associações astrológicas da carta, a imagem do RWS expõe mais em seu aspecto de fantasia e ilusão. Pamela pareceu ater-se mais ao lado espiritual e emocional da carta. Realmente, e isso é bom ressaltar, toda essa dissipação e excesso sugeridos pela combinação de Vênus e Escorpião existem, antes de tudo, no nível emocional e mental. Na imagem da carta, as taças flutuam sobre nuvens, e o personagem que as vê não faz mais do que de fato vê-las. Ainda que o Sete de Copas represente o excesso do deleite dos prazeres da carne, sua raiz é emocional. Por outro lado, Escorpião é também o guardião dos mistérios da vida e da morte (é por isso, inclusive, que ele é a energia sexual – a energia fecunda que origina a vida), o signo do desconhecido e do secreto. Essa ambivalência contraditória de Escorpião, que debate-se entre vida e morte, prazer e dor, medo e desejo, pode ser percebida na imagem da carta, que mistura figuras atrativas com coisas assustadoras e perigosas. Esse show de imagens distrai a atenção do homem para a figura velada, o Mistério maior, o segredo de Escorpião que se esconde em meio às coisas mundanas. Ele envolve-se com elas e perde de vista o seu foco.

É possível traçar um paralelo entre a ideia central do Sete de Copas e o conceito indiano de māyā, palavra sânscrita que significa “aquilo que não é”. No hinduísmo, māyā define-se pela ilusão de dualidade da qual sofre a consciência focada no mundo manifestado, que gera o engano de que o mundo objetivo é real, quando na verdade, ele é só um reflexo do Uno. A influência de māyā promove a identificação da alma com seu corpo e com o mundo objetivo. No pensamento hindu, o mundo objetivo é ilusório; seu estado de constante mudança é um reflexo disso. A mente, a passagem do tempo, as mudanças de estado, a vida e a morte – tudo isso é māyā. A raiz de māyā está na falsa noção de distinção entre o eu e o universo. Essa noção é a fonte do desejo e da repulsa, as duas forças que jogam o indivíduo de um lado para o outro no mundo. Isso pode ser visto nos dois elementos mais básicos da carta: o homem e as coisas que ele vê – o eu e o mundo, o sujeito e o objeto. Māyā é o que prende o homem às coisas que ele deseja ou repudia – os objetos saindo das taças da fileira inferior. Através dos sentidos, o indivíduo apega-se aos objetos ao seu redor e perde-se em seu desejo por eles, o que o faz esquecer-se de sua natureza intrínseca. Esquecendo-se de sua natureza, esquece-se de que ele mesmo e as outras coisas são um. Nesse contexto, a figura velada no centro da carta representa a Verdade por trás do véu de māyā. Com um véu sobre seu rosto, ela não tem identidade, é a neutralização do ego; é o Eu Superior, a centelha divina de verdade que existe dentro do indivíduo.

O Sete de Copas resume-se, portanto, ao ego. Todos os objetos saindo das taças são tentações ao ego. A noção de ego é o que leva o indivíduo à perdição no jogo de desejo e repulsa de suas emoções. Justamente em meio a esse jogo, oculta sob o véu das aparências, está a verdadeira natureza das coisas. Jayaram V nos oferece uma definição de māyā que eu achei especialmente comparável ao Sete de Copas –

“Afinal de contas, o que é ilusão? Ilusão é algo como uma miragem que te desencaminha para pensamentos e ações erradas. Esse mundo faz exatamente isso. Ele te oferece felicidade, mas te encaminha para as trevas do sofrimento. Ele te tenta com muitas coisas e, quando você corre atrás delas, descobre que são irreais e incapazes de matar sua sede por estabilidade e permanência.”

Observando com mais atenção a cena, percebemos um detalhe que o homem não percebe – as taças estão todas vazias. As coisas que saem de dentro delas não existem. O homem, deslumbrado, enxerga nas imagens mais do que elas são; ele só vê o que julga existir, e seu julgamento é intensamente influenciado por suas emoções. Consequentemente, ele projeta nelas seus anseios e apreensões – sua imaginação, seus sentimentos preenchem as taças. Nesse sentido, é viável sustentar que a figura velada do centro poderia representar o próprio desconhecido – pois a única coisa real dentro das taças é o nada, o vazio, que uma figura sem rosto representa. O Sete de Copas é o deslumbre pelo desconhecido; são nossos sentimentos tentando preencher as lacunas da parte de nossa vida que não conhecemos. O Sete de Copas marca o fim da experiência de Escorpião (o mergulho nas profundezas e a morte, a paixão pelo oculto e pelo mistério, o desvendar dos segredos da carne) e o começo da experiência de Peixes (a transcendência, o renascimento do espírito após a morte da carne, a negação do eu, a inexistência), iniciada com a renúncia do Oito de Copas, Saturno em Peixes. No Oito, ele deixa todas as taças para trás – vazias – e parte em busca de um real preenchimento, e em busca de desvelar esse desconhecido. É só no Nove, Júpiter em Peixes, que ele sacia essa sede – a mesma sede de que fala Jayaram V.

Veja também mais sobre o Sete de Copas aqui.

Algumas versões do Sete de Copas de outros baralhos

Diferentes baralhos fornecem diferentes formas de ver o Sete de Copas. Confira abaixo as várias versões que essa carta assumiu ao longo do tempo.

Royal Fez Moroccan Tarot, idealizado por Roland Berrill. O simbolismo é quase idêntico ao RWS. Na carta, as taças são dispostas mais simetricamente, revelando o padrão triângulo-quadrado, sugerindo a superioridade das três taças de cima. Observe como a figura velada está mais centralizada e enfatizada.

O Aquatic Tarot, pelo alemão Andreas Schröter, é uma versão em aquarela do RWS. A combinação cai bem particularmente ao Sete de Copas, que recebe um ar onírico, psicodélico.

No Aquarian Tarot, só as taças aparecem na carta, e alguns objetos foram modificados - como a figura velada, que virou algum tipo de máscara de aviador. Esse deck foi feito por David Palladini, e lançado em 1970 - como era de se suspeitar, rs.

Criado por Gianluca Cestaro e Pietro Alligo, e lançado pela Lo Scarabeo em 2003, o New Vision Tarot é uma versão do Waite-Smith que mostra o outro lado das cenas de cada carta. As nuvens do Sete de Copas desse deck parecem prateleiras que abrigam as taças. Ao fundo, duas moças presenciam a cena com o rapaz, uma delas maravilhada, e a outra apavorada.

Essa é uma das versões mais legais dessa carta que eu já vi. Faz parte do projeto The Webcomics Tarot Project, onde cada artista desenha uma carta. O Sete de Copas foi feito por Hyena Hell, artista de HQ's americana. A carta mostra as alucinações de um cara que bebeu demais, rs.

O Light and Shadow Tarot, desenhado por Michael Gopford, juntamente com Brian Williams, explora o contraste do preto e branco em suas ilustrações de linogravura. Seu Sete de Copas obedece o simbolismo tradicional. O mais interessante dessa versão é a figura humana que aparentemente fragmenta-se em meio as taças. O baralho foi lançado em 1997.

O Sete de Copas do The New Tarot mostra as imagens das taças em molduras, que parecem estar sobre uma lareira ou algo assim. As molduras também poderiam ser espelhos. Um detalhe interessante é que, em vez da aparição coberta por um véu, a imagem do meio parece a de uma TV fora do ar. Esse baralho foi lançado em 1974, criado por Jack e Rae Hurley, e ilustrado por John Horler.

O Tarot Druid Craft mostra um rapaz contemplando seis taças no reflexo da água, enquanto não percebe a única real ao seu lado. Semelhante ao Quatro de Copas, a imagem remete a Narciso, e lembra um pouco a pintura de Waterhouse de Hylas e as Ninfas.

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Interpretação Divinatória

Após essa extensa análise da carta, podemos falar da contribuição do Sete de Copas em uma leitura. Como afirmei anteriormente, o tema central dessa carta consiste em perdição e excesso – a perdição na ilusão do mundo, o excesso de luxo e de luxúria, etc. Por perdição eu quero dizer todo o tipo de tentação e interferência que nos tira de nosso caminho – qualquer que seja ele, sem evocar qualquer tipo de moralismo. Quanto ao excesso, basta lembrarmos o ditado que diz que “tudo o que é demais faz mal”.

Em uma leitura, o Sete de Copas traz a influência do poder que os sentimentos têm de nos fazer perder o contato com a realidade objetiva. A carta refere-se a engano, especialmente a auto-engano. O indivíduo aqui se deixa levar por seus desejos e vontades, frequentemente vendo as coisas mais do jeito que ele quer do que como de fato elas são. Alguém que fantasia com um amor que não existe, ou uma pessoa que sonha com uma vida que não tem, por exemplo.

O lado prejudicial dessas fantasias é que elas acabam nos impedindo de realmente alcançar o que queremos. O Sete de Copas mostra aquela nossa tendência em sonhar demais e fazer de menos. Quando essa carta aparecer, pergunte-se em que medida você está de fato fazendo coisas concretas por seus objetivos, e em que medida está apenas sonhando sobre eles. É muito legal dizer que o seu sonho é ter um apartamento, por exemplo, no entanto isso envolve economizar mais, e não gastar com um monte de coisas pouco necessárias.

Outro dos significados dessa carta é o deslumbramento, como bem ilustrado em sua imagem, onde o homem está ofuscado pelas visões fascinantes na sua frente. Muitas vezes, na vida, nos sentimos incondicionalmente atraídos a outras pessoas, coisas ou situações, que atiçam nossos sonhos, mas que realmente não significam nada. Nós é que projetamos nossas fantasias nessas coisas – nos as usamos apenas como simulacros para sustentar nossas próprias imagens internas.

A presença de Vênus em Escorpião traz uma forte tendência ao excesso, particularmente em relação a sexo – promiscuidade, mas também alcoolismo, uso excessivo de drogas, gulodice, ganância. Temos aqui uma energia de extremo prazer físico, que leva ao vício. Sempre que essa carta aparecer em uma leitura, veja se você não está perdendo-se no prazer carnal e entregando-se ao relaxo.

Contudo, nenhuma carta é só boa ou só ruim. Podemos também ver o Sete de Copas como a força da imaginação. Dependendo das outras cartas, o Sete de Copas pode significar simplesmente uma imaginação fértil, criatividade e inspiração. Outro de seus aspectos favoráveis tem a ver com beleza e atratividade – Vênus é a deusa da beleza e do amor.

  • Excesso
  • Perdição
  • Deslumbramento
  • Sonhos, fantasias
  • Desejos
  • Prazer físico vicioso
  • Imaginação, criatividade
  • (Auto) engano, ilusão

Análise SPR – Situação, Problema, Recursos

Resumo – análise do comportamento da carta nas três posições dessa disposição simples, a saber:

– 1. Situação, posição neutra, indicando a cena geral da questão e as disposições do consulente;

– 2. Problema, posição com nuances negativas, que evidencia o problema central que essa situação apresenta;

– 3. Recursos, posição com nuances positivas, reveladora dos recursos disponíveis para resolver o impasse indicado na posição dois.


1. Situação Na posição 1, o Sete de Copas assume seu significado neutro –
fantasia, ilusões, sentimentalismo, sonhos; deslumbre, fascinação por algo. Há uma forte tendência de o consulente estar desviando-se de seu caminho original por ser seduzido por coisas que apelam ao seu prazer. Geralmente eu vejo essa carta aparecendo para indicar que o consulente está seduzindo-se por suas próprias fantasias sobre coisas que ele deseja. Exemplo –

Mulher deseja sair de seu emprego atual e encontrar algo melhor (Pergunta hipotética)

Sete de Copas – Cinco de Espadas – Pajem de Copas

Duas cartas de Água e uma de Ar sugerem muito sonho e vontade, algumas ideias, mas nenhuma ação efetiva (Paus, Fogo) ou resultado concreto (Ouros, Terra). A consulente sonha demais com isso (Pajem e Sete de Copas), idealiza, fica pensando – mas nunca faz nada a respeito, realmente. O Sete indica que ela tem pouco foco no que quer, ficando completamente dispersa. É provável que ela esteja imaginando não uma, mas varias possibilidades de mudança, sem contudo fazer nada a respeito. Isso é intensificado pela presença do Pajem de Copas, personagem sonhador e fantasioso. As coisas aqui existem mais no reino das ideias. Ela pensa bastante em sair, sonha com isso, mas não sabe muito bem nem o que significa isso – não tem noção do lado prático da coisa. O Cinco de Espadas indica uma série de problemas que inviabilizam essa questão no momento. Disso podemos auferir que o mundo não lhe oferece suporte para tomar uma decisão dessas. O mercado na sua área talvez esteja competitivo demais, por exemplo. O Pajem de Copas como recursos indica que ela pode canalizar esse entusiasmo todo para vencer essas dificuldades. O Pajem de Copas é Terra de Água, ele traz o conteúdo emocional ao mundo objetivo, por meio de sua própria atitude. Pajens também são inícios de algo, o que me sugere que ela pode de fato ao menos começar a fazer algo a respeito. Figuras da corte representam ações, então eu diria que o recurso dela aqui é realmente materializar seus sonhos. Enquanto o Cinco diz que esses planos encontram muitos problemas, o pajem mostra que ela vence isso sendo otimista e acreditando mais no seu coração do que no mundo. Por enquanto a possibilidade é pouca, mas ela deve começar a agir, para que, lentamente, consiga alcançar seu objetivo. O legal aqui é que o pajem tem o poder de canalizar a energia do Sete e transformá-la em atitude.

2. Problema
– o desafio indicado por essa carta na posição 2 é, obviamente, manter os pés no chão e saber resistir às tentações. Essa combinação também indica uma necessidade de separar o que o real do fantasioso, o útil do supérfluo. Exemplo –

Esclarecimento sobre a situação de um rapaz que acabou de escrever um livro e procura ajuda para seu lançamento (pergunta hipotética)

Justiça – Sete de Copas – Dez de Paus

No aspecto elemental, temos aqui uma configuração oposta à exposta no exemplo anterior – a carta de Ar (Justiça) harmoniza-se e fortalece a carta de Fogo (o Dez), tirando as forças do Sete de Copas, Água. O rapaz age em direção aos seus objetivos e ideais, embora ainda não tenha tido nenhum resultado prático (cartas de Terra são ausentes). A Justiça é a carta mais forte da tiragem, e indica que ele considera cuidadosamente suas possibilidades. O Sete de Copas aqui indica que ele precisa lidar com seus sonhos de maneira mais objetiva. Essa carta tão enfraquecida na tiragem, numa posição que fala de desafios, sugere também que ele precisa dar mais atenção às suas emoções. Observe aqui a tensão entre a Justiça, que busca a harmonia e a certa medida, e o Sete de Copas, caótico, desorganizado e dionisíaco. O rapaz tende a perder-se nas opções por não saber separar as possibilidades reais das ilusórias. Ele consegue isso justamente prestando mais a atenção em sua intuição, que no momento não está sendo muito ouvida. Para que o equilíbrio buscado pela Justiça seja alcançado, seus sentimentos precisam aliar-se ao seu intelecto, sem que ele sucumba às tentações. A chave para alcançar esse equilíbrio está no Dez de Paus, que mostra grande força, tenacidade e capacidade de responder à altura de muita responsabilidade. Observe como a diversidade do Sete de Copas é sustentada bravamente no Dez – são vários aspectos da situação, vários projetos sendo sustentados de uma vez.

3. Recursos
– na posição 3, temos a possibilidade de explorar o potencial criativo do Sete de Copas. Levando em consideração particularmente a imagem dessa carta no RWS, é clara a sua relação com imaginação e fantasia. O número 7 é associado a misticismo e espiritualidade; ele é o contato entre o plano espiritual e o material, tema evidenciado nessa carta (ao contrário dos outros setes dos arcanos menores). As nuvens na carta marcam uma possível relação entre os dois planos, o que sugere inspiração. A visão que o homem presencia também parece ser espontânea. Assim, é possível tomar essa carta nessa posição como indicativa de criatividade, inspiração, inclinação espiritual ou boa capacidade intuitiva. Exemplo –

Leitura para uma moça, a respeito de seu estudo de Tarot

Dez de Ouros – Pajem de Ouros – Sete de Copas

Duas cartas de Terra para uma de Água tornam a situação bem fixa. A total presença de elementos passivos evoca receptividade e lentidão. A presença do Pajem de Ouros, Terra de Terra, parece reforçar isso. A moça está no inicio de sua jornada de aprendizado. Com tantas cartas de terra, ela com certeza está em busca de resultados concretos com seus estudos, possivelmente mesmo financeiros. O Dez de Ouros indica que ela tem bons recursos, e uma boa base. Além disso, essa carta sugere que a consulente tende a ver as coisas de forma conservadora, valorizando sempre o tradicional. Isso é confirmado pelo Pajem de Ouros, que nunca sai da risca e sempre recorre ao método. Nesta posição, ele alerta a consulente sobre ser dogmática e cabeça-dura demais, pois enquanto o Dez de Ouros sinaliza um background consistente e preparo, o pajem sugere demais dependência a essas bases. Nessa sequência, o Sete de Copas faz a diferença, desestabilizando parcialmente a fixidez das duas cartas anteriores. A carta indica que a moça tem uma imaginação poderosa, que pode ser útil em suas leituras e estudos. Rebelde e caótica, essa carta nega suas precedentes, basicamente indicando que a consulente pode usar a seu favor seu poder de intuição e sua criatividade. Para sobrepujar a morosidade do pajem, ela deve deixar sua imaginação correr solta, o que por vezes traduz-se por certo distanciamento do método. Muitas vezes, se não sempre, a espontaneidade e a capacidade de receber flashes de insight do Tarot são tão importantes quanto o método e a técnica.

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Fontes de Referência

Livros (título, autor, editora)

A Dictionary of Symbols, J. E. Cirlot, Routledge & Kegan Paul Ltd.

Dictionary of Symbols, Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Penguin Books

The Pictorial Key to the Tarot, Arthur E. Waite, U.S. Games Systems Inc.

O Tarô Cabalístico, Robert Wang, Ed. Pensamento

Manual do Tarô, Hajo Banzhaf, Ed. Pensamento

Seventy Eight Degrees of Wisdom, Rachel Pollack, Weiser Books

Tarot as a Way of Life: a Jungian Approach to the Tarot, Karen Hamaker-Zondag, Weiser Books

O Livro de Thoth, Aleister Crowley (tradução Edson Bino e Marcelo A. C. Santos, Ed. Madras


Sites

Wikipedia

Zohar – http://en.wikipedia.org/wiki/Zohar

History of the Alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_the_alphabet

Proto-Sinaitic Alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Proto-Sinaitic_alphabet

Proto-Canaanite alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Proto-Canaanite_alphabet

Resh (semitic letter) – http://en.wikipedia.org/wiki/Resh

Hebrew alphabet – http://en.wikipedia.org/wiki/Hebrew_alphabet

Seven of Cups – http://en.wikipedia.org/wiki/Seven_of_Cups

Hylas – http://en.wikipedia.org/wiki/Hylas

Maya – http://en.wikipedia.org/wiki/Maya_(illusion)

Dicionários

Michaelis UOL – http://michaelis.uol.com.br/

Reverso – http://dictionary.reverso.net/portuguese-english/

The Free Dictionary – http://www.thefreedictionary.com/

Sites Diversos

The Astral Light, by Henry T. Edge – http://www.theosociety.org/pasadena/gdpmanu/astral/astral.htm#meaning

Egyptian fonts – http://www.fontspace.com/category/ancient,egyptian

Dicionário de hieróglifos online – http://hieroglyphs.net/0301/cgi/pager.pl?p=01

White/red symbolism – http://www.tarotmoon.com/articles/Symbols/symbols.html

Corax.com, Cards Meanings, Seven of Cups – http://www.corax.com/tarot/cards/index.html?cups-7

Supertarot – Seven of Cups meanings – http://supertarot.co.uk/minor-cups/seven.htm

http://www.victorianweb.org/painting/jww/paintings/kelly11.html

Site do Aquatic Tarot – http://www.aquatictarot.de/deck/tarot.html

Taroteca – http://taroteca.multiply.com/

The Power of Maya and the Nature of Reality, Jayaram V. – http://hinduwebsite.com/hinduism/h_maya.asp

Aeclectic Tarot – http://www.aeclectic.net/tarot/,

Aeclectic Tarot Forum – http://www.tarotforum.net/

The Webcomics Tarot Project – http://tarot.senshuu.com/

Hyena Hells’s Page – http://www.webcomicsinc.com/profile/HyenaHell


Obrigados especiais a Sil, Marcela e Carlos, que me ajudaram a trabalhar com as imagens, traduzir textos e pensar o simbolismo.

novembro 11, 2009

O Seis de Ouros (+ Exercício SPR)

Seis de Ouros - Waite-Smith Tarot (1909)Hoje falaremos de mais uma carta do naipe de Ouros, o Seis de Ouros.


O significado central do Seis de Ouros tem a ver com riqueza material. Em leituras, essa carta frequentemente tem uma conotação positiva, indicando prosperidade. Um dos aspectos do Seis de Ouros tem a ver com generosidade. Num nível um pouco mais profundo, vemos também a temática do dar e receber – a constante troca de valores, estados e posições.

Na versão do RWS (o baralho Rider-Waite-Smith) temos um homem, aparentemente um rico comerciante, dando com sua mão direita algumas moedas para dois mendigos, enquanto segura uma balança com a outra mão. Um dos mendigos recebe os trocos, enquanto o outro aguarda sua vez. Há nessa carta uma tênue noção de equilíbrio. O doador dá as moedas com sua mão direita enquanto segura uma balança com mão esquerda. O lado direito é associado à mente, à lógica e à razão; o lado esquerdo relaciona-se com o coração, a emoção e os sentimentos. A presença de uma balança na mão esquerda indica que o homem dá com parcimônia, e equilibra bem seus sentimentos ao entregar. Em outras palavras, ele doa com prudência, na medida de suas condições – ele dá o que pode. Por outro lado, alguns elementos da carta sugerem certo desequilíbrio – a balança pende levemente para a esquerda, e das seis moedas acima dos personagens, três pairam sobre o mendigo que recebe e só duas sobre o que não recebe. Ademais, sobre o mendigo da esquerda está a mão doadora, enquanto que sobre o da direita paira a balança – como se ele recebesse o “peso da justiça”. Essa leve discrepância parece sugerir o fluxo de alternância de ganhos e perdas da vida. Podemos imaginar que o segundo mendigo vai receber alguma coisa também, só que mais tarde, depois do primeiro; ou talvez ele não recebe por falta de merecimento (a balança sobre ele, a justiça sendo feita para ele). A mensagem implícita na carta é que o real valor de qualquer fortuna existe quando há a movimentação dos bens e valores. Parte dessa movimentação consiste na doação de recursos aos mais necessitados.

Variações hipotéticas do símbolo Sol+LuaNo livro Book T, MacGregor Mathers (um dos precursores da conceitualização moderna do Tarot) atribuiu cada uma das cartas numeradas dos Arcanos Menores (ou seja, todos os arcanos menores, com exceção dos ases e das figuras da corte) a um dos 36 decanatos astrológicos. Cada um dos 12 signos do Zodíaco equivale a trinta graus dos 360 da roda zodiacal. Os trinta graus referentes a cada signo são então divididos em três partes de dez graus cada, originando assim três decanatos para cada signo, num total de 36. De acordo com Mathers, o Seis de Ouros está associado ao segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua – temos então a combinação Lua em Touro, que sugere fertilidade – a combinação da fluência da lua com o Touro, símbolo antigo de fertilidade. A relação simbólica do touro/vaca com a lua é antiga e bastante significativa. Talvez pelo formato de seu chifre, a vaca e o touro foram associados à Lua desde há muito tempo, principalmente nas culturas indo-européias. Os chifres são associados à lua e, portanto ao ciclo menstrual, o que sugere fertilidade. Em algumas culturas, O touro também é associado ao Sol, incorporando seu aspecto masculino e viril; mais uma vez, temos a temática da fertilidade.

Um dos exemplos da profunda significância do simbolismo da vaca e do touro é a deusa egípcia Hathor, divindade associada à feminilidade, ao amor e ao prazer. Hathor era comumente retratada como uma mulher ou uma vaca carregando em sua cabeça o disco solar suportado por um par de chifres. O par de chifres pode ser visto como o crescente lunar, tendo o disco solar acima dele. Simbologicamente, o círculo é associado ao sol, e o semi-círculo (crescente lunar) à lua e ao feminino. Recorrente na simbologia egípcia, esse símbolo pode ser interpretado como a união do masculino (sol) com o feminino (chifres), que o envolve; nesse sentido, ele pode ser comparado ao T’ai Chi T’u, o símbolo do yin-yang chinês, que representa a constante mistura e alternância dos princípios duais. Ademais, um dos aspectos de Hathor (a Vaca Celestial) era sua identificação com Nut, a deusa-mãe céu, personificação da própria abóbada celeste, que “recebe” o sol em seu seio – como os chifres recebendo o disco solar. Da união fértil dos opostos surge o mundo, e a eterna interação entre os dois princípios é a fonte da energia universal. Como veremos mais adiante, a temática da união ecoa no próprio número do Seis de Ouros, que está numerologicamente ligado aos Enamorados, o grande Seis do Tarot, símbolo máximo da união dos opostos e da força de atração/interação.

CONEXÕES

O conjunto de símbolos que compõe o Tarot constitui-se em um sistema de significados que sustentam-se através da ligação existente entre cada elemento do sistema e os restantes. Podemos estabelecer várias conexões entre as cartas, de acordo com algum tema específico, símbolo recorrente, etc. A seguir, veremos mais detalhadamente algumas das conexões do Seis de Ouros com outras cartas.

O Hierofante

Podemos estabelecer duas correspondências entre o Seis de Ouros e o arcano 5, o Hierofante, sendo uma de caráter astrológico e outra de caráter pictórico.

De acordo com o sistema da Golden Dawn, ambas as cartas relacionam-se com o signo de Touro. O Hierofante é a própria representação do Touro no Tarot, enquanto o Seis de Ouros encara um dos três aspectos desse signo, seu aspecto lunar, do segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua. As três cartas numeradas associadas a Touro são a sequência 5-6-7 do naipe de Ouros. O signo de Touro é lento, metódico, segue a regra e faz tudo ao seu ritmo. Isso pode ter a ver com o significado da carta ligado ao método e ao formalismo. Como aspecto Lunar de Touro, o Seis de Ouros tem a ver com fertilidade e prosperidade. Touro é associado aos campos, à força de vida da terra e ao crescimento da colheita. Isso pode ser visto na carta, com sua imagem de riqueza. Talvez esse seja o motivo da próxima conexão entre as cartas, descrita no parágrafo seguinte.

Além de correspondências astrológicas, o Seis de Ouros também pode ser associado ao Hierofante pictoricamente; a estrutura pictórica das duas cartas é similar, e isso por si já sinaliza a existência de uma relação entre elas. Em ambas as figuras, vemos um personagem central principal, ladeado por dois personagens secundários a ele submissos. Mais do que isso, o gesto da mão direita dos dois personagens é o mesmo – dedos anular e mindinho recolhidos, dedos médio, indicador e polegar estendidos. Trata-se do sinal de benção, usado pelos padres católicos e ortodoxos ao fazerem o sinal da cruz para abençoarem os fiéis. No gesto de benção, é como se o padre estivesse servindo de intermediário entre Deus e os homens, repassando-lhes uma benção que eles supostamente não teriam como alcançarem por si mesmos. Benzer é transferir o poder de uma divindade para um objeto ou pessoa; o ato de benzer é feito por alguém que supostamente tem poder para isso, alguém que tem um contato especial com a divindade e que, portanto, serve de médium entre ela e o mundo terreno – ou seja, um sacerdote. Assim como o HierofanExemplos do sinal de benção em obras de arte de diversas épocas diferenteste abençoa seus discípulos trazendo-lhes a benção de Deus – dando-lhes caridosamente algo que eles não possuem e necessitam – o Seis de Ouros, num nível mais mundano, dá aos necessitados parte de sua fortuna. De certa forma, ele os abençoa. No Cinco de Ouros, a carta anterior, vemos mais uma referência a esse aspecto espiritual no vitral de igreja atrás dos dois mendigos, que não parecem percebê-lo. No Seis de Ouros, carta seguinte, os dois mendigos recebem a benção de alguém que tem mais do que eles. Um passo adiante foi dado, em direção à conscientização de sua própria condição. É o primeiro passo para o crescimento.

Essa temática de superioridade + caridade está presente nos quatro seis dos arcanos menores, e tem a ver com as associações qabalísticas dos seis no Tarot. Nesse sentido, o número seis sempre é associado a sucesso e vitória.

Os Enamorados e a Justiça

O paralelo entre o Seis de Ouros e os Enamorados é de caráter numerológico – ambas as cartas são 6, número relacionado à união e ao amor. A estrutura pictórica das cartas também é semelhante, com uma figura central superior e duas menores aos lados. Esse padrão pode ser considerado um símbolo em si na linguagem pictórica do Waite-Smith. O número 6 relaciona-se com equilíbrio e harmonia; no 6, os opostos estão equilibrados e interagem de forma harmônica, em uma constante e dinâmica troca.

O Seis de Ouros liga-se pictoricamente ao arcano 8, a Justiça, por meio da balança, presente em ambas as cartas. O símbolo da balança traz a conotação de avaliação e equilíbrio. É importante ressaltar que o equilíbrio representado pelo Seis de Ouros e a Justiça não é exatamente algo alcançado naturalmente, mas é fruto de uma cuidadosa avaliação e disciplina. Isso é mostrado na carta, onde o homem dá com cuidado, procurando não dar muito nem pouco, mas o necessário; ele alcança esse equilíbrio através de uma constante avaliação e controle. Essa frugalidade é uma característica compartilhada entre o Seis de Ouros e a Justiça.

No Seis de Ouros há um movimento de integração, de união. O recurso é passado de alguém que tem mais para alguém que tem menos, num processo que transparece um movimento em direção ao equilíbrio e à compensação. Temos aqui o aspecto do seis como união, generosidade e ajuda. Por outro lado, o 6 também é um número de equilíbrio e harmonia – o primeiro número par formado pela junção de dois números ímpares. Números pares são passivos e femininos, estáticos; números ímpares são ativos, masculinos e dinâmicos.

Resumo da carta

  • Sucesso material
  • Riqueza
  • Equilíbrio
  • Ponderação
  • Compartilhamento
  • Dar e receber
  • Compreensão
  • Compensação
  • Justiça, equidade
  • Igualdade
  • Comércio, troca

Significados objetivos

  • Riqueza, sucesso material
  • Generosidade, ajuda de alguém importante
  • Ajuda e receptividade – passar/doar conhecimento, experiência, recursos
  • Responsabilidade, equilíbrio, ponderação
  • Pesos e medidas, tudo muito certinho
  • Responsabilidade social, inter-rede humana e social

EXERCÍCIO SPR

Vamos agora aplicar nosso entendimento dessa carta à prática da leitura, usando como exemplo a disposição Situação, Problema e Recursos.

Posição I – A Situação – aqui essa carta indica sucesso material, ganhos e recompensa por esforços; indica também ajuda cuidadosa de pessoas com mais recursos. O consulente pode ser tanto a pessoa que recebe quando a que dá a ajuda. De maneira geral, pode também indicar uma situação que envolve interação dinâmica entre pessoas, especialmente tendo como pano de fundo assuntos materiais. Uma coisa importante a saber sobre o Seis de Ouros é que os resultados representados por ele são medidos pelo esforço investido previamente. Exemplo –

Pergunta hipotética de uma moça e seus estudos de Tarot –

SPR I - Seis de Ouros na SituaçãoSeis de Ouros – Pagem de Espadas – Rainha de Espadas

Ela tem uma base sólida de experiência e prática, e bons recursos e preparo para passar aos outros. Seus esforços começam a frutificar. O que atrapalha é a curiosidade incessante e certa presunção inocente de que sabe mais do que realmente sabe. Ela está apenas começando, e tem só um vislumbre do conhecimento, não deve deixar-se levar por seu entusiasmo. Seu melhor recurso é sua percepção aguçada, que combina intuição e sensibilidade com razão e ponderação; ela entende bem as pessoas, tem uma boa visão e percepção do outro, e certamente pode usar isso a seu favor.

Posição II – O Problema – Cabe aqui uma digressão para salientarmos a função exata dessa posição, algo que pode ser complicado para muitas pessoas, especialmente quem tem pouca experiência com essa disposição. Por “função” eu quero dizer qual o seu papel dentro da disposição, e qual efeito tem sobre a carta que cai nela. É provável que o leitor de cartas tenda a dar à posição Problema uma função anuladora/inversora, ou ainda uma função hiperbolizadora. A carta nessa posição seria então interpretada pela falta da energia que ela incorpora, ou como o inverso do seu significado normal, ou ainda como um exagero, um descontrole dessa mesma energia. Assim, o Seis de Ouros, por exemplo, poderia ser visto sob um viés de anulação/inversão (falta de recursos, estagnação da troca ou imprudência) ou sob um viés de exagero (meticulosidade em demasia, generosidade em demasia, dar demais, ou pensar demais e agir de menos). Essa forma de ver talvez venha de uma tendência a enxergar tal posição como essencialmente negativa e ruim. Eu creio que há vários problemas nisso. Primeiro, via de regra, não é isso que essa posição pretende indicar. Sua função é simplesmente mostrar o lado desafiante e antitético da situação, mais do que seu lado ruim, mau ou vil (o que endossa uma visão maniqueísta e limitadora das coisas, circunscrita a termos de bem contra mal, bom contra ruim); segundo, abordar essa posição como anuladora/limitadora/hiperbolizadora abre espaço para muita confusão e contradição. O Oito de Espadas, uma carta que fala de restrição, nessa posição poderia ser tanto liberdade
de pensamento, leveza, falta de restrições – ou muita restrição. Já uma carta considerada boa, como o Sol, poderia ser interpretada como orgulho, vaidade, ou como tristeza, decepção e ruína. Certamente escolher entre todas essas opções é algo contra-produtivo. Isso dito, é importante manter em mente que a função dessa posição é basicamente a de ter um efeito antitético. A energia da carta aqui não se inverte, enfraquece ou se exagera – ela apenas representa um obstáculo, um aspecto da situação que atrapalha ou traz problemas – e que, na verdade, representa uma fértil oportunidade de desenvolvimento e aprendizado. É a mesma energia, nem mais forte, nem mais fraca ou ausente, e nem inversa. Ela simplesmente precisa ser encarada, melhor manipulada ou sobrepujada – superada. É claro que esse equilíbrio entre a visão maniqueísta à qual estamos acostumados, e uma forma de ver menos presa às diferenças e mais às similaridades é algo um pouco difícil de ser alcançado – nada que alguma prática não supere, no entando.

Sendo assim, nessa posição o Seis de Ouros tem o mesmo significado que na posição anterior, só que visto de maneira a atrapalhar ou apresentar impedimentos e dificuldades ao consulente. O problema pode ser um forte senso de responsabilidade que impede o consulente de agir, ou pode haver alguma dificuldade no fluxo de transmissão de valores (materiais ou fixos). Exemplo –

Pergunta real de um rapaz que está pensando em pedir uma bolsa de estudos para um curso específico na empresa onde trabalha –

SPR II - problemaTrês de Paus – Seis de Ouros – Cavaleiro de Ouros

O rapaz é talentoso e capaz, e ainda um tanto independente e persistente em seus objetivos. Ele já chegou a certo ponto de desenvolvimento na área em questão, a ponto de ter certa autonomia estabilizada, mas volta seus olhos a horizontes mais amplos. Seu impulso ígneo, no entanto, é bastante freado pelas duas cartas de terra, mostrando as dificuldades das aplicações práticas de seus planos. O Seis de Ouros aqui indica a possibilidade de certos entraves no processo de concessão/aprovação da bolsa; o conjunto de critérios da empresa pode atrapalhar o consulente. Ele pode vencer esse obstáculo sendo persistente e paciente, e mantendo o foco em seu objetivo. Independente disso, as cartas sugerem que o consulente é capaz de seguir um caminho sozinho e aprender o que deseja por mérito próprio. Nessa leitura, o Seis de Ouros indicou a própria concessão da bolsa. Observe como a relação com o Hierofante (a Instituição, os procedimentos padrão – a empresa) aqui fica ressaltada.

Posição III – Os Recursos – disponibilidade de recursos necessários para se conseguir o que deseja, especialmente recursos materiais; ajuda dos outros sendo providencial; poder aquisitivo desempenhando um papel proeminente na situação. Nessa posição, o Seis de Ouros mostra recursos e fluência material.

Pergunta hipotética de uma mulher que deseja fazer uma viagem ao exterior –

SPR III - recursosSeis de Paus – Quatro de Paus – Seis de Ouros

A mulher está bastante confiante sobre sua viagem. Seu excesso de confiança, no entanto, pode atrapalhar seus planos, pois ela tende a repousar sobre seus louros. No entanto, ela realmente dispõe de recursos, e pode vencer sua tendência relaxar sendo mais prática e pensando mais antes de agir. Questões legais também pendem ao seu favor.

Ficou perceptível na descrição dessas leituras que a forma de interpretar as cartas depende muito do contexto e da associação. No entanto, creio que o mais importante seja absorvermos a essência de cada carta – o ponto de contato entre os vários sentidos a ela atribuídos, que na verdade é a origem do seu significado.

outubro 20, 2009

Disposição em Cruz/Péladan

Filed under: Disposições — Tags:, , — Leonardo Dias @ 1:54 AM

Essa tiragem, aparentemente mais popular no Brasil do que no mundo anglo-falante, foi uma das primeiras que aprendi, e uso até hoje. Sua versão inicial foi concebida por Joséphin Péladan, romancista e ocultista relativamente famoso do final do século 19, contemporâneo de Papus e um dos envolvidos na reconstrução da Ordem Rosacruciana na França. A tiragem que eu geralmente uso distancia-se um pouco da original de Péladan, e baseia-se em uma tiragem chamada “A cruz ou a pergunta”, incluída no livro ABC do Tarot, de Colette H. Silvestre (1987, Ed. Círculo do Livro, edição de 1998). É bem provável que a tiragem do livro de Silvestre esteja relacionada à de Péladan. Realmente, existem várias versões dessa disposição, e uma busca rápida online poderá mostrar suas diversas formas. Seu escopo, no entanto, permanece o mesmo – obter esclarecimentos sucintos e uma resposta rápida a perguntas simples, com prognósticos de curta-média duração.

Ambos os métodos consistem em quatro cartas, arranjadas em cruz, com uma quinta carta no meio, obtida através da soma numérica das quatro cartas, pela redução teosófica. A seguir, uma descrição das duas formas da tiragem.

Diagrama de esquema de tiragem Péladan - Cruz

MÉTODO I – O meu

Baseando-me na disposição exposta no livro de Silvestre, ao longo do tempo fui desenvolvendo a minha própria forma de fazer essa tiragem.

Posição 1 – de acordo com Silvestre, “a primeira lâmina representa o consulente diante de sua pergunta”. É essencialmente a posição do consulente, elemento costumeiro nas tiragens. Eu a interpreto como indicativa de suas atitudes e posturas perante a situação onde ele se insere, ou como indicativa de alguma qualidade ou característica sua que tem papel proeminente na situação.

Posição 2 – tradicionalmente, a segunda posição ajuda ou contraria a carta da primeira. Eu levo sua interpretação um pouco mais adiante, abordando-a como o momento ou o ambiente no qual o consulente está inserido. De certa forma, ela ainda endossa ou opõe-se à atividade do indivíduo, mas no sentido de ser uma resposta do momento ou do ambiente a ela. Costumo ver as duas primeiras posições como as duas primeiras cartas da Cruz Celta.

Posição 3 – eu vejo a posição 3 como a “rainha” da jogada. Como o anjo na carta dos Enamorados, ela é o poder que paira sobre o mundo horizontal das duas cartas anteriores, a força maior que rege a situação. Em certo sentido, ela resolve a dicotomia das duas cartas anteriores. Sendo assim, uma afinidade de sentido ou elemento poderá indicar o lado de quem ela fica. Eu também costumo interpretar essa posição como o conselho.

Posição 4 – fechando a tiragem, a posição 4 basicamente vai dar a resposta à pergunta feita, à luz do que foi esclarecido pelas três cartas anteriores. Às vezes, aparece na posição 4 uma carta desfavorável fechando uma sequência de três cartas muito favoráveis à questão. Eu interpreto isso como um sinal de que o desfecho será favorável ao consulente, mas custará a chegar; ou então que não será exatamente como o consulente deseja, sendo contudo bom para ele, no estilo “uma porta se fecha mas uma janela se abre”.

A quinta carta é definida pela soma das quatro cartas. Constituída pelas quatro cartas, a soma é literalmente a quintessência da tiragem, a representação do todo que elas formam. A quinta carta é a força que está no background da situação, o denominador comum entre as quatro cartas.

Para obter a quintessência, pega-se o valor bruto da soma e somam-se seus algarismos entre si, até que reste um número entre 1 e 22. Esse processo chama-se redução teosófica. O resultado evocará, por paralelo numérico, um dos 22 Arcanos Maiores. Por exemplo, se a soma der 47, a conta a ser feita será:

47 = 4+7 = 11 – A Força

Em numerologia, representamos essa decomposição de um número com uma barra (/), da seguinte forma – 47/11. O número 22 é somente nesse caso atribuído ao Louco, normalmente visto como a carta 0 ou sem número. Figuras da Corte não têm valor numérico e Ases valem 1. Algumas pessoas, entretanto, atribuem valores numéricos às figuras, incluindo-as na soma. Pessoalmente, não acho isso necessário, mas é uma escolha particular.

MÉTODO II – Péladan

O método de Péladan diferencia-se ligeiramente do que eu sempre usei. Eu nunca simpatizei muito com esse método, mas hoje mais cedo decidi testá-lo e gostei muito do resultado. Ele oferece uma visão mais dualista do que sua versão mais moderna, que pode ser muito interessante ao analisarmos uma situação. Eu achei mais interessante a versão dessa tiragem descrita por Oswald Wirth, que é a que eu vou expor aqui –

Posição 1 – o que está a favor, os prós da situação; a força positiva e afirmativa. A carta dessa posição deve ser abordada pelos seus aspectos mais positivos;

Posição 2 – em oposição à primeira posição, indica os contras – obstáculos e oposições à ação iniciada na primeira carta. A carta que cair aqui deve ser vista por seus aspectos negativos;

Posição 3 – a posição três é o juiz que decide o impasse e contrabalanceia a tensão entre as duas cartas anteriores;

Posição 4 – a sentença enunciada pelo juiz, que vai dar a resposta e definir a questão.

A versão de Péladan também faz uso de uma quinta carta no meio que é obtida pela soma do valor das quatro cartas. Sua função é basicamente a mesma que a do meu método.

Aprofundando-se na lógica por trás do esquema da tiragem

Quem conhece um pouco de filosofia vai talvez identificar nessa tiragem os três elementos básicos da dialética hegeliana – a tese, a antítese e a síntese. De acordo com Hegel (1770 – 1831, Alemanha), todo o processo é o resultado de um eterno conflito entre opostos. Sucintamente, uma tese é uma proposição, uma ideia; por ser parcial ou incompleta, a tese origina uma antítese, uma proposição diametralmente oposta à primeira, que com ela entra em conflito. Tal conflito é resolvido pela síntese, que representa um terceiro ponto de vista que concilia as verdades contidas na tese e na antítese. A síntese é em si uma nova tese, o que recomeça o processo de conflito. Nesse caso, a síntese seria representada pelas duas últimas cartas, em seu aspecto de conciliadora e nova tese. Não sei dizer se Péladan ou Wirth tinham a dialética de Hegel em mente quando falaram de sua tiragem em cruz. De qualquer maneira, tal disposição pode ser analisada por essa ótica, e funciona bastante bem. Uma coisa interessante que essa tiragem sugere é que não precisamos ver a oposição representada pela posição 2 como algo ruim, negativo. É exatamente da diferença fundamental entre as duas primeiras posições que vem a fertilidade, o dinamismo que provoca o desenvolvimento. A oposição inspira a ação que busca conciliá-la, e nisso consiste o aprendizado e, portanto, o crescimento.

Formas de interpretação

DiagonalidadesA tiragem da Cruz pode ser interpretada de diversas formas. De fato, com a prática, cada um vai descobrindo sua própria forma de usar essa disposição. Uma coisa que eu costumo fazer é analisar o que eu chamo de “diagonalidades” da tiragem. Isso consiste em analisar a combinação das cartas também em diagonal, e adicionar tais interpretações à leitura. Isso frequentemente me revela relações muito interessantes entre as cartas.

As elemental dignities das cartas da leitura são uma boa forma de analisar a interação entre as cartas. Eu não costumo associar cada posição a um elemento, mas ultimamente eu tenho aplicado o método de bases elementais a essa leitura. Tal método resume-se a usar um dos quatro elementos como base, de acordo com o tema de que tratam, e ver como as cartas reagem a isso. As associações podem ser rapidamente definidas como –

Fogo – atividades, afazeres cotidianos, carreira;

Água – emoções, sentimentos, relacionamentos, espiritualidade, inspiração;

Ar – projetos, estudos, aprendizado, processos legais, dificuldades;

Terra – trabalho, questões materiais e financeiras, dia-a-dia.

Podemos também aplicar cada um dos elementos como base elemental, para ver os quatro aspectos da situação, e como as cartas podem influenciadas por eles.

Consulta LuanaExemplo de leitura

Decidi usar o método de Péladan numa leitura feita para uma moça, sobre seus estudos de Tarot. Luana (nome fictício) quer saber sobre os progressos que tem feito como taróloga. Sua pergunta foi “Vou conseguir ser uma boa taróloga?”. A resposta –

O Pajem de Paus mostra Luana como uma estudante curiosa e entusiasmada, apaixonada por seus estudos de Tarot. Ela é capaz, tem um bom potencial e acredita em si mesma. Deve no entanto tomar cuidado para não ser precipitada e impulsiva, e para não ser inocente e confiar demais em si, deixando passar despercebidos detalhes importantes. Luana pode ser um pouco impaciente demais, e isso pode minar seu acesso ao conhecimento menos imediato do Tarot, mais distante da superfície. Isso parece ser confirmado pela presença da segunda carta como oposição. Serena, experiente e estática, a Sacerdotisa é um total contraponto ao Pajem, inquieto e inocente. Ela mostra que o Tarot exige de seu estudante uma postura contemplativa, receptiva e tranqüila, que espera receber a mensagem, mais do que esforçar-se para extraí-la das cartas. Luana confirma que não consegue muito parar para aprofundar-se nas cartas, e que isso é uma das coisas que ela sente estarem faltando em suas leituras. A Sacerdotisa personifica exatamente o desconhecido, aquela região de transferência entre o nosso mundo familiar e o mundo não acessado por nossa percepção ou imaginação. Esse é o obstáculo que Luana enfrenta – compreender o não-dito. A Sacerdotisa também representa aqui o conhecimento oculto, hermético, não pronunciado do Tarot, que Luana tem dificuldade – e pouca paciência – para alcançar. Como juiz, a Rainha de Paus na terceira posição une graciosamente a Água da Papisa com o Fogo do mesmo naipe do Pajem – é um perfeito contraponto entre as duas cartas anteriores. Ela indica que Luana deve aliar a intuição e percepção interior da Sacerdotisa ao impulso e curiosidade do Pajem, personificados na Rainha de Paus. A Rainha de Paus está a dois níveis acima do Pajem, mostrando que Luana deve aliar à sua energia criativa o poder introspectivo da Sacerdotisa. Por fim, o Rei de Copas indica que sim, Luana tem ótimas chances de ser uma boa taróloga. O Rei de Copas controla e dá corpo as suas emoções e intuições. Mostra alguém experiente, diplomático e sábio, com um conhecimento cristalizado em sua área de atuação. O Rei de Copas também incorpora a figura do conselheiro, daquele que vê e entende a alma humana profundamente.

A tiragem é composta somente de figuras da corte, o que indica um processo de auto-descoberta e desenvolvimento pessoal. Existe a busca por crescimento, impressa na progressão hierárquica das figuras. Interessante notar que essa progressão segue a ordem da tiragem, com um Pajem sendo sucedido por uma Rainha, que antecede o Rei, posto máximo. Isso denota a existência de uma progressão real, um desenvolvimento. Podemos perceber nessa tiragem uma dualidade forte entre Água e Fogo, elementos opostos. Isso denota um conflito interno na consulente – de um lado, seu desejo expansivo de descobrir, explorar e aventurar-se nesse campo de estudo; do outro, a necessidade de parar para contemplar, sentir, e dar espaço para a voz interior. A Sacerdotisa domina no jogo, por vários motivos. Ela é o único arcano maior, e única carta com número. A síntese do jogo, nesse caso, manifesta-se no próprio jogo, e isso tem uma significância especial. A tiragem é toda tematizada pela Sacerdotisa, que mostra a manifestação do inconsciente, do mistério e do desconhecido para Luana. O fato de a Sacerdotisa estar na posição de obstáculo mostra que esse é o desafio que Luana enfrenta em sua busca por aprender melhor o Tarot. A Sacerdotisa é a sua antítese. Ela impõe a Luana o desafio de olhar mais a fundo e ver nas entrelinhas. Por ser a mantenedora da doutrina esotérico (oposta ao Hierofante, o mantenedor da doutrina exotérica), a Sacerdotisa sugere também a importância do esoterismo nos estudos de Luana. Há aqui uma ênfase ao elemento Água, receptivo, profundo e introspectivo, enquanto a atitude de Luana é tipicamente ígnea – expansiva, auto-afirmativa e passional. Com efeito, seu signo solar também pertence ao elemento Fogo. A Rainha de Paus, como força dominante, sugere uma mistura das características ígneas do Pajem com a introspecção da Sacerdotisa. Por fim, o Rei mostra isso de maneira especial, como resposta, pois ele alia o elemento Água ao Ar, ou seja, a compreensão, a racionalização dos impulsos inconscientes e da intuição. Ele em si é um indicativo de que Luana terá sucesso em sua jornada de (auto)descoberta com o Tarot. Ela deve, no entanto, enfrentar a Sacerdotisa nesse processo, a Rainha dos Mistérios subterrâneos, a dona dos segredos. E a Sacerdotisa diz: “pare, e escute o som do silêncio”.

FONTES DE REFERÊNCIA

Livros

ABC do Tarot – Colette H. Silvestre

Online

Wikipedia

Joséphin Péladan – http://en.wikipedia.org/wiki/Joséphin_Péladan

Oswald Wirth – http://en.wikipedia.org/wiki/Oswald_Wirth

Thesis, Antithesis, Synthesis – http://en.wikipedia.org/wiki/Thesis,_antithesis,_synthesis

Hegelian Dialetic – http://en.wikipedia.org/wiki/Dialectic#Hegelian_dialectic

Antithesis – http://en.wikipedia.org/wiki/Antithesis

Clube do Tarô, tiragens – http://www.clubedotaro.com.br/site/p52_2_simples.asp#cruz

Tarot Elements – Adding an Elemental Base To Your Tarot Card Readingshttp://www.tarotelements.com/elemental-dignities/adding-an-elemental-base-to-your-tarot-card-readings/

Thesis — Antithesis – Synthesis, post by Jim Meskauskas – http://www.clickz.com/917191

outubro 17, 2009

Tiragem – O Desejo Verdadeiro

Diagrama de tiragem - o desejo verdadeiroDesenvolvi essa tiragem no meio de uma consulta, e ela provou ser muito útil em momentos em que estamos confusos e precisamos de insights sobre nossos próprios sentimentos, objetivos e qual o melhor caminho a tomar. É composta de seis cartas, posicionadas de acordo com a figura ao lado.  O objetivo da tiragem é expor e analisar os desejos do consulente, e, através disso, descobrir a melhor forma de agir e lidar com eles. Abaixo, uma descrição mais detalhada de cada uma das seis posições da tiragem –

1 – O eu – o ponto de partida da tiragem é o próprio consulente. Essa carta serve de lastro para as outras, sendo a referência principal no entendimento das outras cartas. Na prática, isso quer dizer que todas as cartas seguintes, com exceção da última (que é uma partida do âmbito individual do consulente), devem ser confrontadas com essa em sua interpretação. Essa posição fala do consulente, como ele está no momento da consulta, por quais coisas ele está passando, etc.

2 – Emoção – como estão suas emoções, como ele se sente, seu foco emocional. Um truque para ler as cartas que caem nessa posição é olhar as figuras e imaginar como elas se sentem na situação onde estão. Por exemplo, se o Oito de Espadas cair aqui, poderíamos dizer que a pessoa se sente restringida, presa, confusa, e que não consegue entender seus sentimentos direito.

3 – Mente – o que o consulente pensa, suas concepções a respeito da situação em que está, como ele a entende.

4 – O que realmente quer – o desejo verdadeiro do consulente, o que ele quer no fundo.

5 – O que não percebe – Tanto essa quanto a próxima posição tem temas mais impessoais, menos focados no consulente e mais em aspectos de sua situação. Servem de contraponto a ele. Aqui, damos espaço para o Tarot exercer uma de suas funções mais importantes – pôr-nos em contato com o desconhecido em nossas vidas. A posição 5 traz à luz um aspecto importante da situação que o consulente não está percebendo, alguma coisa que ele não sabe sobre si mesmo, seu comportamento e atitude, ou a situação em si. Frequentemente essa posição vai mostrar oportunidades ocultas, não percebidas. Um arcano maior nessa posição vai indicar a força arquetipal que é o pano de fundo da situação. Por exemplo, na situação de uma consulente que deseja estudar no exterior, o Carro nessa posição indicaria seu momento de emancipar-se, ser independente e perseguir seus próprios sonhos. Ases nessa posição tendem a representar oportunidades significativas. Já uma carta da corte poderá estar mostrando um aspecto da personalidade do consulente que está emergindo ou deve ser cultivado, ou mesmo uma pessoa com papel proeminente na situação.

6 – Como agir – por fim, uma carta com sugestões e aconselhamentos ao consulente. Essa posição faz a diferença total com as cartas anteriores, pois não apresenta uma descrição estática, oferecendo inspiração em vez disso. Essa posição é como a fagulha de energia que fecunda a concepção estática apresentada nas cinco cartas anteriores.


Ideias sobre a tiragem

Uma coisa legal sobre essa tiragem é que ela se foca mais no consulente e sua atitude, e como ela se reflete na situação que ele está vivendo, e menos em detalhes da situação em si. A ideia é trazer o poder de decisão para as mãos do sujeito da história, tirando-o da posição passiva de vítima das circunstâncias.

As posições de 1 a 4 mostram o consulente de uma maneira geral – como ele está, suas emoções e pensamentos, e o que ele realmente quer. Basicamente são mais estáticas, fixas, descrevendo mais estados do que ações; elas servem mais para esclarecer. As duas posições seguintes são mais criativas, servindo mais para inspirar e contribuir com algo novo. É claro que essas definições são flexíveis – as posições 2 e 4 podem sim ser bem flexíveis e trazer esclarecimentos enormes sobre como o consulente se sente e pensa.

Podemos associar cada posição a um elemento, para assim estabelecer um esquema de Elemental Dignities que expande o significado da tiragem como um todo. Cada um pode associar cada posição ao elemento que lhe parecer mais adequado, contanto que se mantenha sempre o mesmo. O Tarot funciona sempre de acordo com os preceitos de quem o usa, então regularidade é importante. Um pouco de experiência com a jogada pode contribuir para uma associação elemental mais acurada. Aqui vão as minhas ideias sobre as associações –

1, O eu – TERRA – as bases da consulta, a realidade objetiva, o consulente como um todo.

2, Emoção – ÁGUA, o elemento tradicionalmente associado às emoções;

3, Mente – AR, tradicionalmente associado à mente, como a Água às emoções;

4, O que realmente quer – FOGO – o elemento associado ao desejo e aos objetivos, à vontade;

5, O que não percebe – ÁGUA – o elemento Água reflete os mistérios do nosso inconsciente, e o desconhecido em nossas vidas;de certa forma, é uma oitava superior da posição 2, a raiz das emoções, das motivações.

6, Como agir – AR – pelo aspecto mais racional e imparcial dessa posição.

Exemplo de leitura

Tiragem desejo verdadeiro, consulta RosanaVamos agora usar uma leitura para colocar em prática as associações elementais das posições. A leitura que usarei como exemplo a seguir foi feita para uma garota, sobre seu namoro. Rosana e Renato estão passando por um momento bastante difícil em seu relacionamento, a ponto de a moça não estar mais certa dos motivos que a fazem continuar no relacionamento. Basicamente, Rosana não sabe se seus sentimentos são verdadeiros ou se só está persistindo num sonho, iludindo-se. As cartas retiradas foram –

1 – O Sol

2 – A Justiça

3 – O Diabo

4 – Oito de Copas

5 – Ás de Paus

6 – Quatro de Espadas

De maneira sucinta, vemos que a consulente acabou de perceber a sua situação de uma maneira nova, que a faz ver as coisas muito mais claramente, o que a deixa sentindo-se mais segura. Emocionalmente, Rosana está sendo imparcial, fria e objetiva. Ela de fato pesa e compara, julga o valor de seus sentimentos, avalia-os e verifica a sua real significância. A Justiça é uma carta um pouco fria demais para figurar na posição dos sentimentos. Por outro lado, mentalmente não poderia estar pior – focada demais na situação, ela não pensa em outra coisa, pendendo para a obsessão. O Diabo mostra que, além disso, Rosana só percebe o lado ruim da situação, e não consegue ver muito além do óbvio. Cabeça fechada, obstinada e teimosa, propensa a desentendimentos violentos. Seu desejo mais profundo é deixar essa situação para trás, afastar-se mesmo dela, fugir. A carta Oito de Copas indica desgaste emocional e falta de esperança. No entanto, Rosana não percebe que essa situação, aparentemente já bastante desgastada, esconde oportunidades de novos começos e expansão. O Ás de Paus mostra que a situação guarda uma energia muito intensa de criatividade, que Rosana pode usar para explorar novas possibilidades emocionais em sua vida – não necessariamente com outras pessoas. O conselho do Tarot é que ela se permita um tempo para pensar sobre tudo. O Quatro de Espadas pede silêncio e paz, um momento de descanso e restabelecimento da razão. Ela precisa de um momento longe de tudo para que possa respirar e enxergar seus próprios sentimentos de maneira mais sensata.

Agora, para verificarmos como cada carta reage à posição onde se encontra, combinamos seu elemento com o elemento da posição.

Posição 1, Terra+Fogo – Combinação neutra. Aqui, o Fogo tem suporte para queimar e manter-se ativo. A Terra, a matéria, oferece uma estrutura para que o Fogo se manifeste. No entanto, os dois elementos não enfraquecem nem fortalecem um ao outro, mantendo-se estáveis em sua intensidade. A atividade e energia do Fogo contrabalanceia a passividade e receptividade da Terra.

Posição 2, Água+Ar – Combinação neutra. Mesma coisa aqui; ambos os elementos mutáveis e flexíveis. O intelecto do ar contrabalanceia a emotividade da Água. Aqui, vemos mais uma vez a dicotomia entre intelecto e emoções, a intensidade da carta não se altera.

Posição 3, Ar+Terra – Combinação negativa. Num domicílio regido pelo Ar, a carta de Terra perde sua força, ou seja, seu impacto deixa de ser tão grande quanto poderia ser. Isso indica que a falta de clareza mental e a obsessão representadas pela carta 15 podem ser combatidas facilmente.

Posição 4, Fogo+Água – Combinação negativa. Mais uma vez, o elemento da posição anula a força do elemento da carta. Ela quer deixá-lo, mas essa vontade não é suficientemente forte para que seja posta em prática.

Posição 5, Água+Fogo – Combinação negativa. As oportunidades indicadas pelo Ás não são tão grandiosas e tendem a sumir no ar.

Posição 6, Ar+Ar – Combinação positiva. Depois de tantas cartas enfraquecidas ou neutras, a posição 6 praticamente domina a jogada, sendo a única a exibir uma combinação positiva. Aqui, a força do conselho da leitura recebe um destaque maior. O Tarot parece estar indicando que, com um pouco de tempo e descanso do desgaste da situação, a consulente vai ter mais capacidade de entender melhor o que está acontecendo e, consequentemente, fazer uma decisão mais acertada.

Podemos notar que as associações elementais podem mudar bastante o sentido da consulta. Abaixo, uma interpretação da leitura à luz das confrontações elementais –

Vendo as coisas de uma maneira mais clara e ojetiva, Rosana agora avalia o real valor de seus sentimentos, pesando os prós e os contras de seu amor. A garota está um pouco fixada demais nesse assunto, e não consegue desvenciliar-se dele, mas combate isso procurando ser sensata focando-se em si mesma, e em suas próprias necessidades. Apesar de sentir uma vontade intensa de deixar tudo para trás e sair da situação, Rosana não tem forças suficientes para fazer isso, por enquanto. Seu desejo profundo está sufocado e enfraquecido no momento. Tal situação esconde oportunidades de expansão que, apesar de efêmeras, podem ser boas se aproveitadas no momento. Tudo que Rosana deve fazer é dar um tempo da situação e ficar algum tempo sozinha para pensar e examinar mais a fundo suas motivações, sem interferências para distraí-la. Dessa forma, Rosana poderá recobrar sua vitalidade e será mais capaz de tomar decisões acertadas.

Explicação das cores

As cores de cada casa correspondem ao elemento a ela associado – Laranja para Terra, Roxo para Água, Vermelho vivo para o Fogo e Verde claro para o Ar; eu considero as casas 5 e 6 como “oitavas superiores” das casas 2 e 3, então as colori com variações de matiz de roxo e verde (no caso, azul-escuro arroxeado e amarelo-esverdeado). As associações de cores com os elementos baseiam-se nos Tattwas da doutrina indiana.

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