Descobrindo o Tarot

novembro 25, 2010

Desdobramentos de significados para o Pajem de Espadas + impopularidade do Crowley-Harris-Thoth

Recentemente, Henrique levantou duas questões que eu achei interessante postar aqui pro público, por serem dois assuntos que dão um pano pra manga legal. Sem mais enrolação por hoje, vamos direto ao ponto. Primeiro, os assuntos mais simples.

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Crowley-Harris-Thoth……………………………………………Henrique já começa mexendo na polêmica e deixando a ideia no ar –

Porque existem tão poucas informações sobre o tarot de Thot? Existe muito preconceito sobre esse tarot, mas penso que a simbologia dele é bastante rica e que ele tem uma incrível força com relação a intuição do leitor. Mas algumas cartas parecem ser bem confusas, principalmente se comparadas aos outros sistemas. Uma dessas cartas que me intrigam é o 7 de Pentáculos entre outros que tem significação bem diversa. O que você tem a dizer sobre esse baralho e seus “mistérios”?

Eu já percebi que faltam mais divulgadores do CHT em português, e eu acho que isso se deve largamente à predileção da mentalidade brasileira pelas visões mais tradicionais do Tarot. Eu percebo que a mentalidade predominante do Tarot no Brasil valoriza mais o que é tido como clássico, e o CHT, com suas diversas modificações e inovações, meio que vai de encontro com todos esses valores. A personalidade de Crowley – ou, melhor dizendo, a imagem construída ao seu redor, e a caricatura daí decorrente – também parece contribuir para essa torceção de nariz. Pessoas não falam muito sobre o CHT, logo, pessoas não ouvem muito sobre ele – e então você tem uma reação em cadeia, e um processo que se retro-alimenta.

Eu não sei muito sobre o CHT, mas o que eu percebo é que ele é geralmente pouco compreendido – em parte por requerer do praticante que se propõe a esgotar suas possibilidades (ou, ao menos, usá-lo levando em consideração suas proposições originais) um conhecimento grande sobre outras áreas da doutrina esotérica. Quem não está afim de estudar já sai fora nesse primeiro item. Mas, de novo, nem todo mundo acredita que precisa saber disso para fazer uso do Thoth (ou de qualquer outro baralho), e eles não estão certos – nem errados, rs. Waite critica a cartomancia popular, mas deslavadamente a reproduz em seu trabalho; Crowley parece ter levado o Tarot completamente para o âmbito da Magia, do ocultismo, e de todas essas coisas pouco acessíveis, nem tanto por serem ocultas, mas muito por serem complexas, e exigirem bastante do aspirante a praticante.

A impressão que eu tenho do Thoth é que, com ele, o babado é sério. Crowley não estava de brincadeira ali. Nem ele, nem Lady Frieda Harris, que demorou cinco anos para finalizar o projeto, que incluiu, muitas vezes, diversas versões para uma mesma carta, até que se chegasse à mais próxima do ideal. Cinco anos, contra os nove meses em quem o Rider-Waite-Smith foi pintado (não que o RWS seja inferior, mas o trabalho foi maior no Thoth). Seu simbolismo é intrincado. Sua arte é elaborada. As propostas que lhe subjazem, arrojadas. A ideia por trás do Thoth é que ele não é só uma ferramenta de análise passiva da realidade, mas de influência ativa sobre a mesma. Crowley levou a sério a ideia de que as ‘cartas são alguéns’. Eu já disse isso aqui – no Thoth, Tarot e Alta Magia alcançam um patamar de união. Nesse sentido, eu acredito que o Thoth representa um novo salto no Tarot – um salto mais além. Waite tornou o Tarot acessível; Crowley consolidou sua relação com a Magia.

No entanto, mais uma vez, nada de julgamentos de valor. A coisa toda não é uma linha reta, e eu penso mesmo que essa mentalidade linear é prejudicial. Alexander Lepletier disse uma coisa em sua palestra da Mystic Fair que eu achei muito legal – tradições devem suprir as necessidades de seus praticantes.

Sobre os significados das cartas, oque eu sei é que Crowley levou bem a sério os preceitos da Golden Dawn sobre o Tarot, e o sistema que ela desenvolveu, fazendo mudancinhas aqui e ali no que ele julgava necessário. Os significados das cartas no CHT, bem mais que no RWS, baseiam-se bastante em Astrologia e Cabala, e nas correspondências desses sistemas com o Tarot, segundo a GD. Eu acredito que qualquer diferença pode ser verificada quando levamos esses fatores em consideração. Não é que suas cartas não fazem sentido, ou ‘estão erradas’ – é só que elas se distanciam dos outros sistemas em vários pontos.

Como eu disse, eu não sei muito sobre o CHT, meu foco é o RWS. Adash, do Pergaminho das Eras, é o especialista em Thoth que eu mais conheço. Se você lê em inglês, o Paul Hughes-Barlow do Supertarot.co.uk também é expert em Thoth.

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Deespadaempunho(s)………………….Em um post antigo sobre o Pajem de Espadas, Henrique levantou a seguinte questão –

Esta carta pode ser entendida também como pessoa de comportamento ansioso ou situação causadora de ansiedade? Falo isso porque penso nela desta forma em alguns jogos…………………………………………………..

“Ansiedade” é uma palavra muito usada hoje em dia. Geralmente, eu vejo pessoas usando essa palavra para identificarem uma situação ou um sentimento caracterizado por um forte desejo de que algo se realize – como quando você fica ansioso para que seu namorado chegue logo; ou para que venha logo o prato delicioso que você pediu no restaurante. Pelo que eu percebo, no discurso cotidiano, “ansiedade” identifica a aflição inquieta motivada por um desejo intenso por algo que ainda não se têm, mas sobre o qual há certa perspectiva de se ter em breve. Aquela sensação de eu-não-posso-mais-esperar, de quero-isso-muito-agora. Por outro lado, eu também vejo as pessoas usarem muito essa palavra como sinônimo de preocupação, aflição e sofrimento – “Calma, você tá muito ansiosa”.

A origem da palavra é anxius, adjetivo latino que quer dizer algo como “apreensivo, preocupado, atormentado”. Interessantemente, a origem do anxius latino é uma raiz que centraliza ideias de sufocamento, constrição e aperto. “Ansiedade” não se focaliza no desejo, e muito menos no objeto desejado, mas sim no desconforto que esse desejo não-satisfeito provoca. É essa entidade abstrata que ela parece pretender nomear.

Ainda assim, no dia-a-dia, “ansiedade” tem muito uma conotação de “desejo”, de “anseio“, desejo intenso e impaciente.

ansiedade

sf (lat anxietate) 1 Aflição, angústia, ânsia. (…) 3 Desejo ardente ou veemente. 4 Impaciência, insofrimento, sofreguidão.

Quando eu penso sobre “ansiedade”, me vem logo de cara outra palavrinha na cabeça – cupidez.


Sim, o nome do deus romano do amor, Cupido, está relacionado a essa palavra. Cupidu quer dizer “desejoso”. Desejo-insatisfação-sofrimento, essa é a constelação que eu proponho para “ansiedade”. Estaria o Pajem de Espadas, portanto, cúpido? Se sim, cúpido de que?

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Eu não costumo ver o Pajem de Espadas como nada disso.

Não diretamente, ao menos.

Entretanto, essa relação entre o Pajem de Espadas e o conceito da inquietação ou do desassossego não é nova, e parece ser popular, até. Muitas pessoas associam esse Pajem a inquietação, algumas mesmo levando essa noção de inquietação para caminhos mais pesados, transformando o Pajem de Espadas em um mensageiro de preocupações, insegurança, desconforto e problemas. É interessante notar essa evolução no processo de significação de uma carta. Uma perninha vai puxando a outra. Gera-se uma reação em cadeia de associações.

Essa visão mais pesada do Pajem de Espadas é curiosamente sugerida em seu retrato no Rider-Waite-Smith, sobre o qual Waite comenta:

“(…) Atravessa um terreno acidentado, e sobre o seu caminho as nuvens dispõem-se turbulentamente. Ele é alerta e ágil, olhando para todos os lados, como se um esperado inimigo pudesse surgir a qualquer momento.”

(‘(…) He is passing over rugged land, and about his way the clouds are collocated wildly. He is alert and lithe, looking this way and that, as if an expected enemy might appear at any moment.‘)

“Terreno acidentado”. “Nuvens dispostas desordenadamente”. Nem tem como negar. Confusão e problemas, sim. Já ouvi gente comentando que as nuvens ali sugerem confusão mental, pensamentos enuviados – ainda mais com uma boa porção das nuvens bem perto do rosto do personagem.

Mas, também, atenção – “(…) he is alert and lithe, looking this way and that, (…)”

Eu vejo o Pajem de Espadas mais como curiosidade, observação, descoberta, novas ideias, vivacidade, agilidade, flexibilidade, animação; e também como certa presunção, uma certa atitude de sabe-tudo, ou problemas de mal-entendido, dependendo das cartas ao redor. Eu gosto muito da descrição de Waite quando ele descreve esse pajem como “uma figura esbelta, viva, (…), caminhando com passos rápidos” (‘A lithe, active figure (…), in the act of swift walking‘). Silfídico (o que, convenhamos, é bem próprio de um personagem do elemento Ar). A descrição retrata um personagem todo atividade, meio inconstante, leve, fugidio e mutável – como as nuvens ao fundo, no céu, e o chão onde ele pisa. Outra coisa que me chama a atenção nesse pajem (e que já ouvi comentários antes) é a forma que ele segura a espada – com as duas mãos (detalhe que Waite também salienta quando diz ‘holds a sword upright in both hands’), como se não soubesse direito como portar uma espada. Ele é o único de sua corte a fazer isso.

Parece que, com o tempo, esse pajem parece ter incorporado bastante do aspecto mais conflituoso e problemático do naipe de Espadas. As pessoas parecem ter-lhe atribuído tal papel. No entanto, nem sempre foi assim. As primeiras tentativas de significar essa carta não foram tão contundentes com a coisa das intrigas, ou confusão. Etteilla não fala nada sobre isso. Em seu sistema, o Pajem de Espadas é muito relacionado a observação cuidadosa, espionagem e pesquisa – constelação de significado que Waite carregou à sua versão do Tarot, deixando-a parcialmente impressa na imagem de um jovem ativo sempre alerta, e com uma postura de desconfiança e certa tensão. De Mathers, Waite parece ter pegado os significados relativos a autoridade e poder. Indo por outra corrente, mais ligada à Cabala, a Golden Dawn caracteriza a sua Princesa de Espadas como graciosa, ágil, destra e meticulosa, e traça paralelos entre sua figura e as figuras de duas deusas romanas, quando diz que ‘(…) she is a mixture of Minerva and Diana – Minerva (a Athena grega) e Diana (Ártemis), justamente as duas deusas sempre virgens, alheias aos homens, imagens do feminino auto-suficiente, questionador do poderio masculino. Crowley endossa essa visão, e acrescenta que, quando mal-aspectada, sua inteligência e agilidade dispersam-se, tornam-se incoerentes, e criam um caráter baixo, voltado a fins vis.

O meu take sobre esse pajem é que ele representa as ideias em seu processo de formação, quando elas ainda estão pouco definidas, inconstantes e mutáveis. Sua imagem no RWS salienta seus aspectos de observação, atenção e agilidade – bem como, em certa medida, a rebeldia e irreverência mencionadas pela GD. O Pajem de Espadas pode tropeçar (claro, num chão desses…) – mas não perde o rebolado.

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Respondendo diretamente a sua pergunta, Henrique, eu não sei de onde exatamente você tirou de associar o Pajem de Espadas a ansiedade, mas nós dois pudemos ver que essa noção não é infundada. Existe sim uma visão desse pajem que o associa a complicações e problemas. Se você pratica com o RWS, é possível que você tenha sentido isso na imagem – os desenhos de Pamela são bastante eloquentes. Assim, se o que você procura é respaldo, não lhe falta.

Eu tenho percebido que esse desejo nosso (não sei se seu, mas muitas vezes meu, e eu admito sem vergonha) de confirmar significados tende a calcar-se em uma vontade de justificar, legitimar, normatizar uma intuição ou insight que temos a respeito dessa ou daquela carta. Eu também tenho percebido que isso pode estar relacionado à nossa própria insegurança, ao nosso medo de errar, dizer besteira, ser incoerente, etc. Sempre a pressão de acertar, de ser correto, de ser perfeito – os fantasmas velhos dos praticantes de Tarot. Sobre isso, só digo uma coisa – vamos começar a exercitar nossa libertação disso. Ao menos em parte.

Eu acho legal pesquisar os significados de vários autores – particularmente os que estabeleceram as bases da conceitualização do Tarot de hoje. Quase sempre nossas ideias revelam-se ecos – mais ou menos fiéis – de algum desses pensadores. Quase sempre, a gente acaba percebendo que nossas ideias não são novas, que já teve gente que trilhou nosso caminho (e foi além) e, pra mim, isso é o legal de estudar o trabalho desse povo.

Significados são coisas pessoais – especialmente os das cartas menores. Minha descrição aqui pode ter parecido confusa, porém minha intenção foi justamente ilustrar como existe mais de um sistema de atribuição de significado às cartas – e como que, num certo nível, tais significados dependem de cada leitor. Como eu sempre digo, não existe um cânone – o que existem são diversas vozes, diversos expoentes de uma mesma carta, e diversas formas de abordá-la. O legal de estudar essa diversidade é tanto o fato de nos possibilitar contato com uma profusão de significados diferentes, quanto a consciência de que, em matéria de Tarot, nada é tão determinado – e determinista – quanto a gente gostaria que fosse.

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É isso, Henrique. Obrigado por participar do blog, e eu espero ter respondido suficientemente bem às questões que você levantou. Eu sempre complico, mas pelo menos um pouquinho eu tenho que explicar, rs.

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REFS

Minha referência para o post de hoje foi principalmente o site do Paul Hughes-Barlow, Supertarot.co.uk, que conta com uma ótima seleção de significados para todas as cartas, por diversos autores. Também, o Book T, de Mcgregor Mathers. Principal documento sobre Tarot da Golden Dawn.

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novembro 13, 2010

UPDATES DE SIGNIFICADO 6 – IDEIAS RELÂMPAGO

Só pra não ir dormir em branco, algumas coisas que têm permanecido na minha cabeça – insights que tive nas últimas leituras que fiz.

Cavaleiros são heróis – ampliação de horizontes. O Cavaleiro como a figura que vai além das fronteiras de seu reino, aventura-se, amplia sua visão. Força conquistadora, impulso desbravador, predominância do instinto. Também, liberdade – essa é uma palavra bem Cavaleiros que eu nunca levo em consideração. A figura do Cavaleiro também é a figura do herói, aquele que se aventura por terrenos desconhecidos – um desbravador. Os terrenos desconhecidos podem ser dentro de si mesmo – enfrentar medos, dominar impulsos. A gente vive nossas vidas num eterno processo composto de inúmeras repetições de padrão, e nos tornamos reféns disso – A Roda da Fortuna. O Cavaleiro vem justamente pra quebrar esse paradigma e trazer o novo – a novidade, a notícia, o pedaço de informação que vai criar novos paradigmas.

Quando lhe cair um cavaleiro, tenha coragem. Enfrente o dragão. Coloque-se em risco, arrisque tudo, ande na corda bamba, exponha-se, siga seu coração. Numa palavra só – viva, de verdade.

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Essa coisa de cavaleiros e terrenos desconhecidos me fez lembrar daquela faixa batidésima da Alanis Morissette, Uninvited, onde, num trecho da letra, ela diz, “Like any uncharted territory I must seem greatly intriguing” (‘como qualquer território não mapeado, eu devo parecer muito intrigante’). O cavaleiro corre atrás desse mistério, desse tesão.

O Cavaleiro de Bastões busca sua liberdade e corre atrás do novo, do estrangeiro, ele é responsável pela inovação;

O Cavaleiro de Copas vai em busca dos seus sonhos, da sua imaginação, ele mergulha fundo dentro de si mesmo, intensamente;

O Cavaleiro de Espadas luta pelos seus ideais, pelas suas verdades, inflama-se pelo que acredita;

O Cavaleiro de Pentáculos vai em busca da realização, ele trabalha para trazer ao mundo algo que ainda não existe – mas que vai existir com o seu fazer.

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Como Yod, os Cavaleiros são a força da Vida, o impulso que puxa os seus naipes como Áries encabeça e puxa o Zodíaco todo. Eles estão relacionados diretamente aos Dois, porque ambos relacionam-se a Chokmah na Árvore da Vida – –

Cavaleiro de Bastões + Dois de Bastões – Domínio, auto-afirmação, poder, ousadia, autoridade.

Cavaleiro de Copas + Dois de Copas – amor, união, harmonia, transpessoalidade, romance.

Cavaleiro de Espadas + Dois de Espadas – equilíbrio, justiça, frieza, trégua, diplomacia.

Cavaleiro de Pentáculos + Dois de Pentáculos – fluência, alternância, dinamismo, versatilidade, sensibilidade. O Dois de Pentáculos é o malabarista, aquele que eleva o sentido do tato, do físico, à sua mais alta potência – é preciso grande habilidade para fazer o malabarismo. É o contato com a matéria em sua forma mais sofisticada.

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RODA DA FORTUNA – recentemente, alguns dias após eu ter publicado meu post com a Lista Negra, a Roda da Fortuna me caiu encabeçando uma consulta, na carta que eu tiro para inaugurar a consulta inteira. Isso me obrigou a olhar para essa carta, como também meu deu a oportunidade de mergulhar dentro dela. E, lá no fundo, o que eu encontrei foi eterno movimento. O movimento da Roda da Fortuna é rápido o suficiente para te manter preso a ele, na força centrífuga que ele gera.

A Roda da Fortuna é velocidade, é constante movimentação, e intensa força. Ela é a força da vida que gira e se move constantemente, flui.

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O EREMITA – Outra carta que me apareceu recentemente em leituras. O Eremita não passa por privações porque ele não tem condições, mas porque ele quer. Então, seu estado não é de sofrimento, mas de contentamento. Um contentamento que advém justamente da ausência, da falta. É como se, na ausência, ele encontrasse a verdadeira presença; no nada, é como se ele encontrasse o tudo escondido, finalmente, onde ninguém jamais suspeitaria que ele estava.

O Eremita me faz pensar nos padres e freis antigos que faziam voto de pobreza. É privação em nome de uma causa, por um motivo específico, por uma crença. Que nem quando você deixa de comprar mais uma calça pra poder pagar um curso que você quer fazer.

O Eremita também me faz pensar em solidão voluntária – o que passa a ser solitude. Solitude é legal – você encontra uma liberdade que tem a ver com a ausência de cobranças, você passa a ser seu único chefe, e dessa liberdade vêm a responsabilidade. Ficar sozinho te faz conhecer-se melhor, muito melhor, porque seu foco externo murcha, e você tem a oportunidade de conscientemente olhar mais para si mesmo, sem pedras na mão.

Acho que o Eremita fala dessa descoberta de uma segunda instância do si, do eu. Daí a luz na mão dele. A relação do Eremita com o signo de Virgem é papo pra pesquisa e outro post.

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Hypnos e Morpheu pra mim agora J


setembro 12, 2010

EXPLICANDO A CONFUSÃO – CAVALEIROS QUE SÃO REIS, REIS QUE SÃO CAVALEIROS, RAINHAS, PRINCESAS, PAJENS, etc, etc, etc

Filed under: Diversos, Figuras da Corte — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 1:01 AM

O meu objetivo com esse post é um, e somente um: esclarecer, de uma vez por todas, a grande confusão que paira sobre as figuras da corte e seus ranks em diferentes decks de Tarot.

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A Confusão Primeiro de tudo, vamos definir bem sobre qual confusão estamos falando – o Tarot é cheio delas, diga-se de passagem. Quem ao menos passou os olhos sobre um baralho Thoth deve ter notado a discrepância entre seu sistema de ranking das figuras da corte e o sistema de outros baralhos, como o Marseille ou o Rider-Waite-Smith (RWS, daqui pra frente). No Thoth, o sistema comum de Rei-Rainha-Cavaleiro-Pajem é substituído por um esquema de Cavaleiro-Rainha-Príncipe-Princesa. Tal distinção tende a causar muita confusão entre quem estuda Tarot, especialmente em tentativas de comparar os dois sistemas. Essa diferença levanta várias perguntas – por que foi feita tal alteração? Qual é exatamente a correspondência entre os dois sistemas? Que diferença isso faz na leitura?

É provável que particularmente dois tipos de estudante/praticante de Tarot tenham se deparado com essa questão em seus estudos – aqueles que travaram algum contato com o baralho Crowley-Harris Thoth, idealizado pelo mago Aleister Crowley e pintado pela artista Lady Frieda Harris – ou qualquer baralho que partilha de parâmetros semelhantes; ou aqueles que, em algum momento, tenham entrado em contato com os preceitos da Ordem Hermética da Aurora Dourada (The Hermetic Order of the Golden Dawn, em seu nome inglês original, comumente chamada de Golden Dawn, e doravante abreviada simplesmente como GD). Quem não pertence a pelo menos um desses dois grupos poderia bem parar de ler esse post a essa altura, ou encarar os próximos parágrafos como pouco mais que uma simples curiosidade sobre os rumos que o Tarot tomou durante a virada entre os séculos 19 e 20.


Mas, chega de enrolação, é hora de descobrirmos alguns porquês.

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História Um pouco de história para começar. As figuras da corte chegaram do mundo islâmico à Europa provavelmente no final do século 13, como parte de um maço de cartas de jogar, e eram em número de três para cada naipe – um rei, e mais outros dois oficiais menores. Não demorou muito para os europeus modificarem esse esquema, trocando os títulos das posições para ranks mais familiares a sua sociedade, e acabarem por fixar a adição de mais uma figura: a rainha. À altura do século 15, após diversas variações e a inclusão dos trunfos, o agora baralho de tarot geralmente contava com uma corte fixa composta pelas quatro figuras conhecidas até hoje – um rei, uma rainha, um cavaleiro, e um pajem ou valete. Foi provavelmente um baralho assim que, cerca de 1775, foi parar nas mãos do pastor protestante e ocultista francês Antoine Court de Gébelin (ca. 1719 – 1784), atualmente tido como o primeiro ocultista a proclamar ao mundo as supostas origens herméticas do Tarot. Estava iniciada a vida esotérica do Tarot.

Entre Gébelin e a GD passaram-se mais de cem anos, durante os quais muita coisa aconteceu com o Tarot – inclusive sua associação com a Cabala, estabelecida principalmente pelo ocultista francês Eliphas Lévi. O próprio Gébelin já havia sugerido tal relação em sua obra, especialmente entre os vinte e dois trunfos e as vinte e duas letras do alfabeto hebraico; no entanto, foi Lévi o primeiro a desenvolver tal ideia a um sistema completo, por volta de 1855. Portanto, em 1888, ano em que a GD foi fundada, a ideia de que o Tarot e a Cabala estavam ligados já contava com mais de trinta anos. Contudo, ainda que a doutrina da GD compartilhasse com Lévi tal noção (bem como muito mais), esta difere em diversos pontos das ideias do ocultista francês.

A Golden Dawn tem sua origem nos Manuscritos Cifrados, uma coleção de sessenta folhas com escrita em código, contendo, entre outras coisas, descrições de rituais e instruções sobre Tarot e Magia. O detentor de tais manuscritos era William Wynn Wescott (1848-1925), médico legista oficial e ocultista participante em diversas ordens secretas, que viria a ser um dos fundadores da GD. Grande confusão paira sobre a real origem de tais manuscritos. Segundo Wescott, os documentos chegaram às suas mãos meio que por acaso, e haviam pertencido originalmente a Frederick Hockley, importante ocultista inglês, membro proeminente de outra ordem esotérica, a Societas Rosicruciana in Anglia, ou simplesmente S.R.I.A., da qual Wescott também fazia parte. Após o falecimento de Hockley, em 1885, Wescott foi incumbido de cuidar de seus papéis, e é então que ele afirma ter encontrado os manuscritos. Essa afirmação foi, contudo, diversas vezes contestada como falsa. Inúmeras teorias especulando sobre a real origem dos tais manuscritos foram posteriormente levantadas, a maioria das quais sustentando ser Wescott um dos verdadeiros criadores dos documentos. Controvérsias à parte, o fato é que os Manuscritos Cifrados constituíram a base da doutrina da GD. Neles encontra-se a semente de uma noção que iria irremediavelmente marcar o Tarot para sempre.

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Kabbalah e Qabalah “O Tarot guarda intrínsecas ligações com a Cabala”. Sendo bem sintético, essa é a principal afirmação contida na parte dos Manuscritos Cifrados que trata das cartas. Com efeito, a Cabala é a principal filosofia e estrutura que subjaz a fundação conceitual de ordens esotéricas como a GD ou a antiga Ordem Rosacruciana – do esoterismo ocidental em geral, podemos dizer. Não exatamente a Cabala tradicional judaica, entretanto, mas a Cabala Hermética, e é importante fixar essa distinção antes de prosseguirmos.

Falando de modo geral, a Cabala Hermética, foco do nosso interesse, é fruto de um sincretismo que ocorreu principalmente durante a Renascença, e que combinou o misticismo judaico com linhas de pensamento comuns à ciência medieval e renascentista, tais como astrologia, alquimia, gnosticismo, etc. Coisas como associações planetárias e mágicas existem desde o surgimento da Cabala Hermética, que teve como principal precursor o eminente filósofo italiano Pico della Mirandola, no século 15. O estudo da história e do desenvolvimento da Cabala é um assunto extenso em si, que certamente merece ser considerado com respeito. Para nossos fins, no entanto, o mais importante é entender que, a partir de sua inclusão no corpo científico-filosófico da Renascença italiana, a Cabala Hermética passou por um extenso desenvolvimento até chegar ao ocaso da Era Vitoriana inglesa, quando do surgimento da Golden Dawn. De certa forma, os desenvolvimentos feitos pela GD nesse campo representam uma culminação da inclusão da Cabala ao sistema místico e esotérico europeu. Foi por exemplo MacGregor Mathers, outro dos fundadores e líderes da GD, quem estabeleceu a grafia Qabalah, em vez da Kabbalah tradicional, por considerá-la “…mais consistente com a língua original”, como afirma Robert Wang. A Cabala Hermética agora tinha um “nome” só dela, e tal grafia tem sido usada para distinguir as duas correntes de cabalismo desde então.

Assim, temos de um lado a Kabbalah tradicional judaica, parte da tradição judaica focada no aspecto místico dos ensinamentos; e do outro, a Qabalah Hermética, que consiste na tradição mística judaica fundida ao hermetismo ocidental. A Cabala Hermética é justamente a estrutura que sustenta o pensamento esotérico do século 19, sendo responsável pelo Tarot moderno – e tendo, por conseguinte, sustentado alterações na organização do Tarot enquanto sistema simbólico. Como as mudanças na estrutura das figuras da corte, por exemplo.

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O Tetragrammaton . . O trecho dos Manuscritos Cifrados que trata do Tarot começa assim:

Os 22 atouts do tarot, os trunfos, equivalem às letras hebraicas e aos Caminhos Yetziráticos. Aprenda agora, O Practicus de nossa antiga ordem, o verdadeiro significado do Alfa e Ômega.

Trinta e dois são os caminhos, equivalendo a 22 letras e 10 Sephirot.

As 10 Sephirot são as 10 cartas numeradas de cada naipe.

Os 4 naipes são os 4 mundos.

As 16 cartas da corte são o Tetragrammaton quaternário.

As 22 letras são os 22 atouts ou Mansões de Thoth.

(…)

[Tradução e bold meus]

Preste a atenção no trecho acima – você vai ouvir bastante sobre ele daqui pra frente. O texto prossegue fornecendo a tabela de associações e discorrendo sobre algumas delas. O Tetragrammaton ao qual o texto associa as 16 cartas da corte refere-se ao nome hebraico de Deus, י ה ו ה‎, composto por quatro letras (daí tetragrammaton, τετραγράμματον, que em grego significa algo como ‘[palavra com] quatro letras’). A palavra hebraica י ה ו ה‎, composta pelas letras yod, heh, vav, e heh, transcreve-se por YHVH. Na escrita hebraica, a exemplo de outras línguas semíticas, vogais não são grafadas, o que nos impossibilita saber com exatidão como o nome de Deus é pronunciado, “representando, por conseguinte, a natureza incognoscível de Deus”, como diz Rachel Pollack. YHVH é comumente traduzida por “Yaweh” ou “Jehovah” – daí o nome de Deus no Velho Testamento, Jeová. Havia, desde muito antes de Lévi, a noção de que esse nome é especial e poderoso. Diz-se que, na antiguidade hebraica, o sagrado nome de Deus só era proferido pelo sumo-sacerdote uma vez por ano, no ritual sagrado do Yom Kippur, ou Dia da Reconciliação – o dia mais sagrado para os judeus. Particularmente na tradição da Cabala Hermética, o tetragrammaton era tido como uma palavra mágica; quem soubesse sua exata pronúncia poderia alcançar feitos inigualáveis. A Cabala confere às letras e aos números um significado profundo. No pensamento cabalístico, letras e números são considerados forças espirituais, e cada letra possui um valor numérico. Juntando as letras de uma palavra, através de seus valores numéricos, temos um valor final que reflete a essência dessa palavra. A combinação de letras que forma o nome de deus é vista, portanto, como a chave para todos os mistérios da vida, o grande segredo sobre a existência – daí sua importância.

Talvez a coisa mais importante a se saber sobre o tetragrammaton na Cabala é que ele não é exatamente um nome, como um nome dado a alguém ou algo – ele é uma fórmula:

י ה ו ה não é realmente um nome, mas uma fórmula que revela a mecânica básica da criação e da existência humana.

[Lon Milo Duquette, Chicken Qabalah – tradução minha]

O processo descrito pelo tetragrammaton pode ser verificado ao analisarmos cada uma de suas letras. Brevemente, temos:


Na tradição da Cabala Hermética, cada letra do tetragrammaton é associada a um dos quatro Elementos primordiais gregos da seguinte maneira –

י‎

yod

Fogo

ה

heh

Água

ו

vav

Ar

ה

heh

Terra

Há outras propostas de associação, mas essa parece ter sido a que mais se fixou. Foi provavelmente com base nessa noção que Lévi estabeleceu uma correspondência entre os quatro naipes do Tarot e as quatro letras do tetragrammaton ––

י‎

yod

Fogo

Paus

ה

heh

Água

Copas

ו

vav

Ar

Espadas

ה

heh

Terra

Ouros

É possível que a concepção de que “os 4 naipes são os 4 mundos”, como está nos manuscritos cifrados da GD, tenha se originado nessa ideia de Lévi. E é justamente essa a chave para começarmos a desfazer a confusão.

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A Explicação . . . .Talvez uma das primeiras impressões de alguém que começa a entrar em contato com a Cabala seja a de que o pensamento cabalístico pende para um certo fractalismo. Existe um modelo, e esse modelo se auto-replica dentro de si mesmo, quase que infinitamente. Continue lendo, e você vai perceber o que estou dizendo.

A Manifestação – a criação, o processo em que do nada se faz o tudo – é ilustrada pela Cabala na famosa imagem da Árvore da Vida. A Árvore da Vida é um diagrama composto por dez Sephirot, ou esferas, onde cada esfera representa tanto um atributo/aspecto de Deus, quanto um estágio no processo de Manifestação. As esferas são ligadas por vinte e dois Caminhos. A Árvore da Vida, com as dez Sephirot e os vinte e dois caminhos que as unem, é um modelo do processo de criação. Ela pode ser usada tanto para representar o Universo (a totalidade da criação, da qual o nosso universo físico é parte), como para representar qualquer processo de manifestação/criação em geral. O Universo pode ser representado pela Árvore da Vida justamente por ser, ele, a Manifestação de Deus. Na Cabala, o processo da Manifestação divina segue um padrão ultérrimo que se replica nos processos que compõem esse processo, de maneira fractal. Tudo, tudo segue um mesmo padrão, um mesmo ritmo. A Árvore da Vida pretende representar esse padrão, e o tetragrammaton fornece a estrutura quaternária para isso.


Na Cabala, a criação do Universo é concebida como um processo onde Deus, o Espírito, desdobra-se em emanações sucessivas até dar origem ao nosso mundo material. Temos então quatro “estágios” – quatro Mundos. Cada mundo corresponde a uma letra do tetragrammaton. Na concepção da Cabala, o Universo divide-se nesses quatro Mundos, quatro planos distintos de manifestação. A ideia fundamental para entender isso é ver Deus como um impulso de criação que parte do estado de existência mais excelso e imaterial e “desce” rumo a um estado cada vez mais denso e material, que culmina com a criação do nosso mundo, da nossa realidade. Esse impulso é o que gera os quatro Mundos, e os quatro mundos juntos são o Universo. Sendo a Árvore da Vida uma representação do Universo, os quatro Mundos podem ser representados nela e por ela, e existem três formas de fazer isso. Para nosso propósito, a forma que vou expor agora é a mais adequada. Considerando que a Árvore da Vida é um modelo geral do processo de manifestação, e considerando ainda que cada um dos quatro mundos é parte desse processo, temos então que cada mundo pode ser representado, ele mesmo, por uma árvore individual, o que totaliza portanto quatro árvores (ver figura ao lado). Esse modelo de representação dos quatro Mundos é de suma importância para a associação dos naipes com os Mundos, e para entendermos a questão das figuras da corte.

Vou explicar. Como consta nos manuscritos cifrados, os 4 naipes são os 4 mundos; isto é, de acordo com a doutrina da GD, cada naipe é a representação de um dos mundos cabalísticos. Pois bem, se cada Mundo for visto como uma árvore composta de dez esferas, temos nos quatro mundos um total de quarenta esferas – o mesmo número do total das cartas numeradas (ás a dez) dos quatro naipes. Não é preciso pensar muito para perceber que cada uma das quarenta cartas numeradas do Tarot foi associada a uma sephirah de um dos quatro mundos, determinada pelo naipe ao qual ela pertence, e obedecendo a ordem numérica. Está nos manuscritos, “as 10 Sephirot são as 10 cartas numeradas de cada naipe”. A figura ao lado mostra um exemplo dessa ideia, com as dez cartas numeradas do naipe de Copas dispostas sobre a Árvore da Vida, representando o segundo mundo, chamado Briah, o Mundo Criativo – ao qual o naipe de Copas corresponde (clique sobre a imagem se quiser ampliá-la). O Dois de Copas, por exemplo, é Chokmah (a segunda sephirah) de Briah, ou seja, Chokmah no mundo da Criatividade.

“E quanto às figuras da corte?”, alguém pergunta. Diz o manuscrito: as 16 cartas da corte são o Tetragrammaton quaternário. Vamos prosseguir, e você vai entender.

Lembre-se, sendo cada Mundo uma parte do processo de manifestação, cada Mundo é também um processo em si. Como eu disse há pouco, o tetragrammaton é uma fórmula que aparece de várias maneiras distintas pela Árvore da Vida. Uma delas é a seguinte – em cada um dos quatro mundos, cada letra do tetragrammaton guarda relações especiais com uma entre quatro das dez sephirot, pois no processo que cada mundo representa, tais esferas são como que os pontos principais, podemos dizer. Cada uma das dezesseis cartas da corte corresponde a uma dessas quatro esferas especialmente relacionadas ao tetragrammaton, nos quatro mundos – ou seja, nos quatro naipes. É justamente nesse sentido que o texto diz que as dezesseis cartas da corte são o tetragrammaton quaternário. Assim, temos nos quatro Mundos uma expressão do tetragrammaton, e o tetragrammaton manifestando-se em cada Mundo. As figuras da corte correspondem a essa expressão particular do tetragrammaton. Da mesma maneira que elas formam uma organização independente dentro de cada naipe, o tetragrammaton na Árvore de Vida é como que um processo à parte dentro do processo geral (melhor seria dizer que ele é a espinha dorsal do processo). Foi justamente essa ideia que provocou as alterações na estrutura tradicional das cortes de cada naipe do Tarot.

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Explicando mais… . . .Antes de prosseguir, vamos precisar voltar um pouquinho e considerar brevemente a estrutura tradicional das cortes do Tarot. As quatro cortes dos naipes são organizadas mais ou menos como as cortes europeias da época em que o baralho que mais tarde se transformaria no Tarot chegou à Europa. Tudo obedece a uma hierarquia bem definida – um rei, soberano sobre tudo; abaixo dele, uma rainha, sua consorte, cuja principal responsabilidade é portar sua semente (machista, eu sei), bem como influir em suas decisões; logo abaixo da rainha, temos um cavaleiro, representante do poderio militar que está sob o comando do rei e executa suas ordens; e, finalmente, um pajem, que pode ser visto tanto como um ajudante do cavaleiro (um escudeiro), quanto um soldadinho raso, ou mesmo um servente da corte. Numa estrutura meio piramidal, a rainha está submetida ao rei, o cavaleiro ao rei e à rainha, e o pajem aos três anteriores, ocupando a base da pirâmide. Os conjuntos de figuras da corte são como as famílias de cada naipe, núcleos de relacionamentos que se ligam por meio de uma estrutura que rege as relações sociais.

Agora, vamos dar uma olhada rápida nas sephirot da Árvore da Vida. A palavra “sephirot” é a forma plural de “sephirah”, que em hebraico significa “enumeração”. Em número de dez, os nomes das sephirot são:

1. Kether, Coroa

2. Chokmah, Sabedoria

3. Binah, Compreensão

4. Chesed, Misericórdia

5. Geburah, Severidade

6. Tiphareth, Beleza

7. Netzach, Vitória

8. Hod, Esplendor

9. Yesod, Alicerce

10. Malkuth, Reino

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Falando bem sumariamente, no topo da árvore, Kether, temos a Unidade. Kether é a primeira sephirah, e representa o Uno auto-criado, pura existência. Em Kether está a origem de tudo, contida em forma de potencial não realizado. A próxima sephirah, Chokmah, é um reflexo direto de Kether, e representa a primeira centelha de força e vida que brota do Nada potencial de Kether. Chokmah é o Ser, o primeiro impulso de existência.
Como primeira emanação, Chokmah é a partícula primordial que dá inicio a tudo – pura energia e ação. Da mesma forma que Kether se polariza em Chokmah, Chokmah polariza-se em Binah, a terceira sephirah. Assim como Chokmah – o Ser – é a contraparte existencial de Kether – o Não-Ser – Binah é a contraparte feminina da força puramente masculina de Chokmah. Binah é a forma – ela recebe a energia pura de Chokmah e a impõe-lhe uma estrutura através da qual Chokmah possa executar sua ação. Mais uma vez, pense na analogia que eu usei mais cedo, da eletricidade (Chokmah) e do computador (Binah). Outra forma de se conceber a dinâmica entre Chokmah e Binah é compará-las à chama de um isqueiro – Chokmah é as faíscas geradas quando rodamos a lixa circular, e Binah é o fluido combustível que, ao ser apertado o botão, escapa em estado gasoso (veja aqui um exemplo legal disso). Da mesma forma que o gás fornece às faíscas a estrutura necessária para que elas se realizem em chama, Binah fornece a Chokmah a estrutura para que sua energia infinita dê origem ao Universo. Kether, Chokmah e Binah formam uma unidade trina (uma trindade), onde Chokmah e Binah são meramente atributos já contidos em potencial na sublimidade de Kether. Chokmah e Binah são os aspectos masculino e feminino do andrógino Kether, cuja união resulta na criação do Universo. Ambas são as duas forças opostas básicas que originam tudo. Por conseguinte, Chokmah recebe o título de Pai Supremo, e Binah é chamada Mãe Suprema.

Agora, dê uma olhada novamente na descrição das letras do tetragrammaton que eu ofereci mais acima. Podemos notar uma semelhança entre Yod e Chokmah (ambos princípios masculinos e ativos), e Heh e Binah (ambas forças femininas e receptivas); tal semelhança não é coincidência. De fato, Chokmah, é atribuído a Yod, e Binah é atribuída ao primeiro Heh do tetragrammaton. Repetindo – o tetragrammaton é o padrão subjacente da Árvore da Vida.

Bem, assim como, no tetragrammaton, a união de Yod e Heh resulta em Vav, a junção de Chokmah e Binah resulta diretamente nas seis esferas seguintes, como um raio de luz que, ao atingir um prisma, decompõe-se em sete cores. No processo da Árvore da Vida, as seis esferas abaixo do triângulo superior (Chesed, Geburah, Tiphareth, Netzach, Hod e Yesod) formam uma entidade distinta – o Filho. Tiphareth, a sexta sephirah, centraliza e rege o grupo de seis, e recebe particularmente a atribuição a Vav no tetragrammaton. Então, da mesma forma que Chokmah (o Pai) tem como consorte Binah (a Mãe), Tiphereth é a contraparte masculina de Malkuth – a Filha. Malkuth é a sephirah feminina que recebe a influência de todas as outras nove sephirot, e representa o mundo manifestado, o resultado final do processo de Manifestação que se origina em Kether, a materialização de todas as sephirot. Assim, Malkuth é o reflexo final de Kether, e essa relação entre a sephirah mais excelsa com a sephirah mais material corporifica o princípio hermético do “assim como encima, assim embaixo”. A essa altura, nem preciso dizer que Malkuth associa-se ao último Heh do nome de Deus. Resumindo pra fixar –

Chokmah

Pai

יYod

Fogo

Binah

Mãe

הHeh

Água

Tipheret

Filho

וVav

Ar

Malkuth

Filha

הHeh

Terra

Podemos ver, portanto, que a Árvore da Vida também possui sua “família”. Certo. Voltando às figuras da corte, quem quer que tenha escrito os manuscritos viu uma conexão entre os quatro personagens dos naipes e as quatro entidades do tetragrammaton na Árvore da Vida (Pai, Mãe, Filho e Filha). No entanto, algumas alterações deveriam ser feitas para que a correlação ficasse perfeita. As forças supremas e primordiais de Yod, o Pai, foram identificadas com a figura do Rei de cada naipe, o que faz sentido, levando em conta que o rei representa a força masculina suprema. Entretanto, o fato de os reis serem retratados confortavelmente sentando em seus tronos não parecia condizer muito com o caráter súbito, veloz e ativo de Yod. Já os cavaleiros, retratados montando corcéis magníficos, pareciam cair melhor com a primeira letra – então esses foram promovidos à posição de verdadeiros reis, e passaram a ilustrar a força ativa, veloz, e passageira de Yod (ou, por outro lado, poderíamos também afirmar simplesmente que, na GD, os reis passaram a ser retratados montando em cavalos, em vez de sentados em tronos). O fato das rainhas estarem sentadas em tronos fazia mais sentido, já que elas representam uma força passiva, receptiva e permanente – Heh. Os reis foram então associados às forças Vav de cada naipe, recebendo o título de príncipe e passando a ser retratados em carros puxados por cavalos – ou seja, tronos móveis – representando assim a união das forças de Yod e Heh, uma força ativa, mas mais duradoura e permanente. Assim como Vav é o resultado da combinação de Yod e Heh, os príncipes (antigos reis) são então retratados combinando os atributos velozes dos reis (cavalos) com os permanentes das rainhas (tronos). Por fim, os pajens foram identificados com o último Heh, recebendo assim o título de princesas – portadoras da combinação das forças dos reis, rainhas e príncipes, e retratadas firmemente em pé. A propósito, a mudança de gênero dos pajens oferece um equilíbrio nos gêneros da corte, que passa então a ser composta de duas entidades femininas e duas entidades masculinas.

Então, já temos nossa resposta:

Na proposta de interpretação do simbolismo do Tarot feita pela Golden Dawn, e na subseqüente inclusão das cartas no sistema esotérico desenvolvido por essa ordem hermética, as figuras da corte representam o poder do divino tetragrammaton nos quatro Mundos cabalísticos. A estrutura interna da corte foi alterada para melhor condizer com as conexões estabelecidas entre a corte e a disposição das letras do tetragrammaton pelas sephirot da Árvore da Vida. Nesse processo, os antigos cavaleiros transformaram-se nos novos reis, os antigos reis receberam o novo título de príncipes, enquanto os tradicionais pajens, ou valetes, foram renomeados princesas. As rainhas foram as únicas figuras da corte a permaneceram iguais a antes.

Na corte de seu baralho, Crowley manteve o sistema proposto pela GD. Sua única alteração foi manter o título de “Cavaleiro” para a figura correspondente a Yod. Isso nos leva a notar que, na verdade, quem mudou o título dos cavaleiros foi mesmo a GD, que os transformou em reis. Há quem diga que Crowley tenha resgatado o título de cavaleiro para salientar a virilidade desses personagens. No Crowley-Harris Thoth, Os outros títulos permaneceram os mesmos da GD – Rainha, Príncipe e Princesas.

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Resumindo, a tabela de equivalências quanto aos títulos é então –

Tradicional

Golden.Dawn

Crowley.Harris

Rei

Príncipe

Príncipe

Rainha

Rainha

Rainha

Cavaleiro

Rei

Cavaleiro

Pajem/Valete

Princesa

Princesa

Isso significa que, se você usa um baralho tradicional e precisa comparar sua corte a um baralho GD ou Crowley-Harris, de acordo com o sistema original, os reis tradicionais correspondem aos príncipes de ambos os sistemas, e os cavaleiros tradicionais correspondem aos reis na GD, e aos próprios cavaleiros no Crowley; pajens/valetes correspondem às princesas. Na dúvida, o truque é simples – verifique as associações elementais ou tetragramaticais – foram elas, afinal, o que provocou tais mudanças.

Em relação às correspondências com o tetragrammaton/elementos, a tabela é –

Tetragr.

Elemento

Tradicional

Golden.Dawn

Crowley

י Yod

Fogo

Cavaleiro

Rei

Cavaleiro

ה Heh

Água

Rainha

Rainha

Rainha

ו Vav

Ar

Rei

Príncipe

Príncipe

ה Heh

Terra

Pajem

Princesa

Princesa

Isso quer dizer que, se você tem um baralho que segue o sistema tradicional (como o RWS ou o Marseille, por exemplo) e deseja aplicar associações elementais ou cabalísticas aos ranks da corte, de acordo com o sistema proposto pela GD, os cavaleiros devem equivaler ao Fogo (Yod), os reis ao Ar (Vav), as rainhas à Água, e os pajens à Terra. Uma coisa interessante que a ligação com o tetragrammaton ocasiona é uma certa dissolução do sistema hierárquico que nos leva a um julgamento de importância. No tetragrammaton, todas as quatro letras são igualmente importantes. O abismo hierárquico entre reis e pajens, rainhas e cavaleiros, se desfaz, e todas as quatro figuras ocupam uma posição de poder e influência mais igualitária.

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Provas no RWS Depois de apresentar meus argumentos com bastante detalhe, nada melhor que algumas provas.

Embora isso não fique explícito nas imagens, Waite seguiu o sistema da GD em suas figuras da corte. O fato de Waite ter optado por manter o sistema tradicional em seu baralho muito provavelmente explica-se por sua intenção em manter ocultos os preceitos da Golden Dawn – coisa que Crowley não parece ter se preocupado em fazer. De qualquer forma, Waite ou Pamela deixaram vários sinais em seu baralho, e uma simples análise das figuras da corte do RWS à luz das descrições fornecidas pela GD é capaz de atestar isso. Uma das evidências mais gritantes de que Waite seguia o sistema de figuras da corte estabelecido pela GD pode ser encontrada na seção sobre o método da Cruz Celta em seu livro The Pictorial Key to the Tarot:

Um Cavaleiro deve ser escolhido para Significadora se o assunto da consulta é um homem de quarenta anos de idade para cima; um Rei deve ser escolhido para qualquer homem de menos de quarenta anos.

É no mínimo estranho o fato de Waite sustentar que reis sejam usados para representar indivíduos mais jovens que cavaleiros – a não ser quando levamos em conta que, para Waite, cavaleiros eram reis, e reis eram príncipes. Por mais que isso possa soar frustrante para alguns, no RWS, a colocação correta das figuras da corte está comprometida, intencionalmente disfarçada. Não podemos afirmar ser o RWS um baralho revelador; pelo contrário, ele chega a ser propositalmente enganoso. Agora, se Waite realmente quis ocultar as associações, ou se ele simplesmente usou um pouco da doutrina da GD e a misturou com outras coisas, é difícil saber.

A seguir, tratarei de alguns detalhes nas figuras da corte do RWS que evidenciam a influência da Golden Dawn nesse baralho. A maioria das explicações aqui foi tirada do site da Lelandra. Nas análises, usarei as descrições da GD para cada figura para demonstrar como os príncipes da GD e do Crowley são os reis no RWS.

Primeiro, o Rei/Príncipe de Paus. Na Golden Dawn, o Príncipe de Paus recebeu o título de “Príncipe e Imperador das Salamandras”. No Rei de Paus do RWS, podemos ver salamandras estilizadas em todo lugar – no espaldar do trono, na capa do rei. Claro, ornamentos de salamandras mordendo a própria calda, no maior estilo ouroboros, estão presentes em quase todas as personagens desse naipe; a diferença é que, no Rei de Paus, podemos ver uma salamandra de carne e osso no chão, perto de seu trono. O Rei de Paus rege os últimos dez graus do signo de Câncer, e os primeiros vinte do signo de Leão, sendo portanto predominantemente relacionado a Leão. No pescoço do rei no RWS, vemos o que parece ser um pingente de cabeça de leão. Em relação à descrição da GD, o traço mais gritante no Príncipe de Paus de Crowley é seu carro, puxado por , de novo, um leão. O texto da GD diz His chariot is drawn by a Lion.”

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O Rei/Príncipe de Copas. Um trecho da descrição da GD para esse personagem diz que “ele segura em uma mão um Lótus, e na outra uma Taça (…)”. É o que vemos nas mãos do Rei de Copas no RWS – o lótus estilizado em seu cetro, e a taça na outra mão. Em sua coroa, vemos o que parecem ser mais formas florais de lótus e, discretamente, um padrão decorativo na base que talvez poderia ser comparado a uma serpente. O texto da GD faz menção a uma serpente que sai da taça. Mais uma vez, temos o carro do Príncipe de Copas no Crowley-Harris sendo puxado por uma águia, seguindo fielmente a descrição da GD nesse quesito.

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“Um Rei alado com uma coroa alada, sentado em um carro puxado por elfos, archons ou fadas, representados como jovens alados, bem pouco vestidos, com asas de borboleta (…)”, é o que consta na descrição da Golden Dawn para o seu Príncipe de Espadas. Esse príncipe corresponde ao Rei de Espadas no RWS. Duvida? No espaldar do trono do rei do RWS, vemos borboletas e, logo atrás de seu ombro esquerdo, um pedaço de uma decoração de, justamente, jovens com asas de borboletas – fadas. Fadas e elfos são espíritos elementais do ar, e o Príncipe de Espadas é chamado na GD de “Príncipe e Imperador dos Silfos e Sílfides” (silfos são outras entidades elementais associadas ao Ar, comparáveis às fadas e aos elfos). Além disso, a descrição também menciona uma “cabeça angélica alada” no capacete do príncipe; a mesma cabeça pode ser vista na coroa do Rei de Espadas no RWS. Como de costume, o carro do Príncipe de Espadas no Crowley-Harris é puxado por pequenas figuras humanas aladas – fadinhas.

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O Rei de Ouros é associado ao signo de Touro, e podemos ver cabeças de touro por todos os lados no trono desse rei no RWS, enquanto um touro puxa o carro do Príncipe de Discos no CHT. O Príncipe de Discos de Crowley, aliás, segue à risca a descrição da GD, com seu capacete de touro alado, seu cetro com um globo encimado por uma cruz, e um globo na outra mão. O Rei de Ouros do RWS não faz por menos, segurando o mesmo cetro de globo (aqui, sem a cruz) em uma mão, e um grande disco de pentagrama na outra, bem similar ao globo. As peças estão, inclusive, nas mesmas mãos de ambos os personagens.

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Conclusão O que eu acabei de expor aqui é um eco do que permanece como consenso entre a maioria dos estudiosos sérios que se debruçaram sobre o tema. Por outro lado, alguém poderia argumentar simplesmente que a diferença entre os personagens da corte da GD e do baralho tradicional se reduz simplesmente a uma questão de como cada figura da corte é retratada – os reis GD corresponderiam ainda aos reis tradicionais, tendo a GD optado por meramente retratá-los diferentemente. A mesma coisa com os cavaleiros tradicionais – eles seriam ainda os príncipes da GD, retratados em carros, em vez de direto sobre cavalos. Ainda que se distancie da opinião da maioria, esse argumento não é de todo desprezível. De qualquer forma, minha intenção com o texto foi apresentar não simplesmente minha opinião, mas o que é comumente tido como correto entre os estudiosos do Tarot. Cada praticante tem o direito, contudo, de aplicar o set de correspondências que mais lhe fizer sentido. De qualquer forma, saber a origem das coisas e por que elas são como são é sempre fundamental, pois nos fornece bases sólidas sobre as quais podemos caminhar – e das quais poderemos dar os nossos próprios saltos.

Eu costumo ter sempre um deck por perto, e puxo uma carta toda vez que sinto necessidade. No processo inicial de composição desse texto, decidi perguntar ao Tarot sobre como eu deveria abordar essa questão das diferenças entre as figuras da corte. O baralho me respondeu com o Ás de Ouros – “qualquer que seja o seu objetivo, você deve focar-se na prática, e no que mais for funcional e natural. Dois pés no chão e realismo”. É isso que também deve guiar o leitor, creio eu. Cada um deve priorizar o que funciona melhor pra si.

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Biblio

Livros

Book T

Arthur Edward Waite – Tarô, A Sorte pelas Cartas, 1910/1985, Ediouro

Lon Milo Duquette – Chicken Qabalah, 2001, Weiser Books

Rachel Pollack – Seventy-Eight Degrees of Wisdom, 1980/2007, Weiser Books

Robert Wang – O Tarô Cabalístico, 1983/1998, Ed. Pensamento

Paul Huson – Mystical Origins of the Tarot, 2004, Destiny Books

Mary K. Greer & Tom Little – Understanding the Tarot Court, 2004. Llewellyn Worldwide, Ltd.

Papus – O Tarô dos Boêmios, 1889/2003, Ed. Martins Fontes

Israel Regardie – The Golden Dawn: a complete course in practical ceremonial magic, 1971, Llewellyn Worldwide, Ltd. (David Godwin, Indexing the Golden Dawn, appendix, pg. XXVIII)

Chic CiceroSandra Tabatha CiceroSelf-initiation into the Golden Dawn Tradition, 1995, Llewellyn Worldwide, Ltd.

John Michael Greer – The New Encyclopedia of the Occult, 2003, Llewellyn Worldwide, Ltd

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Wiki

Hermetic Order of the Golden Dawn

Eliphas Lévi

Tetragrammaton

Thoth tarot deck

Yom Kippur

Kenneth R. H. Mackenzie

Frederick Hockley

William Wynn Wescott

Cipher Manuscripts

Victorian Era

Hermetic Qabalah

Kabbalah history

Chokhmah

Binah

Tiferet

Havayah

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Sites e Artigos online

WHAT IS HIS NAME? – The Arguments for and Against Using Hebrew Names for God; Appendix 10: Names and Magic

Q. B. L. or THE BRIDE’S RECEPTION, by Frater Achad, esp. Chapter I e Chapter V

Kethar’s journal – Tetragrammaton…

Fifth Lecture or Azoth

Third Knowledge Lecture of the New Hermetics

The Key to the Kabbalah – The Four Worlds, by  Nissan Dovid Dubov

Seeing Connections – Adapted from the works of Rabbi Schneur Zalman of Liadi by Yossi Marcus

The Elemental Counterchanges of the Tarot Court, by Jennifer ShadowFox

The Tarot of the Golden Dawn, by Joseph Gurney

Correspondence Between Knights Princes Kings and Knights Between Decks, by Lelandra

Review of the Golden Dawn Magical Tarot, by Donald Michael Kraig

Como funciona um isqueiro?

agosto 21, 2010

RAINHA DE ESPADAS + A JUSTIÇA

Mais uma resposta pra perguntas de leitores do blog. A leitora Luciana levantou o seguinte tópico:

Leonardo, estava aqui pensando com meus botões (adoro essa expressão, gostaria de saber de onde saiu), depois de ler o excelente post sobre a Rainha de Espadas, será que existe alguma relação entre ela e o arcano oito, da Justiça? Fiz uma googleada e não vi ninguém fazer essa comparação, apesar de a iconografia ser extremamente parecida.

Luciana, muito legal você perguntar isso, porque mostra duas coisas – como que, apesar de Waite ter feito questão de não se pronunciar sobre isso, o RWS é um baralho bastante baseado na doutrina esotérica da Golden Dawn; e como suas imagens são diretas, de forma que qualquer pessoa é capaz de perceber similaridades e outras coisas entre elas. Eu acredito que essa seja a principal característica que fez do Rider-Waite-Smith um baralho tão popular.

Existe sim uma relação entre a Rainha de Espadas e a Justiça – ambas as cartas estão associadas ao signo de Libra. É por isso, inclusive, que no RWS a Justiça e a Força foram trocadas de lugar. Aos olhos de Waite, para que o esquema de correspondências com os signos e planetas ficasse perfeitamente em ordem, era necessário colocar a Força (Leão) mais pra frente, e a Justiça, Libra, mais depois. Aparentemente, essa relação é bem demarcada nos vários detalhes que as duas cartas têm em comum, como a espada ou o pé direito em destaque.

A Golden Dawn estabeleceu um sistema complexo onde cada carta é associada a um quadrante do céu, a uma fatia do Zodíaco, e a partes da Árvore da Vida cabalística. O sistema todo em si forma uma espécie de teoria de tudo que contextualiza o Tarot num esquema intrincado de correspondências. Nesse esquema, cada carta da corte, fora os pagens, está associada a trinta graus do Zodíaco. A Rainha de Espadas cobre os dez últimos graus de Virgem e os vinte primeiros de Libra.

A beleza do sistema de correspondências da GD é que ele cria uma rede de inter-relações entre as cartas – ele meio que impõe uma estrutura sobre o Tarot que, ainda que artificial, é muito útil. Por exemplo, considerando o fato de que cada figura da corte rege 30° do Zodíaco, e considerando também que cada carta pequena numerada representa um decanato de um determinado signo (isto é, 10° do Zodíaco), temos então que cada figura da corte guarda uma ligação especial com três cartas numeradas dos naipes – as que cobrem os seus 30°. Assim, a Rainha de Espadas está especialmente ligada ao Dez de Ouros (terceiro decanato de Virgem, regido por Mercúrio), ao Dois de Espadas (primeiro decanato de Libra, regido pela Lua), e ao Três de Espadas (segundo decanato de Libra, regido por Saturno). Depois que você se recupera da avalanche de termos técnicos e correspondências, você percebe que tem à disposição um bom material de qualificação para cada figura da corte, que pode acabar com aquele problema de não saber direito a “índole” de cada uma delas.

Essa associação com os signos de Virgem e Libra nos ajuda muito a entender mais a fundo a personalidade da Rainha de Espadas. Por um lado, temos o enfoque analítico e minucioso de Virgem e, por outro, a busca pela a harmonia e a sensibilidade transpessoal de Libra. Isso em si já resulta em uma miríade de adjetivos que descrevem bem a personalidade da Rainha de Espadas – perspicaz, elegante, inteligente, detalhista, exigente, cri-cri, eloquente, astuta, pacificadora, etc. Suas associações com as três cartas numeradas também joga bastante luz sobre sua índole – o valor à tradição e a valores estabelecidos do Dez de Ouros, a índole pacifista do Dois de Espadas ou a decisão racional que sobrepuja os sentimentos, ilustrada no Três de Espadas. Sobre esse último detalhe, os comentários de Waite a respeito da Rainha de espadas parecem concordantes, quando ele diz que “a sua fisionomia é severa, mas digna; sugere familiaridade com a dor.”

Isso nos faz pensar que seria interessante examinar cada uma das doze figuras da corte associadas a cartas pequenas e signos astrológicos e ver como essas associações nos elucidam sobre sua personalidade. Claro, isso vai fazer mais sentido para os estudantes que usam um baralho baseado nos preceitos da Golden Dawn, já que o sistema é deles. É provável que um usuário dos baralhos Marseille ou Wirth tenha mais dificuldade em ver alguma similaridade entre as cartas, porque esses baralhos seguem outras correntes de pensamento tarológico.

Acho, inclusive, uma ideia legal fazer um post explorando mais esse assunto.

Respondendo a sua outra pergunta, Luciana, eu sempre tive pra mim que essa expressão “pensar com os botões” tem a ver com o fato de que quando ficamos pensando sobre algo, olhamos pra baixo, pro nosso peito ou barriga, e antigamente as roupas costumavam ter mais botões nessas áreas. Será que vem daí a expressão?

Obrigado pela pergunta, e pela participação no blog!

abril 30, 2010

Rainha de Espadas – A vilã

Filed under: Figuras da Corte, Notas — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 1:02 AM

Que o naipe de Espadas é generalizadamente visto como um naipe ruim, é fato; mas alguém já percebeu como que, muitas vezes, a Rainha de Espadas é vilanizada? Isso passou pela minha cabeça ontem, enquanto eu fazia uma leitura. A Rainha de Espadas é meio que vista como a rainha má das figuras da corte. Já vi em vários livros, em especial os mais antigos, descrições que qualificam essa figura da corte como uma mulher mal-amada, ardilosa e traiçoeira – muitas vezes, endurecida pelas dores da vida.

Bem, o naipe de Espadas fala particularmente do intelecto, e é notório que, em nossa cultura, essa é uma faculdade especialmente valorizada (e, por muito tempo, atribuída) aos homens. Não é muito difícil a gente entender porque, portanto, mulheres caracteristicamente inteligentes, analíticas e racionais são tradicionalmente vistas como frias (leia-se ‘frígidas’), masculinizadas. Envolve as associações tradicionais que cada um dos dois gêneros recebe. De todas as qualidades associadas a cada naipe, a racionalidade do naipe de Espadas é a que menos se adapta às tradicionais atribuições das mulheres.

Pense nas vilãs – das histórias infantis, dos filmes, das novelas. Vilãs são geralmente mulheres independentes, livres, espertas; vilãs transam com quem elas querem; vilãs querem poder, autoridade; vilãs basicamente fazem e almejam tudo aquilo que nossa sociedade tradicionalmente atribui aos homens. E o fato de mulheres com esse tipo de comportamento serem vilanizadas em nossas produções culturais (tais como histórias infantis ou a interpretação de uma carta de Tarot) diz bastante sobre o quão machista ainda é nossa sociedade – ou, ao menos, o quão machistas são nossas tradições. Às vezes, é interessante pensar sobre como nossos valores culturais refletem-se no sistema simbólico que criamos para o Tarot.

Ah, e só pra constar, eu sei que interpretação de cartas é uma área completamente subjetiva e livre, mas eu não costumo interpretar a Rainha de Espadas com esses tipos de conotações negativas. Costumo vê-la como análise profunda, humor cortante, mente estratégica, tudo isso associado a sensibilidade e perspicácia e insight. [não que isso queira dizer muita coisa, porque eu provavelmente devo endossar outras pré-concepções culturais na minha interpretação – fazer o que, rs…]

Na imagem, junto com a Rainha de Espadas, a (versão Disney da) Rainha da Branca de Neve, e uma vilã de uma estória popular contemporânea, Paola Bracho, da novela mexicana La Ursupadora – quem não se lembra dela? Me diverti bastante hoje, assistindo a alguns videos dela.

outubro 25, 2009

A Rainha de Copas (Exercício SPR)

Dando continuidade à sequencia do exercício SPR, hoje falaremos de mais uma figura da corte, a Rainha de Copas.

A Rainha de Copas é duplamente associada ao elemento Água, por pertencer ao naipe de Copas e ocupar a posição de rainha, ambas as características relacionadas a esse elemento. Isso faz dela a personificação do elemento Água. A Rainha de Copas encara o aspecto mais misterioso do estereótipo feminino – a mulher secreta, silenciosa, tímida. Num nível mais simbólico, como personificação de seu próprio naipe, a Rainha de Copas seria a própria Copa, a Taça em si, que executa sua finalidade sendo passivamente preenchida, servindo de recipiente. É o símbolo da Mãe do Deus-filho, que recebe em seu corpo a centelha divina.

A Rainha de Copas manifesta no âmbito dos Arcanos Menores a mesma energia da Sumo-Sacerdotisa dos Arcanos Maiores, a guardiã dos segredos do ser humano. Os adjetivos que caracterizam a Rainha de Copas incluem – sensível, receptiva, carinhosa, sonhadora, silenciosa (e mesmo tímida), introspectiva, transpessoal, intuitiva, compreensiva e espiritual. São essas as energias que essa rainha traz para as leituras, onde ela pode indicar tanto uma outra pessoa quanto um aspecto do próprio consulente.

Elementos pictóricos da carta

Acredito que seja pertinente uma digressão aqui. Embora seja difícil sabermos com exatidão o que o autor ou a desenhista do baralho Waite-Smith quiseram expressar com os desenhos das cartas, podemos tirar algumas impressões dos símbolos por livre associação. Evidentemente, esse método pode ser falho, por basear-se em referências pessoais e, portanto, possivelmente distanciar-se das ideias que os próprios autores intencionaram expor em cada carta. Entretanto, sua falta de exatidão é relativa, pois se o método é falho, é falho somente em relação a um padrão, que no caso é a interpretação dos autores a respeito de cada símbolo. No nível pessoal, a livre-associação pode estreitar a relação do estudante com a carta. O objetivo das associações listadas abaixo é, portanto, expor a minha interpretação dos símbolos, estreitando dessa forma minha relação com as cartas. Podemos entender melhor o que o autor quis dizer com os desenhos estudando o que ele deixou escrito a respeito de suas cartas. No entanto, tão quanto a compreensão do significado das imagens do Tarot, a relação que estabelecemos com tais imagens também é parte do desenvolvimento da nossa capacidade de compreendê-las. Tal capacidade é alcançada não somente através de uma ligação mental com cada carta, que seria o escopo da compreensão objetiva dos símbolos, mas também de uma ligação emocional com as cartas, que inclui nossa própria visão dos símbolos, segundo nosso referencial pessoal.

Abaixo, uma lista de alguns pontos proeminentes de carta, e de como eles contribuem para o seu significado –

A falésia – ao fundo da Rainha de Copas vemos um precipício, mais precisamente uma falésia, parte do que poderia ser um promontório. A falésia pode ser interpretada como a fronteira entre a terra (o mundo objetivo dos fatos) e a água (o mundo subjetivo dos sonhos). Um precipício é um lugar de risco, de perigo, e sugere a queda no abismo da morte, da inconsciência e da inexistência. Temos aqui um símbolo para a divisão entre o consciente e o inconsciente.

Elementos pictoricos da Rainha de CopasOutras cartas que mostram precipícios – tanto o Louco, quanto o Eremita e o Três de Paus mostram figuras no alto de precipícios ou montanhas. As três cartas mostram figuras que chegaram ao ápice em algum aspecto da experiência; o Louco e o Eremita transitam por regiões fronteiriças da experiência humana, marginais. O homem do Três de Paus está na altura, destacado do resto por seu mérito próprio, e olha o mundo de uma perspectiva nova – ele vê a big picture. No naipe de Copas, Oito de Copas e o Cavaleiro de Copas têm precipícios. Na primeira carta, o personagem está na região rochosa de uma praia, e prepara-se para começar a subir por um caminho íngreme (observe aqui a relação entre essa carta e o Eremita, ambas mostrando personagens retirando-se do mundo, partindo em peregrinação a um lugar mais alto, sozinhos; eles se erguem acima do mundo ordinário). O Cavaleiro de Copas, como a Rainha, está numa região seca às margens de um rio, com um planalto (que poderia ser a região do outro lado das montanhas atrás da Rainha).

Queen of Cups - Dreamer's DeckA beira-mar – no baralho Waite-Smith, a Rainha de Copas é retratada com seu trono à beira do mar, onde a sólida terra começa a esfarelar em areia e perde-se na profundidade das águas. Isso pode ser visto como uma metáfora visual à zona fronteiriça entre o consciente e o inconsciente, onde nossa percepção objetiva começa a dar lugar às visões interiores. A rainha do naipe de Copas está justamente em contato pleno com esse mundo, e faz como que a ponte entre ele e o nosso mundo consciente. A presença de motivos marítimos na carta a relacionam com todo o simbolismo do mar – cheio de segredos e perigos. A Rainha de Copas do Tarot Dreamers Deck, ainda em processo de criação, também é retratada com seu trono à beira-mar. O motivo para isso é que, segundo o autor, “esse é o lugar da mudança”.

O trono da Rainha de Copas – seu trono é coberto de alto-relevos retratando sereias, com uma concha no alto do espaldar. A concha, símbolo antigo e presente em diversas culturas, é associada à deusa grega Afrodite. Nascida da espuma do mar, Afrodite é a deusa do amor e da fertilidade. Além de aludirem ao mar, as figuras semelhantes a sereias também podem representar as ondinas, os espíritos elementais da água.

A taça – a taça da Rainha de Copas sempre chamou a minha atenção. A mais elaborada de todo o naipe de Copas, ela mal parece uma taça – assemelha-se mais a uma urna. Seu líquido não está exposto, pois a taça está tampada; como uma urna, ela oculta o líquido na escuridão de seu interior. Essa imagem, aparentemente mais um símbolo para o inconsciente, me sugere também o útero, onde a vida surge em segredo. A taça da Rainha de Copas também é muito similar a um cibório. O cibório é um cálice com tampa, usado nos rituais católicos para guardar as hóstias consagradas. É um objeto de significado espiritual.

Outro sinal presente na taça está no seu formato – sua silhueta, com os anjos de asas abertas, lembra um caranguejo. Ao idealizar seu baralho, Waite usou como um de seus principais referenciais o baralho da Golden Dawn, que segue as descrições feitas por MacGregor Mathers no livro Book T. A Rainha de Copas do baralho da Golden Dawn tem um lagostim saindo de sua taça (ver figura ao lado, versão do Golden Dawn Magical Tarot, uma versão moderna do Tarot da Golden Dawn, por Chic Cicero e Sandra Cicero, Llewellyn, 2001). Mathers inclui o lagostim da Rainha de Copas na lista dos sinais “especiais” dessa carta. É possível que Waite tenha tentado disfarçar o lagostim no formato da taça. Isso automaticamente associa a Rainha de Copas a outro arcano maior, A Lua, que tem em seu primeiro plano um lagostim ou caranguejo saindo das águas. Além de estar associada às emoções, medos e sonhos, a lua relaciona-se com o mar e o movimento das marés. A taça da Rainha de Copas sugere sua ligação com o inconsciente, com sentimentos e emoções secretas, misteriosas e ocultas. Suas visões são interiores, e mesmo secretas. A Rainha de Copas pertence a um reino sem palavras, sem definições estritas.

Exercício SPR

A disposição Situação, Problema e Recursos é uma tiragem simples de três cartas, que esclarece a situação do consulente. No exercício SPR analisamos como uma mesma carta se comportaria nas três posições da tiragem, que basicamente ressaltam os aspectos neutro, negativo e positivo de cada carta, respectivamente. Vale lembrar que a dicotomia problemas-recursos das duas últimas posições da tiragem não deve ser lida redutivamente em termos de ruim/bom, desfavorável/favorável. A posição “Problemas” muitas vezes mostra uma energia que está sendo usada ou recebida de forma inadequada. Além disso, o problema é o elemento-chave no processo de crescimento, representando a força que faz o indivíduo mudar, adaptar-se e crescer. Por outro lado, os recursos também requerem sabedoria para serem bem usados, devendo ser aplicados em concordância com o problema em questão.

Queen of Vessels, Alchemical Tarot, by Robert Place and Leisa ReFalo, Hermes Publication, 2008Posição 1, a Situação – aqui a Rainha de Espadas geralmente vai indicar que, quaisquer que sejam as motivações do consulente, elas são emocionais. Ele pode estar sendo sentimental, suas emoções podem estar em foco; ele pode também estar sentindo algo muito forte por outra pessoa. A Rainha de Copas não indica tanto um sentimento de amor romântico, mas mais uma devoção, uma dedicação ao outro. Além disso, nessa posição a Rainha de Copas pode indicar a presença de sonhos, imaginação, intuição e pressentimentos. Figuras da corte na posição 1 mostram alguma característica ou atitude do consulente que tem papel importante em sua situação. A relação da carta da posição 1 com as outras mostra seu teor. Exemplo – uma pessoa está pensando em mudar para outro estado, mas não está certa se suas motivações são válidas. Ela então tira três cartas, que acabam sendo a Rainha de Copas, o Quatro de Copas e o Quatro de Espadas. A Rainha de Copas indica que as motivações do consulente são emocionais – essa viajem para ele representa um sonho, um desejo profundo. Aqui, a rainha se harmoniza com o quatro, indicando que ele de fato não toma atitude nenhuma a respeito, e fica esperando que as coisas caiam do céu. A passividade da rainha combina-se com a falta de motivação do Quatro de Copas.

Posição 2, o Problema/desafio – uma atitude sonhadora, sensível demais ou insegura pode ser o maior obstáculo aqui. A carta pode também indicar uma outra, pessoa caracterizada por essa rainha, oferecendo dificuldades na situação. Eu costumo ver a Rainha de Copas mal-aspectada como alguém chorão e covarde. Outro aspecto negativo da Rainha de Copas surge quando a sua devoção se transforma em abnegação exagerada. Nesse caso, a presença da Rainha de Copas na posição 2 pode indicar uma necessidade de superar medos, colocar os pés no chão e ser mais objetivo.

Posição 3, Os Recursos/vantagens – como vantagens, a Rainha de Copas pode estar querendo dizer que o consulente deve usar sua intuição para resolver seu problema, ou abordar sua situação com seu coração, sendo delicado, carinhoso e dedicado. A visão profunda das emoções faz da Rainha de Copas uma ótima conselheira. Espiritualidade e visão transcendente também podem ajudar aqui.

outubro 13, 2009

Entendendo as figuras da corte através das associações elementais

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Tópicos

  1. Introdução – O Quaternário
  2. As associações elementais e as quatro funções da psique
  3. Os Pajens
  4. Os Cavaleiros
  5. O Casal Monárquico
  6. As Rainhas
  7. Os Reis
  8. Cruzando elementos e extraindo significados
  9. Tipos de combinação
  10. As personificações puras
  11. Finalização – por que estudar isso?

Introdução – O Quaternário

Para entendermos mais sobre as figuras da corte, precisamos buscar nas raízes de sua significância, o número 4. A estrutura numérica dos chamados Arcanos Menores é totalmente baseada nesse número – são cinquenta e seis cartas, divididas em quatro grupos de catorze cartas – os naipes. Dessas catorze cartas, dez são numeradas e quatro são figuras da corte. Ao que se sabe, a estrutura quaternária dos naipes existe desde a origem das cartas – ao menos, quando cartas de jogar surgiram na Europa, no final do século 14, já seguiam um sistema de quatro naipes. Experiências com mais naipes e figuras da corte foram feitas, mas o que realmente perdurou foi o esquema de quádruplo. Não se sabe ao certo a razão da existência desse princípio, mas isso não é exatamente estranho, se considerarmos que o número 4 acompanha a humanidade desde tempos ancestrais.

Nossa consciência é quaternária. Nossos corpos, com dois braços e duas pernas, naturalmente sugerem o número quatro. Percebemos quatro direções básicas – frente, atrás, direita e esquerda; essa consciência espacial é reproduzida naturalmente em nossas construções – nossas casas têm quatro paredes. Também são quatro os pontos cardeais. A percepção da natureza como se modificando através de quatro estações também pode figurar entre outro fator quaternário que ficou gravado no pensamento humano desde seus primórdios, tendo suas origens na percepção dos solstícios, também em número de quatro. Além disso, a cruz figura entre os símbolos mais antigos desenhados em cavernas.

Os elementos primordiais tradicionais, que servem de base para a existência de todas as coisas no universo, são um grupo de quatro – Fogo, Água, Ar e Terra. No mundo ocidental, a tradição dos elementos surgiu na filosofia grega antiga e, consolidada por Aristóteles, permeou todo o pensamento científico do ocidente desde a Antiguidade até o século 17, marcado pelo início da Era Moderna, que introduziu uma concepção de mundo mais calcada no pensamento racional, ligado aos fatos e seus desdobramentos lógicos – concepção essa que permanece em voga até hoje.

O sistema de associações entre as cartas do Tarot e a tradição dos quatro elementos é um dos fundamentos do entendimento esotérico do Tarot. Nesse sentido, as Figuras da Corte são um caso à parte. Além de estar associada ao elemento de seu respectivo naipe, cada figura da corte relaciona-se também a um dos quatro elementos por meio de sua posição hierárquica. O cruzamento entre esses dois fatores abre uma ampla dimensão de significado para as cartas da corte. Esse esquema de associações elementais, junto com as associações das figuras da corte com a Astrologia e com elementos cabalísticos, formam a tríade dos principais elementos na atribuição de significado a essas cartas. Sendo assim, entender esse esquema de associações elementais é entender melhor as próprias figuras da corte no contexto do Tarot.

Cada naipe é associado a um dos quatro elementos, que determina o tema tratado no naipe. As associações elementais de cada naipe e os temas tratados em cada um podem ser sumariamente esquematizados na tabela abaixo –

Naipe

Elemento

Tema

Paus

Fogo

Movimento, ação, as lutas (e conflitos) da vida, realização pessoal

Copas

Água

Emoções, relacionamentos, sonhos

Espadas

Ar

Lições de vida, valores, aprendizado, compreensão da vida, (daí) conflitos, sofrimento, dificuldades

Ouros

Terra

Assuntos materiais, o vai-e-vem do dinheiro, os resultados da nossa energia aplicada

As cartas que compõem o naipe falam do desenvolvimento da experiência no tal tema. Começando com o ás, que é a energia do elemento em seu estado bruto, vamos subindo até o dez, passando por diversas situações que representam um aspecto específico da experiência com o tema em questão, de forma progressiva. Sucedendo a ordem das cartas numeradas, as cartas das figuras da corte representam um estágio a mais no desenvolvimento da experiência no tema – o desenvolvimento da relação com a energia elemental no âmbito do indivíduo. Em outras palavras, as figuras da corte são personificações sucessivas de cada elemento, desde seu estado embrionário ou infantil em nós (os Pajens) até seu estado maduro e completamente desenvolto (os Reis/Rainhas). Enquanto as cartas numeradas representam a ação das forças elementais em nossas vidas, as figuras da corte representam a manifestação de tais energias em nós. É só pensar nas cartas numeradas como as situações do enredo de uma estória, e as figuras da corte como os personagens. Cada figura da corte é, portanto, um estágio de desenvolvimento da relação com a energia elemental no campo pessoal. Tal desenvolvimento é representado na progressão das quatro posições hierárquicas dentro do sistema da corte –

  • Os Pajens representam essa energia manifestando-se na personalidade em seu estado primário, pouco desenvolvido e bruto. Eles são as bases do naipe;
  • Os Cavaleiros personificam a energia do naipe se desenvolvendo a pleno vapor, com toda sua força. Representam a intensidade da energia do naipe crescendo;
  • As Rainhas representam essa energia já desenvolvida, de forma madura e profunda. São a energia do naipe amadurecida;
  • Os Reis também representam o completo desenvolvimento dessa energia. Eles são os reis do naipe, o estágio mais alto que eles podem alcançar em seu desenvolvimento.

Até agora, descobrimos então que:

1) cada naipe, relacionado a um dos quatro elementos, trata sobre as experiências em um determinado tema da vida;

2) enquanto as cartas numeradas falam de situações nas quais a energia desses elementos se manifesta, as figuras da corte representam a manifestação dessa energia no indivíduo;

3) tanto no caso das cartas numeradas quanto no caso das figuras, a ordem numérica imprime um senso de progressão na experiência com as energias elementais, que vai da inexperiência à experiência.

O primeiro a desenvolver um esquema de associações elementais a tais cartas foi o ocultista inglês MacGregor Mathers, em seu livro Book T, escrito no final do século 19. Nesse livro, Mathers baseia-se na Qabalah, astrologia e geomancia para traçar os paralelos entre os elementos e as figuras da corte. Seu sistema vigora até hoje, servindo de base para a maior parte de novos esquemas de associação. Um dos traços mais marcantes do sistema de Mathers foram as mudanças feitas por ele na hierarquia da corte do Tarot. Acreditando estar fazendo uma retificação, Mathers modificou os nomes e importância das posições, trocando os títulos tradicionais de Rei, Rainha, Cavaleiro e Pajem por Rei, Rainha, Príncipe e Princesa. Sua modificação mais discutida foi a alteração da importância de certas figuras na dinâmica da corte – Mathers colocou o Cavaleiro no posto mais alto, e rebaixou o Rei à posição de príncipe. Os motivos para tais mudanças baseiam-se em uma melhor associação do Tarot com a Qabalah.

Mathers foi um dos fundadores da Ordem Hermética da Golden Dawn. Os criadores dos dois baralhos de Tarot mais famosos da modernidade foram membros dessa Ordem – Aleister Crowley, que junto com Lady Frieda Harris criou o baralho de Thoth, entre 1938 e 1943; e Arthur Waite e Pamela Smith, criadores do baralho Waite-Smith, lançado em 1909. Ambos os baralhos exibem claramente influências do sistema esotérico e mágico da Golden Dawn em vários pontos, sendo um deles a associação elemental das Figuras da Corte. Dada a sua popularização através dos dois baralhos acima mencionados, o sistema desenvolvido pela Golden Dawn é hoje o mais aceito e reproduzido. Abaixo, a título de informação, uma tabela com as variações das figuras da corte, de acordo com os Mathers, Crowley e Waite –

Mathers

Crowley

Waite

Rei (antigo Cavaleiro)

Cavaleiro

Rei

Rainha

Rainha

Rainha

Príncipe (antigo Rei)

Príncipe (antigo Rei)

Cavaleiro

Princesa (antigo Pajem)

Princesa (antigo Pajem)

Pajem

Percebemos pela tabela que, enquanto Crowley adotou mais inteiramente o sistema de Mathers nas figuras da corte, Waite preferiu manter-se fiel à estrutura tradicional de Rei-Rainha-Cavaleiro-Pajem. O esquema tradicional faz mais sentido para mim, talvez por eu usar o Waite-Smith e estar habituado a esse esquema de hierarquia. Portanto, é dele que vamos tratar aqui. Contudo, é importante mencionar que não há um sistema certo e absoluto; tais associações foram feitas de acordo com a forma de pensar de cada ocultista, fazendo sentido no contexto do sistema de pensamento dele. Cabe a cada estudante escolher o sistema com o qual se sentir mais confortável, o que fizer mais sentido para ele.

Isto posto, agora temos as bases para estabelecer as associações elementais a cada posição hierárquica da corte.

As associações elementais e as quatro funções da psique

Usando a imagem da ascensão social, o caminho progressivo do Pajem ao Rei ilustra o desenvolvimento da energia elemental dentro de nós. Da manifestação primária dos Pajens ao completo desenvolvimento dos Reis, cada figura da corte representa um dos quatro estágios de manifestação dessas qualidades. A ideia esotérica por trás disso é a de que a manifestação do espiritual ao material é quaternária, e cada estágio subdivide-se em quatro estados, num total de dezesseis. Entendendo que a manifestação ocorre do mais sutil ao mais bruto, a ascensão ou retorno ao espírito faz logicamente o caminho inverso, do mais bruto ao mais sutil, onde está o Uno, a fonte primordial de tudo. De acordo com o pensamento místico, esse conceito serve como molde para o desenvolvimento de qualquer coisa existente, incluindo as pessoas e as coisas que elas produzem, os acontecimentos, a natureza e o cosmos. Vale lembrar que nenhum estágio é mais importante ou sagrado que o outro. Cada um tem sua própria importância e seu papel, fundamentais no processo de manifestação/ascensão.

Uma maneira de abordar a relação das figuras da corte com os quatro elementos é através da teoria das funções do ego, desenvolvida na primeira metade do século 20 pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Segundo Jung, o ego tem quatro funções, quatro formas fundamentais diferentes de perceber e interpretar a realidade e de lidar com o mundo; são elas Sensação, Intuição, Sentimento e Pensamento. Esse grupo de quatro funções consiste em dois pares de elementos opostos. De um lado temos o par Sensação-Intuição, que Jung chamou de funções irracionais, caracterizando-se pela percepção e simples resposta a estímulos . Do outro, temos o par Sentimento-Pensamento. Jung chamou as duas funções que compõem esse segundo par de racionais, pois ambas envolvem o ato de tomar decisões ou fazer julgamentos, mais do que simplesmente receber estímulos.

A função da Sensação consiste na recepção de informação por meio dos sentidos físicos. A função da Intuição define-se por uma percepção que funciona fora do processo consciente comum, consistindo numa complexa integração de grandes quantidades de informação, mais do que simplesmente ver ou ouvir. Ambas são irracionais, no sentido de que não envolvem julgamento. A Sensação é uma percepção mais voltada para o exterior, enquanto que a Intuição é uma percepção de estímulos psíquicos, interiores.

No segundo par, ambas as funções Sentimento e Pensamento são formas de avaliar a informação recebida, ou seja, dar a ela um valor, atribuir-lhe um sentido. Sentimento é a capacidade de fazer julgamentos baseando-se nas respostas emocionais, seguindo valores de bom/mau, agradável/desagradável. A função do Pensamento distingue-se de sua função oposta por basear-se na lógica e na razão para avaliar informações. Enquanto Emoção é voltada para dentro, ou seja, para a realidade interior dos sentimentos, Pensamento volta-se para o exterior, isto é, para as evidências e os fatos do mundo objetivo.

O próprio Jung baseou-se nas tradições antigas dos quatro elementos, através da teoria dos quatro humores de Hipócrates, para formular seu esquema de quatro funções psíquicas. Hipócrates, por sua vez, baseou-se na teoria dos quatro elementos de Empédocles, onipresente no pensamento filosófico grego antigo desde 600 a.C..

Abaixo, descrições mais detalhadas sobre cada figura.

OS PAJENS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Terra

Sensação

Infância

O Pajem é o estágio inicial do desenvolvimento. Nele, a energia do naipe está em seu estado bruto, não desenvolvido e primário. Como crianças, relacionam-se com o mundo de maneira bem simples e direta. Ligado ao elemento Terra, o Pajem no Tarot mostra que tudo começa no chão, e a ele está incondicionalmente ligado.

A figura do Pajem representa o aprendiz. Na Idade Média, o pajem era o servo de um cavaleiro, um aprendiz a escudeiro. Após sete anos servindo o cavaleiro, o pajem tornava-se um escudeiro que, depois de mais sete anos, poderia vir a ser ele mesmo um cavaleiro. O pajem executava as funções mais básicas, como cuidar da organização e limpeza dos aparatos de seu cavaleiro, ou levar e trazer mensagens. Simbolicamente, o pajem do Tarot representa o estágio mais básico do desenvolvimento no naipe. Ele é a experiência direta com o naipe, sem abstrações ou sofisticações. Sendo uma criança, o Pajem é neutro – pode ser tanto masculino quanto feminino.

O elemento Terra é o plano material, o mundo objetivo ao nosso redor, e o nosso próprio corpo. No ser humano, a experiência mais primária é a relação com nosso próprio corpo, que percebe o mundo que nos circunda através dos estímulos de nossos sentidos. Relacionados ao elemento terra, os Pajens representam essa experiência sensória, táctil, básica a todo ser humano. Eles estão em contato direto com a energia do elemento ao qual pertencem, sem abstração nenhuma. Psicologicamente, a figura do Pajem equivale à função da sensação, que se caracteriza pela consciência dos estímulos físicos. As características dos pajens incluem –

  • Curiosidade
  • Criatividade
  • Dedicação
  • Inocência
  • Sensitividade (no sentido de fisicalidade)
  • Inexperiência
  • Certa arrogância inocente
  • Visão limitada

OS CAVALEIROS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Fogo

Intuição

Juventude

O Cavaleiro é um impulso de energia; retrata o estágio de ascensão da intensidade da energia do naipe. Nele, a energia está subindo, ficando cada vez mais intensa. Os Cavaleiros são cheios de si. Enquanto os pajens são dedicados, quase despersonalizados (os pajens, como crianças, estão ainda desenvolvendo sua personalidade), os cavaleiros são personalidades desenvoltas; eles sabem quem são, e sabem o que querem – ou melhor dizendo, pensam que sabem. Relacionados ao elemento Fogo, os cavaleiros são o impulso da vida, que brota da terra em direção ao céu.

Na Idade Média, os cavaleiros eram os representantes da classe militar. Assim, a figura do cavaleiro é naturalmente associada à guerra, à missão, à luta por um ideal, uma crença (típicos do elemento Fogo). No Tarot, os cavaleiros tipicamente agem por impulso, seguindo seu coração e perseguindo os ideais onde depositam sua fé. No contexto evolutivo ilustrado na corte, a figura do cavaleiro representa o impulso criador fecundo, o ímpeto rumo ao progresso. Se os pajens são associados à infância, os cavaleiros estão ligados à juventude. Assim como os jovens, os cavaleiros são cheios de energia e disposição para negar, questionar e contestar tudo, preferindo sempre seguir seu próprio caminho.

O elemento Fogo corresponde à força criativa. Ele é a vida, o espírito que preenche a estrutura física formada pelo elemento Terra. Sem a vida do Fogo, toda a estrutura do elemento Terra torna-se um mero objeto inanimado. Psicologicamente, esse impulso vital traduz-se pela intuição, a função psíquica que se caracteriza pela manifestação de uma experiência espontaneamente trazida à consciência, em vez de provir de atividade mental (ou seja, pensamentos e emoções), ou de estímulos físicos (sensações). Trata-se de um sentimento instintivo, a fonte da inspiração, criatividade e ideias espontâneas. Psicologicamente, os cavaleiros também se relacionam à vontade. As características dos cavaleiros incluem –

  • Ação
  • Coragem
  • Idealismo
  • Impulsividade
  • Iniciativa
  • Paixão
  • Entusiasmo
  • Egocentrismo
  • Imaturidade
  • Teimosia
  • Inconstância

O Casal Monárquico

Existe uma tênue divisão na corte do Tarot entre o casal monárquico (o Rei e a Rainha) e os par de servos, o Cavaleiro e seu Pajem. Enquanto entre o Pajem e o Cavaleiro existe um movimento de ascensão perceptível (a diferença entre eles é comparável à diferença entre um aluno do ensino fundamental e um estudante universitário), as figuras do casal monárquico são mais estáticas e semelhantes. Nelas, o processo de desenvolvimento não é tão evidente como entre o Pajem e o Cavaleiro. A diferença está no fato de que o Rei e a Rainha são como as duas faces de uma mesma moeda. Seu poder é similar – o que distingue um do outro é o foco onde tal poder exerce sua força. Os Reis focam-se no mundo exterior, além das fronteiras de seu reino; as Rainhas concentram sua atenção ao mundo interior, dentro das fronteiras de seu reino.

Psicologicamente, poderíamos dizer que o Rei e a Rainha são os dois aspectos de uma mesma entidade, que personifica a maturidade da manifestação do elemento na personalidade, em seus aspectos ativo e passivo, yang e yin. O poder real das duas figuras do casal monárquico pode servir como metáfora para o domínio que uma pessoa completamente amadurecida tem sobre sua vida e a influência que exerce sobre os outros ao seu redor.

Na teoria jungiana das funções do ego, o grupo de quatro funções divide-se em dois pares; o par sensação-intuição caracteriza-se pela percepção de experiências irracionais, enquanto o segundo par, pensamento-sentimento se destaca por experiências racionais. A exemplo das funções psíquicas, o primeiro par de figuras da corte, Cavaleiro e Pajem, exibe formas mais imediatas de perceber a realidade; já o segundo par, Rei e Rainha, caracteriza-se pela abstração do julgamento.

O casal monárquico faz as decisões, enquanto os dois subalternos cuidam de executá-la. A exemplo do Rei e a Rainha, o par de subalternos também exibe a dicotomia de ativo/passivo, exterior/interior. O Cavaleiro é mais voltado ao mundo exterior ao reino, enquanto o Pajem ocupa-se principalmente das tarefas domésticas e cotidianas.

AS RAINHAS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Água

Emoção

Idade adulta/maturidade

A Rainha representa o completo desenvolvimento do naipe, voltado para o interior. É o entendimento de si mesmo. E, através da compreensão de si mesma, ela é capaz de compreender o outro. O estágio da Rainha é um contraponto ao estágio anterior do Cavaleiro. Ela representa o processo de internalização da energia do naipe, a transcendência da individualidade, e a percepção do outro. Enquanto o Cavaleiro está preocupado em se auto-afirmar, seguir seu próprio caminho e ser dono da sua própria vida (ou seja, sua individualidade), a Rainha já tem sua posição conquistada, e já tem sua identidade completamente estabelecida. A rainha encara a figura da matrona, da mãe, do feminino superior e autoritário. As Rainhas têm a mesma energia da Imperatriz, a carta 3, porém manifestada em um nível mais humano e imediato. De fato, é como se cada Rainha fosse um aspecto da Imperatriz.

O elemento Água é o responsável pela união, pela associação. A água serve de meio para a combinação de diversos elementos para o surgimento de algo novo. Ela é responsável pela manutenção da vida. Esse é o motivo devido ao qual o naipe de Copas se associa ao elemento Água – através de sua propriedade fluida, a Água aproxima e une as pessoas pelo que elas têm em comum, suas emoções. Por pertencerem a esse elemento, as Rainhas são sensíveis e conciliadoras. Elas enxergam as pessoas por dentro, conhecem e compreendem suas necessidades. Empédocles, o primeiro filósofo grego a propor a ideia de quatro elementos primordiais, já associava o elemento Água a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores, o mundo dos mortos. Nesse sentido, note-se a relação de Perséfone com a Sacerdotisa da carta 2. Atrás da Sacerdotisa há uma cortina estampada de romãs. Após ser raptada por Hades, o Rei dos mundos inferiores, Perséfone não pôde mais voltar por ter comido algumas sementes de romã. Através desse paralelo, a Sacerdotisa do Tarot pode ser também uma alusão a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores – do inconsciente, por assim dizer.

Psicologicamente, o elemento Água equivale à função psíquica da emoção. As características das Rainhas incluem –

  • Autoridade
  • Sensibilidade
  • Percepção
  • Sentimentalidade
  • Conhecimento
  • Receptividade
  • Experiência
  • Auto-segurança
  • Possessividade
  • Controle excessivo
  • Mutabilidade

OS REIS

Elemento

Função Psíquica

Fase de desenvolvimento humano

Ar

Pensamento

Idade adulta/maturidade

O Rei representa o estágio de máximo desenvolvimento do naipe, voltado para o exterior e para a ação. Esse é o estágio do domínio, do poder total sobre as forças do naipe. Imagine cada naipe como um reino, então entenderá melhor o papel do Rei. Ele é a autoridade em seu campo. Assim como as Rainhas dos naipes estão relacionadas à Imperatriz do Tarot, cada Rei representa a manifestação da energia do Imperador no nível humano e tangível. A diferença é que, enquanto o poder do Imperador é absoluto, a autoridade de cada Rei se delimita ao seu campo, ou seja, ao naipe ao qual ele pertence.

Enquanto as figuras do Pajem e do Cavaleiro estão mais vinculadas a um momento específico da história, as figuras de rei e rainha estão presentes em todas as culturas, de todas as épocas. De certa forma a figura do rei era um reflexo maior da figura do pai em sua sociedade; assim como o pai era o chefe da família, o rei era chefe do povo. O papel do rei é comandar, e isso significa estabelecer as leis e dizer o que deve ser feito, e quando. Frequentemente, o rei detinha o papel de juiz máximo de seu povo, sendo responsável por definir o que era certo e o que era errado. O Rei é capaz de julgar e avaliar o exato valor de cada coisa, porque ele tem a experiência necessária para fazer um julgamento acertado, e a autoridade para ter sua palavra seguida.

A figura do Rei é associada ao elemento Ar. Empédocles associou o elemento Ar a Zeus, o Rei dos deuses. Psicologicamente, o elemento Ar traduz-se pelo intelecto – a capacidade de combinar informações e criar abstrações a partir disso. O aspecto intelectual do Ar está relacionado ao papel do Rei como juiz. A palavra “pensar tem origens em comum com a palavra “pesar” – ambas vêm do latim pendere, significando “pesar”. A função psíquica associada ao elemento Ar é o pensamento, a capacidade de emitir julgamentos e tomar decisões através do raciocínio. O raciocínio, por sua vez, consiste na habilidade de alcançar a verdade através de um processo de comparações e abstrações dos fatores existentes em uma certa questão. As principais características dos Reis são –

  • Autoridade
  • Poder
  • Liderança
  • Domínio
  • Julgamento
  • Razão
  • Discernimento
  • Experiência

Cruzando os elementos e extraindo significados

O Tarot é um jogo, um conjunto de elementos que seguem regras e têm cada qual sua função definida. Uma das “regras” do jogo do Tarot é a doutrina dos quatro elementos. Tal doutrina funciona como um denominador comum entre a quadruplicidade dos naipes e a quadruplicidade das figuras da corte. Observando a dinâmica dos quatro elementos através das cartas, podemos identificar o lugar delas no jogo do Tarot, ou seja, seu papel.

A coisa mais importante que deve ser entendida sobre esse processo de atribuição de significado é que ele acontece do geral ao específico, isto é, do âmbito simbólico do naipe ao âmbito simbólico de cada posição hierárquica. Cada figura da corte é um dos quatro aspectos de seu elemento e, como tal, incorpora um papel único entre as dezesseis figuras. Assim, todas as quatro figuras do naipe de Copas, por exemplo, pertencem ao elemento Água – são do “reino da Água”, por assim dizer; o que difere uma das outras é a associação elemental específica de sua função/posição. Todos os Pajens são de Terra, todos os Cavaleiros são de Fogo, todas as Rainhas são de Água e todos os Reis são de Ar. O Rei de Copas seria então “Ar de Água”, ou seja, a “parte ar” do elemento Água. Algumas pessoas preferem usar a fórmula “elemento do naipe + comportando-se como + elemento da posição, ou seja, “Água comportando-se como Ar”, no exemplo citado anteriormente. Abaixo, uma tabela listando as associações para cada figura da corte –


Ouros/Terra

Paus/Fogo

Copas/Água

Espadas/Ar

Pajem/Terra

Terra de Terra

Terra de Fogo

Terra de Água

Terra de Ar

Cavaleiro/Fogo

Fogo de Terra

Fogo de Fogo

Fogo de Água

Fogo de Ar

Rainha/Água

Água de Terra

Água de Fogo

Água de Água

Água de Ar

Rei/Ar

Ar de Terra

Ar de Fogo

Ar de Água

Ar de Ar

Isto tudo pode ser confuso no começo, mas fica fácil à medida que percebemos o sentido das denominações dos elementos. Os quatro elementos da tradição ocidental são na verdade símbolos-raiz. Quando dizemos Fogo, não nos referimos apenas ao fogo que queima na lareira; no sentido esotérico, o elemento Fogo diz respeito a todo um complexo de conceitos, que, por convenção e economia, resumem-se na palavra-símbolo “Fogo”, do qual o fogo da lareira é a manifestação física. Quando percebemos que, no lugar dos nomes dos elementos, podemos colocar outras palavras pertencentes a uma mesma categoria, as coisas começam a ficar mais fáceis. Por exemplo, em vez de dizermos que o Pajem de Copas é “Terra de Água” ou “Água comportando-se como Terra”, podemos dizer que ele é Emoção em Desenvolvimento. O elemento Terra nos Pajens traduz-se por um estado receptivo de desenvolvimento primário e inicial; o naipe de Copas caracteriza-se pela temática emocional. No Pajem de Copas temos a manifestação da emoção, do sentimento, de forma primária, direta, bruta e espontânea. É isso que faz de tal Pajem um personagem sonhador, delicado, sensível, doce, brincalhão, romântico e inocente; o contato direto que ele tem com suas emoções o faz vivenciá-las em sua forma pura. É isso também que faz o Pajem de Copas simbolizar o início de um sentimento ou sonho, ou a inspiração, ou uma afeição desapegada e espontânea. Através das chaves de dois elementos combinadas, podemos extrair uma infinidade de associações de significado. Esse sistema foi desenvolvido do final do século 19 ao começo do século 20, e perdura até hoje como uma base para a avaliação das figuras da corte.

Abaixo, um diagrama resumindo, em forma de imagem, os princípios que acabei de expor. No lado esquerdo temos o diagrama dos elementos, contendo em si seus aspectos quaternários; no lado direito vemos, como exemplo, o elemento Ar em destaque e, destacando-se dele, o seu aspecto Fogo – em outras palavras, Fogo de Ar, a configuração elemental correspondente ao Cavaleiro de Espadas.

Quaternidades nos quatro elementos - projeção fogo de ar

Tipos de combinações

A forma que os elementos se combinam determina traços da personalidade que emerge de tal combinação. As regras das combinações são as mesmas usadas no método de Elemental Dignities, já apresentada em um dos primeiros posts do blog.

Combinações entre elementos opostos (Água + Fogo e Ar +Terra), caracterizam-se por um conflito entre o elemento geral (do naipe) e o elemento especifico (da posição hierárquica). Isso resulta em uma personalidade ambivalente e conflitante, altamente mutável e imprevisível.

Combinações entre elementos amigáveis (Fogo + Ar, Água + Terra) resultam em uma personalidade poderosa, que se destaca no naipe ao qual pertencem.

Combinações entre elementos complementares (Água + Ar, Fogo + Terra) são equilibradas, flexíveis e adaptáveis.

As personificações puras

Observando o diagrama dos elementos, percebemos que, em cada ponta do quadrado, a parte do elemento permanece a mesma. Na tabela das associações, tais combinações estão em negrito. Esses são os aspectos puros de cada elemento, nos quais o estado de manifestação que ele representa e um dos seus próprios estados de manifestação coincidem. São o lado do elemento que permanece inalterado e puro. No Tarot, as figuras da corte relacionadas a esses aspectos personificam cada um dos quatro elementos de forma integral. Sua presença numa leitura indica – a) que a energia bruta dos ases está se manifestando no próprio consulente ou; b) que existe alguém, ou um acontecimento onde ele entrou em contato com essa energia. Tais cartas assemelham-se aos quatro ases, com a diferença de que elas não são impessoais como os ases; elas são os próprios elementos em forma de entidades.

Projeção dos quatro elementos puros - menor

Finalização – Por que estudar tudo isso?

Quem chegou até aqui, depois de ler o texto todo, pode estar perguntando-se qual a utilidade de tanta complexidade. E a resposta é bem simples – esses sistemas são o paradigma fundamental na atribuição de significado às cartas. É neles que se baseiam os significados que geralmente lemos nos livros. Mesmo as definições populares, em última instância, têm como referência esses paradigmas. Mas isso é definitivo? É mesmo necessário estudar essas coisas para entender melhor as cartas? Bem, depende.

Ao contrário do que muita gente pode imaginar, o Tarot não surgiu como um sistema divinatório. De acordo com a grande maioria das evidências de que dispomos hoje, seu uso original foi em jogos de cartas comuns. Registros de um uso divinatório/oracular das cartas datam de cerca de 300 anos após o seu surgimento. Até que, no final do século 18, as cartas do Tarot começaram a chamar a atenção de ocultistas Europeus mais influentes, que não demoraram a incluí-lo em seu sistema esotérico. Foi a chamada redescoberta do Tarot – ou invenção, de acordo com o seu ponto de vista. Os primeiros a olharem o Tarot como portador de um conhecimento secreto encararam-no como um sistema simbólico universal. Na crença de estarem descobrindo sua grandiosidade, tais estudiosos acabaram por inventar um novo Tarot, em muitos aspectos. Esse sistema serviu de base para os voos mais altos que fazemos hoje em dia, como associar o Tarot à psicologia jungiana, por exemplo. Qualquer pessoa que estuda o Tarot entra em contato com um conhecimento que foi estabelecido, a princípio, por essas pessoas. Independentemente do uso que fazemos das cartas, maior ou menor que seja nosso embasamento teórico, todos nós incorporamos, conscientes disso ou não, elementos das doutrinas desses estudiosos no nosso processo de entender e extrair significado das cartas. Pessoas como Court de Gébelin, Eliphas Lévi ou MacGregor Mathers são os responsáveis pela associação das cartas com a Astrologia, a Qabalah e a Tradição dos Quatro Elementos, as três doutrinas mais fortemente associadas ao Tarot. Tal união foi tão forte que o sistema imagético de versões novas do Tarot passou a ser produzido de acordo com esses novos parâmetros de significado. Não há, portanto como negar a importância de tais figuras na conceitualização e uso modernos do Tarot. Exceto no caso de usar um baralho anterior as inovações introduzidas por essas pessoas, alguém que deseja ter uma relação mais próxima com seu baralho de trabalho, bem como uma compreensão mais profunda dos símbolos contidos nele, certamente conseguirá isso melhor buscando a informação de onde ela veio, ou seja, na produção literária dessas pessoas.

Isso nos leva à seguinte conclusão – as associações das cartas com Astrologia, Qabalah ou elementos são um sistema artificial, mais inventado do que descoberto, ou percebido. Apesar do fato de a Astrologia e a doutrina dos quatro elementos terem feito parte do corpo de pensamento filosófico na época da criação do Tarot, não há hoje evidências apontando para uma profunda associação delas com as cartas que não seja anterior ao século 18. Isso quer dizer que os significados dados às cartas são sim relativos e particulares, o que significa basicamente que eles fazem total sentido quando inseridos em um sistema maior, que lhes dá a referência.

Mas, é possível não se basear nessas tradições para compor o corpo de significados das cartas? Sim, claro. Temos hoje uma infinidade de baralhos disponíveis, que se baseiam mais ou menos nos sistemas tradicionais – isso quando há algum embasamento tradicional sequer. Novos artistas, novos teóricos – e novos tarólogos – têm abordado as cartas por outros viés, contribuindo para uma nova concepção do Tarot – uma nova invenção do Tarot, por assim dizer. E eu acredito que a validade dessas novas teorias e visões não é algo que possa ser decidido objetivamente, cabendo a cada um que estuda as cartas decidir se elas cabem ou não no seu universo de concepção tarológica. Para alguém que amadurece sua comunicação com as cartas, as interpretações tradicionais servem mais como trampolins para uma relação mais íntima com as cartas. O Tarot é uma linguagem entre o tarólogo e seu próprio sistema de valores, símbolos e significados. Em última instância, o único compromisso que cada estudante de Tarot deve ter, é consigo mesmo.


BIBLIOGRAFIA/SITES

Livros

The Tarot: History, Mystery and Lore – Cynthia Giles, 1992, Paragon House

Understanding the Tarot Court – Mary K. Greer & Tom Little, 2004, Llewellyn

Seventy Eight Degrees of Wisdom: a Book of Tarot – Rachel Pollack, 1980 (ed. 1997), Weiser Books

Tarot Symbolism – Robert O’Neill, 1986 (ed. 2004), ATS

The Complete New Tarot: Theory, History, Practice – Onno & Rob Docters van Leeuwen

Sites

Taroteachings.com, de Avia Venefica – http://www.tarotteachings.com/tarot-court-cards-elements.html

Llewellyn.com – artigo “Hidden and Secret Meanings – The Court Cards, part II”, de David Allen Hulse (http://www.llewellyn.com/journal/article/387)

Kheper.net – artigo The Four Ego Functions, M. Alan Kazlev (http://www.kheper.net/topics/Jung/typology.html)

Wikipedia.com – verbetes Aristotle, Carl Jung, Knight, Queen, King, Page

Taroteca.multiply.com (imagens)

setembro 5, 2009

Exercício SPR – Rainha de Paus

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 3:43 AM

Wands13A carta sorteada hoje para análise é a Rainha de Paus. A Rainha de Paus incorpora a energia do naipe ao qual pertence, com a profundidade e a visão introspectiva característicos das Rainhas; é energética, charmosa e intensa. Eu a vejo como alguém que segue seu coração o tempo todo. Determinada e competente, ela sempre vai em busca do que quer. Todas as Rainhas do Tarot são intuitivas e sensíveis – na Rainha de Paus, isso manifesta-se como instinto. No Tarot, as rainhas são associadas ao elemento água. Na Rainha de Paus, temos então água mais fogo – ebulição. Como acontecimento, essa rainha indica sucesso nos empreendimentos e realização dos desejos. Aqui vai a análise dessa carta posicionada nas três casas da disposição de situação, problema e recursos:

Casa I – A Situação

Como situação, essa carta pode representar alguém com as características da Rainha de Paus que está envolvido de forma relevante na situação. Também podemos interpretá-la como esse lado do consulente se fazendo presente na situação onde ele se insere. Seu lado intento, idealista, dedicado e radiante pode estar ativo no momento. Ele pode estar investindo tudo de si em algo, ou fazendo alguma coisa com muita paixão. Ilustrando um acontecimento, temos aqui sucesso, vitória e realização.

Casa II – O Problema/desafio

O problema aqui é o exagero. A Rainha de Paus tende a ser dramática, intensa demais, e às vezes mesmo teatral – histriônica. Nesta posição, essa carta pode indicar que o consulente está fazendo uma tempestade em seu copo d’água. Ele pode estar reagindo de maneira muito exacerbada, pode estar fazendo um escândalo desproporcional. Outra possibilidade é a de ele estar investindo energia demais, ou cedo demais, ou mesmo em algo que não merece tanto investimento. Outros significados incluem autoritarismo, idealismo cego e mente fechada.

Casa III – Os Recursos/vantagens disponíveis

A posição três indica os recursos de que o consulente dispõe para lidar com a sua situação. A Rainha de Paus traz consigo boas doses de auto-confiança, fé nos ideais, carisma e magnetismo pessoal, charme, otimismo, paixão e boa disposição. Essa rainha também pode indicar, claro, uma pessoa específica que pode ajudar o consulente, dando-lhe coragem e restaurando sua fé em si mesmo, por exemplo.

Olhar os detalhes dos desenhos das cartas pode ser uma experiência instigante. Deles podemos extrair significados que nos ajudam a conhecer melhor cada carta, nos familiarizarmos com elas. Um detalhe que sempre me chamou a atenção na Rainha de Paus do baralho Waite-Smith é o gato preto aos pés da rainha. Essa carta também contem diversas imagens que aludem a outros felinos, os leões – ladeando o seu trono, e gravados em relevo em seu espaldar, junto com os girassóis. Isso automaticamente me remete a duas divindades egípcias – Bast, ou Pasht, a deusa-gato da fertilidade (leia-se capacidade de ter filhos), do lar e da feminilidade e; Sekhmet, a deusa leoa do Alto Egito, relacionada à guerra e ao próprio faraó. Ambas divindades são relacionadas ao sol. Os gatos costumam ter papéis proeminentes em diversas culturas, mas o fato de o Tarot ter sido tão associado ao Egito desde sua descoberta, no século XVIII, me sugere que o gato da Rainha de Paus tem uma conotação mais egípcia. Bast foi uma das deusas mais populares do Egito antigo. Originalmente associada à guerra e ao próprio sol, tais atributos mais tarde foram conferidos a Sekhmet, ficando Bast mais associada à fertilidade e ao lar. As duas deusas tem aspectos e atributos similares, e seus papéis muitas vezes se confundem. O caráter solar da Rainha de Paus é evidente. O gato, ali, além de poder significar o lado mais doméstico e dedicado dessa rainha, pode estar associado às bruxas e seus encantos. Os gatos também são associados, desde o Egito antigo, aliás, à Lua.

O Gato da Rainha de Paus - mais Deusas egípcias

Apesar de gostar de listas de significados, eu acredito que analisar cada carta em seus diversos níveis de interpretação (a imagem em si, os conceitos que ela expressa, as associações elementais/astrológicas/numerológicas, etc.) nos leva a uma compreensão mais consistente de cada arcano. Claro, isso leva tempo; e, sim, listas são legais por sintetizarem os conceitos de forma esquemática (o que facilita a memorização), e por servirem bem como fonte de consulta rápida. Contudo, a exemplo das palavras, os significados das cartas define-se pelo seu uso. Embora normalmente analisemos cada carta separadamente, é em conjunto, na leitura, que elas mostram sua vida.

setembro 1, 2009

As Figuras da Corte

Filed under: Uncategorized — Tags:, — Leonardo Dias @ 2:33 AM

Figuras da Corte

As Figuras da Corte são talvez as cartas menos compreendidas do Tarot. Sua presença em uma leitura sempre dá espaço para confusão, especialmente para quem está começando, e mesmo para aqueles que já têm alguma experiência com as cartas.

Seguindo a tendência do Tarot como um todo, a maneira de interpretar as figuras da corte foi se modificando através do tempo, conforme as mudanças que a nossa mentalidade foi sofrendo. Assim, tais cartas passaram de representações de estereótipos físicos a indicadoras de traços de personalidade e disposições psicológicas. Foi talvez nelas que a influência da psicologia moderna sobre o Tarot fez-se mais presente – o estabelecimento de associações entre as figuras da corte e a teoria das quatro funções da psique, de Jung, por exemplo.

Eu pessoalmente prefiro deixar de lado as associações de características físicas às figuras da corte. Em leituras, não levo em consideração traços físicos, ou mesmo o gênero (rainhas = mulheres; reis = homens maduros, cavaleiros = rapazes) das figuras. Realmente, é muito mais comum eu interpretá-las como disposições psicológicas (uma Rainha de Copas poderia indicar sensibilidade; um Cavaleiro de Paus, senso de aventura e auto-afirmação), ou mesmo como acontecimentos. O que a gente tem que manter claro é que, mesmo representando acontecimentos, as figuras da corte essencialmente representam a parte pessoal do Tarot. Eu gosto de pensar nelas como os personagens das histórias contadas pelos Arcanos Maiores (os temas e conceitos-chave) e pelos Arcanos Menores (as situações e os acontecimentos).

Seguindo a corrente mais moderna de abordagem dessas cartas, uma forma de vermos as Figuras da Corte seria como estágios do desenvolvimento psicológico e pessoal das pessoas em um determinado campo ou questão. Mais abaixo, tentarei sumarizar essa minha ideia.

A ideia é enxergar o ranking das figuras da corte da mesma forma que a gente vê a escala de desenvolvimento das idades das pessoas. Dessa forma –

Os Valetes representariam a infância, com sua imaturidade e inocência, mas sua energia vibrante e entusiasmo, amor pela vida;

Os Cavaleiros seriam a adolescência, com seu inconformismo meio cego, suas paixões e precipitações, e seu desejo incontrolável de explorar. O amor inocente pela vida dos valetes se transformou no desejo de abraçar o mundo com as pernas dos cavaleiros;

As Rainhas seriam então a idade adulta, com experiência e sensibilidade. As rainhas também representam a maternidade, e a capacidade de gerar e cuidar de filhos;

Por fim, os Reis seriam a maturidade, a idade onde começamos a transcender muitas das questões contra as quais passamos a vida toda debatendo.

ASSOCIAÇÕES ELEMENTAIS

Entre o final do século XIX e o começo do século XX, acredito, no pleno fluxo do movimento de “renascimento” do Tarot e do Ocultismo geral, cada nível das figuras da corte foi atribuído um elemento. Tais atribuições são muito úteis no aprendizado do conceito dessas cartas. As atribuições podem variar, mas geralmente são–

Valetes – Terra

Cavaleiros – Fogo

Rainhas – Água

Reis – Ar

Através de tais associações, podemos fazer algumas considerações que podem nos ajudar bastante na compreensão da corte do Tarot.

Os valetes, associados ao elemento Terra, automaticamente se ligam à função psíquica da sensação – a percepção consciente através dos órgãos dos sentidos, e dos estímulos físicos. Essas figuras da corte estão sempre em contato direto, livre de abstrações, com o mundo ao seu redor. Para eles, seus sentimentos, fantasias e pensamentos se confundem com o mundo – não existe diferença entre um em outro, daí a inocência geralmente a elas atribuída. Os valetes levam as coisas ao pé da letra. Seus desejos, vontades e impulsos são experimentados fisicamente.

Seguindo a lógica, os cavaleiros seriam associados à função psíquica da intuição, e ao elemento Fogo. Poderíamos definir a intuição, na forma como Jung usou a palavra, como as ideias, inspirações e criações que não se originam diretamente da atividade mental, nem dos estímulos físicos. São aqueles sentimentos arrebatadores que se manifestam espontaneamente em nós. Da mesma forma, os cavaleiros perseguem seus ideais e desejos sem saber direito por que ou como – eles simplesmente sabem que têm que correr atrás de algo. Os cavaleiros nunca param, eles sempre estão em busca de uma satisfação que, mal sabem eles, não será encontrada no mundo exterior. Eles são criativos, transbordando de inspiração e crença.

É nas rainhas que essa busca pela satisfação exterior cessa. Associadas ao elemento Água e à função psíquica do sentimento, as rainhas simbolizam um processo de internalização. A função psíquica do sentimento pode ser definida essencialmente como a interpretação das coisas tendo como base o quanto elas são agradáveis ou desagradáveis. É o que as pessoas mais sentimentais tendem a fazer. As rainhas escutam seus sentimentos, e seu coração – mais do que seu corpo, como os valetes, ou seus desejos, como os cavaleiros. É senso comum que, como na Idade Média, as rainhas sirvam como mediadoras na corte do Tarot. Elas são a manifestação do feminino. Os valetes, apesar de retratados como entidades masculinas, são assexuados, como as crianças; já os cavaleiros são a primeira manifestação do masculino, da potencia fecundadora. As rainhas, assim, seriam o receptáculo dessa força.

Finalmente, os reis. Associados ao elemento Ar, naturalmente podemos atribuir-lhes a função psíquica do pensamentoa capacidade de racionalizar, de analisar as coisas racionalmente. A faculdade do pensamento pode definir-se pela habilidade de combinar ideias, imagens mentais, e assim formar pensamentos e abstrações. A palavra “pensar” tem origem comum com a palavra “pesar”. Ambas vêm da palavra latina para “suspender”, “pendurar”, em uma relação direta com a suspensão dos dois pratos da balança, onde pesamos os conceitos. Similarmente, o pensamento combina os opostos, com o objetivo de encontrar um meio-termo. Essa era, afinal, a função dos reis – a de juízes, definidores da verdade, e criadores da justiça. Mais do que todas as outras figuras, os reis vivem completamente imersos nas abstrações. Sua relação com a realidade é oposta à dos valetes – ela é inteiramente calcada em concepções e valores. Podemos perceber isso claramente comparando, por exemplo, o valete e o rei do naipe de Copas do baralho Waite-Smith –

Valete e Rei de Copas

Observe como o valete segura o cálice e parece conversar com o peixe que sai de dentro dele. Em contrapartida, o rei tem o cálice vazio, apenas representativo, e o peixe é o pingente de seu colar – não um peixe real, mas um simulacro; apesar de estar no meio do mar, seus pés estão firmes no chão de seu trono.

Essa última parte do texto sugeriu a existência de uma espécie de progressão existente dos valetes aos reis – da experiência básica à completa abstração da realidade. Nos posts seguintes, vamos explorar mais a fundo esse simbolismo, e sua associação com o tetragrammaton, a palavra sagrada. Vou escrever também posts especiais sobre o conceito dos quatro elementos, conhecimento básico para a compreensão da lógica existente por trás do Tarot.


agosto 31, 2009

Exercício SPR – Valete de Espadas

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 11:30 PM

Swords11O exercício de SPR de hoje vai ser sobre o Valete de Espadas. Os valetes são a força do naipe manifestada em seu estado infantil, prematuro e pouco desenvolvido. Associados ao elemento Terra, essas figuras da corte representam exatamente as bases do desenvolvimento psicológico e pessoal que elas representam. Os valetes costumam ser entusiasmados, empolgados, e criativos.

No Valete de Espadas, isso se traduz por curiosidade e vivacidade mental. Representando novas ideias, essa carta muitas vezes indica também o começo de novos aprendizados. Também pode indicar descobertas, especialmente através de mensagens vindas pelos diversos meios – telefonemas, cartas, emails, etc. – mesmo fofoca. Ah, sim, esse é também um dos aspectos desse valete; ele gosta bastante de falar e, às vezes, fala demais, particularmente sobre coisas que ele não sabe direito.

A mensagem básica que os valetes anunciam é crescimento. Sempre que um deles aparece, podemos perceber como indicativos de um processo de desenvolvimento, desabrochar. Exatamente por isso é que eles sempre carregam uma conotação de inocência e imaturidade.

Casa 1 – A Situação

Nesta posição eu normalmente interpretaria esse valete ou como um momento de descobertas e aprendizado, ou de notícias que trazem novas informações. Ele também pode indicar uma pessoa na situação, trazendo informações novas.

Casa 2 – O Problema/desafio

Os problemas dessa carta têm a ver com basicamente duas coisas – sua inocência e inexperiência, e sua tendência a partir para conclusões precipitadas.

Os valetes são naturalmente precipitados. Todos eles tendem a agir primeiro e pensar depois, a encarar as coisas com menos seriedade do que elas têm. O valete de espadas pode aparecer nessa posição para indicar que o consulente não dispõe de toda informação necessária para fazer o que deseja e, portanto, deve procurar informar-se mais. O desafio aqui é assumir que não se sabe o suficiente ainda, que está aprendendo. Outra possibilidade seria a de que a carta aparecesse para representar uma tendência a falar antes de pensar, ou a tomar conclusões precipitadas.

Casa 3 – Os Recursos/vantagens

Representando as vantagens, essa carta indica inteligência, disposição para aprender, comunicabilidade e criatividade de ideias. Ainda que não tenha experiência, o entusiasmo do valete muitas vezes compensa essa desvantagem. O valete nessa posição também pode indicar que o consulente dispõe de informações valiosas para resolver suas questões, e que deve usá-las adequadamente.


Uma das aparições mais marcantes desse valete em minhas leituras foi quando ele apareceu com o Ás de Ouros em uma consulta sobre assuntos afetivos. Na hora eu não entendi muito bem o significado das duas cartas, mas alguns dias depois ele ficou claro pra mim, depois que recebi uma ligação que me trouxe uma notícia maravilhosa a respeito do assunto em questão.

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