Descobrindo o Tarot

abril 24, 2012

PODCAST # 12 – EVENTOS DE 2012 + PERGUNTAS & RESPOSTAS

Filed under: Audio — Tags:, , , , , , , — Leonardo Dias @ 4:43 AM

Ainda que o sol não esteja mais em Aries, aí está meu podcast especial pra entrada do sol no líder do zodíaco. O podcast conta com um resumo sobre alguns dos principais eventos reservados para 2012 girando em torno do tarot, bem como com algumas respostas minhas a perguntas feitas pelos leitores.

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PODCAST #12

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Links

Mystic Fair Rio

Mystic Fair Sampa

Espaço Faces da Lua – espaço da Confraria do Tarot

Tarô, Simbologia e Ocultismo – info sobre a reedição da trilogia de Nei Naiff

Espaço de Luz – site da Patrícia Burnay e do Jorge Pedro

Agenda Pagã – blog voltado para eventos relacionados a paganismo e misticismo em geral

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Line-up musical

Lady Gaga – Yoü and I

Billie Holiday – God Bless the Child

Aretha Franklin – Respect

Marissa Nadler – Mexican Summer

Xuxa – Doce Mel

Jordy – Dur Dur d’Être Bébé

Mariah Carey – Boy (I Need You)

Elton John – Nikita

Norah Jones – Turn Me On

Sophie-Ellis Bextor – Murder on the Dancefloor

Celine Dion – A New Day Has Come

The Supremes – Baby Love

Bessie Smith – Careless Love blues

Lady Gaga – Disco Heaven

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setembro 25, 2011

PERGUNTAS E RESPOSTAS: DIFERENÇAS ENTRE BARALHOS – COMO LIDAR?

Filed under: Diversos — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 2:20 AM

Recentemente, uma leitora do blog, Lanna, lançou a seguinte pergunta num comment do video sobre a viajação nas imagens do tarot:

“(…) No Waite o 5 de ouros, por exemplo, significa perda, falta ou [ter que fazer] poupança de grana, algum tipo de marginalização etc. Estou falando pictoricamente. Em outro deck, vi o mesmo 5 de ouros com uma imagem bem melhor: um homem encontrando um saco de ouro: ganho inesperado, boa sorte. Como lidar?”

No video, minha resposta.

setembro 17, 2011

ESCLARECENDO MINHAS IDEIAS DE VIAJAÇÃO NAS IMAGENS DO TAROT

Filed under: Videos — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 2:11 AM

Pra ninguém dizer que eu não avisei.. rs.

setembro 3, 2011

UM SEGUNDO TAROT CRIADO POR WAITE?

Filed under: Diversos — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 10:43 PM

Londres, Inglaterra, ano 1909. A editora William Rider & Son, especializada em literatura esotérica, coloca no mercado inglês a primeira edição de “um baralho de 78 cartas de tarot”, bem a tempo para as vendas de natal. O tal baralho, mais tarde renomeado Rider-Waite Tarot Deck, fora criado pelo escritor ocultista Arthur Edward Waite e pela artista Pamela Colman Smith. O produto pretendia preencher a necessidade generalizada do público por um baralho de tarot facilmente acessível, em uma época em que tal objeto era difícil de ser conseguido. O tarot Waite-Smith cumpriu seu papel, excedendo os sonhos mais lindos até de seus criadores, pois veio a se tornar o baralho de tarot mais célebre do mundo. Ainda que tenha passado longe de ser considerado uma obra-prima pelos seus autores, o baralho Waite-Smith imortalizou os nomes de Arthur Waite e Pamela Smith, e representa a coroação final dos anos de dedicação e pesquisa de Waite sobre o tarot. Não, na verdade, não foi exatamente assim. O Waite-Smith parece não ter sido o único tarot criado por Waite.

Lake District, ainda Inglaterra, ano 2011. A primavera acaba de começar e o tarólogo e pesquisador inglês Marcus Katz anuncia online sua participação na Tarosophy Tarot Conference III, onde promete exibir imagens coloridas dos vinte e dois arcanos maiores de um suposto segundo tarot criado por Arthur E. Waite, nunca publicado. De fato, Waite idealizou um conjunto de imagens, desenhadas e coloridas pelo artista australiano John Brahms Trinick entre os anos 1921 e 1922. Outro artista, Wilfrid Pippet, também contribuiu com algumas ilustrações, que datam de 1923. Executadas num estilo típico da belle époque (com ares modernos e mais elaboradas que as imagens de Pamela), as vinte e três ilustrações parecem corresponder aos vinte e dois caminhos da Árvore da Vida cabalística. Chamadas de “The Great Symbols of the Paths” (‘Os Grandes Símbolos dos Caminhos’), o conjunto de imagens foi criado para ser usado na ordem rosicruciana fundada por Waite em 1915, The Fellowship of the Rosy Cross.

Resta a dúvida se esse conjunto de imagens é realmente um tarot. Informações sobre essa obra de Waite são escassas, e pesquisas online mostram-se pouco frutíferas. Dois livros atuais contam com menções aos tais Grandes Símbolos dos Caminhos: The Story of the Waite-Smith Tarot, de K. Frank Jensen e A History of the Occult Tarot 1870-1970, de Ronald Decker e Michael Dummet. O exato propósito das imagens é pouco evidente. Ainda que boa parte delas conserve considerável similaridade com as imagens tradicionais do Tarot, não é óbvio que elas tenham sido concebidas primariamente para uso divinatório. O nome do conjunto sugere que elas representam os Caminhos da Árvore da Vida, tendo sido criadas para os estudos cabalísticos da ordem de Waite. Além disso, as imagens totalizam vinte e três, e não setenta e oito, como seria típico de um baralho de tarot. Reproduções das imagens também não parecem existir online, ao menos por enquanto. Uma delas, bastante similar à Alta Sacerdotisa do Waite-Smith tarot, foi exibida por algum tempo no site do World Tarot Day e pode ser vista aqui, ao lado. Apesar de semelhança com a Alta Sacerdotisa ser gritante, outras imagens são diferentes o suficiente para inviabilizarem qualquer comparação direta com as figuras tradicionais do Tarot.

A Tarosophy Conferece III será realizada nos dias 17 e 18 de setembro, então logo saberemos mais sobre isso. Mais que só um palestrante na conferência, Marcus Katz é o fundador da Tarot Professionals, organizadora do evento. Não é preciso pensar muito para ligar os pontinhos e ver que todo o hype construído ao redor desse suposto segundo tarot de Waite também pretende trazer mais visibilidade ao evento. Ademais, eu não ficaria nada surpreso se, em breve, fosse publicado um baralho com as tais ilustrações. Entretanto e independente disso, o trabalho de pesquisa de Katz merece crédito por expor uma obra significativa de Waite que parece nunca ter recebido muita atenção. Um segundo baralho de tarot idealizado por Waite pode nos ajudar a entender melhor o simbolismo do primeiro, como também ter uma noção mais nítida do que se passava na cabeça desse ocultista que tinha um compromisso mais forte com seus juramentos secretos que com seus leitores.

Enquanto isso, os copyrights sobre o baralho Waite-Smith expiram na União Europeia agora em 2012. Assim, poderemos esperar por publicações desse baralho por outras editoras – talvez mais similares às cartas originais que disponíveis no mercado atualmente, todas alteradas, de uma forma ou de outra. Também há rumores no ar sobre o iminente lançamento de uma biografia de Pamela Smith, mais elaborada que as disponíveis hoje. Sim, os próximos anos parecem reservar descobertas cruciais sobre esse que continua sendo o baralho de Tarot mais famoso da história. Aguardemos.

novembro 13, 2010

PERGUNTAS E RESPOSTAS – INTERPRETAÇÃO DAS CARTAS NUMERADAS

Filed under: Diversos — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 5:05 PM

A pergunta de hoje foi feita por Franklin Couto, do CanalNeblina do YouTube, e tem a ver com a interpretação das cartas numeradas.

Qual é a sua opinião com relação à interpretação das cartas com naipe? Isso de um modo geral, saca? Existe uma diferença entre alguns baralhos – o egípcio, por exemplo, tem os 78 Arcanos figurativos, a interpretação está quase toda na simbologia da carta. Lógico que a nomenclatura da carta é importante (de extrema importância até), mas sempre ouço comentários de que esses baralhos em que se pode juntar a interpretação da figura com o nome dado àquela cena são baralhos com uma interpretação mais fácil. Já no caso do Marselha, a interpretação dos arcanos menores me parece bastante difícil, já que não existe a possibilidade de fazer esse link de nome-figura. Nesse caso a interpretação é toda instintiva? Existe uma técnica que transforme a interpretação numa “receita de bolo”, tipo, mecânica?

Eu achei essa sua pergunta interessante, pois ela toca em vários pontos muito legais. Primeiro, vamos às questões mais simples. Ao que me pareceu, o baralho egípcio que você menciona é o Egipcios Kier. Apesar de não ser especialista em Kier, posso dizer que ele é um baralho de Tarot que tem um sistema de organização interna e simbologia particulares, que se distanciam um pouco do esquema arcanos maiores + 4 naipes, 10 cartas numeradas + 4 figuras da corte, que a maioria dos baralhos exibe. Fora do planeta Kier, a gente tem, basicamente, duas vertentes de representação das cartas numeradas – representações figurativas, que envolvem cenas e símbolos, vertente essa que tem no Rider-Waite-Smith seu precursor e maior expoente (na verdade, o primeiro baralho conhecido a ter cenas nas cartas pequenas é o Sola Busca, mas isso é outra história) ; e representações numéricas, onde o símbolo de cada naipe se repete ao longo das dez cartas numeradas, indicando o número de cada carta através de sua repetição (9 taças para o Nove de Copas/Taças, por exemplo). Qualquer baralho de Tarot que você pegar vai ter ou representações de cenas em suas cartas numeradas, ou padrões numéricos repetitivos. Frequentemente, como no caso do RWS, as repetições do símbolo do naipe para demarcar a quantidade perduram, inseridas na cena em questão – as nove taças dispostas na mesa atrás do homenzinho feliz no Nove de Copas, por exemplo. Isso é feito para facilitar a identificação do naipe. O Kier é um dos casos onde nada disso acontece, pois ele é um baralho que deixa de lado o próprio conceito de naipe, então não há o que ser repetido ou indicado nas cenas.

A representação numérica baseada na repetição é um expediente bem simples, que acompanha os hoje chamados arcanos menores desde sua origem. Agora, do ponto de vista prático, e falando a grosso modo, a gente pode ver as representações figurativas como uma sofisticação, uma evolução de design, digamos, que se foca especificamente no uso divinatório do Tarot – que, originalmente, foi concebido para ser um jogo. É o Tarot divinatório saindo do armário. A ideia inicial de trocar os padrões repetitivos dos baralhos mais antigos por cenas parece ter sido justamente facilitar a identificação das ideias atribuídas a cada carta. A gente tem isso já bastante sugerido no título do livro que acompanhava o RWS quando de seu lançamento, no final de 1910 – The Pictorial Key to the Tarot, ou ‘A Chave Pictórica do Tarot’ – “chave pictórica”, ou seja, uma chave que consiste em imagens, que revela os significados através de cenas alegóricas. É hoje comumente aceito que, antes de Waite, as cartas menores expunham apenas padrões de repetição numérica, e seu significado permanecia circunscrito às escolas de iniciação – não era fácil descobrir sozinho. Ao publicar um baralho com imagens para as cartas menores, Waite exoterizou um corpo de segredos que antes fora mantido esotérico.

Quando você fala sobre nomenclatura, eu acho que, mais uma vez, você está com o Kier em mente, pois é ele que tem nomes para cada carta, com cenas relacionadas a esse nome. A maioria dos outros baralhos não possui nomes nas cartas pequenas, então o vínculo estabelecido com a carta parte basicamente da identificação da cena ou figura que ela retrata. No entanto, é legal você mencionar essa questão de títulos dados às cartas, porque dentro do sistema da Golden Dawn, cada carta numerada recebe um título – o Nove de Copas, por exemplo, é chamado de Lord of Material Happiness, ou “Senhor da Felicidade Material”. Esse título funciona como uma sintetização da força ou ideia que a carta representa no universo da GD – e, por tabela, um pouco no RWS também, já que Arthur Waite e Pamela Smith, os dois criadores do baralho RWS, fizeram parte dessa ordem hermética por algum tempo. Crowley (outro que, por muitos anos, integrou o corpo de membros da GD), carregou esse conceito de títulos para seu baralho, o Thoth, onde cada carta pequena tem um ‘nome’ – o Nove de Copas, por exemplo, é chamado simplesmente Happiness. Talvez seja daí que tenham tirado a ideia de dar títulos às cartas no Kier – e então, o círculo que você abriu, se fecha, rs.

De qualquer modo, independente de qual baralho você usa para fazer leituras, o mais importante – o que vai garantir a comunicação e o entendimento leitor-cartas – é o vínculo que você trava com cada carta. Mesmo quando elas não têm figuras cênicas, como no caso do Marselha, com o tempo você acaba se acostumando com as cartas. Também, há quem diga que a disposição dos elementos nas cartas numeradas do Marselha obedece a uma certa regra, onde a forma que tais elementos são arranjados possui significado. A gente também pode encontrar essa lógica no próprio baralho da Golden Dawn, cujos arcanos menores numerados exibem uma série de sinais, diferentes arranjos e símbolos que convencionam sua interpretação. Num outro extremo, temos mesmo o Crowley-Harris-Thoth, baralho de autoria do mago Aleister Crowley e da pintora Layd Frieda Harris; os arcanos numerados do CHT não vêm com cenas, seguem o modelo repetitivo comum das cartas mais antigas e reproduzido pela GD, porém conferindo-lhe uma aparência mais moderna, exibindo variações de formas e um forte uso da cor e de símbolos adicionais para incorporar a força que cada carta é. Crowley consolidou a união do Tarot com a Magia, fazendo de seu baralho não só uma ferramenta destinada a descrever, mas também a agir sobre os fatos e a realidade. Seu baralho também é um instrumento mágico, de ação. Mais um passo transcendente, levando o Tarot a não só instrumento de especulação, mas também de ação proativa.

Por último, sua questão sobre alguma técnica ‘receita de bolo’, como você diz. Eu acredito que seja importante salientar que, visto que o Tarot (ao menos assim se sustenta) não foi desenvolvido originalmente para ser usado com fins divinatórios, a atribuição de significado para as cartas consiste na construção de um sistema essencialmente alheio às cartas em si, que é desenvolvido ao seu redor e sobre elas é imposto. Claro, com o tempo, uma coisa meio que se misturou com a outra, dando origem a algo novo. O RWS surge em um momento desse processo onde o Tarot já estava plenamente tido como um oráculo. Ele só refletiu essa mudança. Mesmo assim, é bom levar sempre em conta esse fato simples quando consideramos questões como a sua – significados dados às cartas são essencialmente estruturas artificiais. Existe mais de uma forma de atribuir significados às cartas, mais de um sistema. Na verdade, existem inúmeros, alguns mais receita-de-bolo que outros. Dependendo do sistema que você escolhe, diferentes técnicas serão usadas.

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Rant!

Geralmente, eu percebo que a maioria das pessoas que se propõem a estudar Tarot não pensa muito sobre essa questão da atribuição de significados às cartas – de onde ela veio, em que ela se baseia, quem foram seus precursores, etc. Elas simplesmente vão lendo livros, frequentando cursos e fazendo leituras, presumindo que os significados são os que elas aprendem e usam, que sempre foi e sempre será assim, e outras coisas são erradas. Acho que isso é uma das coisas que mais provocam discussões e brigas em forums e grupos de Tarot. E também acho que isso é estupidez, pois não relativiza. Não há um consenso sobre o que cada carta pretende significar. Assim, de claro, não há. Simplesmente porque um monte de gente propôs (e propõe) significações diferentes – e um monte de outra gente se propõe a seguir tais esquemas. Por mais que certo sistema de significados seja popular, ele não é unânime. Isso porque eu nem cheguei a considerar as diferentes nuances de percepção de cada pessoa dentro de um determinado sistema…

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Bem, espero ter respondido sua pergunta, Franklin. Você pode complementar a resposta com comments, se achar necessário. Brigado pelo comentário, e pela participação!

Além de seu canal no YouTube, vocês podem ver mais sobre Franklin também em seu blog recém-lançado, CanalNeblina.

setembro 12, 2010

EXPLICANDO A CONFUSÃO – CAVALEIROS QUE SÃO REIS, REIS QUE SÃO CAVALEIROS, RAINHAS, PRINCESAS, PAJENS, etc, etc, etc

Filed under: Diversos, Figuras da Corte — Tags:, , , — Leonardo Dias @ 1:01 AM

O meu objetivo com esse post é um, e somente um: esclarecer, de uma vez por todas, a grande confusão que paira sobre as figuras da corte e seus ranks em diferentes decks de Tarot.

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A Confusão Primeiro de tudo, vamos definir bem sobre qual confusão estamos falando – o Tarot é cheio delas, diga-se de passagem. Quem ao menos passou os olhos sobre um baralho Thoth deve ter notado a discrepância entre seu sistema de ranking das figuras da corte e o sistema de outros baralhos, como o Marseille ou o Rider-Waite-Smith (RWS, daqui pra frente). No Thoth, o sistema comum de Rei-Rainha-Cavaleiro-Pajem é substituído por um esquema de Cavaleiro-Rainha-Príncipe-Princesa. Tal distinção tende a causar muita confusão entre quem estuda Tarot, especialmente em tentativas de comparar os dois sistemas. Essa diferença levanta várias perguntas – por que foi feita tal alteração? Qual é exatamente a correspondência entre os dois sistemas? Que diferença isso faz na leitura?

É provável que particularmente dois tipos de estudante/praticante de Tarot tenham se deparado com essa questão em seus estudos – aqueles que travaram algum contato com o baralho Crowley-Harris Thoth, idealizado pelo mago Aleister Crowley e pintado pela artista Lady Frieda Harris – ou qualquer baralho que partilha de parâmetros semelhantes; ou aqueles que, em algum momento, tenham entrado em contato com os preceitos da Ordem Hermética da Aurora Dourada (The Hermetic Order of the Golden Dawn, em seu nome inglês original, comumente chamada de Golden Dawn, e doravante abreviada simplesmente como GD). Quem não pertence a pelo menos um desses dois grupos poderia bem parar de ler esse post a essa altura, ou encarar os próximos parágrafos como pouco mais que uma simples curiosidade sobre os rumos que o Tarot tomou durante a virada entre os séculos 19 e 20.


Mas, chega de enrolação, é hora de descobrirmos alguns porquês.

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História Um pouco de história para começar. As figuras da corte chegaram do mundo islâmico à Europa provavelmente no final do século 13, como parte de um maço de cartas de jogar, e eram em número de três para cada naipe – um rei, e mais outros dois oficiais menores. Não demorou muito para os europeus modificarem esse esquema, trocando os títulos das posições para ranks mais familiares a sua sociedade, e acabarem por fixar a adição de mais uma figura: a rainha. À altura do século 15, após diversas variações e a inclusão dos trunfos, o agora baralho de tarot geralmente contava com uma corte fixa composta pelas quatro figuras conhecidas até hoje – um rei, uma rainha, um cavaleiro, e um pajem ou valete. Foi provavelmente um baralho assim que, cerca de 1775, foi parar nas mãos do pastor protestante e ocultista francês Antoine Court de Gébelin (ca. 1719 – 1784), atualmente tido como o primeiro ocultista a proclamar ao mundo as supostas origens herméticas do Tarot. Estava iniciada a vida esotérica do Tarot.

Entre Gébelin e a GD passaram-se mais de cem anos, durante os quais muita coisa aconteceu com o Tarot – inclusive sua associação com a Cabala, estabelecida principalmente pelo ocultista francês Eliphas Lévi. O próprio Gébelin já havia sugerido tal relação em sua obra, especialmente entre os vinte e dois trunfos e as vinte e duas letras do alfabeto hebraico; no entanto, foi Lévi o primeiro a desenvolver tal ideia a um sistema completo, por volta de 1855. Portanto, em 1888, ano em que a GD foi fundada, a ideia de que o Tarot e a Cabala estavam ligados já contava com mais de trinta anos. Contudo, ainda que a doutrina da GD compartilhasse com Lévi tal noção (bem como muito mais), esta difere em diversos pontos das ideias do ocultista francês.

A Golden Dawn tem sua origem nos Manuscritos Cifrados, uma coleção de sessenta folhas com escrita em código, contendo, entre outras coisas, descrições de rituais e instruções sobre Tarot e Magia. O detentor de tais manuscritos era William Wynn Wescott (1848-1925), médico legista oficial e ocultista participante em diversas ordens secretas, que viria a ser um dos fundadores da GD. Grande confusão paira sobre a real origem de tais manuscritos. Segundo Wescott, os documentos chegaram às suas mãos meio que por acaso, e haviam pertencido originalmente a Frederick Hockley, importante ocultista inglês, membro proeminente de outra ordem esotérica, a Societas Rosicruciana in Anglia, ou simplesmente S.R.I.A., da qual Wescott também fazia parte. Após o falecimento de Hockley, em 1885, Wescott foi incumbido de cuidar de seus papéis, e é então que ele afirma ter encontrado os manuscritos. Essa afirmação foi, contudo, diversas vezes contestada como falsa. Inúmeras teorias especulando sobre a real origem dos tais manuscritos foram posteriormente levantadas, a maioria das quais sustentando ser Wescott um dos verdadeiros criadores dos documentos. Controvérsias à parte, o fato é que os Manuscritos Cifrados constituíram a base da doutrina da GD. Neles encontra-se a semente de uma noção que iria irremediavelmente marcar o Tarot para sempre.

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Kabbalah e Qabalah “O Tarot guarda intrínsecas ligações com a Cabala”. Sendo bem sintético, essa é a principal afirmação contida na parte dos Manuscritos Cifrados que trata das cartas. Com efeito, a Cabala é a principal filosofia e estrutura que subjaz a fundação conceitual de ordens esotéricas como a GD ou a antiga Ordem Rosacruciana – do esoterismo ocidental em geral, podemos dizer. Não exatamente a Cabala tradicional judaica, entretanto, mas a Cabala Hermética, e é importante fixar essa distinção antes de prosseguirmos.

Falando de modo geral, a Cabala Hermética, foco do nosso interesse, é fruto de um sincretismo que ocorreu principalmente durante a Renascença, e que combinou o misticismo judaico com linhas de pensamento comuns à ciência medieval e renascentista, tais como astrologia, alquimia, gnosticismo, etc. Coisas como associações planetárias e mágicas existem desde o surgimento da Cabala Hermética, que teve como principal precursor o eminente filósofo italiano Pico della Mirandola, no século 15. O estudo da história e do desenvolvimento da Cabala é um assunto extenso em si, que certamente merece ser considerado com respeito. Para nossos fins, no entanto, o mais importante é entender que, a partir de sua inclusão no corpo científico-filosófico da Renascença italiana, a Cabala Hermética passou por um extenso desenvolvimento até chegar ao ocaso da Era Vitoriana inglesa, quando do surgimento da Golden Dawn. De certa forma, os desenvolvimentos feitos pela GD nesse campo representam uma culminação da inclusão da Cabala ao sistema místico e esotérico europeu. Foi por exemplo MacGregor Mathers, outro dos fundadores e líderes da GD, quem estabeleceu a grafia Qabalah, em vez da Kabbalah tradicional, por considerá-la “…mais consistente com a língua original”, como afirma Robert Wang. A Cabala Hermética agora tinha um “nome” só dela, e tal grafia tem sido usada para distinguir as duas correntes de cabalismo desde então.

Assim, temos de um lado a Kabbalah tradicional judaica, parte da tradição judaica focada no aspecto místico dos ensinamentos; e do outro, a Qabalah Hermética, que consiste na tradição mística judaica fundida ao hermetismo ocidental. A Cabala Hermética é justamente a estrutura que sustenta o pensamento esotérico do século 19, sendo responsável pelo Tarot moderno – e tendo, por conseguinte, sustentado alterações na organização do Tarot enquanto sistema simbólico. Como as mudanças na estrutura das figuras da corte, por exemplo.

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O Tetragrammaton . . O trecho dos Manuscritos Cifrados que trata do Tarot começa assim:

Os 22 atouts do tarot, os trunfos, equivalem às letras hebraicas e aos Caminhos Yetziráticos. Aprenda agora, O Practicus de nossa antiga ordem, o verdadeiro significado do Alfa e Ômega.

Trinta e dois são os caminhos, equivalendo a 22 letras e 10 Sephirot.

As 10 Sephirot são as 10 cartas numeradas de cada naipe.

Os 4 naipes são os 4 mundos.

As 16 cartas da corte são o Tetragrammaton quaternário.

As 22 letras são os 22 atouts ou Mansões de Thoth.

(…)

[Tradução e bold meus]

Preste a atenção no trecho acima – você vai ouvir bastante sobre ele daqui pra frente. O texto prossegue fornecendo a tabela de associações e discorrendo sobre algumas delas. O Tetragrammaton ao qual o texto associa as 16 cartas da corte refere-se ao nome hebraico de Deus, י ה ו ה‎, composto por quatro letras (daí tetragrammaton, τετραγράμματον, que em grego significa algo como ‘[palavra com] quatro letras’). A palavra hebraica י ה ו ה‎, composta pelas letras yod, heh, vav, e heh, transcreve-se por YHVH. Na escrita hebraica, a exemplo de outras línguas semíticas, vogais não são grafadas, o que nos impossibilita saber com exatidão como o nome de Deus é pronunciado, “representando, por conseguinte, a natureza incognoscível de Deus”, como diz Rachel Pollack. YHVH é comumente traduzida por “Yaweh” ou “Jehovah” – daí o nome de Deus no Velho Testamento, Jeová. Havia, desde muito antes de Lévi, a noção de que esse nome é especial e poderoso. Diz-se que, na antiguidade hebraica, o sagrado nome de Deus só era proferido pelo sumo-sacerdote uma vez por ano, no ritual sagrado do Yom Kippur, ou Dia da Reconciliação – o dia mais sagrado para os judeus. Particularmente na tradição da Cabala Hermética, o tetragrammaton era tido como uma palavra mágica; quem soubesse sua exata pronúncia poderia alcançar feitos inigualáveis. A Cabala confere às letras e aos números um significado profundo. No pensamento cabalístico, letras e números são considerados forças espirituais, e cada letra possui um valor numérico. Juntando as letras de uma palavra, através de seus valores numéricos, temos um valor final que reflete a essência dessa palavra. A combinação de letras que forma o nome de deus é vista, portanto, como a chave para todos os mistérios da vida, o grande segredo sobre a existência – daí sua importância.

Talvez a coisa mais importante a se saber sobre o tetragrammaton na Cabala é que ele não é exatamente um nome, como um nome dado a alguém ou algo – ele é uma fórmula:

י ה ו ה não é realmente um nome, mas uma fórmula que revela a mecânica básica da criação e da existência humana.

[Lon Milo Duquette, Chicken Qabalah – tradução minha]

O processo descrito pelo tetragrammaton pode ser verificado ao analisarmos cada uma de suas letras. Brevemente, temos:


Na tradição da Cabala Hermética, cada letra do tetragrammaton é associada a um dos quatro Elementos primordiais gregos da seguinte maneira –

י‎

yod

Fogo

ה

heh

Água

ו

vav

Ar

ה

heh

Terra

Há outras propostas de associação, mas essa parece ter sido a que mais se fixou. Foi provavelmente com base nessa noção que Lévi estabeleceu uma correspondência entre os quatro naipes do Tarot e as quatro letras do tetragrammaton ––

י‎

yod

Fogo

Paus

ה

heh

Água

Copas

ו

vav

Ar

Espadas

ה

heh

Terra

Ouros

É possível que a concepção de que “os 4 naipes são os 4 mundos”, como está nos manuscritos cifrados da GD, tenha se originado nessa ideia de Lévi. E é justamente essa a chave para começarmos a desfazer a confusão.

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A Explicação . . . .Talvez uma das primeiras impressões de alguém que começa a entrar em contato com a Cabala seja a de que o pensamento cabalístico pende para um certo fractalismo. Existe um modelo, e esse modelo se auto-replica dentro de si mesmo, quase que infinitamente. Continue lendo, e você vai perceber o que estou dizendo.

A Manifestação – a criação, o processo em que do nada se faz o tudo – é ilustrada pela Cabala na famosa imagem da Árvore da Vida. A Árvore da Vida é um diagrama composto por dez Sephirot, ou esferas, onde cada esfera representa tanto um atributo/aspecto de Deus, quanto um estágio no processo de Manifestação. As esferas são ligadas por vinte e dois Caminhos. A Árvore da Vida, com as dez Sephirot e os vinte e dois caminhos que as unem, é um modelo do processo de criação. Ela pode ser usada tanto para representar o Universo (a totalidade da criação, da qual o nosso universo físico é parte), como para representar qualquer processo de manifestação/criação em geral. O Universo pode ser representado pela Árvore da Vida justamente por ser, ele, a Manifestação de Deus. Na Cabala, o processo da Manifestação divina segue um padrão ultérrimo que se replica nos processos que compõem esse processo, de maneira fractal. Tudo, tudo segue um mesmo padrão, um mesmo ritmo. A Árvore da Vida pretende representar esse padrão, e o tetragrammaton fornece a estrutura quaternária para isso.


Na Cabala, a criação do Universo é concebida como um processo onde Deus, o Espírito, desdobra-se em emanações sucessivas até dar origem ao nosso mundo material. Temos então quatro “estágios” – quatro Mundos. Cada mundo corresponde a uma letra do tetragrammaton. Na concepção da Cabala, o Universo divide-se nesses quatro Mundos, quatro planos distintos de manifestação. A ideia fundamental para entender isso é ver Deus como um impulso de criação que parte do estado de existência mais excelso e imaterial e “desce” rumo a um estado cada vez mais denso e material, que culmina com a criação do nosso mundo, da nossa realidade. Esse impulso é o que gera os quatro Mundos, e os quatro mundos juntos são o Universo. Sendo a Árvore da Vida uma representação do Universo, os quatro Mundos podem ser representados nela e por ela, e existem três formas de fazer isso. Para nosso propósito, a forma que vou expor agora é a mais adequada. Considerando que a Árvore da Vida é um modelo geral do processo de manifestação, e considerando ainda que cada um dos quatro mundos é parte desse processo, temos então que cada mundo pode ser representado, ele mesmo, por uma árvore individual, o que totaliza portanto quatro árvores (ver figura ao lado). Esse modelo de representação dos quatro Mundos é de suma importância para a associação dos naipes com os Mundos, e para entendermos a questão das figuras da corte.

Vou explicar. Como consta nos manuscritos cifrados, os 4 naipes são os 4 mundos; isto é, de acordo com a doutrina da GD, cada naipe é a representação de um dos mundos cabalísticos. Pois bem, se cada Mundo for visto como uma árvore composta de dez esferas, temos nos quatro mundos um total de quarenta esferas – o mesmo número do total das cartas numeradas (ás a dez) dos quatro naipes. Não é preciso pensar muito para perceber que cada uma das quarenta cartas numeradas do Tarot foi associada a uma sephirah de um dos quatro mundos, determinada pelo naipe ao qual ela pertence, e obedecendo a ordem numérica. Está nos manuscritos, “as 10 Sephirot são as 10 cartas numeradas de cada naipe”. A figura ao lado mostra um exemplo dessa ideia, com as dez cartas numeradas do naipe de Copas dispostas sobre a Árvore da Vida, representando o segundo mundo, chamado Briah, o Mundo Criativo – ao qual o naipe de Copas corresponde (clique sobre a imagem se quiser ampliá-la). O Dois de Copas, por exemplo, é Chokmah (a segunda sephirah) de Briah, ou seja, Chokmah no mundo da Criatividade.

“E quanto às figuras da corte?”, alguém pergunta. Diz o manuscrito: as 16 cartas da corte são o Tetragrammaton quaternário. Vamos prosseguir, e você vai entender.

Lembre-se, sendo cada Mundo uma parte do processo de manifestação, cada Mundo é também um processo em si. Como eu disse há pouco, o tetragrammaton é uma fórmula que aparece de várias maneiras distintas pela Árvore da Vida. Uma delas é a seguinte – em cada um dos quatro mundos, cada letra do tetragrammaton guarda relações especiais com uma entre quatro das dez sephirot, pois no processo que cada mundo representa, tais esferas são como que os pontos principais, podemos dizer. Cada uma das dezesseis cartas da corte corresponde a uma dessas quatro esferas especialmente relacionadas ao tetragrammaton, nos quatro mundos – ou seja, nos quatro naipes. É justamente nesse sentido que o texto diz que as dezesseis cartas da corte são o tetragrammaton quaternário. Assim, temos nos quatro Mundos uma expressão do tetragrammaton, e o tetragrammaton manifestando-se em cada Mundo. As figuras da corte correspondem a essa expressão particular do tetragrammaton. Da mesma maneira que elas formam uma organização independente dentro de cada naipe, o tetragrammaton na Árvore de Vida é como que um processo à parte dentro do processo geral (melhor seria dizer que ele é a espinha dorsal do processo). Foi justamente essa ideia que provocou as alterações na estrutura tradicional das cortes de cada naipe do Tarot.

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Explicando mais… . . .Antes de prosseguir, vamos precisar voltar um pouquinho e considerar brevemente a estrutura tradicional das cortes do Tarot. As quatro cortes dos naipes são organizadas mais ou menos como as cortes europeias da época em que o baralho que mais tarde se transformaria no Tarot chegou à Europa. Tudo obedece a uma hierarquia bem definida – um rei, soberano sobre tudo; abaixo dele, uma rainha, sua consorte, cuja principal responsabilidade é portar sua semente (machista, eu sei), bem como influir em suas decisões; logo abaixo da rainha, temos um cavaleiro, representante do poderio militar que está sob o comando do rei e executa suas ordens; e, finalmente, um pajem, que pode ser visto tanto como um ajudante do cavaleiro (um escudeiro), quanto um soldadinho raso, ou mesmo um servente da corte. Numa estrutura meio piramidal, a rainha está submetida ao rei, o cavaleiro ao rei e à rainha, e o pajem aos três anteriores, ocupando a base da pirâmide. Os conjuntos de figuras da corte são como as famílias de cada naipe, núcleos de relacionamentos que se ligam por meio de uma estrutura que rege as relações sociais.

Agora, vamos dar uma olhada rápida nas sephirot da Árvore da Vida. A palavra “sephirot” é a forma plural de “sephirah”, que em hebraico significa “enumeração”. Em número de dez, os nomes das sephirot são:

1. Kether, Coroa

2. Chokmah, Sabedoria

3. Binah, Compreensão

4. Chesed, Misericórdia

5. Geburah, Severidade

6. Tiphareth, Beleza

7. Netzach, Vitória

8. Hod, Esplendor

9. Yesod, Alicerce

10. Malkuth, Reino

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Falando bem sumariamente, no topo da árvore, Kether, temos a Unidade. Kether é a primeira sephirah, e representa o Uno auto-criado, pura existência. Em Kether está a origem de tudo, contida em forma de potencial não realizado. A próxima sephirah, Chokmah, é um reflexo direto de Kether, e representa a primeira centelha de força e vida que brota do Nada potencial de Kether. Chokmah é o Ser, o primeiro impulso de existência.
Como primeira emanação, Chokmah é a partícula primordial que dá inicio a tudo – pura energia e ação. Da mesma forma que Kether se polariza em Chokmah, Chokmah polariza-se em Binah, a terceira sephirah. Assim como Chokmah – o Ser – é a contraparte existencial de Kether – o Não-Ser – Binah é a contraparte feminina da força puramente masculina de Chokmah. Binah é a forma – ela recebe a energia pura de Chokmah e a impõe-lhe uma estrutura através da qual Chokmah possa executar sua ação. Mais uma vez, pense na analogia que eu usei mais cedo, da eletricidade (Chokmah) e do computador (Binah). Outra forma de se conceber a dinâmica entre Chokmah e Binah é compará-las à chama de um isqueiro – Chokmah é as faíscas geradas quando rodamos a lixa circular, e Binah é o fluido combustível que, ao ser apertado o botão, escapa em estado gasoso (veja aqui um exemplo legal disso). Da mesma forma que o gás fornece às faíscas a estrutura necessária para que elas se realizem em chama, Binah fornece a Chokmah a estrutura para que sua energia infinita dê origem ao Universo. Kether, Chokmah e Binah formam uma unidade trina (uma trindade), onde Chokmah e Binah são meramente atributos já contidos em potencial na sublimidade de Kether. Chokmah e Binah são os aspectos masculino e feminino do andrógino Kether, cuja união resulta na criação do Universo. Ambas são as duas forças opostas básicas que originam tudo. Por conseguinte, Chokmah recebe o título de Pai Supremo, e Binah é chamada Mãe Suprema.

Agora, dê uma olhada novamente na descrição das letras do tetragrammaton que eu ofereci mais acima. Podemos notar uma semelhança entre Yod e Chokmah (ambos princípios masculinos e ativos), e Heh e Binah (ambas forças femininas e receptivas); tal semelhança não é coincidência. De fato, Chokmah, é atribuído a Yod, e Binah é atribuída ao primeiro Heh do tetragrammaton. Repetindo – o tetragrammaton é o padrão subjacente da Árvore da Vida.

Bem, assim como, no tetragrammaton, a união de Yod e Heh resulta em Vav, a junção de Chokmah e Binah resulta diretamente nas seis esferas seguintes, como um raio de luz que, ao atingir um prisma, decompõe-se em sete cores. No processo da Árvore da Vida, as seis esferas abaixo do triângulo superior (Chesed, Geburah, Tiphareth, Netzach, Hod e Yesod) formam uma entidade distinta – o Filho. Tiphareth, a sexta sephirah, centraliza e rege o grupo de seis, e recebe particularmente a atribuição a Vav no tetragrammaton. Então, da mesma forma que Chokmah (o Pai) tem como consorte Binah (a Mãe), Tiphereth é a contraparte masculina de Malkuth – a Filha. Malkuth é a sephirah feminina que recebe a influência de todas as outras nove sephirot, e representa o mundo manifestado, o resultado final do processo de Manifestação que se origina em Kether, a materialização de todas as sephirot. Assim, Malkuth é o reflexo final de Kether, e essa relação entre a sephirah mais excelsa com a sephirah mais material corporifica o princípio hermético do “assim como encima, assim embaixo”. A essa altura, nem preciso dizer que Malkuth associa-se ao último Heh do nome de Deus. Resumindo pra fixar –

Chokmah

Pai

יYod

Fogo

Binah

Mãe

הHeh

Água

Tipheret

Filho

וVav

Ar

Malkuth

Filha

הHeh

Terra

Podemos ver, portanto, que a Árvore da Vida também possui sua “família”. Certo. Voltando às figuras da corte, quem quer que tenha escrito os manuscritos viu uma conexão entre os quatro personagens dos naipes e as quatro entidades do tetragrammaton na Árvore da Vida (Pai, Mãe, Filho e Filha). No entanto, algumas alterações deveriam ser feitas para que a correlação ficasse perfeita. As forças supremas e primordiais de Yod, o Pai, foram identificadas com a figura do Rei de cada naipe, o que faz sentido, levando em conta que o rei representa a força masculina suprema. Entretanto, o fato de os reis serem retratados confortavelmente sentando em seus tronos não parecia condizer muito com o caráter súbito, veloz e ativo de Yod. Já os cavaleiros, retratados montando corcéis magníficos, pareciam cair melhor com a primeira letra – então esses foram promovidos à posição de verdadeiros reis, e passaram a ilustrar a força ativa, veloz, e passageira de Yod (ou, por outro lado, poderíamos também afirmar simplesmente que, na GD, os reis passaram a ser retratados montando em cavalos, em vez de sentados em tronos). O fato das rainhas estarem sentadas em tronos fazia mais sentido, já que elas representam uma força passiva, receptiva e permanente – Heh. Os reis foram então associados às forças Vav de cada naipe, recebendo o título de príncipe e passando a ser retratados em carros puxados por cavalos – ou seja, tronos móveis – representando assim a união das forças de Yod e Heh, uma força ativa, mas mais duradoura e permanente. Assim como Vav é o resultado da combinação de Yod e Heh, os príncipes (antigos reis) são então retratados combinando os atributos velozes dos reis (cavalos) com os permanentes das rainhas (tronos). Por fim, os pajens foram identificados com o último Heh, recebendo assim o título de princesas – portadoras da combinação das forças dos reis, rainhas e príncipes, e retratadas firmemente em pé. A propósito, a mudança de gênero dos pajens oferece um equilíbrio nos gêneros da corte, que passa então a ser composta de duas entidades femininas e duas entidades masculinas.

Então, já temos nossa resposta:

Na proposta de interpretação do simbolismo do Tarot feita pela Golden Dawn, e na subseqüente inclusão das cartas no sistema esotérico desenvolvido por essa ordem hermética, as figuras da corte representam o poder do divino tetragrammaton nos quatro Mundos cabalísticos. A estrutura interna da corte foi alterada para melhor condizer com as conexões estabelecidas entre a corte e a disposição das letras do tetragrammaton pelas sephirot da Árvore da Vida. Nesse processo, os antigos cavaleiros transformaram-se nos novos reis, os antigos reis receberam o novo título de príncipes, enquanto os tradicionais pajens, ou valetes, foram renomeados princesas. As rainhas foram as únicas figuras da corte a permaneceram iguais a antes.

Na corte de seu baralho, Crowley manteve o sistema proposto pela GD. Sua única alteração foi manter o título de “Cavaleiro” para a figura correspondente a Yod. Isso nos leva a notar que, na verdade, quem mudou o título dos cavaleiros foi mesmo a GD, que os transformou em reis. Há quem diga que Crowley tenha resgatado o título de cavaleiro para salientar a virilidade desses personagens. No Crowley-Harris Thoth, Os outros títulos permaneceram os mesmos da GD – Rainha, Príncipe e Princesas.

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Resumindo, a tabela de equivalências quanto aos títulos é então –

Tradicional

Golden.Dawn

Crowley.Harris

Rei

Príncipe

Príncipe

Rainha

Rainha

Rainha

Cavaleiro

Rei

Cavaleiro

Pajem/Valete

Princesa

Princesa

Isso significa que, se você usa um baralho tradicional e precisa comparar sua corte a um baralho GD ou Crowley-Harris, de acordo com o sistema original, os reis tradicionais correspondem aos príncipes de ambos os sistemas, e os cavaleiros tradicionais correspondem aos reis na GD, e aos próprios cavaleiros no Crowley; pajens/valetes correspondem às princesas. Na dúvida, o truque é simples – verifique as associações elementais ou tetragramaticais – foram elas, afinal, o que provocou tais mudanças.

Em relação às correspondências com o tetragrammaton/elementos, a tabela é –

Tetragr.

Elemento

Tradicional

Golden.Dawn

Crowley

י Yod

Fogo

Cavaleiro

Rei

Cavaleiro

ה Heh

Água

Rainha

Rainha

Rainha

ו Vav

Ar

Rei

Príncipe

Príncipe

ה Heh

Terra

Pajem

Princesa

Princesa

Isso quer dizer que, se você tem um baralho que segue o sistema tradicional (como o RWS ou o Marseille, por exemplo) e deseja aplicar associações elementais ou cabalísticas aos ranks da corte, de acordo com o sistema proposto pela GD, os cavaleiros devem equivaler ao Fogo (Yod), os reis ao Ar (Vav), as rainhas à Água, e os pajens à Terra. Uma coisa interessante que a ligação com o tetragrammaton ocasiona é uma certa dissolução do sistema hierárquico que nos leva a um julgamento de importância. No tetragrammaton, todas as quatro letras são igualmente importantes. O abismo hierárquico entre reis e pajens, rainhas e cavaleiros, se desfaz, e todas as quatro figuras ocupam uma posição de poder e influência mais igualitária.

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Provas no RWS Depois de apresentar meus argumentos com bastante detalhe, nada melhor que algumas provas.

Embora isso não fique explícito nas imagens, Waite seguiu o sistema da GD em suas figuras da corte. O fato de Waite ter optado por manter o sistema tradicional em seu baralho muito provavelmente explica-se por sua intenção em manter ocultos os preceitos da Golden Dawn – coisa que Crowley não parece ter se preocupado em fazer. De qualquer forma, Waite ou Pamela deixaram vários sinais em seu baralho, e uma simples análise das figuras da corte do RWS à luz das descrições fornecidas pela GD é capaz de atestar isso. Uma das evidências mais gritantes de que Waite seguia o sistema de figuras da corte estabelecido pela GD pode ser encontrada na seção sobre o método da Cruz Celta em seu livro The Pictorial Key to the Tarot:

Um Cavaleiro deve ser escolhido para Significadora se o assunto da consulta é um homem de quarenta anos de idade para cima; um Rei deve ser escolhido para qualquer homem de menos de quarenta anos.

É no mínimo estranho o fato de Waite sustentar que reis sejam usados para representar indivíduos mais jovens que cavaleiros – a não ser quando levamos em conta que, para Waite, cavaleiros eram reis, e reis eram príncipes. Por mais que isso possa soar frustrante para alguns, no RWS, a colocação correta das figuras da corte está comprometida, intencionalmente disfarçada. Não podemos afirmar ser o RWS um baralho revelador; pelo contrário, ele chega a ser propositalmente enganoso. Agora, se Waite realmente quis ocultar as associações, ou se ele simplesmente usou um pouco da doutrina da GD e a misturou com outras coisas, é difícil saber.

A seguir, tratarei de alguns detalhes nas figuras da corte do RWS que evidenciam a influência da Golden Dawn nesse baralho. A maioria das explicações aqui foi tirada do site da Lelandra. Nas análises, usarei as descrições da GD para cada figura para demonstrar como os príncipes da GD e do Crowley são os reis no RWS.

Primeiro, o Rei/Príncipe de Paus. Na Golden Dawn, o Príncipe de Paus recebeu o título de “Príncipe e Imperador das Salamandras”. No Rei de Paus do RWS, podemos ver salamandras estilizadas em todo lugar – no espaldar do trono, na capa do rei. Claro, ornamentos de salamandras mordendo a própria calda, no maior estilo ouroboros, estão presentes em quase todas as personagens desse naipe; a diferença é que, no Rei de Paus, podemos ver uma salamandra de carne e osso no chão, perto de seu trono. O Rei de Paus rege os últimos dez graus do signo de Câncer, e os primeiros vinte do signo de Leão, sendo portanto predominantemente relacionado a Leão. No pescoço do rei no RWS, vemos o que parece ser um pingente de cabeça de leão. Em relação à descrição da GD, o traço mais gritante no Príncipe de Paus de Crowley é seu carro, puxado por , de novo, um leão. O texto da GD diz His chariot is drawn by a Lion.”

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O Rei/Príncipe de Copas. Um trecho da descrição da GD para esse personagem diz que “ele segura em uma mão um Lótus, e na outra uma Taça (…)”. É o que vemos nas mãos do Rei de Copas no RWS – o lótus estilizado em seu cetro, e a taça na outra mão. Em sua coroa, vemos o que parecem ser mais formas florais de lótus e, discretamente, um padrão decorativo na base que talvez poderia ser comparado a uma serpente. O texto da GD faz menção a uma serpente que sai da taça. Mais uma vez, temos o carro do Príncipe de Copas no Crowley-Harris sendo puxado por uma águia, seguindo fielmente a descrição da GD nesse quesito.

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“Um Rei alado com uma coroa alada, sentado em um carro puxado por elfos, archons ou fadas, representados como jovens alados, bem pouco vestidos, com asas de borboleta (…)”, é o que consta na descrição da Golden Dawn para o seu Príncipe de Espadas. Esse príncipe corresponde ao Rei de Espadas no RWS. Duvida? No espaldar do trono do rei do RWS, vemos borboletas e, logo atrás de seu ombro esquerdo, um pedaço de uma decoração de, justamente, jovens com asas de borboletas – fadas. Fadas e elfos são espíritos elementais do ar, e o Príncipe de Espadas é chamado na GD de “Príncipe e Imperador dos Silfos e Sílfides” (silfos são outras entidades elementais associadas ao Ar, comparáveis às fadas e aos elfos). Além disso, a descrição também menciona uma “cabeça angélica alada” no capacete do príncipe; a mesma cabeça pode ser vista na coroa do Rei de Espadas no RWS. Como de costume, o carro do Príncipe de Espadas no Crowley-Harris é puxado por pequenas figuras humanas aladas – fadinhas.

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O Rei de Ouros é associado ao signo de Touro, e podemos ver cabeças de touro por todos os lados no trono desse rei no RWS, enquanto um touro puxa o carro do Príncipe de Discos no CHT. O Príncipe de Discos de Crowley, aliás, segue à risca a descrição da GD, com seu capacete de touro alado, seu cetro com um globo encimado por uma cruz, e um globo na outra mão. O Rei de Ouros do RWS não faz por menos, segurando o mesmo cetro de globo (aqui, sem a cruz) em uma mão, e um grande disco de pentagrama na outra, bem similar ao globo. As peças estão, inclusive, nas mesmas mãos de ambos os personagens.

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Conclusão O que eu acabei de expor aqui é um eco do que permanece como consenso entre a maioria dos estudiosos sérios que se debruçaram sobre o tema. Por outro lado, alguém poderia argumentar simplesmente que a diferença entre os personagens da corte da GD e do baralho tradicional se reduz simplesmente a uma questão de como cada figura da corte é retratada – os reis GD corresponderiam ainda aos reis tradicionais, tendo a GD optado por meramente retratá-los diferentemente. A mesma coisa com os cavaleiros tradicionais – eles seriam ainda os príncipes da GD, retratados em carros, em vez de direto sobre cavalos. Ainda que se distancie da opinião da maioria, esse argumento não é de todo desprezível. De qualquer forma, minha intenção com o texto foi apresentar não simplesmente minha opinião, mas o que é comumente tido como correto entre os estudiosos do Tarot. Cada praticante tem o direito, contudo, de aplicar o set de correspondências que mais lhe fizer sentido. De qualquer forma, saber a origem das coisas e por que elas são como são é sempre fundamental, pois nos fornece bases sólidas sobre as quais podemos caminhar – e das quais poderemos dar os nossos próprios saltos.

Eu costumo ter sempre um deck por perto, e puxo uma carta toda vez que sinto necessidade. No processo inicial de composição desse texto, decidi perguntar ao Tarot sobre como eu deveria abordar essa questão das diferenças entre as figuras da corte. O baralho me respondeu com o Ás de Ouros – “qualquer que seja o seu objetivo, você deve focar-se na prática, e no que mais for funcional e natural. Dois pés no chão e realismo”. É isso que também deve guiar o leitor, creio eu. Cada um deve priorizar o que funciona melhor pra si.

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Biblio

Livros

Book T

Arthur Edward Waite – Tarô, A Sorte pelas Cartas, 1910/1985, Ediouro

Lon Milo Duquette – Chicken Qabalah, 2001, Weiser Books

Rachel Pollack – Seventy-Eight Degrees of Wisdom, 1980/2007, Weiser Books

Robert Wang – O Tarô Cabalístico, 1983/1998, Ed. Pensamento

Paul Huson – Mystical Origins of the Tarot, 2004, Destiny Books

Mary K. Greer & Tom Little – Understanding the Tarot Court, 2004. Llewellyn Worldwide, Ltd.

Papus – O Tarô dos Boêmios, 1889/2003, Ed. Martins Fontes

Israel Regardie – The Golden Dawn: a complete course in practical ceremonial magic, 1971, Llewellyn Worldwide, Ltd. (David Godwin, Indexing the Golden Dawn, appendix, pg. XXVIII)

Chic CiceroSandra Tabatha CiceroSelf-initiation into the Golden Dawn Tradition, 1995, Llewellyn Worldwide, Ltd.

John Michael Greer – The New Encyclopedia of the Occult, 2003, Llewellyn Worldwide, Ltd

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Wiki

Hermetic Order of the Golden Dawn

Eliphas Lévi

Tetragrammaton

Thoth tarot deck

Yom Kippur

Kenneth R. H. Mackenzie

Frederick Hockley

William Wynn Wescott

Cipher Manuscripts

Victorian Era

Hermetic Qabalah

Kabbalah history

Chokhmah

Binah

Tiferet

Havayah

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Sites e Artigos online

WHAT IS HIS NAME? – The Arguments for and Against Using Hebrew Names for God; Appendix 10: Names and Magic

Q. B. L. or THE BRIDE’S RECEPTION, by Frater Achad, esp. Chapter I e Chapter V

Kethar’s journal – Tetragrammaton…

Fifth Lecture or Azoth

Third Knowledge Lecture of the New Hermetics

The Key to the Kabbalah – The Four Worlds, by  Nissan Dovid Dubov

Seeing Connections – Adapted from the works of Rabbi Schneur Zalman of Liadi by Yossi Marcus

The Elemental Counterchanges of the Tarot Court, by Jennifer ShadowFox

The Tarot of the Golden Dawn, by Joseph Gurney

Correspondence Between Knights Princes Kings and Knights Between Decks, by Lelandra

Review of the Golden Dawn Magical Tarot, by Donald Michael Kraig

Como funciona um isqueiro?

novembro 21, 2009

Pamela Colman Smith Commemorative Set – Set comemorativo Pamela Colman Smith

Filed under: Diversos, Livros / Decks — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 7:23 PM

Agora em dezembro, o baralho Waite-Smith do completa cem anos de lançamento. Pensando nisso, a U.S. Games System, Inc., detentora dos direitos de publicação do RWS nos Estados Unidos, lançou um set comemorativo do centenário desse que provavelmente é o mais famoso baralho de Tarot. O set contém dois livros – The Artwork and Times of Pamela Colman Smith, escrito por Stuart Kaplan (dono da U.S. Games System e autor da Encyclopedia of Tarot), sobre a trajetória artística da mulher que desenhou as imagens do baralho; e uma versão de The Pictorial Key to the Tarot, de Arthur E. Waite
(publicado no Brasil como Tarô: A Sorte Pelas Cartas, pela Ediouro Ed.*), em novo formato. Além dos livros, o set ainda é composto por seis cartões postais com reproduções de obras de Pamela Smith, três reproduções maiores de obras da artista, com mais uma foto dela, uma folha explicativa contendo esquemas de três métodos de tiragem e, por fim, um baralho RWS que reproduz o original lançado em 1909.

Encomendei o meu exemplar através do amazon.com. Alguns dias depois, o livro chegou sem problemas. O set vem numa caixa de papelão duro, coberta com papel brilhante. A caixa abre-se como um livro, em duas seções – a da direita contém os livros, cartões postais e impressões, e a da esquerda contém o baralho e uma bolsinha de organza azul claro, para guardá-lo. Em cada lado, fitinhas de cetim ajudam a abrir as abas internas e, no lado dos livros, uma fita maior é puxada para levantá-los. A qualidade geral dos itens é excelente. Os cartões e reproduções de obras, bem como as capas dos livros, são todos em papel brilhante resistente. O livro sobre a vida artística de Pamela Smith é recheado de imagens coloridas de exemplos de seu trabalho. O baralho é excelente, impresso em papel levemente brilhante, e agora chamado de Smith-Waite, em vez de Rider-Waite ou Waite-Smith, em honra à artista. Eu esperava que as cartas fossem mais plastificadas, ou “resinadas”, mas Kaplan provavelmente optou por uma composição mais natural para favorecer o aspecto envelhecido das cartas. As imagens são bem mais detalhadas, com contornos mais definidos e um colorido menos vistoso do que o Universal Waite (versão do RWS recolorida por Mary Hanson-Roberts, lançada em 1990, usado como o baralho-padrão desse blog). Certa granulosidade na impressão das imagens e seu aspecto amarelado evidenciam uma intenção de dar ao baralho uma cara de usado e antigo, que algumas pessoas gostaram, e outras não. Mesmo assim, as cores e os traços são bem nítidos, e o papel é resistente, aparentemente bem durável. No geral, a forma de impressão e a cartela de cores limitada fazem as imagens lembrarem histórias em quadrinhos antigas. Na parte de trás das cartas há uma ilustração da Rosa de Tudor (aquela mesma flor que aparece na bandeira da Morte, do mesmo baralho), ladeada por duas assinaturas de Pamela.

Um fato básico sobre esse set comemorativo é que ele é mais uma homenagem à pessoa e ao trabalho de Pamela Smith, e menos a Arthur Waite. O enfoque é essencialmente nela. Já faz algum tempo que os tarólogos têm estimulado um movimento de resgate da importância de Pamela Smith como artista. É senso comum entre muitos autores e estudiosos atuais que sua participação na criação do baralho foi bem mais proeminente do que por muito tempo foi pensado, especialmente na composição arcanos menores. É provável que Waite tenha dado a Pamela instruções sobre como ele queria que as cartas fossem desenhadas, deixando em suas mãos a tarefa de efetivamente dar corpo às imagens. Isso pode ser percebido na semelhança entre algumas cartas e outros trabalhos da artista. No entanto, seu nome foi negligenciado por muito tempo, quando não omitido por completo. Um claro exemplo disso está no próprio nome do deck, Rider-Waite, como ficou conhecido a partir do final dos anos sessenta, quando foi relançado pela U.S. Games Systems. Seu nome vem do nome da companhia que o publicou em 1909, Rider Company, e de seu idealizador, Arthur Edward Waite, deixando de fora o nome da principal responsável pela criação do baralho. Muitas pessoas veem nisso certo machismo.

Sete de Ouros - - comparação entre a versão do set e a versão recolorida do Universal Waite. Também, parte de trás das cartas do set, exibindo a Rosa de Tudor e as assinaturas de Pamela.

A mensagem principal que transparece no set, especialmente no livro sobre a carreira artística de Pamela, é que, apesar de sua figura ter caído na obscuridade, Pamela Smith foi uma artista de grande talento, com sensibilidade ímpar, que foi mais do que a artista que desenhou o baralho mais usado atualmente. Além disso, conhecer mais o seu trabalho pode ajudar-nos a compreender melhor seu trabalho na composição do Tarot.

Interessados em comprar o Pamela Colman Smith Commemorative Set podem fazê-lo através do site www.amazon.com, aqui. Atualmente o set está custando $23.10 sem as taxas de envio. Pra quem for comprar, eu aconselho optarem pela forma de envio mais cara, Priority International Courier. Comparado ao preço do livro, o valor esse método de envio é alto (eu paguei $36,98 pelo envio), mas além de chegar muito mais rápido do que a forma de envio mediana (que pra São Paulo demora cerca de um mês), você pode rastrear seu pedido e é bem mais seguro. É importante saber que o Amazon.com não fornece números de rastreamento e, sem esse número, os Correios não são capazes de saber o paradeiro do seu produto, caso ele demore mais tempo a chegar ou se extravie. Vale a pena pagar pela qualidade.

*Quem interessar-se por comprar o livro The Pictorial Key to the Tarot traduzido ao português, sugiro que dê uma olhada em sebos (o site www.estantevirtual.com.br oferece 12 opções desse livro, atualmente). Também me lembro de ter visto esse livro na Fnac da Paulista. O site da Ediouro aparentemente não o lista mais, o que me faz pensar que ele parou de ser impresso. Você também pode achá-lo online. O site http://www.scribd.com tem uma versão desse livro em pdf, que pode ser baixada aqui, desde que você tenha cadastro. Pra quem quer saber mais sobre o RWS, vale a pena dar uma lida nele.

Você também pode ver um video que fiz sobre esse set clicando aqui.

setembro 25, 2009

Exercício SPR – Os Enamorados

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 3:41 AM

The Lovers - Waite-Smith TarotNaturalmente associada a amor e romance, a carta número seis do Tarot, Os Enamorados (variantes do nome incluem “Os Amantes”, e “O Enamorado”) esconde, logo abaixo da superfície, uma significância mais ampla, que envolve o simbolismo da força de atração entre os opostos e a Escolha inicial na caminhada do herói arquetipal.

Uma das bases para o desenvolvimento do simbolismo do Tarot, o neoplatonismo renascentista sustentava ser o Amor (Eros) a força primordial do universo. Essa noção tem sua origem na filosofia grega antiga. Na própria mitologia grega, como descrita na teogonia de Hesíodo, Eros aparece como a divindade primordial, surgida das profundezas da escuridão anterior à criação do universo. Eros é, assim, a força que nasce do caos para trazer a harmonia, a força cósmica que une tudo, que mantém o universo coeso e em estado constante de mudança – o poder da vida. Na arte grega, Eros era retratado tanto como um belo jovem rapaz, quanto como um menino, ambos alados. Ao contrário do que comumente se imagina, Eros nem sempre era retratado portando arco e flechas – muitas vezes ele aparece portando flores, ramos de hera ou fitas, presentes típicos dos apaixonados da época.

Em Roma, o Eros grego foi associado a Cupido, divindade romana com praticamente todas as características do deus grego do amor. Em latim, cupidus significa “desejoso”, “apaixonado”, “ávido”. A palavra tem sua origem no verbo cupere, “desejar”. A imagem do Cupido como um bebê ou menino alado, mais comum em Roma do que na Grécia, foi a que acabou perdurando, sendo largamente utilizada na arte, a partir do período renascentista, para retratar o deus do amor. Em versões mais antigas da carta dos Enamorados, podemos ver Cupido no alto da imagem, muitas vezes vendado, prestes a atirar uma flecha. Abaixo dele, geralmente são retratadas três figuras, que parecem compor um triângulo amoroso – um rapaz, entre duas mulheres, aparentemente dividido entre elas. Waite e Pamela modificaram um pouco o motivo dessa carta, trocando o deus alado do amor pelo arcanjo Gabriel, e o trio por Adão e Eva no Éden.

Eu considero Os Enamorados uma carta muito especial. Sucedendo cartas de figuras grandiosas, tais como a Imperatriz ou o Hierofante, os Enamorados representam uma quebra de paradigma em vários sentidos. Sallie Nichols, em seu famoso livro Jung e o Tarô – Uma Jornada Arquetípica, diz o seguinte a respeito dessa carta:

“Pela primeira vez na série do Tarô, a figura central não é pintada como um personagem mágico ou divino. Parece um ser humano comum, que enfrenta o mundo e seus dilemas com os pés solidamente plantados na realidade de todos os dias. À diferença dos dois padres retratados na última carta, mostra-se como um indivíduo que ostenta traços e trajes específicos, simbolizando assim um passo à frente na evolução da consciência – um passo para a percepção individual e para longe da consciência de grupo orientada para fora. Podemos ver nesse moço a personificação do jovem e vigoroso ego, pronto para enfrentar a vida e seus problemas sem a ajuda de ninguém. Não há aqui nenhuma figura de autoridade ao seu alcance para a qual possa apelar em busca de ajuda. Precisa, portanto, encontrar, dentro de si mesmo, a força para enfrentar a confrontação; precisa assumir sozinho, a responsabilidade por qualquer ação que pratique em relação a ele.”

O significado-raiz por trás da carta é diferenciação. Os Enamorados é a carta que mostra o nascimento do ego no Tarot, o estabelecimento da diferença entre o sujeito e o objeto, o eu e o outro. Podemos ver que, na verdade, a relação que a carta tem com o amor e a sua relação com o motivo da Grande Escolha e da individualidade são uma coisa só. Em sua escolha em retratar o mito do Éden, Waite faz um link com a temática do despertar da consciência mental – ou seja, do ego, e da mente.

A interpretação esotérica do mito do Éden, originada nas doutrinas gnósticas e provavelmente conhecida por Waite, pode jogar uma luz no significado dessa carta, especialmente em sua versão do baralho Waite-Smith: nascidos em um mundo perfeito, Adão e Eva vivem felizes, porém inconscientes de sua individualidade. O ganho da consciência, representado em Eva comendo o fruto da árvore do conhecimento, permite aos dois despertarem para sua individualidade; percebem-se nus, e têm vergonha; acordam para a diferença. Assim, a carta dos Enamorados retrata o momento de percepção da separação entre o que antes era uno – o eu versus o outro, o sujeito versus o objeto. Em outras palavras, trata-se do desenvolvimento da capacidade de abstração.

A carta número seis também representa um abandono da ortodoxia do Sumo Sacerdote. Fechando o ciclo quíntuplo (O Mago – Fogo, A Sacerdotisa – Água, A Imperatriz – Terra, O Imperador – Ar, O Hierofante – Éter, o espírito, transcendente), a carta cinco, o Hierofante, representa a criação de um sistema de verdades, que busca regular a experiência humana. O Hierofante, o Sumo Sacerdote, representa o cabeça de um grupo, que ele chefia impondo sua doutrina. Essa consciência grupal é quebrada na carta Os Enamorados, que mostra o nascimento da consciência individual. De certa forma, o enamorado agora sente que não mais precisa seguir uma verdade artificial, alheia a ele mesmo – seu coração fala muito mais alto, e soa a ele mais verdadeiro e legítimo. Muitas vezes, a descoberta do amor é o que demarca a nossa passagem de crianças a adultos – e o começo da noção de que nossos pais não são deuses, afinal. Pense na história clássica de Romeu e Julieta – ambos jovens, adolescentes (Julieta tinha de 13 para 14 anos, e Romeu provavelmente 16), rebelando-se contra tudo e todos em nome de seu amor proibido. Pare eles, nenhuma convenção ou norma valia mais do que o a paixão que um sentia pelo outro. Eles sentiam, correndo em seus corpos, a força vital da atração – Eros. É interessante notar que tanto Eros como Cupido sempre foram retratados ou como meninos, ou jovens rapazes.

O abandono da antiga ordem em nome da liberdade é o que caracteriza a Escolha. Na carta (especialmente nas versões anteriores ao Waite-Smith), o enamorado se vê dividido entre as opções de permanecer em seu mundo familiar e seguro, com o qual tem vínculos afetivos, ou seguir seu coração, sua paixão e vontade de viver, e abandonar segurança para lançar-se no mundo encantadoramente desconhecido. Esse conflito é a essência da carta dos Enamorados.

Perceba que o simbolismo dicotômico da carta está sempre presente – diferenciação, atração (entre dois elementos opostos e complementares), escolha (entre dois caminhos).

EXERCICIO SPR

Depois da breve análise da carta, podemos fazer algumas considerações sobre suas posições em cada uma das casas da disposição SPR

Casa I – A Situação

Dependendo do contexto, a carta pode indicar amor, um relacionamento, casamento e união; também pode mostrar uma situação onde está em jogo a escolha, a tentação e a ambivalência de valores.

Casa II – O Problema/desafio

Um relacionamento amoroso dificultando a situação; O dilema da escolha tendo especial importância na situação; conflito pessoal, íntimo ou moral.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Liberdade, vontade de viver, tesão pela vida. Aqui, o amor pode ajudar a pessoa a resolver sua situação.


agosto 14, 2009

Minha definição de Tarot

Filed under: Uncategorized — Tags: — Leonardo Dias @ 7:45 AM
Acho que todo mundo tem alguma noção, mais ou menos acurada, mais ou menos preconceituosa, do que é o Tarot. “Um jogo de cartas com desenhos intrigantes que algumas pessoas usam para ler a sorte”, acho que seria o que a maioria diria. Bem simples, realmente. E não deixa de ser verdade. Muitas definições já foram feitas pro Tarot, e eu já li algumas delas. Já que esse blog visa passar a minha visão e concepções sobre as cartas, nada mais apropriado do que começar pelo começo e tentar dar a minha ideia do que é o Tarot.

Sim, o Tarot é também um jogo de cartas com desenhos intrigantes que as pessoas usam pra ler a sorte de outras (geralmente desesperadas o suficiente pra confiar sua sorte a cartas – e o pior, sem jogatina a dinheiro envolvidos, rs). Contudo, mais além do que pode ser visto na superfície, existe uma lógica por trás dessas cartas com desenhos – uma lógica que consegue ser bastante complexa, e consistente.

Desde que apareceu, em aproximadamente 1430, na Itália renascentista, o Tarot passou por uma série de mudanças para ser o que é hoje. Como qualquer linguagem, ele foi acompanhando as mudanças que a nossa sociedade foi sofrendo ao longo da história. Pra ser objetivo, o Tarot hoje é um grupo de 78 cartas, cada uma com uma imagem, nome e número próprio. Existe sim uma série de pormenores que definem o que faz um pacote de cartas ser Tarot ou não e, mesmo hoje em dia, com todo o tipo de gente fazendo todo o tipo de coisa com o Tarot, ele ainda continua sendo basicamente um conjunto de 78 cartas com imagens, cada uma com número definido. É consenso entre os que estudam o Tarot que suas imagens parecem compor uma espécie de sequencia, como num livro sem palavras escritas. Qualquer um que olhar com mais atenção para as cartas vai perceber indícios disso. Algumas coisas me fazem pensar que essa característica do Tarot sofreu, ao longo do tempo, um gradual realce. Num nível mais primário, poderíamos enxergar o Tarot como um conjunto de conceitos agrupados em um sistema.

Aliás, “sistema” seria uma boa palavra pra definir uma das características mais proeminentes do Tarot. Geralmente a palavra “sistema” pode ser definida como “um conjunto de elementos interconectados ou interdependentes que formam um todo organizado”. Eu costumo explicar, pra todo mundo que vem me perguntar, que o Tarot é basicamente uma linguagem – um sistema de comunicação. A linguagem de sinais dos surdos, as várias línguas faladas do mundo, a escrita, o Tarot – todos têm em comum a característica de serem formas de comunicação. Aprender Tarot não é muito diferente de aprender a entender um outro idioma. É preciso basicamente aprender o significado de cada elemento e desenvolver a capacidade de extrair sentido de suas combinações. Nesse aspecto, uma leitura de Tarot é suficientemente semelhante a uma frase, ou mesmo a um poema ou um texto. A diferença é que, no desenvolvimento da interpretação das cartas, a capacidade de compreender é mais importante e necessária do que a capacidade de efetivamente produzir significado através dos símbolos. A pessoa que interpreta as cartas é basicamente o receptor de uma mensagem – ela realmente as cartas, extraindo dos símbolos significado.

Outro aspecto do Tarot que é digno de menção é o caráter lúdico que as cartas têm. Para quem não sabe, o lúdico (do latim, ludus, “jogo”, “brincadeira”) refere-se ao instinto de brincar imanente a todo ser humano, bem como a muitas outras espécies. Em seus primórdios, esse baralho era usado como um jogo de cartas comum, num jogo que talvez pudesse ser comparado aos jogos de cartas colecionáveis dos dias atuais, tipo o Magic. Até hoje, mesmo que meio soterrado por todo o esoterismo associado às cartas ao longo do tempo (o que muitas vezes acaba conferindo certa gravidade desnecessária às leituras, na minha opinião) esse ludismo do Tarot ainda perdura, mesmo que de forma tênue. Embaralhar um pacote de cartas e tirar algumas ao acaso conserva ainda algo de lúdico, de brincadeira. Uma coisa que sempre me chamou a atenção é que, no falar coloquial, frequentemente se usa a palavra “jogar” para nomear o ato de interpretar as cartas. De certa forma, as pessoas associam o dispor das cartas de uma consulta de Tarot ao dispor de cartas de uma rodada de baralho. Psicologicamente, a brincadeira é considerada um mecanismo que pode servir como forma de projeção, e mesmo válvula de escape para uma série de coisas. No brincar podemos encontrar uma chance de dizer, pensar e fazer (ou seja, extrair de dentro de nós) coisas que, muitas vezes, nunca seríamos capazes de fazer “a sério”. O jogo, o tabuleiro, servem como uma representação do mundo, do universo onde as diversas forças que o compõem interagem umas com as outras. De maneira geral, essa regra se aplica a qualquer tipo de jogo – inclusive o Tarot. De acordo com esse ponto de vista, uma leitura de Tarot seria então uma representação das forças que se manifestam e se interatuam em determinado momento.

Seja com for, mesmo com toda especulação e pesquisa que existe sobre as cartas nos dias de hoje, o Tarot sempre conserva algo de mutável e flexível. Geralmente às margens do mainstream que é considerado racional e sério, o Tarot me faz lembrar muito do Louco, a carta sem número do Tarot, geralmente numerada como zero. O Louco é o andarilho, o sem destino, o bobo da corte, a figura que encerra em si, em forma potencial, todas as possibilidades – assim como o Tarot que pode ser visto como uma coleção de tudo o que existe, com uma carta para cada coisa. O louco abrindo o baralho como o número zero me faz ver essa carta como o primeiro mensageiro do Tarot, sugerindo o caráter mais natural do Tarot – sua mutabilidade, sua multiplicidade, e o fato de ele nunca ser completamente compreensível.

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