Descobrindo o Tarot

setembro 25, 2009

Exercício SPR – Os Enamorados

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The Lovers - Waite-Smith TarotNaturalmente associada a amor e romance, a carta número seis do Tarot, Os Enamorados (variantes do nome incluem “Os Amantes”, e “O Enamorado”) esconde, logo abaixo da superfície, uma significância mais ampla, que envolve o simbolismo da força de atração entre os opostos e a Escolha inicial na caminhada do herói arquetipal.

Uma das bases para o desenvolvimento do simbolismo do Tarot, o neoplatonismo renascentista sustentava ser o Amor (Eros) a força primordial do universo. Essa noção tem sua origem na filosofia grega antiga. Na própria mitologia grega, como descrita na teogonia de Hesíodo, Eros aparece como a divindade primordial, surgida das profundezas da escuridão anterior à criação do universo. Eros é, assim, a força que nasce do caos para trazer a harmonia, a força cósmica que une tudo, que mantém o universo coeso e em estado constante de mudança – o poder da vida. Na arte grega, Eros era retratado tanto como um belo jovem rapaz, quanto como um menino, ambos alados. Ao contrário do que comumente se imagina, Eros nem sempre era retratado portando arco e flechas – muitas vezes ele aparece portando flores, ramos de hera ou fitas, presentes típicos dos apaixonados da época.

Em Roma, o Eros grego foi associado a Cupido, divindade romana com praticamente todas as características do deus grego do amor. Em latim, cupidus significa “desejoso”, “apaixonado”, “ávido”. A palavra tem sua origem no verbo cupere, “desejar”. A imagem do Cupido como um bebê ou menino alado, mais comum em Roma do que na Grécia, foi a que acabou perdurando, sendo largamente utilizada na arte, a partir do período renascentista, para retratar o deus do amor. Em versões mais antigas da carta dos Enamorados, podemos ver Cupido no alto da imagem, muitas vezes vendado, prestes a atirar uma flecha. Abaixo dele, geralmente são retratadas três figuras, que parecem compor um triângulo amoroso – um rapaz, entre duas mulheres, aparentemente dividido entre elas. Waite e Pamela modificaram um pouco o motivo dessa carta, trocando o deus alado do amor pelo arcanjo Gabriel, e o trio por Adão e Eva no Éden.

Eu considero Os Enamorados uma carta muito especial. Sucedendo cartas de figuras grandiosas, tais como a Imperatriz ou o Hierofante, os Enamorados representam uma quebra de paradigma em vários sentidos. Sallie Nichols, em seu famoso livro Jung e o Tarô – Uma Jornada Arquetípica, diz o seguinte a respeito dessa carta:

“Pela primeira vez na série do Tarô, a figura central não é pintada como um personagem mágico ou divino. Parece um ser humano comum, que enfrenta o mundo e seus dilemas com os pés solidamente plantados na realidade de todos os dias. À diferença dos dois padres retratados na última carta, mostra-se como um indivíduo que ostenta traços e trajes específicos, simbolizando assim um passo à frente na evolução da consciência – um passo para a percepção individual e para longe da consciência de grupo orientada para fora. Podemos ver nesse moço a personificação do jovem e vigoroso ego, pronto para enfrentar a vida e seus problemas sem a ajuda de ninguém. Não há aqui nenhuma figura de autoridade ao seu alcance para a qual possa apelar em busca de ajuda. Precisa, portanto, encontrar, dentro de si mesmo, a força para enfrentar a confrontação; precisa assumir sozinho, a responsabilidade por qualquer ação que pratique em relação a ele.”

O significado-raiz por trás da carta é diferenciação. Os Enamorados é a carta que mostra o nascimento do ego no Tarot, o estabelecimento da diferença entre o sujeito e o objeto, o eu e o outro. Podemos ver que, na verdade, a relação que a carta tem com o amor e a sua relação com o motivo da Grande Escolha e da individualidade são uma coisa só. Em sua escolha em retratar o mito do Éden, Waite faz um link com a temática do despertar da consciência mental – ou seja, do ego, e da mente.

A interpretação esotérica do mito do Éden, originada nas doutrinas gnósticas e provavelmente conhecida por Waite, pode jogar uma luz no significado dessa carta, especialmente em sua versão do baralho Waite-Smith: nascidos em um mundo perfeito, Adão e Eva vivem felizes, porém inconscientes de sua individualidade. O ganho da consciência, representado em Eva comendo o fruto da árvore do conhecimento, permite aos dois despertarem para sua individualidade; percebem-se nus, e têm vergonha; acordam para a diferença. Assim, a carta dos Enamorados retrata o momento de percepção da separação entre o que antes era uno – o eu versus o outro, o sujeito versus o objeto. Em outras palavras, trata-se do desenvolvimento da capacidade de abstração.

A carta número seis também representa um abandono da ortodoxia do Sumo Sacerdote. Fechando o ciclo quíntuplo (O Mago – Fogo, A Sacerdotisa – Água, A Imperatriz – Terra, O Imperador – Ar, O Hierofante – Éter, o espírito, transcendente), a carta cinco, o Hierofante, representa a criação de um sistema de verdades, que busca regular a experiência humana. O Hierofante, o Sumo Sacerdote, representa o cabeça de um grupo, que ele chefia impondo sua doutrina. Essa consciência grupal é quebrada na carta Os Enamorados, que mostra o nascimento da consciência individual. De certa forma, o enamorado agora sente que não mais precisa seguir uma verdade artificial, alheia a ele mesmo – seu coração fala muito mais alto, e soa a ele mais verdadeiro e legítimo. Muitas vezes, a descoberta do amor é o que demarca a nossa passagem de crianças a adultos – e o começo da noção de que nossos pais não são deuses, afinal. Pense na história clássica de Romeu e Julieta – ambos jovens, adolescentes (Julieta tinha de 13 para 14 anos, e Romeu provavelmente 16), rebelando-se contra tudo e todos em nome de seu amor proibido. Pare eles, nenhuma convenção ou norma valia mais do que o a paixão que um sentia pelo outro. Eles sentiam, correndo em seus corpos, a força vital da atração – Eros. É interessante notar que tanto Eros como Cupido sempre foram retratados ou como meninos, ou jovens rapazes.

O abandono da antiga ordem em nome da liberdade é o que caracteriza a Escolha. Na carta (especialmente nas versões anteriores ao Waite-Smith), o enamorado se vê dividido entre as opções de permanecer em seu mundo familiar e seguro, com o qual tem vínculos afetivos, ou seguir seu coração, sua paixão e vontade de viver, e abandonar segurança para lançar-se no mundo encantadoramente desconhecido. Esse conflito é a essência da carta dos Enamorados.

Perceba que o simbolismo dicotômico da carta está sempre presente – diferenciação, atração (entre dois elementos opostos e complementares), escolha (entre dois caminhos).

EXERCICIO SPR

Depois da breve análise da carta, podemos fazer algumas considerações sobre suas posições em cada uma das casas da disposição SPR

Casa I – A Situação

Dependendo do contexto, a carta pode indicar amor, um relacionamento, casamento e união; também pode mostrar uma situação onde está em jogo a escolha, a tentação e a ambivalência de valores.

Casa II – O Problema/desafio

Um relacionamento amoroso dificultando a situação; O dilema da escolha tendo especial importância na situação; conflito pessoal, íntimo ou moral.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Liberdade, vontade de viver, tesão pela vida. Aqui, o amor pode ajudar a pessoa a resolver sua situação.


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