Descobrindo o Tarot

agosto 21, 2010

RAINHA DE ESPADAS + A JUSTIÇA

Mais uma resposta pra perguntas de leitores do blog. A leitora Luciana levantou o seguinte tópico:

Leonardo, estava aqui pensando com meus botões (adoro essa expressão, gostaria de saber de onde saiu), depois de ler o excelente post sobre a Rainha de Espadas, será que existe alguma relação entre ela e o arcano oito, da Justiça? Fiz uma googleada e não vi ninguém fazer essa comparação, apesar de a iconografia ser extremamente parecida.

Luciana, muito legal você perguntar isso, porque mostra duas coisas – como que, apesar de Waite ter feito questão de não se pronunciar sobre isso, o RWS é um baralho bastante baseado na doutrina esotérica da Golden Dawn; e como suas imagens são diretas, de forma que qualquer pessoa é capaz de perceber similaridades e outras coisas entre elas. Eu acredito que essa seja a principal característica que fez do Rider-Waite-Smith um baralho tão popular.

Existe sim uma relação entre a Rainha de Espadas e a Justiça – ambas as cartas estão associadas ao signo de Libra. É por isso, inclusive, que no RWS a Justiça e a Força foram trocadas de lugar. Aos olhos de Waite, para que o esquema de correspondências com os signos e planetas ficasse perfeitamente em ordem, era necessário colocar a Força (Leão) mais pra frente, e a Justiça, Libra, mais depois. Aparentemente, essa relação é bem demarcada nos vários detalhes que as duas cartas têm em comum, como a espada ou o pé direito em destaque.

A Golden Dawn estabeleceu um sistema complexo onde cada carta é associada a um quadrante do céu, a uma fatia do Zodíaco, e a partes da Árvore da Vida cabalística. O sistema todo em si forma uma espécie de teoria de tudo que contextualiza o Tarot num esquema intrincado de correspondências. Nesse esquema, cada carta da corte, fora os pagens, está associada a trinta graus do Zodíaco. A Rainha de Espadas cobre os dez últimos graus de Virgem e os vinte primeiros de Libra.

A beleza do sistema de correspondências da GD é que ele cria uma rede de inter-relações entre as cartas – ele meio que impõe uma estrutura sobre o Tarot que, ainda que artificial, é muito útil. Por exemplo, considerando o fato de que cada figura da corte rege 30° do Zodíaco, e considerando também que cada carta pequena numerada representa um decanato de um determinado signo (isto é, 10° do Zodíaco), temos então que cada figura da corte guarda uma ligação especial com três cartas numeradas dos naipes – as que cobrem os seus 30°. Assim, a Rainha de Espadas está especialmente ligada ao Dez de Ouros (terceiro decanato de Virgem, regido por Mercúrio), ao Dois de Espadas (primeiro decanato de Libra, regido pela Lua), e ao Três de Espadas (segundo decanato de Libra, regido por Saturno). Depois que você se recupera da avalanche de termos técnicos e correspondências, você percebe que tem à disposição um bom material de qualificação para cada figura da corte, que pode acabar com aquele problema de não saber direito a “índole” de cada uma delas.

Essa associação com os signos de Virgem e Libra nos ajuda muito a entender mais a fundo a personalidade da Rainha de Espadas. Por um lado, temos o enfoque analítico e minucioso de Virgem e, por outro, a busca pela a harmonia e a sensibilidade transpessoal de Libra. Isso em si já resulta em uma miríade de adjetivos que descrevem bem a personalidade da Rainha de Espadas – perspicaz, elegante, inteligente, detalhista, exigente, cri-cri, eloquente, astuta, pacificadora, etc. Suas associações com as três cartas numeradas também joga bastante luz sobre sua índole – o valor à tradição e a valores estabelecidos do Dez de Ouros, a índole pacifista do Dois de Espadas ou a decisão racional que sobrepuja os sentimentos, ilustrada no Três de Espadas. Sobre esse último detalhe, os comentários de Waite a respeito da Rainha de espadas parecem concordantes, quando ele diz que “a sua fisionomia é severa, mas digna; sugere familiaridade com a dor.”

Isso nos faz pensar que seria interessante examinar cada uma das doze figuras da corte associadas a cartas pequenas e signos astrológicos e ver como essas associações nos elucidam sobre sua personalidade. Claro, isso vai fazer mais sentido para os estudantes que usam um baralho baseado nos preceitos da Golden Dawn, já que o sistema é deles. É provável que um usuário dos baralhos Marseille ou Wirth tenha mais dificuldade em ver alguma similaridade entre as cartas, porque esses baralhos seguem outras correntes de pensamento tarológico.

Acho, inclusive, uma ideia legal fazer um post explorando mais esse assunto.

Respondendo a sua outra pergunta, Luciana, eu sempre tive pra mim que essa expressão “pensar com os botões” tem a ver com o fato de que quando ficamos pensando sobre algo, olhamos pra baixo, pro nosso peito ou barriga, e antigamente as roupas costumavam ter mais botões nessas áreas. Será que vem daí a expressão?

Obrigado pela pergunta, e pela participação no blog!

agosto 9, 2010

ENTREVISTA COM O RIDER-WAITE-SMITH!

Filed under: Audio — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 5:15 AM

podcast #1 aqui

Você já pensou em conversar com seu próprio baralho de Tarot? É o que propõe esse outro método de disposição, que eu achei por acaso faz alguns dias, em um site alemão. A princípio, o método é destinado a ser usado com decks novos, mas é claro que nada impede que seja usado com baralhos velhos também. É um método muito interessante para ajudar o estudante a pensar mais sobre seu objeto de estudo e sua ferramenta de trabalho. Uma coisa legal sobre esse esquema de jogada é que ele começa de baixo para cima, como uma árvore que cresce –


Nunca usei esse método, então decidi testá-lo entrevistando meu baralho preferido, o Rider-Waite-Smith. O que será que ele vai dizer?

 


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I – Diga algo sobre si mesmo; qual a sua melhor característica? A Lua Mistério, confusão, ilusão. Parece que a melhor característica do RWS está mesmo em seu mistério convidativo, em seu simbolismo aparentemente simples, mas intrincado – e em seus detalhes que guardam tantos segredos não revelados por Waite ou Pamela. Com efeito, o RWS é um baralho que possui uma camada de simbolismo oculto não revelado completamente. A Lua, aqui, fala dos mistérios do inconsciente, e do desafio da noite – despertar no viajante seu conhecimento interior, tirando dele seu contato com o mundo exterior que é iluminado pelo Sol. A Lua aqui também adverte para enganos e embustes, armadilhas; eu já escutei, mais de uma vez, que existem várias armadilhas no simbolismo do RWS, para testar aqueles que buscam o conhecimento oculto. Coisas do ocultismo vitoriano…

II – Qual é sua força (seu ponto forte)? Rainha de Espadas inteligência precisa e sutil, percepção aguçada e senso de proporção e harmonia. Sensibilidade e delicadeza. As borboletas no trono e na coroa da Rainha de Espadas me fazem lembrar de fadas, e do dinamismo dos nossos pensamentos. O enfoque da Rainha de Espadas é interior, suas análises são introspectivas. Há também aqui o apelo ao outro, uma inteligência transpessoal compartilhada tanto por Waite como por Pamela, que talvez seja o que tenha resultado na popularidade que esse deck alcançou no século 20.

III – Qual é seu limite (até onde você vai)? Ás de Ouros o plano material é o limite do RWS; de certa forma, isso equivale a dizer que ele abrange a totalidade pois a matéria é a última fronteira da manifestação, e o Ás de Ouros é a última carta (a ordem é de cima pra baixo, como no The Pictorial Key to the Tarot). Por outro lado, aqui também temos limitações com questões relativas a coisas materiais e vida cotidiana, questões muito práticas.

IV – Sobre o que você vem falar? O que tem a me ensinar? Rainha de Copas eu venho falar sobre os mistérios do que é oculto, e venho ensinar-lhe a acessar esses segredos, a escutar o que sua voz interior lhe sussurra. A Rainha de Copas – mais uma rainha – é bastante relacionada à Grande Sacerdotisa, e aqui ecoa bastante a força da Lua também. Ela personifica o poder da Água e da Taça, mostrando que o RWS pode me ensinar a aguçar minha intuição e minha sensibilidade, bem como abrir meus canais para perceber os outros, cuidar deles e trazer-lhes a cura.

V – Qual a melhor forma de trabalharmos juntos? Dois de Paus devemos combinar nossas forças. Você deve acreditar no seu poder e focar sua vontade com firmeza. É preciso ser ousado e quebrar barreiras. Você deve ter pulso firme e afirmar seu domínio do território, e controle sobre a ação. Tenha autoridade e confie em si mesmo.

VI – Qual é o provável resultado de nossa colaboração? Rei de Ouros experiência concreta e o alcance de uma posição sólida nesse campo. Habilidade e expertise, especialização completa. Também, retorno financeiro.

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.Falou, e falou bastante, rs. Incluo também uma gravação da minha interpretação, com mais detalhes e ideias sobre cada posição. Clique aqui para escutar a gravação. Entreviste seu deck também – e venha me contar o que ele te disse 😉


abril 30, 2010

Rainha de Espadas – A vilã

Filed under: Figuras da Corte, Notas — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 1:02 AM

Que o naipe de Espadas é generalizadamente visto como um naipe ruim, é fato; mas alguém já percebeu como que, muitas vezes, a Rainha de Espadas é vilanizada? Isso passou pela minha cabeça ontem, enquanto eu fazia uma leitura. A Rainha de Espadas é meio que vista como a rainha má das figuras da corte. Já vi em vários livros, em especial os mais antigos, descrições que qualificam essa figura da corte como uma mulher mal-amada, ardilosa e traiçoeira – muitas vezes, endurecida pelas dores da vida.

Bem, o naipe de Espadas fala particularmente do intelecto, e é notório que, em nossa cultura, essa é uma faculdade especialmente valorizada (e, por muito tempo, atribuída) aos homens. Não é muito difícil a gente entender porque, portanto, mulheres caracteristicamente inteligentes, analíticas e racionais são tradicionalmente vistas como frias (leia-se ‘frígidas’), masculinizadas. Envolve as associações tradicionais que cada um dos dois gêneros recebe. De todas as qualidades associadas a cada naipe, a racionalidade do naipe de Espadas é a que menos se adapta às tradicionais atribuições das mulheres.

Pense nas vilãs – das histórias infantis, dos filmes, das novelas. Vilãs são geralmente mulheres independentes, livres, espertas; vilãs transam com quem elas querem; vilãs querem poder, autoridade; vilãs basicamente fazem e almejam tudo aquilo que nossa sociedade tradicionalmente atribui aos homens. E o fato de mulheres com esse tipo de comportamento serem vilanizadas em nossas produções culturais (tais como histórias infantis ou a interpretação de uma carta de Tarot) diz bastante sobre o quão machista ainda é nossa sociedade – ou, ao menos, o quão machistas são nossas tradições. Às vezes, é interessante pensar sobre como nossos valores culturais refletem-se no sistema simbólico que criamos para o Tarot.

Ah, e só pra constar, eu sei que interpretação de cartas é uma área completamente subjetiva e livre, mas eu não costumo interpretar a Rainha de Espadas com esses tipos de conotações negativas. Costumo vê-la como análise profunda, humor cortante, mente estratégica, tudo isso associado a sensibilidade e perspicácia e insight. [não que isso queira dizer muita coisa, porque eu provavelmente devo endossar outras pré-concepções culturais na minha interpretação – fazer o que, rs…]

Na imagem, junto com a Rainha de Espadas, a (versão Disney da) Rainha da Branca de Neve, e uma vilã de uma estória popular contemporânea, Paola Bracho, da novela mexicana La Ursupadora – quem não se lembra dela? Me diverti bastante hoje, assistindo a alguns videos dela.

outubro 25, 2009

A Rainha de Copas (Exercício SPR)

Dando continuidade à sequencia do exercício SPR, hoje falaremos de mais uma figura da corte, a Rainha de Copas.

A Rainha de Copas é duplamente associada ao elemento Água, por pertencer ao naipe de Copas e ocupar a posição de rainha, ambas as características relacionadas a esse elemento. Isso faz dela a personificação do elemento Água. A Rainha de Copas encara o aspecto mais misterioso do estereótipo feminino – a mulher secreta, silenciosa, tímida. Num nível mais simbólico, como personificação de seu próprio naipe, a Rainha de Copas seria a própria Copa, a Taça em si, que executa sua finalidade sendo passivamente preenchida, servindo de recipiente. É o símbolo da Mãe do Deus-filho, que recebe em seu corpo a centelha divina.

A Rainha de Copas manifesta no âmbito dos Arcanos Menores a mesma energia da Sumo-Sacerdotisa dos Arcanos Maiores, a guardiã dos segredos do ser humano. Os adjetivos que caracterizam a Rainha de Copas incluem – sensível, receptiva, carinhosa, sonhadora, silenciosa (e mesmo tímida), introspectiva, transpessoal, intuitiva, compreensiva e espiritual. São essas as energias que essa rainha traz para as leituras, onde ela pode indicar tanto uma outra pessoa quanto um aspecto do próprio consulente.

Elementos pictóricos da carta

Acredito que seja pertinente uma digressão aqui. Embora seja difícil sabermos com exatidão o que o autor ou a desenhista do baralho Waite-Smith quiseram expressar com os desenhos das cartas, podemos tirar algumas impressões dos símbolos por livre associação. Evidentemente, esse método pode ser falho, por basear-se em referências pessoais e, portanto, possivelmente distanciar-se das ideias que os próprios autores intencionaram expor em cada carta. Entretanto, sua falta de exatidão é relativa, pois se o método é falho, é falho somente em relação a um padrão, que no caso é a interpretação dos autores a respeito de cada símbolo. No nível pessoal, a livre-associação pode estreitar a relação do estudante com a carta. O objetivo das associações listadas abaixo é, portanto, expor a minha interpretação dos símbolos, estreitando dessa forma minha relação com as cartas. Podemos entender melhor o que o autor quis dizer com os desenhos estudando o que ele deixou escrito a respeito de suas cartas. No entanto, tão quanto a compreensão do significado das imagens do Tarot, a relação que estabelecemos com tais imagens também é parte do desenvolvimento da nossa capacidade de compreendê-las. Tal capacidade é alcançada não somente através de uma ligação mental com cada carta, que seria o escopo da compreensão objetiva dos símbolos, mas também de uma ligação emocional com as cartas, que inclui nossa própria visão dos símbolos, segundo nosso referencial pessoal.

Abaixo, uma lista de alguns pontos proeminentes de carta, e de como eles contribuem para o seu significado –

A falésia – ao fundo da Rainha de Copas vemos um precipício, mais precisamente uma falésia, parte do que poderia ser um promontório. A falésia pode ser interpretada como a fronteira entre a terra (o mundo objetivo dos fatos) e a água (o mundo subjetivo dos sonhos). Um precipício é um lugar de risco, de perigo, e sugere a queda no abismo da morte, da inconsciência e da inexistência. Temos aqui um símbolo para a divisão entre o consciente e o inconsciente.

Elementos pictoricos da Rainha de CopasOutras cartas que mostram precipícios – tanto o Louco, quanto o Eremita e o Três de Paus mostram figuras no alto de precipícios ou montanhas. As três cartas mostram figuras que chegaram ao ápice em algum aspecto da experiência; o Louco e o Eremita transitam por regiões fronteiriças da experiência humana, marginais. O homem do Três de Paus está na altura, destacado do resto por seu mérito próprio, e olha o mundo de uma perspectiva nova – ele vê a big picture. No naipe de Copas, Oito de Copas e o Cavaleiro de Copas têm precipícios. Na primeira carta, o personagem está na região rochosa de uma praia, e prepara-se para começar a subir por um caminho íngreme (observe aqui a relação entre essa carta e o Eremita, ambas mostrando personagens retirando-se do mundo, partindo em peregrinação a um lugar mais alto, sozinhos; eles se erguem acima do mundo ordinário). O Cavaleiro de Copas, como a Rainha, está numa região seca às margens de um rio, com um planalto (que poderia ser a região do outro lado das montanhas atrás da Rainha).

Queen of Cups - Dreamer's DeckA beira-mar – no baralho Waite-Smith, a Rainha de Copas é retratada com seu trono à beira do mar, onde a sólida terra começa a esfarelar em areia e perde-se na profundidade das águas. Isso pode ser visto como uma metáfora visual à zona fronteiriça entre o consciente e o inconsciente, onde nossa percepção objetiva começa a dar lugar às visões interiores. A rainha do naipe de Copas está justamente em contato pleno com esse mundo, e faz como que a ponte entre ele e o nosso mundo consciente. A presença de motivos marítimos na carta a relacionam com todo o simbolismo do mar – cheio de segredos e perigos. A Rainha de Copas do Tarot Dreamers Deck, ainda em processo de criação, também é retratada com seu trono à beira-mar. O motivo para isso é que, segundo o autor, “esse é o lugar da mudança”.

O trono da Rainha de Copas – seu trono é coberto de alto-relevos retratando sereias, com uma concha no alto do espaldar. A concha, símbolo antigo e presente em diversas culturas, é associada à deusa grega Afrodite. Nascida da espuma do mar, Afrodite é a deusa do amor e da fertilidade. Além de aludirem ao mar, as figuras semelhantes a sereias também podem representar as ondinas, os espíritos elementais da água.

A taça – a taça da Rainha de Copas sempre chamou a minha atenção. A mais elaborada de todo o naipe de Copas, ela mal parece uma taça – assemelha-se mais a uma urna. Seu líquido não está exposto, pois a taça está tampada; como uma urna, ela oculta o líquido na escuridão de seu interior. Essa imagem, aparentemente mais um símbolo para o inconsciente, me sugere também o útero, onde a vida surge em segredo. A taça da Rainha de Copas também é muito similar a um cibório. O cibório é um cálice com tampa, usado nos rituais católicos para guardar as hóstias consagradas. É um objeto de significado espiritual.

Outro sinal presente na taça está no seu formato – sua silhueta, com os anjos de asas abertas, lembra um caranguejo. Ao idealizar seu baralho, Waite usou como um de seus principais referenciais o baralho da Golden Dawn, que segue as descrições feitas por MacGregor Mathers no livro Book T. A Rainha de Copas do baralho da Golden Dawn tem um lagostim saindo de sua taça (ver figura ao lado, versão do Golden Dawn Magical Tarot, uma versão moderna do Tarot da Golden Dawn, por Chic Cicero e Sandra Cicero, Llewellyn, 2001). Mathers inclui o lagostim da Rainha de Copas na lista dos sinais “especiais” dessa carta. É possível que Waite tenha tentado disfarçar o lagostim no formato da taça. Isso automaticamente associa a Rainha de Copas a outro arcano maior, A Lua, que tem em seu primeiro plano um lagostim ou caranguejo saindo das águas. Além de estar associada às emoções, medos e sonhos, a lua relaciona-se com o mar e o movimento das marés. A taça da Rainha de Copas sugere sua ligação com o inconsciente, com sentimentos e emoções secretas, misteriosas e ocultas. Suas visões são interiores, e mesmo secretas. A Rainha de Copas pertence a um reino sem palavras, sem definições estritas.

Exercício SPR

A disposição Situação, Problema e Recursos é uma tiragem simples de três cartas, que esclarece a situação do consulente. No exercício SPR analisamos como uma mesma carta se comportaria nas três posições da tiragem, que basicamente ressaltam os aspectos neutro, negativo e positivo de cada carta, respectivamente. Vale lembrar que a dicotomia problemas-recursos das duas últimas posições da tiragem não deve ser lida redutivamente em termos de ruim/bom, desfavorável/favorável. A posição “Problemas” muitas vezes mostra uma energia que está sendo usada ou recebida de forma inadequada. Além disso, o problema é o elemento-chave no processo de crescimento, representando a força que faz o indivíduo mudar, adaptar-se e crescer. Por outro lado, os recursos também requerem sabedoria para serem bem usados, devendo ser aplicados em concordância com o problema em questão.

Queen of Vessels, Alchemical Tarot, by Robert Place and Leisa ReFalo, Hermes Publication, 2008Posição 1, a Situação – aqui a Rainha de Espadas geralmente vai indicar que, quaisquer que sejam as motivações do consulente, elas são emocionais. Ele pode estar sendo sentimental, suas emoções podem estar em foco; ele pode também estar sentindo algo muito forte por outra pessoa. A Rainha de Copas não indica tanto um sentimento de amor romântico, mas mais uma devoção, uma dedicação ao outro. Além disso, nessa posição a Rainha de Copas pode indicar a presença de sonhos, imaginação, intuição e pressentimentos. Figuras da corte na posição 1 mostram alguma característica ou atitude do consulente que tem papel importante em sua situação. A relação da carta da posição 1 com as outras mostra seu teor. Exemplo – uma pessoa está pensando em mudar para outro estado, mas não está certa se suas motivações são válidas. Ela então tira três cartas, que acabam sendo a Rainha de Copas, o Quatro de Copas e o Quatro de Espadas. A Rainha de Copas indica que as motivações do consulente são emocionais – essa viajem para ele representa um sonho, um desejo profundo. Aqui, a rainha se harmoniza com o quatro, indicando que ele de fato não toma atitude nenhuma a respeito, e fica esperando que as coisas caiam do céu. A passividade da rainha combina-se com a falta de motivação do Quatro de Copas.

Posição 2, o Problema/desafio – uma atitude sonhadora, sensível demais ou insegura pode ser o maior obstáculo aqui. A carta pode também indicar uma outra, pessoa caracterizada por essa rainha, oferecendo dificuldades na situação. Eu costumo ver a Rainha de Copas mal-aspectada como alguém chorão e covarde. Outro aspecto negativo da Rainha de Copas surge quando a sua devoção se transforma em abnegação exagerada. Nesse caso, a presença da Rainha de Copas na posição 2 pode indicar uma necessidade de superar medos, colocar os pés no chão e ser mais objetivo.

Posição 3, Os Recursos/vantagens – como vantagens, a Rainha de Copas pode estar querendo dizer que o consulente deve usar sua intuição para resolver seu problema, ou abordar sua situação com seu coração, sendo delicado, carinhoso e dedicado. A visão profunda das emoções faz da Rainha de Copas uma ótima conselheira. Espiritualidade e visão transcendente também podem ajudar aqui.

setembro 5, 2009

Exercício SPR – Rainha de Paus

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 3:43 AM

Wands13A carta sorteada hoje para análise é a Rainha de Paus. A Rainha de Paus incorpora a energia do naipe ao qual pertence, com a profundidade e a visão introspectiva característicos das Rainhas; é energética, charmosa e intensa. Eu a vejo como alguém que segue seu coração o tempo todo. Determinada e competente, ela sempre vai em busca do que quer. Todas as Rainhas do Tarot são intuitivas e sensíveis – na Rainha de Paus, isso manifesta-se como instinto. No Tarot, as rainhas são associadas ao elemento água. Na Rainha de Paus, temos então água mais fogo – ebulição. Como acontecimento, essa rainha indica sucesso nos empreendimentos e realização dos desejos. Aqui vai a análise dessa carta posicionada nas três casas da disposição de situação, problema e recursos:

Casa I – A Situação

Como situação, essa carta pode representar alguém com as características da Rainha de Paus que está envolvido de forma relevante na situação. Também podemos interpretá-la como esse lado do consulente se fazendo presente na situação onde ele se insere. Seu lado intento, idealista, dedicado e radiante pode estar ativo no momento. Ele pode estar investindo tudo de si em algo, ou fazendo alguma coisa com muita paixão. Ilustrando um acontecimento, temos aqui sucesso, vitória e realização.

Casa II – O Problema/desafio

O problema aqui é o exagero. A Rainha de Paus tende a ser dramática, intensa demais, e às vezes mesmo teatral – histriônica. Nesta posição, essa carta pode indicar que o consulente está fazendo uma tempestade em seu copo d’água. Ele pode estar reagindo de maneira muito exacerbada, pode estar fazendo um escândalo desproporcional. Outra possibilidade é a de ele estar investindo energia demais, ou cedo demais, ou mesmo em algo que não merece tanto investimento. Outros significados incluem autoritarismo, idealismo cego e mente fechada.

Casa III – Os Recursos/vantagens disponíveis

A posição três indica os recursos de que o consulente dispõe para lidar com a sua situação. A Rainha de Paus traz consigo boas doses de auto-confiança, fé nos ideais, carisma e magnetismo pessoal, charme, otimismo, paixão e boa disposição. Essa rainha também pode indicar, claro, uma pessoa específica que pode ajudar o consulente, dando-lhe coragem e restaurando sua fé em si mesmo, por exemplo.

Olhar os detalhes dos desenhos das cartas pode ser uma experiência instigante. Deles podemos extrair significados que nos ajudam a conhecer melhor cada carta, nos familiarizarmos com elas. Um detalhe que sempre me chamou a atenção na Rainha de Paus do baralho Waite-Smith é o gato preto aos pés da rainha. Essa carta também contem diversas imagens que aludem a outros felinos, os leões – ladeando o seu trono, e gravados em relevo em seu espaldar, junto com os girassóis. Isso automaticamente me remete a duas divindades egípcias – Bast, ou Pasht, a deusa-gato da fertilidade (leia-se capacidade de ter filhos), do lar e da feminilidade e; Sekhmet, a deusa leoa do Alto Egito, relacionada à guerra e ao próprio faraó. Ambas divindades são relacionadas ao sol. Os gatos costumam ter papéis proeminentes em diversas culturas, mas o fato de o Tarot ter sido tão associado ao Egito desde sua descoberta, no século XVIII, me sugere que o gato da Rainha de Paus tem uma conotação mais egípcia. Bast foi uma das deusas mais populares do Egito antigo. Originalmente associada à guerra e ao próprio sol, tais atributos mais tarde foram conferidos a Sekhmet, ficando Bast mais associada à fertilidade e ao lar. As duas deusas tem aspectos e atributos similares, e seus papéis muitas vezes se confundem. O caráter solar da Rainha de Paus é evidente. O gato, ali, além de poder significar o lado mais doméstico e dedicado dessa rainha, pode estar associado às bruxas e seus encantos. Os gatos também são associados, desde o Egito antigo, aliás, à Lua.

O Gato da Rainha de Paus - mais Deusas egípcias

Apesar de gostar de listas de significados, eu acredito que analisar cada carta em seus diversos níveis de interpretação (a imagem em si, os conceitos que ela expressa, as associações elementais/astrológicas/numerológicas, etc.) nos leva a uma compreensão mais consistente de cada arcano. Claro, isso leva tempo; e, sim, listas são legais por sintetizarem os conceitos de forma esquemática (o que facilita a memorização), e por servirem bem como fonte de consulta rápida. Contudo, a exemplo das palavras, os significados das cartas define-se pelo seu uso. Embora normalmente analisemos cada carta separadamente, é em conjunto, na leitura, que elas mostram sua vida.

agosto 30, 2009

Exercício SPR – Rainha de Ouros

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 9:06 AM

Muito bem, a primeira figura da corte a aparecer nesse exercício – a Rainha de Ouros. Em minhas leituras, as Figuras da Corte geralmente aparecem indicando pessoas específicas, ou traços da personalidade do próprio consulente que estão ativos ou proeminentes, em relação a sua questão. Às vezes, algumas figuras da corte – geralmente os Valetes ou Cavaleiros – podem aparecer indicando acontecimentos também. Até agora, em meus estudos, eu tenho visto as Figuras da Corte como a manifestação da força de cada elemento nas pessoas – tanto em pessoas específicas quanto no em traços de personalidade e/ou comportamento no próprio consulente.

Casa 1 – A Situação

  • Projetos sendo nutridos, planos em gestação;
  • Pessoa na posição de cuidar de alguém, de ser mãe, de ter esse seu lado materno ficando proeminente;
  • Preocupação com assuntos ligados à família e à maternidade;
  • Alguma pessoa sendo uma Rainha de Ouros na vida do consulente, sua mãe, alguma situação onde essa pessoa tem um papel importante.

Casa 2 – O Problema/desafio

  • Essa mesma pessoa pode estar exercendo um papel antagônico na situação em questão – oferecendo obstáculos, criando problemas. O aspecto negativo da Rainha de Ouros se faz presente aqui – mulher dominadora, possessiva, sufocante;
  • Isso pode mostrar também um aspecto do próprio consulente, mostrando que ele pode estar vendo a situação de forma muito tacanha, ou sendo possessivo e apegado demais às coisas.

Casa 3 – Os Recursos/vantagens

  • – Uma pessoa bondosa e generosa, ou a própria mãe do consulente, pode ser de grande ajuda na situação;
  • – A própria pessoa sendo cuidadosa, paciente, carinhosa e tranquila.

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