Descobrindo o Tarot

julho 23, 2010

AS CARTAS POR AÍ

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Ah, como eu adoro encontrar as cartas por aí. E você pode encontrar elas em todo o lugar – é só manter a atenção ligada. Alguns exemplos recentes – –

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Pagem de Copas – video Antibodies, por Ponie Hoax a imagem da menina com o peixinho não me fez pensar em outra coisa que não o Pagem de Copas do RWS, tão amigo do peixe em sua taça – eu ainda vou entender mais esse símbolo… O video é ótimo, vale a pena.

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A Sacerdotisa numa citação de Einstein

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Seis de Espadas x Salmo 23, verso 2 “Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas.” Seria essa imagem textual bíblica uma das fontes de inspiração para a composição da imagem do Seis de Espadas? Fica a ideia…



novembro 11, 2009

O Seis de Ouros (+ Exercício SPR)

Seis de Ouros - Waite-Smith Tarot (1909)Hoje falaremos de mais uma carta do naipe de Ouros, o Seis de Ouros.


O significado central do Seis de Ouros tem a ver com riqueza material. Em leituras, essa carta frequentemente tem uma conotação positiva, indicando prosperidade. Um dos aspectos do Seis de Ouros tem a ver com generosidade. Num nível um pouco mais profundo, vemos também a temática do dar e receber – a constante troca de valores, estados e posições.

Na versão do RWS (o baralho Rider-Waite-Smith) temos um homem, aparentemente um rico comerciante, dando com sua mão direita algumas moedas para dois mendigos, enquanto segura uma balança com a outra mão. Um dos mendigos recebe os trocos, enquanto o outro aguarda sua vez. Há nessa carta uma tênue noção de equilíbrio. O doador dá as moedas com sua mão direita enquanto segura uma balança com mão esquerda. O lado direito é associado à mente, à lógica e à razão; o lado esquerdo relaciona-se com o coração, a emoção e os sentimentos. A presença de uma balança na mão esquerda indica que o homem dá com parcimônia, e equilibra bem seus sentimentos ao entregar. Em outras palavras, ele doa com prudência, na medida de suas condições – ele dá o que pode. Por outro lado, alguns elementos da carta sugerem certo desequilíbrio – a balança pende levemente para a esquerda, e das seis moedas acima dos personagens, três pairam sobre o mendigo que recebe e só duas sobre o que não recebe. Ademais, sobre o mendigo da esquerda está a mão doadora, enquanto que sobre o da direita paira a balança – como se ele recebesse o “peso da justiça”. Essa leve discrepância parece sugerir o fluxo de alternância de ganhos e perdas da vida. Podemos imaginar que o segundo mendigo vai receber alguma coisa também, só que mais tarde, depois do primeiro; ou talvez ele não recebe por falta de merecimento (a balança sobre ele, a justiça sendo feita para ele). A mensagem implícita na carta é que o real valor de qualquer fortuna existe quando há a movimentação dos bens e valores. Parte dessa movimentação consiste na doação de recursos aos mais necessitados.

Variações hipotéticas do símbolo Sol+LuaNo livro Book T, MacGregor Mathers (um dos precursores da conceitualização moderna do Tarot) atribuiu cada uma das cartas numeradas dos Arcanos Menores (ou seja, todos os arcanos menores, com exceção dos ases e das figuras da corte) a um dos 36 decanatos astrológicos. Cada um dos 12 signos do Zodíaco equivale a trinta graus dos 360 da roda zodiacal. Os trinta graus referentes a cada signo são então divididos em três partes de dez graus cada, originando assim três decanatos para cada signo, num total de 36. De acordo com Mathers, o Seis de Ouros está associado ao segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua – temos então a combinação Lua em Touro, que sugere fertilidade – a combinação da fluência da lua com o Touro, símbolo antigo de fertilidade. A relação simbólica do touro/vaca com a lua é antiga e bastante significativa. Talvez pelo formato de seu chifre, a vaca e o touro foram associados à Lua desde há muito tempo, principalmente nas culturas indo-européias. Os chifres são associados à lua e, portanto ao ciclo menstrual, o que sugere fertilidade. Em algumas culturas, O touro também é associado ao Sol, incorporando seu aspecto masculino e viril; mais uma vez, temos a temática da fertilidade.

Um dos exemplos da profunda significância do simbolismo da vaca e do touro é a deusa egípcia Hathor, divindade associada à feminilidade, ao amor e ao prazer. Hathor era comumente retratada como uma mulher ou uma vaca carregando em sua cabeça o disco solar suportado por um par de chifres. O par de chifres pode ser visto como o crescente lunar, tendo o disco solar acima dele. Simbologicamente, o círculo é associado ao sol, e o semi-círculo (crescente lunar) à lua e ao feminino. Recorrente na simbologia egípcia, esse símbolo pode ser interpretado como a união do masculino (sol) com o feminino (chifres), que o envolve; nesse sentido, ele pode ser comparado ao T’ai Chi T’u, o símbolo do yin-yang chinês, que representa a constante mistura e alternância dos princípios duais. Ademais, um dos aspectos de Hathor (a Vaca Celestial) era sua identificação com Nut, a deusa-mãe céu, personificação da própria abóbada celeste, que “recebe” o sol em seu seio – como os chifres recebendo o disco solar. Da união fértil dos opostos surge o mundo, e a eterna interação entre os dois princípios é a fonte da energia universal. Como veremos mais adiante, a temática da união ecoa no próprio número do Seis de Ouros, que está numerologicamente ligado aos Enamorados, o grande Seis do Tarot, símbolo máximo da união dos opostos e da força de atração/interação.

CONEXÕES

O conjunto de símbolos que compõe o Tarot constitui-se em um sistema de significados que sustentam-se através da ligação existente entre cada elemento do sistema e os restantes. Podemos estabelecer várias conexões entre as cartas, de acordo com algum tema específico, símbolo recorrente, etc. A seguir, veremos mais detalhadamente algumas das conexões do Seis de Ouros com outras cartas.

O Hierofante

Podemos estabelecer duas correspondências entre o Seis de Ouros e o arcano 5, o Hierofante, sendo uma de caráter astrológico e outra de caráter pictórico.

De acordo com o sistema da Golden Dawn, ambas as cartas relacionam-se com o signo de Touro. O Hierofante é a própria representação do Touro no Tarot, enquanto o Seis de Ouros encara um dos três aspectos desse signo, seu aspecto lunar, do segundo decanato do signo de Touro, regido pela Lua. As três cartas numeradas associadas a Touro são a sequência 5-6-7 do naipe de Ouros. O signo de Touro é lento, metódico, segue a regra e faz tudo ao seu ritmo. Isso pode ter a ver com o significado da carta ligado ao método e ao formalismo. Como aspecto Lunar de Touro, o Seis de Ouros tem a ver com fertilidade e prosperidade. Touro é associado aos campos, à força de vida da terra e ao crescimento da colheita. Isso pode ser visto na carta, com sua imagem de riqueza. Talvez esse seja o motivo da próxima conexão entre as cartas, descrita no parágrafo seguinte.

Além de correspondências astrológicas, o Seis de Ouros também pode ser associado ao Hierofante pictoricamente; a estrutura pictórica das duas cartas é similar, e isso por si já sinaliza a existência de uma relação entre elas. Em ambas as figuras, vemos um personagem central principal, ladeado por dois personagens secundários a ele submissos. Mais do que isso, o gesto da mão direita dos dois personagens é o mesmo – dedos anular e mindinho recolhidos, dedos médio, indicador e polegar estendidos. Trata-se do sinal de benção, usado pelos padres católicos e ortodoxos ao fazerem o sinal da cruz para abençoarem os fiéis. No gesto de benção, é como se o padre estivesse servindo de intermediário entre Deus e os homens, repassando-lhes uma benção que eles supostamente não teriam como alcançarem por si mesmos. Benzer é transferir o poder de uma divindade para um objeto ou pessoa; o ato de benzer é feito por alguém que supostamente tem poder para isso, alguém que tem um contato especial com a divindade e que, portanto, serve de médium entre ela e o mundo terreno – ou seja, um sacerdote. Assim como o HierofanExemplos do sinal de benção em obras de arte de diversas épocas diferenteste abençoa seus discípulos trazendo-lhes a benção de Deus – dando-lhes caridosamente algo que eles não possuem e necessitam – o Seis de Ouros, num nível mais mundano, dá aos necessitados parte de sua fortuna. De certa forma, ele os abençoa. No Cinco de Ouros, a carta anterior, vemos mais uma referência a esse aspecto espiritual no vitral de igreja atrás dos dois mendigos, que não parecem percebê-lo. No Seis de Ouros, carta seguinte, os dois mendigos recebem a benção de alguém que tem mais do que eles. Um passo adiante foi dado, em direção à conscientização de sua própria condição. É o primeiro passo para o crescimento.

Essa temática de superioridade + caridade está presente nos quatro seis dos arcanos menores, e tem a ver com as associações qabalísticas dos seis no Tarot. Nesse sentido, o número seis sempre é associado a sucesso e vitória.

Os Enamorados e a Justiça

O paralelo entre o Seis de Ouros e os Enamorados é de caráter numerológico – ambas as cartas são 6, número relacionado à união e ao amor. A estrutura pictórica das cartas também é semelhante, com uma figura central superior e duas menores aos lados. Esse padrão pode ser considerado um símbolo em si na linguagem pictórica do Waite-Smith. O número 6 relaciona-se com equilíbrio e harmonia; no 6, os opostos estão equilibrados e interagem de forma harmônica, em uma constante e dinâmica troca.

O Seis de Ouros liga-se pictoricamente ao arcano 8, a Justiça, por meio da balança, presente em ambas as cartas. O símbolo da balança traz a conotação de avaliação e equilíbrio. É importante ressaltar que o equilíbrio representado pelo Seis de Ouros e a Justiça não é exatamente algo alcançado naturalmente, mas é fruto de uma cuidadosa avaliação e disciplina. Isso é mostrado na carta, onde o homem dá com cuidado, procurando não dar muito nem pouco, mas o necessário; ele alcança esse equilíbrio através de uma constante avaliação e controle. Essa frugalidade é uma característica compartilhada entre o Seis de Ouros e a Justiça.

No Seis de Ouros há um movimento de integração, de união. O recurso é passado de alguém que tem mais para alguém que tem menos, num processo que transparece um movimento em direção ao equilíbrio e à compensação. Temos aqui o aspecto do seis como união, generosidade e ajuda. Por outro lado, o 6 também é um número de equilíbrio e harmonia – o primeiro número par formado pela junção de dois números ímpares. Números pares são passivos e femininos, estáticos; números ímpares são ativos, masculinos e dinâmicos.

Resumo da carta

  • Sucesso material
  • Riqueza
  • Equilíbrio
  • Ponderação
  • Compartilhamento
  • Dar e receber
  • Compreensão
  • Compensação
  • Justiça, equidade
  • Igualdade
  • Comércio, troca

Significados objetivos

  • Riqueza, sucesso material
  • Generosidade, ajuda de alguém importante
  • Ajuda e receptividade – passar/doar conhecimento, experiência, recursos
  • Responsabilidade, equilíbrio, ponderação
  • Pesos e medidas, tudo muito certinho
  • Responsabilidade social, inter-rede humana e social

EXERCÍCIO SPR

Vamos agora aplicar nosso entendimento dessa carta à prática da leitura, usando como exemplo a disposição Situação, Problema e Recursos.

Posição I – A Situação – aqui essa carta indica sucesso material, ganhos e recompensa por esforços; indica também ajuda cuidadosa de pessoas com mais recursos. O consulente pode ser tanto a pessoa que recebe quando a que dá a ajuda. De maneira geral, pode também indicar uma situação que envolve interação dinâmica entre pessoas, especialmente tendo como pano de fundo assuntos materiais. Uma coisa importante a saber sobre o Seis de Ouros é que os resultados representados por ele são medidos pelo esforço investido previamente. Exemplo –

Pergunta hipotética de uma moça e seus estudos de Tarot –

SPR I - Seis de Ouros na SituaçãoSeis de Ouros – Pagem de Espadas – Rainha de Espadas

Ela tem uma base sólida de experiência e prática, e bons recursos e preparo para passar aos outros. Seus esforços começam a frutificar. O que atrapalha é a curiosidade incessante e certa presunção inocente de que sabe mais do que realmente sabe. Ela está apenas começando, e tem só um vislumbre do conhecimento, não deve deixar-se levar por seu entusiasmo. Seu melhor recurso é sua percepção aguçada, que combina intuição e sensibilidade com razão e ponderação; ela entende bem as pessoas, tem uma boa visão e percepção do outro, e certamente pode usar isso a seu favor.

Posição II – O Problema – Cabe aqui uma digressão para salientarmos a função exata dessa posição, algo que pode ser complicado para muitas pessoas, especialmente quem tem pouca experiência com essa disposição. Por “função” eu quero dizer qual o seu papel dentro da disposição, e qual efeito tem sobre a carta que cai nela. É provável que o leitor de cartas tenda a dar à posição Problema uma função anuladora/inversora, ou ainda uma função hiperbolizadora. A carta nessa posição seria então interpretada pela falta da energia que ela incorpora, ou como o inverso do seu significado normal, ou ainda como um exagero, um descontrole dessa mesma energia. Assim, o Seis de Ouros, por exemplo, poderia ser visto sob um viés de anulação/inversão (falta de recursos, estagnação da troca ou imprudência) ou sob um viés de exagero (meticulosidade em demasia, generosidade em demasia, dar demais, ou pensar demais e agir de menos). Essa forma de ver talvez venha de uma tendência a enxergar tal posição como essencialmente negativa e ruim. Eu creio que há vários problemas nisso. Primeiro, via de regra, não é isso que essa posição pretende indicar. Sua função é simplesmente mostrar o lado desafiante e antitético da situação, mais do que seu lado ruim, mau ou vil (o que endossa uma visão maniqueísta e limitadora das coisas, circunscrita a termos de bem contra mal, bom contra ruim); segundo, abordar essa posição como anuladora/limitadora/hiperbolizadora abre espaço para muita confusão e contradição. O Oito de Espadas, uma carta que fala de restrição, nessa posição poderia ser tanto liberdade
de pensamento, leveza, falta de restrições – ou muita restrição. Já uma carta considerada boa, como o Sol, poderia ser interpretada como orgulho, vaidade, ou como tristeza, decepção e ruína. Certamente escolher entre todas essas opções é algo contra-produtivo. Isso dito, é importante manter em mente que a função dessa posição é basicamente a de ter um efeito antitético. A energia da carta aqui não se inverte, enfraquece ou se exagera – ela apenas representa um obstáculo, um aspecto da situação que atrapalha ou traz problemas – e que, na verdade, representa uma fértil oportunidade de desenvolvimento e aprendizado. É a mesma energia, nem mais forte, nem mais fraca ou ausente, e nem inversa. Ela simplesmente precisa ser encarada, melhor manipulada ou sobrepujada – superada. É claro que esse equilíbrio entre a visão maniqueísta à qual estamos acostumados, e uma forma de ver menos presa às diferenças e mais às similaridades é algo um pouco difícil de ser alcançado – nada que alguma prática não supere, no entando.

Sendo assim, nessa posição o Seis de Ouros tem o mesmo significado que na posição anterior, só que visto de maneira a atrapalhar ou apresentar impedimentos e dificuldades ao consulente. O problema pode ser um forte senso de responsabilidade que impede o consulente de agir, ou pode haver alguma dificuldade no fluxo de transmissão de valores (materiais ou fixos). Exemplo –

Pergunta real de um rapaz que está pensando em pedir uma bolsa de estudos para um curso específico na empresa onde trabalha –

SPR II - problemaTrês de Paus – Seis de Ouros – Cavaleiro de Ouros

O rapaz é talentoso e capaz, e ainda um tanto independente e persistente em seus objetivos. Ele já chegou a certo ponto de desenvolvimento na área em questão, a ponto de ter certa autonomia estabilizada, mas volta seus olhos a horizontes mais amplos. Seu impulso ígneo, no entanto, é bastante freado pelas duas cartas de terra, mostrando as dificuldades das aplicações práticas de seus planos. O Seis de Ouros aqui indica a possibilidade de certos entraves no processo de concessão/aprovação da bolsa; o conjunto de critérios da empresa pode atrapalhar o consulente. Ele pode vencer esse obstáculo sendo persistente e paciente, e mantendo o foco em seu objetivo. Independente disso, as cartas sugerem que o consulente é capaz de seguir um caminho sozinho e aprender o que deseja por mérito próprio. Nessa leitura, o Seis de Ouros indicou a própria concessão da bolsa. Observe como a relação com o Hierofante (a Instituição, os procedimentos padrão – a empresa) aqui fica ressaltada.

Posição III – Os Recursos – disponibilidade de recursos necessários para se conseguir o que deseja, especialmente recursos materiais; ajuda dos outros sendo providencial; poder aquisitivo desempenhando um papel proeminente na situação. Nessa posição, o Seis de Ouros mostra recursos e fluência material.

Pergunta hipotética de uma mulher que deseja fazer uma viagem ao exterior –

SPR III - recursosSeis de Paus – Quatro de Paus – Seis de Ouros

A mulher está bastante confiante sobre sua viagem. Seu excesso de confiança, no entanto, pode atrapalhar seus planos, pois ela tende a repousar sobre seus louros. No entanto, ela realmente dispõe de recursos, e pode vencer sua tendência relaxar sendo mais prática e pensando mais antes de agir. Questões legais também pendem ao seu favor.

Ficou perceptível na descrição dessas leituras que a forma de interpretar as cartas depende muito do contexto e da associação. No entanto, creio que o mais importante seja absorvermos a essência de cada carta – o ponto de contato entre os vários sentidos a ela atribuídos, que na verdade é a origem do seu significado.

setembro 25, 2009

Exercício SPR – Os Enamorados

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The Lovers - Waite-Smith TarotNaturalmente associada a amor e romance, a carta número seis do Tarot, Os Enamorados (variantes do nome incluem “Os Amantes”, e “O Enamorado”) esconde, logo abaixo da superfície, uma significância mais ampla, que envolve o simbolismo da força de atração entre os opostos e a Escolha inicial na caminhada do herói arquetipal.

Uma das bases para o desenvolvimento do simbolismo do Tarot, o neoplatonismo renascentista sustentava ser o Amor (Eros) a força primordial do universo. Essa noção tem sua origem na filosofia grega antiga. Na própria mitologia grega, como descrita na teogonia de Hesíodo, Eros aparece como a divindade primordial, surgida das profundezas da escuridão anterior à criação do universo. Eros é, assim, a força que nasce do caos para trazer a harmonia, a força cósmica que une tudo, que mantém o universo coeso e em estado constante de mudança – o poder da vida. Na arte grega, Eros era retratado tanto como um belo jovem rapaz, quanto como um menino, ambos alados. Ao contrário do que comumente se imagina, Eros nem sempre era retratado portando arco e flechas – muitas vezes ele aparece portando flores, ramos de hera ou fitas, presentes típicos dos apaixonados da época.

Em Roma, o Eros grego foi associado a Cupido, divindade romana com praticamente todas as características do deus grego do amor. Em latim, cupidus significa “desejoso”, “apaixonado”, “ávido”. A palavra tem sua origem no verbo cupere, “desejar”. A imagem do Cupido como um bebê ou menino alado, mais comum em Roma do que na Grécia, foi a que acabou perdurando, sendo largamente utilizada na arte, a partir do período renascentista, para retratar o deus do amor. Em versões mais antigas da carta dos Enamorados, podemos ver Cupido no alto da imagem, muitas vezes vendado, prestes a atirar uma flecha. Abaixo dele, geralmente são retratadas três figuras, que parecem compor um triângulo amoroso – um rapaz, entre duas mulheres, aparentemente dividido entre elas. Waite e Pamela modificaram um pouco o motivo dessa carta, trocando o deus alado do amor pelo arcanjo Gabriel, e o trio por Adão e Eva no Éden.

Eu considero Os Enamorados uma carta muito especial. Sucedendo cartas de figuras grandiosas, tais como a Imperatriz ou o Hierofante, os Enamorados representam uma quebra de paradigma em vários sentidos. Sallie Nichols, em seu famoso livro Jung e o Tarô – Uma Jornada Arquetípica, diz o seguinte a respeito dessa carta:

“Pela primeira vez na série do Tarô, a figura central não é pintada como um personagem mágico ou divino. Parece um ser humano comum, que enfrenta o mundo e seus dilemas com os pés solidamente plantados na realidade de todos os dias. À diferença dos dois padres retratados na última carta, mostra-se como um indivíduo que ostenta traços e trajes específicos, simbolizando assim um passo à frente na evolução da consciência – um passo para a percepção individual e para longe da consciência de grupo orientada para fora. Podemos ver nesse moço a personificação do jovem e vigoroso ego, pronto para enfrentar a vida e seus problemas sem a ajuda de ninguém. Não há aqui nenhuma figura de autoridade ao seu alcance para a qual possa apelar em busca de ajuda. Precisa, portanto, encontrar, dentro de si mesmo, a força para enfrentar a confrontação; precisa assumir sozinho, a responsabilidade por qualquer ação que pratique em relação a ele.”

O significado-raiz por trás da carta é diferenciação. Os Enamorados é a carta que mostra o nascimento do ego no Tarot, o estabelecimento da diferença entre o sujeito e o objeto, o eu e o outro. Podemos ver que, na verdade, a relação que a carta tem com o amor e a sua relação com o motivo da Grande Escolha e da individualidade são uma coisa só. Em sua escolha em retratar o mito do Éden, Waite faz um link com a temática do despertar da consciência mental – ou seja, do ego, e da mente.

A interpretação esotérica do mito do Éden, originada nas doutrinas gnósticas e provavelmente conhecida por Waite, pode jogar uma luz no significado dessa carta, especialmente em sua versão do baralho Waite-Smith: nascidos em um mundo perfeito, Adão e Eva vivem felizes, porém inconscientes de sua individualidade. O ganho da consciência, representado em Eva comendo o fruto da árvore do conhecimento, permite aos dois despertarem para sua individualidade; percebem-se nus, e têm vergonha; acordam para a diferença. Assim, a carta dos Enamorados retrata o momento de percepção da separação entre o que antes era uno – o eu versus o outro, o sujeito versus o objeto. Em outras palavras, trata-se do desenvolvimento da capacidade de abstração.

A carta número seis também representa um abandono da ortodoxia do Sumo Sacerdote. Fechando o ciclo quíntuplo (O Mago – Fogo, A Sacerdotisa – Água, A Imperatriz – Terra, O Imperador – Ar, O Hierofante – Éter, o espírito, transcendente), a carta cinco, o Hierofante, representa a criação de um sistema de verdades, que busca regular a experiência humana. O Hierofante, o Sumo Sacerdote, representa o cabeça de um grupo, que ele chefia impondo sua doutrina. Essa consciência grupal é quebrada na carta Os Enamorados, que mostra o nascimento da consciência individual. De certa forma, o enamorado agora sente que não mais precisa seguir uma verdade artificial, alheia a ele mesmo – seu coração fala muito mais alto, e soa a ele mais verdadeiro e legítimo. Muitas vezes, a descoberta do amor é o que demarca a nossa passagem de crianças a adultos – e o começo da noção de que nossos pais não são deuses, afinal. Pense na história clássica de Romeu e Julieta – ambos jovens, adolescentes (Julieta tinha de 13 para 14 anos, e Romeu provavelmente 16), rebelando-se contra tudo e todos em nome de seu amor proibido. Pare eles, nenhuma convenção ou norma valia mais do que o a paixão que um sentia pelo outro. Eles sentiam, correndo em seus corpos, a força vital da atração – Eros. É interessante notar que tanto Eros como Cupido sempre foram retratados ou como meninos, ou jovens rapazes.

O abandono da antiga ordem em nome da liberdade é o que caracteriza a Escolha. Na carta (especialmente nas versões anteriores ao Waite-Smith), o enamorado se vê dividido entre as opções de permanecer em seu mundo familiar e seguro, com o qual tem vínculos afetivos, ou seguir seu coração, sua paixão e vontade de viver, e abandonar segurança para lançar-se no mundo encantadoramente desconhecido. Esse conflito é a essência da carta dos Enamorados.

Perceba que o simbolismo dicotômico da carta está sempre presente – diferenciação, atração (entre dois elementos opostos e complementares), escolha (entre dois caminhos).

EXERCICIO SPR

Depois da breve análise da carta, podemos fazer algumas considerações sobre suas posições em cada uma das casas da disposição SPR

Casa I – A Situação

Dependendo do contexto, a carta pode indicar amor, um relacionamento, casamento e união; também pode mostrar uma situação onde está em jogo a escolha, a tentação e a ambivalência de valores.

Casa II – O Problema/desafio

Um relacionamento amoroso dificultando a situação; O dilema da escolha tendo especial importância na situação; conflito pessoal, íntimo ou moral.

Casa III – Os Recursos/vantagens

Liberdade, vontade de viver, tesão pela vida. Aqui, o amor pode ajudar a pessoa a resolver sua situação.


agosto 29, 2009

Exercício SPR – Seis de Espadas

Filed under: Exercício SPR — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 2:37 AM

A carta a ser analisada hoje no exercício SPR é o Seis de Espadas – sim, parece que estamos num momento espadas no blog, rs…

Casa 1 – A Situação

A atmosfera do Seis de Espadas é claramente melancólica. O lago onde os personagens estão sugere um estado emocional, provavelmente de decepção e tristeza. O barco locomove-se pelo lago, o que me sugere uma mudança de estado emocional. Aqui há a resolução de “partir pra outra” sobre um assunto, abandonar as coisas ruins e move on. Eu geralmente interpreto essa carta ou como recuperação de decepções, ou como um estado de melancolia leve. A situação aqui seria provavelmente a de alguém que está se recuperando de dores do passado, e está partindo delas. Essa carta pode indicar também uma recoberta de bem-estar físico, uma melhora na saúde.

Casa 2 – O Problema/desafio

Aqui, o problema seria a tristeza, a melancolia, e as lembranças do passado que nos impedem de seguir em frente. O desafio aqui então seria passar por cima dessa fase meio depressiva, e alcançar a outra margem. A aura levemente depressiva dessa carta fala bastante sobre problemas que devem ser superados.

Casa 3 – Os Recursos/vantagens

Nesta posição, o Seis de Espadas poderia ser interpretado como a fase de superação das decepções. Apesar de ser uma carta aparentemente negativa, é possível perceber seu significado implícito de recuperação. Em uma situação ruim, essa carta pode aparecer para indicar que a pessoa em questão tem capacidade de recuperar-se de seus traumas e que, de fato, provavelmente já está no processo de “sair da lama”.


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