Descobrindo o Tarot

setembro 27, 2011

TAROT – UM ELO ENTRE O LÚDICO E O ORACULAR

Filed under: Videos — Tags:, , , , , — Leonardo Dias @ 9:30 PM

Não sei muito bem como essa ideia começou a andar na minha cabeça, mas a relação entre o aspecto lúdico do tarot com seu aspecto oracular, atualmente mais bem conhecido, tem povoado bastante meus pensamentos ultimamente. Pensar sobre como esses dois usos de um mesmo objeto se relacionam pode ser gratificante. Será que eles são tão avessos quanto parecem na superfície?

É um fato histórico que o tarot surgiu como um jogo, não muito diferente de qualquer jogo de cartas comum hoje em dia. É possível afirmar, sem muita pesquisa, que um dos papéis sociais do jogo é servir de catalizador e propiciador da interação social. Pessoas unem-se para se divertirem. Esse aspecto do jogo mescla-se com sua propriedade de simular a vida. Com todos os esquemas e estratégias que exige do participante, o jogo simula a vida – e, nesse sentido, certamente guarda relações com o teatro e as brincadeiras infantis.

O oráculo é outro campo em que a vida humana participa como peça elementar. Tradicionalmente, o oráculo demarca o ponto de contato entre a experiência ordinária da vida humana e a existência divina, invisível ao olhar cotidiano. Fornecendo-lhe uma valorização supostamente superior àquela obtida nas deduções mentais comuns, o oráculo possui um potencial transformador da vida, que envolve uma apreciação diferente do próprio tempo. Mais que passivamente refletí-la como faz o jogo, o oráculo pode, portanto, determiná-la.

Ainda que distintos, jogo e oráculo compartilham funções e efeitos similares em vários pontos. Brincando um pouco com essas ideias, tocamos em questões que tratam do próprio caráter do divino e do mundano, por meio de seus representantes, oráculo e jogo, respectivamente.

Nesse video, eu falo brevemente a respeito de alguns vislumbres que tive concernente a essa questão tão atraente.

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agosto 9, 2010

MAIS SOBRE O FUTURO E O TEMPO

Filed under: Notas — Tags:, — Leonardo Dias @ 4:49 AM

Esses dias, escutando o programa do Adhemar Ramos na Rádio Mundial, ouvi uma coisa que me chamou a atenção e me deixou pensando. Logo na introdução do programa, o professor Adhemar fala rapidamente sobre o tempo e a consciência humana –

Deus já criou tudo instantaneamente, ou seja, ele já criou o passado, o presente e o futuro; tudo já existe desde a criação. Nós somos apenas mônadas, unidades de consciência que transformam constantemente o futuro em passado, em um processo de transformação dinâmica. O futuro sempre existiu, o passado sempre existirá, e a nossa consciência continuamente transforma o futuro que sempre existiu no passado que sempre existirá. O presente simplesmente não existe – o que existe é o dinamismo dessa transformação (…). No universo, nada permanece imóvel, tudo está em evolução, e evolução é exatamente o entendimento do futuro se transformando em passado.

[Transcrição e adaptação textual minhas]

O que chamou minha atenção nesse trecho da introdução do programa foi justamente o fato de que o professor Adhemar expôs o tempo de maneira exatamente oposta à que eu apresentei no meu primeiro post sobre o assunto. O que ele diz é que, assim como todo o cosmo, o tempo foi criado de uma vez só; tudo já existe, num bloco imensurável chamado criação. E a consciência humana, focada no nível material da criação, não dispõe de recursos para abarcar, de uma só vez, a totalidade do tempo, passando assim a transitar por ele gradualmente. É exatamente isso o que origina o então fenômeno mental que é o presente. De acordo com esse ponto de vista, o presente deixa de ser considerado algo “real” para passar a ser – ele, e não o passado ou o futuro – um mero processo mental, subjetivo. Isso explica, de quebra, a subjetividade do presente, comparável à subjetividade do aqui.

Por outro lado, se a gente for considerar que todo o espaço-tempo estava condensado em um único ponto sem dimensões no “momento” anterior ao Big Bang, então, da mesma maneira que todo o espaço originou-se com a expansão desse ponto, também todo o tempo já foi criado – o que parece estar de acordo com o que Adhemar Ramos afirma.

Essa questão da realidade do tempo é, claro, infinita. Muitas e muitas pessoas dedicaram-se a encontrar uma resposta para isso ao longo de toda a história, e as questões só se multiplicam. Entretanto, eu acredito que faz parte do trabalho de quem estuda Tarot pensar um pouco a respeito desse tema. Nós trabalhamos com o tempo. Ler Tarot não deixa de ser um processo no qual o foco de nossa consciência do tempo é alterado. Nossa visão do que é o tempo com certeza define a forma que lidamos com o tempo na prática do Tarot.

junho 13, 2010

NOTAS – USO DO TAROT + O LOUCO, ESSÊNCIA DA VIDA + IMPERATRIZ+CULTURA POP

Filed under: Diversos, Notas — Tags:, , , , , , — Leonardo Dias @ 7:53 PM

CITAÇÃO:

(…)[O Tarot,]se trata de uma ferramenta oracular que, antevendo fatos e situações, auxilia a orientar e aconselhar nas angústias de algum momento da nossa alma.” É assim que Arierom já começa seu post O Tarot não presta. Eu achei uma excelente definição, que ressalta um dos mais proeminentes aspectos do Tarot e da leitura de cartas – seu poder de nos fornecer uma consciência diferente de tempo, e de um dado momento em particular. É o que muitos definiriam como um uso “consciente” ou “responsável” da coisa toda de prever o futuro; a diferença entre simplesmente informar e efetivamente contextualizar o tempo na vida de alguém. É nisso que eu acho que consiste a qualidade de uma leitura, no sentido de sua solidez – caso a gente queira bandear um pouco pro puritanismo e se prestar a rotular o que é bom e o que é ruim. Mesmo assim, de uma maneira ou de outra, a utilidade da ferramenta é a mesma = sua capacidade de, trazendo o futuro para o presente, unir esses dois conceitos imaginários e abrir nossos olhos para uma talvez mais madura concepção do tempo (e, por tabela, de nossas vidas) – sua integralidade, sua esferidade, digamos.


E o consulente, mesmo quando concentrado em questões vãs, nem precisa perceber que a gente tá fazendo isso.


A FORÇA DA VIDA / A BEIRA DO MUNDO

Do livro “O Tarô Cabalístico, de Robert Wang”, pg. 42:

(…)O décimo quarto princípio cabalístico de Pico [de la Mirandola, filósofo italiano renascentista] afirmava que, ao se acrescentar a letra hebraica w (shin) ao nome divino hvhi (yod, heh, vau, heh), produzindo hvwhi Jeheshua, o nome hebraico de Jesus, tornava-se possível pronunciar o nome impronunciável de Deus. Do ponto de vista da Cabala Hermética e da Aurora Dourada [Golden Dawn, sociedade esotérica vitoriana], este fato tem um significado especial. O princípio mais importante da Cabala Hermética atual talvez seja o de que todas as coisas são quatro elementos ativados por um quinto, que é o Espírito. Yod é Fogo, Heh é a Água, Vau, o Ar, o último Heh é a Terra e Shin é o Espírito.

Agora, o salto – prepare-se ~

Na versão da carta do Louco de Pamela Smith para o baralho de Tarot que hoje chamamos de Rider-Waite-Smith, escondidinha na malha altamente estampada da roupa do Louco, há uma letra shin. Alguns atribuem isso a uma possível correspondência entre o símbolo do Louco e essa letra, o que estaria de acordo com o sistema de correspondências entre as 22 cartas grandes e as 22 letras hebraicas proposto por Eliphas Lévi – ainda que Waite, autor da carta, tenha diversas vezes frisado não estar “incluso entre aqueles que estão satisfeitos com uma correspondência válida entre letras hebraicas e símbolos dos Trunfos do Tarot”. E, mesmo quanto a isso, ninguém pode negar que a própria Pamela tivesse escondido a letra no desenho, sem Waite perceber; ou que ainda Waite realmente seguia um sistema de correspondências, mas preferiu manter-se em silêncio quanto a isso por “lealdade aos seus votos”.

Controvérsias à parte, temos nisso o Louco como o puro espírito, a força que anima e ativa o composite ar-fogo + água-terra (vayu-tejas + apas-prithivi, pros esotéricos) que compõe o mundo, que compõe a gente, que compõe tudo. Em outras palavras, a imagem do Louco do Tarot é uma expressão da essência da vida, a medula do universo, a beira do mundo (como diz outra louca, Estamira, e como o nosso Louco, à beira do abismo). Pra quem ainda tem dúvida, é essa a essência do Tarot.


A IMPERATRIZ EM DUAS IMAGENS DA CULTURA POP – KYLIE MINOGUE THE ONE E KELIS ACAPELLA


Ai, eu sei que eu to fugindo do assunto central do blog, mas eu não resisto – dois vídeos que eu amo, ambos exibindo um composto de imagens que me fazem pensar muito na Imperatriz do Tarot (e no arquétipo da Grande Deusa, do Feminino em geral):

Primeiro, Kylie Minogue em seu video para The One, um dos singles de seu penúltimo álbum, X. Nele, Kylie evoca toda uma imagem divinizada da feminilidade, aparecendo entronizada no centro da tela entre efeitos psicodélicos, com direito a até à rosa-lírio (tabom, semi-lírio, rs) florescendo em preto-e-branco ao fundo, em um dos takes do video. O video todo é um culto ao egocentrismo, cheio de imagens de corpos idealizados e reflexos do rosto perfeito da cantora no espelho, cantando I’m the one, love me, love me (‘eu sou a única, me ame, me ame’). Ele praticamente diz pra você se amar – leia-se, perder-se na auto-indulgência dos prazeres, no hedonismo consumista (e na compra do Ray Ban lindo que aparece no final, bem no ápice do som, coincidentemente). Mas a imagem da Imperatriz está ali, encarnada na feminilidade, no luxo, no carão – o lado mais vulgar de Venus, poderíamos dizer assim.

Depois, Kelis, com Acapella, lançado só há alguns meses e single líder do seu álbum recém-lançado Flesh Tone (dance pop/house da melhor qualidade; pra quem gosta, indico). Com inúmeras referências ao primitivo, ao corpo e – mais uma vez – à feminilidade, o video caracteriza mesmo uma volta de Kelis às suas raízes – sua recém-maternidade, considerando que Acapella é, declaradamente, um tributo ao seu primeiro filho, Knight, nascido em 2009. Podemos ver a imagem do primitivo no motivo indígena, na selva, instintiva; o corpo pulsando em vários closes; a glória dourada de Kelis, com direito até à coroa da Imperatriz, cercada de lobos (a loba, a mãe, entendeu, rs?). No refrão, Kelis repete que “before you, my whole life was acapella; now a symphony is the only song to sing” (‘antes de você, minha vida era acapella; agora uma sinfonia é a única música a ser cantada’). O clipe fecha com Kelis no deserto, como uma espécie de africana, dando as costas e exibindo seu filho nas costas. De novo, Venus, dessa vez como mãe ~ a Imperatriz, pra quem quiser ver assim.

Dois bons exemplos da Imperatriz – e de Venus – na cultura pop – o amor total a si mesmo, e o amor total ao outro, devocional. E é claro que a gente pode encontrar o Tarot na cultura pop, inclusive nesses dois vídeos super, super gay.


Particularmente, eu tenho pra mim que a mídia usa e abusa de simbolismo oculto com mensagens subliminares – mas isso é outra história. Pra quem curtiu, coloquei aqui os dois vídeos; se você gosta de dance pop, eletrônica e house, vai curtir –



fevereiro 7, 2010

O Futuro e o Tempo

Filed under: Diversos — Tags:, , — Leonardo Dias @ 1:50 AM

O que é exatamente tempo? Qual a realidade de nossa percepção do tempo? Será que o tempo realmente pode ser dividido em passado, presente e futuro? A forma que vemos o tempo pode ter um impacto na prática do Tarot maior do que parece. Ultimamente, tenho pensado muito sobre isso. Claro, eu não sou físico, e realmente entendo bem pouco de física para ser capaz de discorrer sobre o assunto com propriedade. Mesmo assim, tenho observado algumas coisas, e gostaria de expor aqui as ideias que tive até agora a esse respeito.

Quanto mais eu penso nessa questão do tempo, mais clara fica a ideia de que a maioria das pessoas passa vidas inteiras baseando sua visão do mundo em suposições elevadas ao status de verdades, e nas estruturas artificiais da linguagem, da mente, e dos sentidos. Com relação ao tempo, vivemos em termos de passado, presente e futuro. De acordo com nossa percepção e o senso comum (difícil saber quem dita quem), cada indivíduo atravessa sua própria existência como alguém que caminha por uma estrada, deixando um rastro de acontecimentos vividos e percebidos atrás de si, enquanto contempla uma estrada enevoada e não trilhada à sua frente. Somos incapazes de saber aonde essa estrada vai dar, e a direção a ser tomada está sujeita a uma coisa vaga que chamamos de livre-arbítrio – que todo mundo adora exaltar, mas poucos sabem o que é exatamente ou sequer se existe mesmo. Entre as duas direções da estrada está essa região inconstante, imutavelmente mutável, o espaço entre cada um de nossos passos, que une o passado e o futuro como elos – o presente. Bem, a própria imagem que eu acabei de construir, que coloca o passado atrás e o futuro à frente, não passa de uma convenção, parte da estrutura da nossa língua – ou seja, não é absoluta. Há outras línguas que invertem as posições, colocando o futuro desconhecido nas nossas costas, e o passado familiar à nossa frente – visto, conhecido. Ainda assim, é por meio de metáforas topográficas como essa que acessamos e expressamos a nossa percepção da passagem do tempo, e lidamos tanto com as memórias do que se passou, quanto com as expectativas do que está por vir.

Toda a importância que damos ao futuro vem dessa noção de tempo que temos. É natural que fiquemos curiosos a respeito do futuro, já que, de acordo com essa visão, ele é algo que “está lá”, mas que ainda não chegou, e que poder vir a ser qualquer coisa. Frequentemente, direcionamos nossas dúvidas ao futuro – “será que eu vou me casar?” “Será que eu passarei nesse exame?”, “Esse negócio novo vai dar certo?”O futuro e o desconhecido são irmãos, e o desconhecido é uma das coisas que mais despertam nossa atenção. Se existe, lá na frente, um presente que ainda não chegou, natural querermos saber como ele vai ser. Ademais, se o tempo é um processo contínuo de começo, meio e fim, onde momentos sucedem uns aos outros como em um filme, é o final que vai dar o termo. Como num filme, o final de cada questão é o que irá defini-la, encerrá-la, dar-lhe uma resposta final. Assim, o futuro recebe a função de guardião das respostas para nossas questões, e das resoluções para os nossos problemas. Um dos dons mais preciosos e terríveis do ser humano é reconhecer sua finitude, e o fim está sempre no futuro – é ele quem define.

Ao que me parece, nossa curiosidade sobre o futuro tem a ver com nossas apreensões sobre a realização dos nossos desejos. Olhamos para o futuro por esperar encontrar, ali, as respostas às nossas inquietações. Com essa atitude, acabamos jogando tais respostas no futuro, delegando a ele – um tempo que virtualmente não existe – a responsabilidade de fornecer soluções aos nossos dilemas. Tal atitude é o mesmo que colocar as chaves para resolvermos nossos problemas num lugar inacessível ao nosso alcance imediato. Fazendo isso, estamos realmente ocultando-as. A resposta, a solução, a verdade (coisas cuja revelação costumamos atribuir ao Tarot) são dessa forma inseridas no reino do desconhecido. Então, parte do trabalho de alguém que se propõe a ler as cartas torna-se tentar decifrar sua mensagem em relação ao futuro, encontrar as respostas que foram jogadas lá. Não sei até que ponto isso é útil – não sei se é essa a melhor forma de lidarmos com nossos impasses. Jogar Tarot é uma atividade que pode ir além dessa performance mágica de adivinhação e previsão; o Tarot pode ser usado para algo mais construtivo do que simplesmente mostrar que você é um sensitivo poderoso. O que eu tenho notado cada vez mais é que a resposta não está necessariamente no futuro, simplesmente porque ela não é como um objeto que tem uma existência física em um lugar determinado. Uma resposta a um questionamento é mais como um processo, ou parte de um processo. Podemos encontrar respostas em vários lugares diferentes, porque a resposta está no olhar, e não onde olhamos.

Tanto a postura de inquietar-se sobre o porvir quanto a tentativa de prevê-lo baseiam-se em uma perspectiva linear do tempo, que coloca o passado antes do presente, e o futuro depois. No entanto, essa perspectiva pode ser apenas a forma que nossa mente desenvolveu para situar nossa consciência no nosso existir, definir seu espaço-tempo de existência e atuação. Uma pergunta bem simples – o que define o “aqui”, e o que define o “lá”? Em outras palavras, qual é a nossa referência de espaço? O que faz com que um ponto no espaço seja considerado “aqui”, ou “lá”? Assim como “aqui” e “lá” definem-se do ponto de vista do eu que fala, também “agora” e “antes” estão presos a esse ponto de referência que é o eu. Tais palavras não têm sentido definido senão quando vinculadas a um contexto, e a um ponto de referência. O que nossa forma de acessar o espaço tem em comum com nossa forma de perceber o tempo é que ambas centralizam-se no sujeito. Fora da nossa consciência, do nosso ego, não existe nada como “aqui” ou “ali”, como não existe um “passado” ou um “futuro”; todos os espaços são aquis, e todos os momentos são agoras. Somos nós que demarcamos tais distinções. E aqui vai um fato importante – a ação mais primitiva do ego (a consciência, a mente) é a divisão do mundo em duas partes opostas e complementares. A divisão primordial, que é a base de todas as outras, é a distinção entre o eu e o mundo. No momento em que se cria a consciência do eu, cria-se o agora, e o aqui.

Se o passado e o futuro são ilusões – māyā – tudo o que nos resta é o presente. Tanto o passado como o futuro não estão ao nosso alcance, pois são memórias e expectativas; o presente, por outro lado, está em nossas mãos (ainda que talvez não nos demos conta disso, como os dois indivíduos rodando na Roda da Fortuna). O presente é essa região mutável sob nossos pés, o espaço entre cada um dos passos; ele é desconhecido por estar no nosso nariz, indefinido – curinga, como o Louco. Também como o Louco – o número Zero – o presente é essa eterna folha em branco, de onde qualquer coisa pode sair. Nós costumamos ver o futuro como o novo, o guardião das surpresas, quando realmente é o presente que nos reserva qualquer coisa; é no presente que estamos, e é no presente que sempre estaremos. O presente é o nosso aqui, é o único lugar onde a mudança legítima acontece; realmente, ele é o foco da mudança. E é também o presente o lugar para onde devemos direcionar nosso foco.

Por isso, acredito que podemos fazer um melhor uso do Tarot usando-o como meio de observar e compreender o presente, nosso estado atual. A partir do momento em que adquirimos uma compreensão mais ampla do presente, somos capazes de agir mais conscientemente em direção aos nossos objetivos. Assim, o Tarot pode ser usado não como um instrumento para se obterem prognósticos, situação onde o consulente assume a posição passiva de vítima do tempo e das circunstâncias (mais uma vez, a imagem das figuras presas à Roda da Fortuna); mais que isso, o Tarot pode ser usado para efetivamente dar o poder ao consulente de ser senhor do seu tempo – ele não é mais paciente, mas agente de sua própria vida. Existe uma frase muito usada que diz que a solução para o problema está no próprio problema. Da mesma forma, o presente não guarda somente os obstáculos e dificuldades, mas também as respostas e o potencial de crescimento. É comum vermos dificuldades e soluções, obstáculo e progresso, como opostos, quando, na verdade, ambos são as duas faces de uma mesma moeda. As respostas não estão em nenhum futuro nebuloso que nunca vai chegar, simplesmente porque o futuro é uma ilusão; as respostas estão no presente.

Em suma, minha ideia é que a visão do tempo como um eterno fluir saindo do passado e indo em direção ao futuro endossa uma atitude de projeção de desejos e soluções para um tempo vindouro, que ainda não existe, mas que virá a existir um dia. A resposta é colocada no futuro, que é visto como o termo de um questionamento. Tal atitude resulta em duas coisas – nos faz assumir um papel passivo em relação a nossa própria vida, e nos tira o foco do presente, ou seja, do que realmente existe, para um futuro incerto, nebuloso, e que, no final das contas, só existe na nossa cabeça. O presente é o que de fato temos; conhecê-lo melhor confere-nos uma maior compreensão não somente do nosso estado atual, como também de nós mesmos, nossas motivações – e mesmo da própria validade de tais motivações. Examinar nosso presente nos dá o poder de transformá-lo. O Tarot pode ajudar-nos nisso. Na minha opinião, é uma forma de usar esse sistema simbólico bem mais de acordo com a mentalidade contemporânea.


Referências

Site do artista galego Alfredo Pirucha, de onde eu tirei a imagem para esse post – http://www.pirucha.net/galego.htm. A imagem, um trabalho de colagem e fotocópia entitulado “Passado, presente e futuro”, tem em um dos retângulos negros (os tempos?) uma imagem semelhante ao esqueleto da morte – o futuro como aquele que dá o termo, e o futuro comum de todos nós, que é o nosso fim.

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