Descobrindo o Tarot

setembro 3, 2011

UM SEGUNDO TAROT CRIADO POR WAITE?

Filed under: Diversos — Tags:, , , , — Leonardo Dias @ 10:43 PM

Londres, Inglaterra, ano 1909. A editora William Rider & Son, especializada em literatura esotérica, coloca no mercado inglês a primeira edição de “um baralho de 78 cartas de tarot”, bem a tempo para as vendas de natal. O tal baralho, mais tarde renomeado Rider-Waite Tarot Deck, fora criado pelo escritor ocultista Arthur Edward Waite e pela artista Pamela Colman Smith. O produto pretendia preencher a necessidade generalizada do público por um baralho de tarot facilmente acessível, em uma época em que tal objeto era difícil de ser conseguido. O tarot Waite-Smith cumpriu seu papel, excedendo os sonhos mais lindos até de seus criadores, pois veio a se tornar o baralho de tarot mais célebre do mundo. Ainda que tenha passado longe de ser considerado uma obra-prima pelos seus autores, o baralho Waite-Smith imortalizou os nomes de Arthur Waite e Pamela Smith, e representa a coroação final dos anos de dedicação e pesquisa de Waite sobre o tarot. Não, na verdade, não foi exatamente assim. O Waite-Smith parece não ter sido o único tarot criado por Waite.

Lake District, ainda Inglaterra, ano 2011. A primavera acaba de começar e o tarólogo e pesquisador inglês Marcus Katz anuncia online sua participação na Tarosophy Tarot Conference III, onde promete exibir imagens coloridas dos vinte e dois arcanos maiores de um suposto segundo tarot criado por Arthur E. Waite, nunca publicado. De fato, Waite idealizou um conjunto de imagens, desenhadas e coloridas pelo artista australiano John Brahms Trinick entre os anos 1921 e 1922. Outro artista, Wilfrid Pippet, também contribuiu com algumas ilustrações, que datam de 1923. Executadas num estilo típico da belle époque (com ares modernos e mais elaboradas que as imagens de Pamela), as vinte e três ilustrações parecem corresponder aos vinte e dois caminhos da Árvore da Vida cabalística. Chamadas de “The Great Symbols of the Paths” (‘Os Grandes Símbolos dos Caminhos’), o conjunto de imagens foi criado para ser usado na ordem rosicruciana fundada por Waite em 1915, The Fellowship of the Rosy Cross.

Resta a dúvida se esse conjunto de imagens é realmente um tarot. Informações sobre essa obra de Waite são escassas, e pesquisas online mostram-se pouco frutíferas. Dois livros atuais contam com menções aos tais Grandes Símbolos dos Caminhos: The Story of the Waite-Smith Tarot, de K. Frank Jensen e A History of the Occult Tarot 1870-1970, de Ronald Decker e Michael Dummet. O exato propósito das imagens é pouco evidente. Ainda que boa parte delas conserve considerável similaridade com as imagens tradicionais do Tarot, não é óbvio que elas tenham sido concebidas primariamente para uso divinatório. O nome do conjunto sugere que elas representam os Caminhos da Árvore da Vida, tendo sido criadas para os estudos cabalísticos da ordem de Waite. Além disso, as imagens totalizam vinte e três, e não setenta e oito, como seria típico de um baralho de tarot. Reproduções das imagens também não parecem existir online, ao menos por enquanto. Uma delas, bastante similar à Alta Sacerdotisa do Waite-Smith tarot, foi exibida por algum tempo no site do World Tarot Day e pode ser vista aqui, ao lado. Apesar de semelhança com a Alta Sacerdotisa ser gritante, outras imagens são diferentes o suficiente para inviabilizarem qualquer comparação direta com as figuras tradicionais do Tarot.

A Tarosophy Conferece III será realizada nos dias 17 e 18 de setembro, então logo saberemos mais sobre isso. Mais que só um palestrante na conferência, Marcus Katz é o fundador da Tarot Professionals, organizadora do evento. Não é preciso pensar muito para ligar os pontinhos e ver que todo o hype construído ao redor desse suposto segundo tarot de Waite também pretende trazer mais visibilidade ao evento. Ademais, eu não ficaria nada surpreso se, em breve, fosse publicado um baralho com as tais ilustrações. Entretanto e independente disso, o trabalho de pesquisa de Katz merece crédito por expor uma obra significativa de Waite que parece nunca ter recebido muita atenção. Um segundo baralho de tarot idealizado por Waite pode nos ajudar a entender melhor o simbolismo do primeiro, como também ter uma noção mais nítida do que se passava na cabeça desse ocultista que tinha um compromisso mais forte com seus juramentos secretos que com seus leitores.

Enquanto isso, os copyrights sobre o baralho Waite-Smith expiram na União Europeia agora em 2012. Assim, poderemos esperar por publicações desse baralho por outras editoras – talvez mais similares às cartas originais que disponíveis no mercado atualmente, todas alteradas, de uma forma ou de outra. Também há rumores no ar sobre o iminente lançamento de uma biografia de Pamela Smith, mais elaborada que as disponíveis hoje. Sim, os próximos anos parecem reservar descobertas cruciais sobre esse que continua sendo o baralho de Tarot mais famoso da história. Aguardemos.

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